quarta-feira, janeiro 07, 2026

Indiciamento de Maduro pela participação da DEA: a nova cara do ‘lawfare’

 

Indiciamento de Maduro pela participação da DEA: a nova cara do ‘lawfare’  

O termo “lawfare” descreve o uso de manobras jurídicas para substituir o emprego da força armada, para neutralizar, prender ou deslegitimar um inimigo político. 

O conceito se encaixa como uma luva no documento de indiciamento publicado pela Casa Branca na manhã do dia 3 de janeiro, mesmo dia em que militares e agentes da DEA, a agência antidrogas dos Estados Unidos, violaram a lei internacional ao invadir um país estrangeiro – a Venezuela – sequestrar seu presidente e levá-lo para os EUA. 

O documento é o resultado da deliberação de um “Grand Jury” que analisou os argumentos da procuradoria de Nova York contra Nicolás Maduro, sua esposa Celia Flores, seu filho Nicolás Maduro Guerra, o ministro do interior Diosdado Cabello, o militar e ex-Ministro do Interior e Justiça Ramón Rodriguez Chacín e Hector Guerrero Flores, tido como líder da organização criminosa Tren de Aragua. Nele, a justiça americana indicia todos por narcoterrorismo, conspiração para importação de cocaína, posse de metralhadoras e dispositivos explosivos contra os Estados Unidos.

Neste caso, o “lawfare” foi usado de maneira instrumental não para o “soft power” americano, ou seja, não em substituição à ação militar, mas apenas para respaldar o “hard power”, a mano dura do novo imperialismo trumpista.

A publicação do indiciamento ajuda a construir uma narrativa de legalidade sobre a açãoafirmando se tratar de uma ação contra o “narcoterrorismo” – e afastando, pelo menos na primeira hora, reações externas de condenação à flagrante violação da Carta da ONU. Ao mesmo tempo, garante uma narrativa para o público interno, uma vez que o ataque à Venezuela também viola a legislação norte-americana que obrigaria ações militares a serem aprovadas pelo Congresso. 

Um passo fundamental para construir essa possibilidade legal de intervenção foi dada em março de 2025, quando o governo dos EUA designou o Tren de Aragua como organização terrorista, e em novembro quando designou o Cartel de los Soles, grupo de militares e oficiais que participariam do tráfico de drogas, como terrorista. Estava criada a justificativa formal para permitir ações espetaculares, sem autorização ou monitoramento de outros poderes, autorizadas apenas pelo presidente norte-americano – como foi, por exemplo, a captura de Osama Bin Laden por Barack Obama em 2011. 

O documento publicado no sábado, entretanto, é frágil e cheio de furos. Suas 25 páginas misturam alhos com bugalhos, mencionam diversas organizações que traficam drogas, desde o cartel de Sinaloa e os Zetas, do México, até o Tren de Aragua, assim como guerrilhas como as Farc e ELN, e coloca tudo no mesmo balaio. Sugere, ainda, que toda corrupção que assolava o governo de Nicolás Maduro estava, de alguma forma, ligada ao narcotráfico. 

É recheado de frases genéricas como “Nicolás Maduro Moros, o réu, está à frente de um governo corrupto e ilegítimo que, por décadas, usou o poder do estado para proteger e promover atividades ilegais, incluindo o tráfico de drogas”.

Já vou citar as acusações específicas contra Maduro, mas antes vale lembrar que a Venezuela não é, nem nunca foi, a principal origem da droga consumida nos EUA. Mais do que cinco vezes da quantidade de cocaína que passa pela Venezuela passa pela Guatemala, segundo dados oficiais do governo americano. Além disso, hoje em dia, comprovadamente, a maior parte das mortes por overdose nos EUA são causadas pelo uso do fentanil, uma droga sintética. Não há, portanto, nenhuma urgência em interromper o fluxo específico de drogas vindas da Venezuela.   

