Publicado em 18 de agosto de 2021 por Tribuna da Internet

Indicado pelo líder do governo, Dias chefiava a corrupção
Leandro Prazeres
O Globo
Em meio ao avanço das investigações da CPI da Covid, um despacho do Ministério da Saúde afirma que a pasta pretende anular um termo aditivo assinado pelo ex-diretor de Logística Roberto Ferreira Dias que reajustou em R$ 18 milhões o contrato da VTC Log, uma empresa investigada pela CPI da Covid. A anulação ainda não foi efetivada.
O aditivo foi revelado pelo “Jornal Nacional”, da TV Globo, em julho. Além de investigar a VTC Log, a CPI também apura a relação de Dias com empresários e políticos como o líder do governo na Câmara dos Deputados, Ricardo Barros (PP-PR).
AUMENTO ESPANTOSO – O documento ainda mostra que o órgão é contra um pedido de reequilíbrio econômico-financeiro feito pela VTC após ter encontrado “fragilidades” no pedido. Entre elas está um aumento de 380% no preço por quilo de produtos transportados por via aérea em relação ao contratado inicialmente.
A intenção de anular o aditivo assinado por Dias consta de um despacho da Coordenação-Geral de Logística de Insumos Estratégicos de Saúde (CGLOG), subordinada à Diretoria de Logística, hoje sob o comando de Ridauto Fernandes.
“Sobre o segundo Termo Aditivo, decidiu-se que serão adotados procedimentos para anulação do referido ato administrativo”, diz o despacho.
ENTENDA O CASO – Em 2018, o Ministério da Saúde fez uma licitação para escolher a empresa que ficaria responsável pelo transporte de insumos, como remédios e vacinas, dos centros de distribuição da pasta para todo o Brasil. A VTC Log venceu a licitação. Desde 2019, porém, ela e o ministério divergiam sobre que método deveria basear o faturamento dos serviços prestados pela empresa.
Em fevereiro de 2021, a VTC chegou a cobrar do governo um pagamento de R$ 57 milhões pela manipulação dos produtos. Nas contas do ministério, porém, esse valor era de aproximadamente R$ 1 milhão.
Roberto Dias interveio no processo e aceitou uma contraproposta da VTC no valor de R$ 18 milhões. O valor era 18 vezes maior do que o previsto inicialmente pela área técnica da pasta. Um parecer da consultoria jurídica do ministério alertava para a possibilidade de um sobrepreço de R$ 17 milhões caso a proposta fosse aceita. Mesmo assim, no dia 20 de maio, o aditivo foi assinado por Dias.
135 LIGAÇÕES – Em julho, O GLOBO revelou que Dias e a CEO da empresa, Andrea Lima, trocaram 135 ligações entre 2020 e 2021 e que algumas aconteceram em datas próximas às negociações do aditivo.
Dias acabou exonerado do cargo em junho, após ser acusado de ter cobrado propina do cabo da PM Luiz Paulo Dominguetti, que tentou vender 400 milhões de doses de vacina para o governo.
Dias também é alvo de investigações do Ministério Público Federal (MPF) e pela Polícia Federal no caso envolvendo Dominguetti e pelas supostas irregularidades na contratação da vacina Covaxin, negociada pela empresa Precisa Medicamentos. Ele nega ter praticado qualquer irregularidade nos contratos com a VTC Log, com a Precisa e afirma não ter pedido propina a Dominguetti.