Publicado em 11 de agosto de 2021 por Tribuna da Internet

Charge do Oliveira (Arquivo Google)
Eliane Cantanhêde
Estadão de S.Paulo
A ordem para a Marinha desviar seus tanques e lançadores de mísseis para um desfile no centro da capital da República, esta terça-feira, 10, horas antes da votação do voto impresso, partiu mesmo do Palácio do Planalto e do Ministério da Defesa – e, ao contrário da versão oficial, foi dada na sexta-feira passada. Foi uma ordem política, com relação de causa e efeito com a iminência da derrota do presidente Jair Bolsonaro no plenário da Câmara.
Na sexta-feira, enquanto o presidente da Câmara, Arthur Lira, desconsiderava a derrota do voto impresso na Comissão Especial e jogava a decisão para o plenário nesta terça-feira, o presidente e o ministro da Defesa, general Braga Netto, determinavam a mudança do roteiro anual do comboio da Marinha para os tanques desfilarem no centro de Brasília antes da votação que Bolsonaro considera de vida ou morte: “Ou fazemos eleição ‘limpa’, ou não teremos eleição”.
FOI INTIMIDAÇÃO – A conclusão de políticos e militares em Brasília é que, em vez de bolsonaristas de capuzes e tochas nas mãos, jogando fogos de artifício sobre o STF em junho de 2020, desta vez o espetáculo foi assistir a tanques das Forças Armadas intimidando o guardião da Constituição. O próprio Arthur Lira tomou satisfação do presidente.
A Operação é o maior treinamento da Marinha em terra e ocorre todos os anos, no município de Formosa, em Goiás, desde 1988. Nunca antes, Exército e Aeronáutica participaram, muito menos os tanques de guerra, que saíram do Rio rumo a Goiás, desta vez desfilando pelo centro político da capital da República. Só agora, nessa tensão institucional?
LEMBRANDO CRUZ – Em 23 de abril de 1984, dois dias antes da votação das “Diretas-Já” no Congresso, o comandante militar do Planalto, general Newton Cruz, protagonizou um espetáculo grotesco: num cavalo branco, à frente de tanques e soldados, saiu pela Esplanada dos Ministérios chicoteando carros de quem pedia o fim da ditadura militar. Não demonstrou força, não amedrontou ninguém, só fez um papel ridículo. E desmoralizou de vez o governo João Figueiredo.
O pretexto do general Nini foi o aniversário do Comando Militar do Planalto. Agora, 26 anos depois, o pretexto para botar os tanques na Praça dos Três Poderes, exatamente no dia da votação na Câmara, foi o treinamento anual. Ninguém acredita em coincidências, com o presidente manipulando as Forças Armadas e atacando o Supremo, o TSE e as eleições.
UM TIRO N’ÁGUA – Oficiais das três Forças, principalmente almirantes, estão morrendo de vergonha. Se a intenção era, como naquele 23 de abril de 1984, demonstrar força e amedrontar o Judiciário, o Legislativo e a sociedade civil, foi um tiro n’água, um novo ridículo histórico, com um presidente tão absurdo quanto Figueiredo, mas mais ameaçador.
O pior, porém, é a submissão das Forças Armadas às pirraças infantis e irresponsáveis de Bolsonaro.