Quanto às acusações específicas, também será preciso muito mais provas a serem demonstradas na Justiça. O indiciamento afirma por exemplo que, entre 2006 e 2008, quando era ministro do exterior, Maduro “vendeu passaportes diplomáticos venezuelanos a indivíduos que sabia serem traficantes de drogas, a fim de ajudar traficantes que buscavam mover recursos do tráfico do México para a Venezuela sob cobertura diplomática”. A seguir, o documento descreve que esses traficantes se encontraram com o embaixador venezuelano no México, abasteceram aviões de drogas, e retornaram para a Venezuela. Pelo linguajar, parece que se trata de um evento em particular. Não há detalhes se a droga chegou em algum momento aos EUA. 

Outro caso relatado seria o seguinte: em setembro de 2013, “autoridades” venezuelanas apreenderam 1,3 toneladas de cocaína despachada do aeroporto de Maiquetia para o aeroporto Paris Charles de Gaulle, em Paris. A droga foi apreendida pela polícia francesa. Depois disso, Maduro teria convocado uma reunião com Diosdado Cabello, na qual “Maduro Moros disse a Cabello Rondon e Carvajal Barrios que eles não deveriam ter usado o aeroporto de Maiquetia para o tráfico de drogas após a apreensão de 2006 no México, e que deveriam, em vez disso, usar outras rotas e locais já estabelecidos para despachar cocaína”. O documento prossegue dizendo que Maduro autorizou a prisão de “certos oficiais militares venezuelanos em um esforço para desviar o escrutínio público e as forças da lei da participação de Maduro Moros, Cabello Rondon e Carvajal Barrios no carregamento e no seu acobertamento”.    

De novo, uma acusação um tanto difícil de comprovar, a menos que se tenha uma gravação da tal reunião. 

A leitura do documento de acusação revela o que muitos analistas afirmam: havia muitos oficiais dentro do governo chavista que faziam parte do tráfico de drogas. Mas, como o mesmo documento atesta, essa é a realidade da grande maioria dos países latino-americanos. “Por meio desse tráfico de drogas, Nicolás Maduro Moros, o réu, e membros corruptos de seu regime permitiram uma corrupção alimentada pelo tráfico de drogas em toda a região”, diz o documento. “Os pontos de transferência de carga em Honduras, Guatemala e México também dependiam de uma cultura de corrupção, na qual traficantes de cocaína que operavam naqueles países pagavam uma parte de seus lucros a políticos que os protegiam e auxiliavam. Por sua vez, esses políticos usavam os pagamentos financiados pela cocaína para manter e aumentar seu poder político", completa.

Eu não sou ingênua, e muito menos chavista. Não vou dizer que Maduro não soubesse do tráfico, ou que definitivamente não estivesse involucrado. Mas a Justiça americana vai ter trabalho para conseguir comprovar essa participação ativa, ultrapassando o linguajar MAGA da acusação do júri.   

Para quem assistiu, atônito, à ação americana, é surpreendente em especial que Diosdado Cabello, que há décadas é uma das principais figuras do chavismo e tem enorme influência sobre o corpo militar, além de, segundo a própria justiça norte-americana, ser um dos que coordenava o transporte de drogas, não tenha sido capturado – e que o governo de Donald Trump nem sequer o tenha mencionado. 

Nessa versão ‘renovada’ de lawfare, o que importa não é a coerência da Justiça, mas apenas ter uma narrativa imediata que será republicada nos jornais, reproduzida nas TVs, e disseminada de maneira ampla pelos inimigos do governo de turno, confundindo o ato de guerra e violação brutal da ordem internacional durante tempo o suficiente para que a situação do sequestro se instale “de facto”. Trata-se, como a maioria das demais ações de Trump, de um espetáculo de desinformação notável.

E, para isso, a exibição ostensiva da imagem dos agentes da DEA – a polícia responsável por combater o tráfico de drogas – escoltando Maduro foi, também, essencial. Ela faz parte da construção narrativa que inibe, além de uma condenação mundial mais robusta, uma reação interna minimamente legalista por parte dos congressistas que viram, mais uma vez, seu poder derreter diante de uma ação autoritária de Donald Trump. 

