Publicado em 22 de agosto de 2021 por Tribuna da Internet

Charge do Amarildo (agazeta.com)
Pedro do Coutto
Em continuidade ao meu artigo de ontem, sábado, explico o motivo pelo qual acho que o processo contra Alexandre de Moraes foi o penúltimo gesto de Bolsonaro no Planalto. A ele só resta agora tentar fazer cumprir a ameaça que fez à nação de cancelar as urnas de 2022, como consequência explícita de a Câmara dos Deputados ter rejeitado o caminho de volta ao voto impresso no país.
A ameaça de Bolsonaro, absolutamente extremada e extremista, representa historicamente um compromisso que ele assumiu, principalmente consigo mesmo, mas também em relação aos seus seguidores que acham que o uso da força pode resolver os problemas nacionais.
PROMESSA – Bolsonaro, para ser coerente com o seu radicalismo e com os radicais, após rejeitado o processo contra Alexandre de Moraes, será impelido a cumprir a promessa que fez publicamente de tentar violar a Constituição e suspender as eleições gerais de 2022. Chamo a atenção para o destaque “eleições gerais”.
Eleições gerais porque não se referem apenas ao presidente da República, mas também aos governadores, senadores e deputados federais cujos mandatos estarão em jogo em 2022. Desta forma, Jair Bolsonaro cai num abismo de contradições em relação aos seus próprios adeptos. Isso porque simplesmente, sem as urnas, senadores, deputados federais e governadores perderiam automaticamente os seus mandatos.
“IMPERADOR” – Com isso, Bolsonaro ao se proclamar imperador do Brasil estaria extinguindo as representações parlamentares no Congresso, os mandatos dos atuais governadores e a perspectiva eleitoral daqueles que desejam sucedê-los nas urnas democráticas. Se tomar a iniciativa de violar a Constituição de 1988 e bloquear o acesso do povo às urnas, Bolsonaro automaticamente perderá o apoio do próprio Centrão que o sustenta no quadro institucional brasileiro.
Afinal de contas, como será possível uma representação parlamentar votar contra a sua própria existência no cenário democrático do país? Bolsonaro certamente não pensou nisso. Mas as principais figuras do Centrão, nesse ponto ultra nevrálgico, terão que se colocar ao lado dos oposicionistas, sobretudo porque se não fizerem isso estarão se opondo a si mesmos.
Por isso, na minha impressão, o último ato do presidente que explodiu a si mesmo será desconsiderar o próprio processo democrático que o levou ao poder em 2018 e que agora o rejeita intensamente, no percurso de 2022. Como se desenvolverá a sucessão antecipada de Bolsonaro ? Conforme disse o poeta, “ser ou não ser presidente, é a questão essencial”.