sábado, junho 11, 2022

Fernanda Torres sucumbiu à quarta onda da Covid, junto com a torcida do Flamengo

Publicado em 11 de junho de 2022 por Tribuna da Internet

Gilmar Fraga: quarta onda... | GZH

Charge do Gilmar Fraga (Gaúcha/Zero Hora)

Fernanda Torres
Folha

O meu caso ocorreu numa filmagem. Testes de antígeno na chegada, todos negativos, só que um de nós positivou durante o dia e, como ator não usa máscara para trabalhar, voltei para casa em má companhia. Não foi a primeira e, ao que tudo indica, não será a última vez. Vacinemo-nos e acomodemo-nos.

A Covid 2022 é uma licença do mundo. Nada se espera do doente, que não o isolamento e a cura. E a reclusão deve ser mesmo obrigatória, porque o corpo se transmuta numa usina de expelir perdigotos.

PRIMA GROSSA – É abdução. Espirros pornográficos, embebidos numa coriza Foz do Iguaçu, baba alienígena que a tudo adere e contamina. Quando não mata, a Covid é uma prima grossa da gripe. Em dezembro de 2021, a pena foi de duas semanas em regime fechado, sendo que ainda cumpri três meses de perda de olfato e risco de trombose. Passou.

Agora, juram os doutos, entrarei no semiaberto em uma semana, isso se a fatiga crônica, a confusão mental e a parada cardíaca não alongarem, ou encurtarem, o processo.

Padecer de Covid é como estar vivo nos dias de hoje, você se sente mal o tempo inteiro, mas é suportável, se não pensar em demasia no que ainda pode acontecer.

AMEAÇAS CONCRETAS – AVC, cardiopatia, golpe, guerra, chacina, cataclismo climático. As ameaças concretas são tantas, e de tal magnitude, que é preciso ignorá-las para levantar da cama. Não prego a alienação, mas aconteceu comigo. Foi depois da invasão da Ucrânia, desenvolvi uma aversão preocupante ao noticiário, aos debates, prognósticos, análises e previsões.

Sêmele, mãe de Dionísio, foi pedir a Zeus que se mostrasse a ela em todo seu esplendor e morreu torrada pela irradiância olímpica. É como eu me sinto, às vezes, diante da televisão, cozida pelas más novas. Não culpo a imprensa, são os fatos mesmo que estão de arrepiar.

Sem meios para barrar Putin, demover um terço da população do país da sua intenção de voto, e impedir furacões e pragas, acomodei-me a esse não futuro do presente. Fui levando, até perceber que não sonhava mais. Não se desiste do porvir impunemente. Já escrevi sobre a minha pobreza onírica aqui, que melhorou, sem voltar a ser o que era.

CIÊNCIA DO SONO – “Oráculo da Noite”, de Sidarta Ribeiro, faz uma breve história do sonho e da ciência do sono. A vantagem evolutiva do sonhador, explica o neurocientista, é a de experimentar sentimentos, planejar estratégias e medir riscos no ambiente seguro da mente.

O corpo inibe as sinapses de movimento, ativa as da memória e o cérebro se ocupa de treinar, de enfrentar, sentir e calcular as probabilidades de êxito ou fracasso na caça, no amor, no perigo.

César, Touro Sentado, Luther King e Constantino sonharam grande e pesado. O sonho, portanto, como acreditavam os antigos, aponta para perspectivas futuras. Mas e quando não se enxerga nenhuma, ou as que estão à vista, durante a vigília, se deseja evitar? Adoece-se. Não sonhar, dormindo e acordado, é sintoma grave.

INDIGÊNCIA ONÍRICA – O sonho exige silêncio e introspecção, artigos raros desde que nos ligaram em rede. Sidarta pensou que a indigência onírica fosse fato consumado na maturidade, até desligar do mundo e, acampado à beira rio numa floresta erma, ser agraciado com um sonho jovem e lisérgico.

Fui uma criança dada a pesadelos traiçoeiros, tramas que começavam bem e, do nada, guinavam para o horror. Eu tinha medo de dormir e aprendi a me acordar dentro do sonho, quando pressentia a virada do enredo. A técnica espantou os maus espíritos e embalei um longo período de paz sonífera, até notar o apagão recente. O sonho lúcido é um talento que abandonei na infância e gostaria de recuperar.

Isolada no quarto, na lerdeza do dia acamado, com o raciocínio oco e um torniquete de dor de cabeça a me pressionar os miolos, durmo e deliro. Peço perdão pelo vago da crônica. Culpo a moléstia e deixo de objetivo a pergunta: Você, leitor, como tem sonhado?

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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOG 
– Fernanda Torres é um encanto em tudo o que faz. Suas crônicas são uma luz nas trevas, na vereda aberta na Folha pelo talento de Ruy Castro, um nome luminoso que faz uma falta danada na Academia Brasileira de Letras. Assim como Fernanda, estou me recuperando da segunda Covid, que ela descreve com uma precisão absoluta. Parece que vai ser assim, daqui pela frente. Por isso, tenho sempre antibiótico em casa. Desta vez, bobeei. Deveria ter tomado quando a coriza e a dor de garganta começaram. Mas ainda deu tempo e estou escapando mais uma vez. Que deu abençoe a eterna presença de Alexander Fleming, que inventou a penicilina. Conhece a belíssima estória da vida dele? Não? Depois eu conto, como dizia meu grande amigo Maneco Muller, o Jacinto de Thormes(C.N.)

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