É disso que se trata o lawfarecriar um verniz narrativo que convença a sociedade, pelo menos por um tempo. O caso judicial contra Maduro vem de uma longa tradição dos EUA de usar justificativas legais para interferir em outros países. Aqui no Brasil, o conceito de “lawfare” foi o principal argumento usado pela defesa de Lula durante a Lava Jato. Seus advogados, assim como o próprio Lula, sempre estiveram convencidos que havia dedo americano no processo judicial que levou o presidente a ser excluído das eleições de 2018, quando esteve preso por 580 dias.

“Lawfare para nós é o uso estratégico do direito para fins de prejudicar, deslegitimar ou aniquilar o inimigo”, explicou o advogado Rafael Valim para a jornalista Amanda Audi, durante a apuração para o podcast Confidencial, as digitais do FBI na Lava Jato. “Quando a gente fala em uso estratégico, é o uso do direito como uma arma, porque a estratégia aqui é entendida ou empregada no sentido militar, o que é na verdade uma contradição em termos, se a gente fala que o direito é usado para pacificação social".

Valim explicou que, historicamente, o termo era usado para designar “litígios de direitos humanos que desafiavam o Império americano”. 

“Então ganhou notoriedade com esse sentido, para depois as próprias forças armadas estadunidenses concluírem que o direito poderia ser usado também em favor dos Estados Unidos”. 

Ele explicou que “nós tivemos um esforço também para que [esse termo] não fosse algo que soasse como oportunista” no caso da defesa de Lula. “Hoje está claro que é um fenômeno insidioso que compromete as democracias a nível mundial. E me parece que o êxito dessa teoria é algo que deve nos preocupar muito, porque é sinal de que nossas democracias estão doentes”.  

À luz do sequestro de Nicolás Maduro, e do processo judicial que vai se seguir na Justiça de Nova York, o uso de lawfare, termo que apenas começa a ser conhecido mais amplamente, merece ser melhor estudado. Aqui na Pública, temos nos debruçado tanto sobre o caso concreto da Lava Jato como sobre análises e estudos para entendermos os limites e as implicações dessa tática de interferência. Essa pesquisa vai formar o coração do curso Lawfare – a influência dos EUA ontem e hoje, que vou ministrar nos dias 3 e 5 de fevereiro das 19h30 às 21h30, online e síncrono. 

Se você também se interessa por entender os meandros da influência americana sobre os destinos dos povos da América Latina, inscreva-se! Basta fazer uma doação de R$190 via Pix para contato@apublica.org ou se tornar Aliado da Pública em um de nossos planos anuais. Depois, é só fazer a sua inscrição em apoie.apublica.org/curso.  


O Master alfinetando o BC?

 .

Arte: Marcelo Chello

Existe vida depois do Maduro (o Trump que o diga, que agora vai administrar o petróleo). Mas será que existe vida depois do Banco Master? Eis que as notícias de hoje dão conta de que influenciadores foram contratados para dar um pau no Banco Central por ter liquidado o Banco Master assim tão rápido. Como diz o Armínio Fraga, na verdade, parece que demorou. O que está por trás do caso Banco Master? Por que o Tribunal de Contas da União atacou o BC? Por que o Supremo foi pra cima do BC? Por que influenciadores atacaram o BC? Temos respostas? Não. Mas vamos falar do assunto mesmo assim.

O caso é o seguinte: o Banco Central descobriu um monte de fraudes em operações do Banco Master e anunciou a liquidação no mesmo dia em que a Polícia Federal prendeu o dono do banco, Daniel Vorcaro. Eis que, a partir daí, um monte de influenciadores nas redes sociais, que nunca nem falaram do Banco Central, começaram a atacar a atitude da instituição e a botar dúvidas sobre se o BC não teria liquidado o Master rápido demais.

