
Ilustração de Danilson Carvalho (Correio Braziliense)
Rosana Hessel
Correio Braziliense
Enquanto o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) insiste em criar uma crise institucional, a confiança no país e no governo derrete em meio à crise política e a piora no cenário econômico. As estimativas de crescimento do país estão sendo revisadas para baixo e tudo indica que haverá um crescimento pífio do Produto Interno Bruto (PIB) em 2022, cada vez mais perto de 1% do que de dos 2,05% atualmente previstos na mediana das projeções do mercado coletadas no boletim Focus, do Banco Central.
“Esse crescimento mais perto de 1% pode ocorrer se continuarmos nessa situação política de crise em 2022. Por enquanto, estamos com 1,8% (de previsão para o PIB do ano que vem), mas com viés de baixa”, alertou o economista-chefe da MB Associados, Sergio Vale.
MUITAS INCERTEZAS – Para o PIB de 2021, as estimativas da consultoria são de crescimento de 4,7%, o que coincide com as estimativas de analistas que reconhecem que as chances de o PIB crescer acima de 5% estão diminuindo, apesar dos avanços na vacinação contra a covid-19, porque ainda há muitas incertezas em relação aos impactos da variante Delta.
O especialista da MB alertou para os riscos que estão aumentando em relação ao teto de gastos — emenda constitucional que limita o aumento das despesas à inflação do ano anterior e única âncora fiscal em vigor –, que está sendo burlado pela Proposta de Emenda à Constituição (PEC) dos precatórios elaborada pelo Ministério da Economia, como bem apontou o relatório da Instituição Fiscal Independente (IFI), divulgado terça-feira, dia 10.
“O efeito de uma medida que preconiza produzir espaço fiscal, mas à custa das regras do jogo, causará uma turbulência relevante sobre as expectativas do mercado. O ganho que se observa na superfície será rapidamente suplantado pelo prejuízo causado ao quadro fiscal agregado, via juros e dívida pública”, escreveram os economistas e diretores da IFI Felipe Salto e Daniel Couri no relatório.
RISCO DE PEDALADAS – Sergio Vale reforçou o alerta para o aumento do risco fiscal, especialmente, com o casamento de conveniência entre o Centrão e o governo Bolsonaro, que acabaram resultando nos pacotes anunciados do novo Bolsa Família e da PEC dos precatórios, que levantaram mais dúvidas do que certezas sobre a capacidade do governo conseguir evitar um descontrole nas contas públicas e o respeito a teto de gastos.
“Os valores que estão sendo colocados para o novo Bolsa Família serão difíceis de caber no teto ano que vem. Mas, como a solução é político-eleitoral, o fiscal sairá perdendo. É mais um tiro no pé que vemos um presidente dar. E, dessa vez, é ainda pior, porque se coloca um risco à democracia que não existia antes”, explicou.
O economista-chefe do Banco Fator, José Francisco de Lima Gonçalves, reforçou que as incertezas estão aumentando enquanto Bolsonaro insiste na crise institucional e em ameaças ao regime democrático.
SÓ VAI PIORAR – “O clima está horroroso e o cenário é de juros altos, câmbio valorizado e de economia para baixo. A PEC dos precatórios é o cúmulo da incompetência e mostra que a questão fiscal só vai piorar e, com isso, o Banco Central ainda terá mais trabalho, pois a economia brasileira não deverá crescer acima de 5%, neste ano, e dificilmente crescerá acima de 2% no ano que vem”, alertou Gonçalves.
O economista-chefe do Banco Fator contou também que está revisando as estimativas e reconheceu que o dólar não deverá ficar abaixo de R$ 5 tão cedo nessa atual conjuntura e, com a inflação cada vez mais elevada, o brasileiro ainda precisará conviver com o encolhimento da renda e com o desemprego elevado.