Publicado em 13 de junho de 2022 por Tribuna da Internet

Reação à política econômica reflete-se nas pesquisas
Pedro do Coutto
Numa excelente matéria publicada com destaque neste domingo, na Folha de S. Paulo, Joelmir Tavares, com base nos dados do Datafolha, mostra que a dianteira de Lula sobre Bolsonaro na última pesquisa (48% a 27%) decorre da maior influência do ex-presidente nos grupos de menor renda da população.
Joelmir Tavares focaliza que os votos variam na maior parte das eleições de acordo com a sintonia dos candidatos em faixas que podem ser sintetizadas na seguinte divisão de renda: de até um salário mínimo , de dois a cinco salários mínimos. E a outra faixa, acima de cinco salários mínimos, incluindo os que ganham mais de dez salários mínimos mensalmente.
EXEÇÕES – Em meu livro “O voto e o povo”, no final da década de 1960, focalizei esse fenômeno, e os resultados eleitorais, principalmente no antigo Estado da Guanabara, serviram de fonte de referência bastante sólida. Na estrada do tempo das eleições de 1955 até as de hoje, duas exceções se verificaram: Jânio Quadros conseguiu penetrar razoavelmente nas classes proletárias, e Jair Bolsonaro venceu disparado em 2018 já num embalo de um movimento intenso contra o governo Dilma Rousseff e o PT.
Os exemplos de votos por divisões por classe são muitos. A vantagem que Lula obtém se explica por temos no país uma maioria esmagadora da população que está contida na faixa de um a cinco salários mínimos.
A faixa dos que ganham até um salário mínimo inclui 35% da população brasileira. Se estendermos até dois salários mínimos, essa proporção chega até quase 60% da população. Essas correntes estão maciçamente com a candidatura de Lula da Silva.
VANTAGEM MENOR – Na faixa que recebe acima de cinco salários mínimos, Bolsonaro tem vantagem, porém menor do que a obtida por Lula nas outras faixas. O que se verifica no país acentua a dianteira do ex-presidente Lula, pois a política de concentração de renda de Paulo Guedes, apoiada por Boslonaro, cria condições contrárias ao voto.
Como o governo que congela os salários, todos praticamente, pode receber os votos dos que estão sob essa intensa crise econômica, sofrendo diariamente com a alta do custo de vida? A reação se faz sentir nas pesquisas e provavelmente nas urnas.
REFINARIAS – Na mesma edição da Folha de S.Paulo deste domingo, Nicola Pamplona expõe com clareza o problema dos combustíveis no Brasil, gerando a alta de preços da gasolina, do diesel e do gás de cozinha em virtude da quase nenhuma expansão de refinarias brasileiras.
O Brasil é um dos grandes produtores mundiais de petróleo. Sua produção é de cerca de 3 milhões de barris por dia. O seu consumo de 2,5 milhões de barris diariamente. Sobram 500 mil barris para exportação, e que são favorecidos pelos preços do mercado internacional e pela valorização do dólar. Mas tais efeitos não são considerados pelo Ministério da Economia. Só as despesas decorrentes do que importamos.
PROCESSAMENTO – E importamos gasolina, diesel e gás porque o óleo produzido pelo nosso pré-sal não é processado pelas nossas refinarias em condições econômicas, como consequência da falta de investimentos dos governos nas últimas duas décadas em refinarias adequadas.
Vemos que, no caso do refino, as empresas responsáveis pela exportação de gasolina, diesel e gás para o Brasil não têm interesse que o país refine o óleo do pré-sal, pois assim perderiam o mercado comprador. Existe a atuação de forças ocultas contra a construção de refinarias mais modernas no país. Isso é evidente.