domingo, junho 12, 2022

Bolsonaro em modo milícia




Ele vocifera como arruaceiro, bafeja ódio, insufla violência e prega a subversão da ordem constitucional vigente

Por Cristina Serra (foto)

Bolsonaro acionou o modo milícia para a campanha eleitoral. Vocifera como arruaceiro, bafeja ódio, insufla violência, prega a subversão da ordem constitucional vigente. É só o começo.

Vai piorar muito, porque o baderneiro do Planalto sabe que tem apoio de parcela fiel da população e de setores da elite. É o suficiente para levá-lo ao segundo turno e o que precisa para tentar tumultuar as eleições. O método é convocar a turba e inflamá-la. Bastará alguém riscar o fósforo.

A cena repulsiva na Associação Comercial do Rio de Janeiro é evidência de apodrecimento social. Vídeo não tem cheiro, mas se tivesse daria para sentir o odor de mofo na sala em que empresários aplaudiram Bolsonaro quando ele incentivou a desobediência ao STF. Alguém da plateia contestou a incitação ao crime? Ninguém. Ouviram-se aplausos de concordância com o estímulo à anarquia institucional.

Bolsonaro está ciente das pesquisas pré-eleitorais. Sabe que não tem maioria para um golpe. Mas golpes não precisam de maioria. Por isso são golpes. E ele tem sua choldra de bandoleiros incrustados no Congresso e nas instituições de controle a dar garantias para que continue a esbravejar pela ruptura.

O Brasil deu um salto de três décadas para trás no combate à fome. Neste momento, 33 milhões de pessoas não têm o que botar no prato. A pandemia já levou quase 700 mil brasileiros e continua a matar, a adoecer, a infligir dor e sofrimento. É isso que aprovam e aplaudem?

A ascensão de Bolsonaro abalou 30 anos de esforços para reerguer o país com o mínimo de coesão democrática e solidariedade social. Ele soube aproveitar-se da incompletude da obra para tentar destruí-la de vez.

Em sua figura grotesca de desordeiro e predador da democracia, Bolsonaro converteu-se numa arma de destruição em massa. Morre gente, morre o país. Bolsonaro vai passar. Mas deixará a mancha da desonra entre nós cada vez que nos fizermos a pergunta: como não fomos capazes de detê-lo?

Folha de São Paulo

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A desjudicialização da saúde

Pareceu-me acertada a decisão do STJ, com espaço para exceções

Por Hélio Schwartsman

Não dá para reclamar da judicialização da saúde no SUS e ao mesmo tempo defendê-la para o setor privado. A lógica que preside a ambos os sistemas é a mesma (e meio socialista ainda por cima): o conjunto dos usuários, seja através de impostos, seja de mensalidades, paga pelos tratamentos que são dispensados a cada paciente. Se um médico prescreve uma terapia ineficaz ou com preços absurdos, a coletividade é prejudicada. No caso do SUS, o dano se materializa em filas e outras carências de recursos; no dos planos, na forma de sinistralidades e aumentos maiores que a inflação.

Nesse contexto, pareceu-me acertada a decisão do STJ de desobrigar as operadoras de pagar por tratamentos que não constem do rol de procedimentos e eventos em saúde da ANS (Agência Nacional de Saúde Suplementar), preservando algum espaço para exceções. O rol exemplificativo (em oposição ao taxativo) equivale a uma lista aberta; e listas abertas são um convite às judicializações. É preciso, porém, distingui-las.

Há aquelas em que o usuário cobra do gestor a realização de procedimentos que estão desde sempre no rol, como hemodiálises e cirurgias comuns. Essa é uma judicialização necessária. O procedimento nem deveria ter sido negado. Mas também há aquelas em que o paciente pede para o gestor bancar um tratamento sem comprovação científica ou uma nova e cara terapia cuja relação custo-benefício ainda não foi avaliada pelos especialistas. Essas devem ser rechaçadas. Servem apenas para perpetuar a má medicina e aumentar os custos sem muita racionalidade.

Agora, com o rol taxativo, é preciso que a sociedade faça marcação cerrada no comitê da ANS que elabora a lista, para que ele avalie rapidamente os novos tratamentos e técnicas e incorpore os que são úteis. É uma fórmula muito mais republicana, já que os tratamentos valerão para todos, não apenas para aqueles que podem pagar advogados e entram com um processo.

Folha de São Paulo

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