O presidente Jair Bolsonaro ainda estava nos Estados Unidos na semana passada quando foi confirmado que a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) — uma espécie de “clube dos países ricos” — aprovou o roteiro de acesso do Brasil. A boa notícia o levou a afirmar que o país vai assim “deixando para trás alianças com ditaduras socialistas e consolidando parcerias benéficas para a nossa nação”. Havia, porém, uma notícia, revelada pelo GLOBO, sobre a qual o governo não fez comentário: as exigências para o Brasil receber a aprovação final da OCDE. A não ser que faça mudanças radicais na política para o meio ambiente, será muito difícil para o governo cumpri-las.
Não se trata apenas de proteger a Amazônia, Pantanal e qualquer outro bioma, critério que se tornou comum entre os requisitos exigidos de aspirantes a integrar organismos multilaterais como a OCDE. É preciso, também, reforçar as agências de controle ambiental, combater a impunidade e a violação de regras nessa área, além de fornecer garantias de que a violência contra ambientalistas será investigada e punida com rigor.
O grande desafio para Bolsonaro é dar apoio a agências ambientais, depois de passar três anos e meio de governo fazendo o contrário. Foi metódica sua política de desmonte das estruturas de fiscalização e punição do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). Para não falar no clamor mundial em torno do assassinato do indigenista Bruno Pereira, com passagem pela Funai, e do jornalista britânico Dom Phillips, cujos restos mortais foram enfim descobertos na região do Vale do Javari, na Amazônia.
Em sua primeira viagem internacional como chefe de Estado, em março de 2019, Bolsonaro visitou o então presidente americano, Donald Trump, e parecia ter conquistado como trunfo o apoio dos Estados Unidos à entrada do Brasil na OCDE. A posição americana consta dos acordos firmados naquela viagem. Foi certamente frustrante para Bolsonaro saber que os Estados Unidos decidiram dar prioridade à Argentina e à Romênia. Depois que a informação veio a público numa carta do então secretário de Estado, Mike Pompeo, a diplomacia americana teve de se desdobrar para reafirmar a posição favorável ao ingresso do Brasil.
Os eleitores substituíram os republicanos Trump e Pompeo pelos democratas Joe Biden e Antony Blinken, mais preocupados com a Guerra na Ucrânia do que com a fila de espera à porta da OCDE. O candidato Bolsonaro à reeleição precisa agora dizer o que pensa das reformas do Estado que prometeu e não fez, da abertura da economia ao exterior e da situação das contas públicas que se deteriora a cada medida demagógica e eleitoreira que emana de sua aliança com o Centrão. Precisa explicar tudo isso e também sua política desastrosa para o meio ambiente. Naturalmente a OCDE, por precaução, deverá esperar as eleições de outubro antes de voltar a examinar a candidatura brasileira.
O Globo
