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Assessor de segurança nacional reiteira preocupação americana com ameaças as eleições
Por Maria Cristina Fernandes
Na véspera da votação da proposta de emenda constitucional do voto impresso e do desfile de blindados pela Esplanada dos Ministérios, o diretor sênior para o Hemisfério Ocidental do Conselho de Segurança Nacional do governo americano, Juan González, fez questão de expressar sua preocupação com o tema: "Fomos muito diretos em expressar nossa confiança na capacidade de as instituições brasileiras conduzirem uma eleição livre e limpa e enfatizamos a importância de não ser minada a confiança no processo, especialmente uma vez que não há indício de fraude nas eleições passadas".
Ele foi além: "Podemos nos engajar na cooperação para a segurança, na cooperação econômica e ainda assim sermos muito claros em relação ao apoio a que os brasileiros sejam aqueles que determinam o resultado de suas próprias eleições".
González falou durante entrevista, em Washington, sobre a visita feita a América Latina na semana passada pelo Conselheiro de Segurança Nacional da Casa Branca, Jake Sullivan, que também teve sua participação. No Brasil, Sullivan encontrou o presidente Jair Bolsonaro. Foi a maior autoridade a visitar o país desde a posse do presidente americano Joe Biden.
A declaração de González tem dois efeitos. O primeiro é o de revelar o tamanho do estrago provocado pelo governo Bolsonaro nas relações internacionais: o país volta a ser tratado como uma república das bananas que precisa ser alertada pela maior democracia do mundo para não sair dos trilhos.
É bem verdade que González reconheceu que o bananal tupiniquim tinha inspiração americana: "Fomos sinceros sobre nossa posição, especialmente em visa dos paralelos em relação a tentativa de invalidar as eleição antes do tempo, algo que, é óbvio, tem um paralelo com o que aconteceu nos Estados Unidos”.
Tal reconhecimento, porém, não o impediu de assumir as gestões contra a Huawei e o apoio a entrada do Brasil na Organização do Tratado do Atlantico Norte (Otan). González, porém, repetiu reiteradas vezes que o governo americano não condiciona uma coisa a outra.
Se a declaração do burocrata americano mostrou o dano provocado por Bolsonaro sobre as relações externas do país, por outro, mostrou, indiretamente, o quão reduzidos são hoje os riscos de uma intervenção das Forças Armadas brasileiras na institucionalidade democrática, temor que ontem invadiu Brasilia com a iminencia do desfile de blindados. Este é o segundo efeito da declaração de Gonzalez, colocar água na fervura das inquietações sobre uma intervenção militar no Brasil.
González não poderia ter sido mais claro em relação a posição a ser tomada pelo governo Biden numa quebra de institucionalidade no Brasil. Daí porque nunca uma eleição nos Estados Unidos importou tanto para os brasileiros. O fato de Bolsonaro ter perdido o apoio do ex-presidente Donald Trump, visitado na tarde de ontem pelo deputado Eduardo Bolsonaro e sua família no escritório do ex-presidente americano em Nova York, foi condição necessária mas não suficiente para garantir a democracia no Brasil. O resto é com as instituições civis brasileiras.
Valor Econômico
