quarta-feira, agosto 11, 2021

Desfile dos tanques foi mesmo uma tentativa deliberada de intimidar Congresso e Supremo

Publicado em 11 de agosto de 2021 por Tribuna da Internet

Resultado de imagem para gilmar blindado charges

Charge do Oliveira (Arquivo Google)

Eliane Cantanhêde
Estadão de S.Paulo

A ordem para a Marinha desviar seus tanques e lançadores de mísseis para um desfile no centro da capital da República, esta terça-feira, 10, horas antes da votação do voto impresso, partiu mesmo do Palácio do Planalto e do Ministério da Defesa – e, ao contrário da versão oficial, foi dada na sexta-feira passada. Foi uma ordem política, com relação de causa e efeito com a iminência da derrota do presidente Jair Bolsonaro no plenário da Câmara.

Na sexta-feira, enquanto o presidente da Câmara, Arthur Lira, desconsiderava a derrota do voto impresso na Comissão Especial e jogava a decisão para o plenário nesta terça-feira, o presidente e o ministro da Defesa, general Braga Netto, determinavam a mudança do roteiro anual do comboio da Marinha para os tanques desfilarem no centro de Brasília antes da votação que Bolsonaro considera de vida ou morte: “Ou fazemos eleição ‘limpa’, ou não teremos eleição”.

FOI INTIMIDAÇÃO – A conclusão de políticos e militares em Brasília é que, em vez de bolsonaristas de capuzes e tochas nas mãos, jogando fogos de artifício sobre o STF em junho de 2020, desta vez o espetáculo foi assistir a tanques das Forças Armadas intimidando o guardião da Constituição. O próprio Arthur Lira tomou satisfação do presidente.

A Operação é o maior treinamento da Marinha em terra  e ocorre todos os anos, no município de Formosa, em Goiás, desde 1988. Nunca antes, Exército e Aeronáutica participaram, muito menos os tanques de guerra, que saíram do Rio rumo a Goiás, desta vez desfilando pelo centro político da capital da República. Só agora, nessa tensão institucional?

LEMBRANDO CRUZ – Em 23 de abril de 1984, dois dias antes da votação das “Diretas-Já” no Congresso, o comandante militar do Planalto, general Newton Cruz, protagonizou um espetáculo grotesco: num cavalo branco, à frente de tanques e soldados, saiu pela Esplanada dos Ministérios chicoteando carros de quem pedia o fim da ditadura militar. Não demonstrou força, não amedrontou ninguém, só fez um papel ridículo. E desmoralizou de vez o governo João Figueiredo.

O pretexto do general Nini foi o aniversário do Comando Militar do Planalto. Agora, 26 anos depois, o pretexto para botar os tanques na Praça dos Três Poderes, exatamente no dia da votação na Câmara, foi o treinamento anual. Ninguém acredita em coincidências, com o presidente manipulando as Forças Armadas e atacando o Supremo, o TSE e as eleições.

UM TIRO N’ÁGUA – Oficiais das três Forças, principalmente almirantes, estão morrendo de vergonha. Se a intenção era, como naquele 23 de abril de 1984, demonstrar força e amedrontar o Judiciário, o Legislativo e a sociedade civil, foi um tiro n’água, um novo ridículo histórico, com um presidente tão absurdo quanto Figueiredo, mas mais ameaçador.

O pior, porém, é a submissão das Forças Armadas às pirraças infantis e irresponsáveis de Bolsonaro.

Em destaque

MP junto ao TCU pede providências sobre doações do Banco Master em campanhas eleitorais

  MP junto ao TCU pede providências sobre doações do Banco Master em campanhas eleitorais Por  Renan Monteiro / Estadão Conteúdo 31/01/2026 ...

Mais visitadas