Logo que surgiu o assunto, me chamou a atenção o perfil Alfinetei no Instagram (que é tipo um Choquei das fofocas das celebs), que começou a dar muitas notícias sobre o Master. Até o Andrezito apareceu por lá. Em algum momento, o Alfinetei lacrou que foi Andrezito Esteves a fonte da história de que Xandão tinha falado com Galípolo, que é o presidente do BC, sobre a compra pelo BRB. Pois bem, hoje saíram notícias, a partir de um levantamento da Febraban, de que alguns perfis como o Alfinetei trataram o assunto de uma forma que parecia coordenada. O Alfinetei tem uns 20 milhões de seguidores.

E ainda dois influenciadores de direita denunciaram que foram procurados para falar mal do Banco Central, mas se recusaram (que legais eles, né?).

Agora fica a dúvida: a quem interessa desfazer a liquidação do Master, e por que esse cerco sem precedentes ao BC? (Que é liderado por um indicado de Lula, diga-se de passagem.)

Como já noticiamos várias vezes por aqui, o caso Master parece que vai feder para tudo quanto é lado. É esposa de ministro supremo que tem contratos milionários com o banco, é irmão de senador que aplicou o dinheiro dos aposentados nos fundos do Master, é senador que tentou alterar legislação para beneficiar o Master, e fora todas as conexões que ainda estão sendo feitas de um suposto esquema com títulos em fundos com dinheiro que pode ter origem no crime organizado. Enfim, o Master vai feder.

Por isso, todo mundo estranhou quando um ministro do TCU começou a questionar o BC (nunca se viu isso antes na história) e o supremo Toffoli quis marcar até acareação de diretor do BC (depois o ministro voltou atrás). Fiquemos de olho no Master, BRASEW.

Mas vamos ao Maduro

E o Trump, que anunciou agora à noite que vai receber da Venezuela uns 50 milhões de barris de petróleo de alta qualidade. Que esse petróleo vai ser vendido a preço de mercado e que o dinheiro dessa venda será controlado por ele mesmo, Donald J. Trump (J de João). Mas ele garante que só vai cuidar pessoalmente dessa grana para garantir que ela seja usada em benefício do povo da Venezuela e dos Estados Unidos. Claro, claro. Ninguém pensou diferente.

Hoje, os Estados Unidos recuaram nas acusações de que Maduro era dono de um cartel, o Cartel de los Soles. E por quê? Porque esse cartel não existe na vida real. Aff!!!! Parece que é uma gíria e os americanos acharam que era de verdade. E agora o Maduro recorre pra quem?

Enquanto isso, a sua vice, a Delcy, assumiu o cargo sem medo de ser feliz e diz que não tem ninguém dos Estados Unidos comandando a Venezuela. A imprensa americana seguiu hoje com as histórias de que Delcy já foi escolhida há meses, e o papo foi feito com ela e o irmão, que atualmente é o chefe do Congresso venezuelano.

A propósito, Trump hoje despejou suas fakes e, junto, confessou que pegou o Maduro porque achou que o ditador venezuelano estava tirando sarro de suas dancinhas. É, não foi bem assim, mas quase assim. Socorro, BRASEW.

E também hoje, o representante do governo Lula na OEA andou dizendo que foi sequestro, e não captura, o que fizeram com Maduro. No seu post no Twitter, Lula fez questão de usar a palavra captura.

Pela queda de Bolsonaro, ninguém esperava

Bolsonaro caiu durante a noite e bateu a cabeça. Ninguém sabe, ninguém viu. Nem a polícia, porque a Michelle disse que só ficaram sabendo da queda quando ela foi visitá-lo na prisão. Pois bem, a defesa já logo pediu que o Xandão liberasse nosso ex para ir ao hospital. Os médicos da PF disseram que não teve nenhum ferimento grave, e o ministro supremo não permitiu a ida ao hospital. Eu não quero dizer nada, mas Bolsonaro que não se cuide que vai perder o posto de capitão que dita os rumos do bolsonarismo para o de adoentado coitado.

