terça-feira, agosto 17, 2021

Zizinho com o seu futebol arte e o cinema como única e eterna testemunha


Zizinho completaria cem anos no próximo mês de setembro

Pedro do Coutto

Foi um belo artigo de Ruy Castro ontem, segunda-feira, na Folha de S. Paulo, relembrando o futebol arte de Zizinho, tricampeão pelo Flamengo em 1942,1943 e 1944 e, sem dúvida alguma, um dos maiores craques, tanto do futebol brasileiro, do qual era titular absoluto, quanto do futebol mundial de todos os tempos.

No Flamengo do técnico Flávio Costa, foi meia-direita, posição inclusive que não existe mais. Esteve na Copa de 1950 e com razão lamentou junto com Ademir Menezes o fato de ambos não terem sido campeões do mundo pela altíssima qualidade do futebol que apresentaram e viveram, levando multidões ao delírio.

DOCUMENTÁRIOS – Citei o cinema porque já comentei em várias ocasiões, inclusive com o meu amigo Ruy Castro, a importância de se realizarem documentários focalizando a maneira de jogar do passado e o modo de atuar do presente. Houve um tempo em que se pensava que um jogo se vencia apenas do meio para frente, mas Zezé Moreira, no Botafogo de 1948, e no Pan-Americano de 1952, mostrou o caráter absolutamente estratégico do sistema defensivo que, a meu ver, fica na história como reformador e criador de uma nova era das histórias de bola no Brasil.

Zezé Moreira foi técnico do Botafogo em 1948, do Fluminense em 1951, da Seleção Brasileira no Pan-Americano do Chile em 1952 e da Copa de 1954 na Suíça. Somente nesta última sentiu o amargor da derrota. Fomos desclassificados pela famosa equipe da Hungria por 4 x 2. Mas a Hungria terminaria não sendo campeã, embora fosse uma equipe que se tornou legendária. Na final contra a Alemanha, saiu na frente com 2 x 0, mas perdeu pelo placar de 3×2.

A história do futebol, as comparações técnicas e táticas e os desempenhos individuais estão eternizados no que sobrou dos filmes produzidos. Os jogos importantes eram filmados, primeiro com o “Esporte na tela” por Milton Rodrigues, irmão de Nelson Rodrigues, e depois com o “Canal 100”, de Carlinhos Niemeyer.

BRASIL X URUGUAI – Mas há de ter pelo mundo cópias de partidas que o tempo tornou históricas. Uma delas, a de Brasil e Uruguai de 1950, quando Obdulio Varela comandou a seleção campeã no dramático 2 x 1 contra nós no Maracanã, Estádio Mário Filho, outro irmão de Nelson Rodrigues.

Obdulio, quando a defesa uruguaia tomava a bola no seu campo defensivo, vale lembrar que o time atuou recuado, dobrava a camisa com a ponta dos dedos e agitava a celeste pedindo aos companheiros amor à seleção e ao Uruguai. Foi sem dúvida o herói da partida, sobretudo porque quando fizemos o primeiro gol com Friaça, ele determinou à equipe que continuasse jogando fechada porque num jogo aberto contra o Brasil, o Uruguai não teria chance.

BARBOSA NÃO FALHOU – Assim foi feito. A tática uruguaia deu certo e Ghiggia percorreu a estrada da vitória pela ponta direita, ultrapassando o lateral Bigode de passagem como dizia o locutor e ator Teófilo de Vasconcelos. O zagueiro central Juvenal não caiu para a esquerda para cobrir Bigode. O técnico Flávio Costa não mandou o meio-campo com Danilo e Jair se deslocar para o setor defensivo vulnerável. Barbosa, eu e Ruy Castro concordamos, não falhou em lance algum. Surpreendentemente assumiu uma culpa que não teve.

Comecei a escrever sobre Zizinho. Em 1949, o Flamengo vendeu o seu passe ao Bangu de Guilherme da Silveira Filho. Zezé Moreira não sintonizava bem com Zizinho. Não o convocou para o Pan-Americano de 1952, em Santiago do Chile. Entrou Didi então no Fluminense em seu lugar.

Um sistema defensivo começava a funcionar de forma tão eficiente quanto ofensivamente e o resultado foi a vitória quando derrotamos o mesmo Uruguai por 4 x 2  e na final o próprio Chile por 3 x 0.  A vitória sobre o Uruguai lavou a alma da torcida brasileira e do próprio país. Mas o sistema de Zezé Moreira não funcionaria em 1954. Coisas do futebol. Um processo ininterrupto de vitórias e de derrotas.

ESCALAÇÃO –  Em 1952, o nosso time era formado por Castilho, Djalma Santos, Pinheiro, Brandãozinho e Newton Santos. O meio-campo, Eli do Amparo, Didi e Pinga. Na frente, Julinho Botelho, Baltazar e Rodrigues Tatú. Recordo que fiquei emocionado. Fui ao aeroporto, inclusive, receber o time. Nele estavam vários amigos.

Didi foi um jogador também extraordinário. Aproximava-se no campo da arte de Zizinho e tinha um impulso defensivo que não era a principal característica do grande jogador, ídolo de Pelé. Zizinho, sem dúvida, foi um dos grandes artistas do futebol mundial. Inesquecível para quem o viu jogar e eterno para aqueles que puderem assisti-lo pelos filmes e tapes existentes que na realidade são as grandes testemunhas das gerações de ontem, de hoje e de amanhã.

Um belo artigo de Ruy Castro, no momento em que Zizinho completaria cem anos. Ele morreu, e infelizmente não foi muito lembrado, em 2002. Zizinho, Nilton Santos, Ademir Menezes, Pelé, Garrincha, Jairzinho, Gérson, Zagallo, Rivelino e Tostão, por si, já justificam um documentário de rara beleza na arte eterna do movimento da imagem e dos lances de bola.

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