Publicado em 14 de julho de 2021 por Tribuna da Internet

Bolsonaro foi convocado após uma série de falas golpistas
Pedro do Coutto
O presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro Luiz Fux, procurou Jair Bolsonaro para um encontro de conciliação entre o Executivo e a própria Corte Suprema, já que por diversas vezes o presidente da República atacou e ofendeu integrantes do STF. O objetivo que norteou a iniciativa de Fux foi o de reduzir o clima de fervura que tem envolvido os constantes choques entre os Poderes Executivo e Legislativo.
Porém, a meta incluiu também a condução de Bolsonaro a um patamar em que ele terá que recuar de sua ameaça de golpe e se pronunciar inevitavelmente a favor da democracia e da Constituição do país. Sim, porque numa reunião em que se exalta o regime democrático, o presidente Bolsonaro não poderia fugir de se comprometer verbal e publicamente com o compromisso institucional.
VOTO ELETRÔNICO – Isso de um lado. De outro, e abrangendo o respeito à Constituição, encontra-se a questão do voto eletrônico nas eleições de 2022 que se aproximam. O tema foi de grande destaque na Folha de S.Paulo, no O Globo e no Estado de S.Paulo, nas edições de ontem. Na Folha, foi assinada por Marcelo Rocha e Ricardo Della Coletta. No O Globo, Dimetrius Dantas e Jussara Soares. No Estado de S.Paulo, Weslley Galzo e Marcelo de Moraes.
O sistema eletrônico de votação está absolutamente consolidado. Tendo entrado em vigor nas eleições de 1996, nunca houve qualquer reclamação focalizando o resultado, a não ser o tema tardiamente levantado pelo próprio Bolsonaro de que teria vencido no 1º turno em 2018 e só não conseguiu devido a uma fraude. Mas como? Ele participou do 2º turno sem registrar qualquer reclamação.
Embora vitorioso nas urnas por larga margem, Bolsonaro sustenta ainda essa tese absurda. Acha, como parte de seus seguidores também, que venceria no primeiro turno alcançando mais de 50% dos votos úteis. Ao longo do tempo, de 1996 aos dias de hoje, houve uma reclamação de Aécio Neves quando perdeu para Dilma Rousseff em 2014. Mas não avançou.
PROCONSULT – Sobre o voto impresso, vale lembrar em 1982, no Rio, o escândalo do Proconsult que tentou transformar a derrota de Moreira Franco em vitória e a vitória de Brizola em derrota. Mas não conseguiram. A computação pela Proconsult baseava-se nas manifestações eleitorais nas áreas de classe média e rica, deixando para segundo plano os subúrbios do Rio e a Baixada Fluminense. Com isso, Moreira Franco surgia na frente.
Mas o Jornal do Brasil, no qual eu trabalhava, tinha instalado um sistema de acompanhamento das apurações com uma vantagem; eu havia acertado com Paulo Henrique Amorim, então redator chefe, e com Ronald de Carvalho, editor, a divisão por áreas eleitorais. Isso porque para se poder analisar eleições e computação tem que se definir a projeção algébrica dos votos.
VOTOS DO SUBÚRBIO – Por exemplo, na Cidade do Rio de Janeiro, os votos do subúrbio e da Zona Oeste eram mais numerosos que os votos do Leblon, Ipanema, São Conrado, Tijuca e Grajaú. Em Copacabana, como os eleitores já estariam se perguntando, a vantagem da classe média era pequena sobre as de menor renda. Isso porque Copacabana estava repleta de apartamentos conjugados e de apartamentos com número médio de moradores acima da média das casas de renda mais alta.
Existe um bairro no Rio, que focalizo no meu livro “O voto e o povo”, que era o termômetro da cidade. Por que isso? Simplesmente porque o Méier em um dos seus lados é um bairro de predominância de classe média, mas o outro tem o perfil característico de subúrbio. Esta explicação é fundamental.
PRESSÃO – Em 1982, de repente, a pressão aumentou, sentiu-se no ar. Se a fraude prevalecesse, teria que ser feita na sexta-feira, dia em que a hipótese foi colocada por mim; Paulo Henrique Amorim e Ronald de Carvalho. A conclusão foi uma só: a única possibilidade de fraude era preencher os votos em branco que estavam à disposição dos ladrões. Se não houvesse tal prática imunda o resultado real seria respeitado.
