domingo, junho 12, 2022

Bolsonaro deveria manter diálogo com Joe Biden - Editorial




Levando em conta a expectativa, até que foi positiva a participação brasileira na Cúpula das Américas. O presidente Jair Bolsonaro viajou para Los Angeles de má vontade, tamanho o ressentimento acumulado com o americano Joe Biden, que derrotou seu aliado Donald Trump em 2020 (Bolsonaro foi um dos últimos a cumprimentar o vencedor). O encontro bilateral com Biden na quinta-feira serviu para desanuviar o clima e estabelecer o mínimo que se espera de antagonistas ideológicos que precisam zelar pelo interesse de seus países: um convívio civilizado.

Depois de 35 minutos de conversa com Biden, Bolsonaro demonstrou ter deixado para trás ao menos parte das restrições. Considerou o encontro “maravilhoso” e, ao que parece, compreendeu a importância de manter desobstruído o canal de comunicação com a Casa Branca. Em discurso ontem, ele manteve uma sobriedade que tem sido incomum ultimamente.

Isso não significa que as desavenças tenham sumido. Tome-se o exemplo da Amazônia. Ainda na campanha eleitoral, Biden afirmara que, se eleito, destinaria US$ 20 bilhões para “o Brasil não queimar mais a Amazônia”. No encontro com Bolsonaro, se referiu à necessidade de o Brasil receber ajuda para conservar a floresta. Bolsonaro, ainda assombrado pelo fantasma da “internacionalização” que apavora militares e nacionalistas, comentou que “por vezes nos sentimos ameaçados na nossa soberania”. Não parece haver avanço tangível nessas bases.

Um tema que tinha tudo para gerar celeuma é o endosso de Bolsonaro às mentiras de Trump sobre o resultado da eleição de 2020, mantidas até hoje por seus correligionários (os Estados Unidos acompanham com atenção as conclusões da comissão da Câmara que apontou Trump como mentor da invasão do Capitólio). Mas a satisfação do presidente brasileiro sugere que a questão não atravancou o diálogo.

Bolsonaro também foi comedido ao falar nas urnas eletrônicas brasileiras. Limitou-se, antes de as portas se fecharem para a conversa particular com Biden, a afirmar desejar eleições “limpas, confiáveis e auditáveis”. Pouco depois afirmou que chegou ao governo pela democracia e concluiu: “Tenho certeza de que, quando deixar, também será de forma democrática”. É um compromisso que lhe deve ser cobrado sempre que retomar sua retórica golpista.

Tudo caminhava para Bolsonaro nem comparecer ao encontro de Los Angeles, que já não contaria com o mexicano Andrés Manuel López Obrador, contrariado pelo veto dos Estados Unidos à presença dos ditadores de Venezuela, Nicarágua e Cuba. Sem Brasil nem México, os dois maiores países latino-americanos, a Cúpula de Biden naufragaria. Para evitar o desastre, ele enviou seu assessor especial Christopher Dodd a Brasília, que costurou o encontro bilateral.

O balanço positivo significa que a conversa fluiu sem desentendimentos insuperáveis. Claro que Bolsonaro está longe de ter vencido sua deficiência crônica no front externo. Sempre pesarão contra ele a política ambiental desastrosa, o alinhamento incondicional a autocratas como Trump ou o húngaro Viktor Orbán, a visita descabida a Vladimir Putin antes da invasão da Ucrânia e até a tentativa ridícula de levar a campanha eleitoral para a Flórida, com um passeio de motocicleta previsto para hoje. Mas foi importante, quase no fim do governo, ter estreado na diplomacia como ela deve ser exercida.

O Globo

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