Como aliás aconteceu. Na edição de domingo, o JB publicou matéria minha na primeira página: ““Brizola consolida vitória pela margem de 126 mil votos”. Deixo o episódio para aqueles que o incorporarem na memória ou então colocarem na história moderna do país.
PREVARICAÇÃO – Aguirre Talento, Dimitrius Dantas e Jussara Soares publicam reportagem, também no O Globo de ontem, focalizando as declarações do próprio presidente da República em face do inquérito aberto pela Polícia Federal para investigar a sua omissão diante da denúncia feita pelo funcionário Luis Ricardo Miranda e pelo seu irmão, o deputado Luis Miranda, sobre a suspeita de corrupção envolvendo a compra da vacina indiana Covaxin. Bolsonaro não tomou providência e o inquérito foi autorizado pela ministra Rosa Weber, do STF.
“Deixou uns papéis lá, não entrei com profundidade se era ‘invox’ [invoice], se não era. Os papéis que ele deixou lá eu passei pra frente isso daí”, disse Bolsonaro, alegando que o crime de prevaricação (o de não tomar providência), não se aplica ao presidente da República, mas a funcionários públicos. Um absurdo total.
CRIME DE RESPONSABILIDADE – Ele próprio ainda acrescentou que, se fosse o caso, seria crime de responsabilidade e não prevaricação. Incrível o que aconteceu. Bolsonaro recebeu a denúncia e limitou-se a dizer que a enviou a Pazuello, então ministro da Saúde.
Relativamente ao envolvimento do deputado Ricardo Barros, acusado pelos irmãos Miranda de ser um dos intermediários do projeto, Bolsonaro afirmou que o parlamentar vai depor na CPI no próximo dia 20 e que, de acordo com o seu depoimento, irá ouvi-lo e decidirá se ele continuará ou não como líder do governo.
Bastaria a dúvida para que Barros já tivesse sido afastado do posto para não se transformar em mais um peso para Bolsonaro, além dos vários que já possui, causados em boa parte por ele mesmo.
PROJETO DO IR – Manoel Ventura, Geraldo Adoca e Gabriel Shinohara publicam matéria de página inteira no O Globo, destacando que o projeto do governo, elaborado pelo ministro Paulo Guedes sobre a modificação substancial do Imposto de Renda reduz a contribuição das empresas em 12,5 pontos percentuais sobre os seus resultados positivos, substituindo a alíquota atual de 25%.
Enquanto isso, os contribuintes de classe média são atingidos por aumento. Na administração de Guedes é sempre assim. Para os empresários, vantagens. Para os assalariados, prejuízos. Até empresários alinhados com o presidente da República criticam o texto, como é o caso do empresário Flavio Rocha. “Como o projeto está, repete os erros do passado”, frisou.
CORTES – Na edição de 10 de julho da Folha de S.Paulo, Bernardo Caram desenvolve ampla análise sobre os efeitos da lei que permite a redução de salários na mesma proporção que reduz as jornadas de trabalho. Comprova o levantamento com base em trabalho elaborado pelo próprio Ministério da Economia. Tal programa atinge fortemente 82% dos trabalhadores que ganham até R$ 2200 por mês.
Um escândalo social como se vê. Um fator a mais para conduzir parcela expressiva da população a uma situação de fome, inclusive porque existem também casos que a lei faculta a suspensão do contrato de trabalho até o término da crise que a pandemia agravou.
CPI – Foi sem dúvida uma atitude entre o ridículo e a grotesco assumida ontem por Emanuela Medrades na CPI, presidida pelo senador Omar Aziz. Não se sabe por qual motivo ela se negou a responder sobre a sua relação de trabalho com a empresa Precisa, incluída entre as que propunham intermediação para a venda da vacina indiana Covaxin.
O Supremo estabeleceu que ela poderia silenciar. Mas logicamente não a ponto de se omitir quanto ao emprego que possui como técnica da Precisa. Ficou uma sombra no ar encobrindo o absurdo da cena.