Lewandas se vai

Parece que Lewandas Lewandowski, o ex-ministro supremo que virou ministro da Justiça do governo Lula, vai deixar o governo até sexta. Nunca esqueceremos de sua honestidade no caso da fuga do presídio de segurança máxima, ministro. (Aquela história de que os bandidos fugiram pela luminária com um alicate para cortar a cerca). Estão dizendo que a saída de Lewandas pode fazer com que finalmente Lula separe o Ministério da Justiça em dois e que, assim, os projetos de segurança pública vão andar. Ahã, claro, claro. No ano de eleição tudo pode acontecer.

Vazou a Foz do Amazonas

A notícia de hoje é que a perfuração do bloco 59 da Bacia da Foz do Amazonas registrou um vazamento, e a Petrobras paralisou as atividades de busca de petróleo. Não vazou petróleo, mas que vazou um paranauê por lá, isso vazou. Essa Foz é aquela famosa que o Davi Alcolumbre queria tanto.

E o João Campos?

Menino querido, simpático, vai casar com a Tabata, potencial de crescer na política e daí é pego em notícias desse tipo: o prefeito do Recife, João Campos, nomeou Lucas Vieira Silva para uma vaga destinada a pessoas com deficiência (PCD) no concurso da Procuradoria do município. O laudo médico que atestava autismo para que ele fosse enquadrado como PCD foi apresentado três anos após o concurso, permitindo que Lucas passasse da 63ª posição para o 1º lugar na lista de PCD. E quem é Lucas na fila do pão? É filho do juiz Rildo Vieira da Silva, que, menos de um mês antes, havia arquivado uma investigação sobre suposta corrupção em contratos de R$ 100 milhões da Prefeitura de João Campos.
A-F-F!

Dinheiro na cueca, mas limpinho

O procurador-geral da República concluiu que não há provas de ilegalidade no dinheiro encontrado na cueca do senador Chico Rodrigues. (Como vamos viver com essa notícia?). O episódio ocorreu em 2020, durante operação da Polícia Federal sobre desvios de recursos da Covid‑19. As investigações não conseguiram vincular os valores a contratos fraudulentos ou esquema de corrupção. Para quem não lembra, Chico era líder do governo Bolsonaro no Senado, na época, e tinha mais de 17 mil reais na cueca quando foi pego.

Vou ali e já volto, BRASEW.

terça-feira, janeiro 06, 2026

Justiça da Espanha dá uma lição ao Brasil sobre liberdade de expressão

 

Justiça da Espanha dá uma lição ao Brasil sobre liberdade de expressão

Fui vítima de uma perseguição doentia”, diz Oswaldo Eustáquio | VEJA

Espanha considera Oswaldo Eustáquio vítima de perseguição

Fernando Schüler
Estadão

Quem me acompanha, por aqui, sabe do meu gosto pelo acontecimento. Pelos fatos, eles mesmos, e o que eles podem nos ensinar. Nossa era é de excesso retórico. Dizem que há perto de 200 zettabytes de informação, rodando o planeta, nesta entrada de 2026, contra pouco mais de um zettabyte, década e meia atrás. Vem daí a força do acontecimento.

Quando Voltaire quis mostrar os males do fanatismo religioso na França, no século XVIII, nada foi tão poderoso quanto mostrar a inocência de Jean Calas, condenado e martirizado pela horda de fanáticos, em Toulouse, por um crime que não havia cometido.

MESMO PRINCÍPIO – O Brasil de hoje é seguramente menos dramático do que a França de Voltaire, mas vale o mesmíssimo princípio. Se alguém quiser entender a debacle do nosso estado de direito, observe aquela prisão de meio ano, ou mais, de Filipe Martins, por uma tentativa de fuga que sabidamente não existiu.

Se quer saber um pouco sobre a loucura` da censura prévia, pergunte por que Luciano Hang foi censurado por mais de dois anos, ou quem sabe o professor Marcos Cintra ou o PCO.

Tente sair, por um momento que seja, do reino da retórica fácil, e pergunte sobre os fatos. Não digo que seja fácil, em especial para os apaixonados. Mas é possível.

EXEMPLO ESPANHOL – Ainda agora tivemos um caso revelador. Foi a negativa da Espanha de extraditar Oswaldo Eustáquio. Para quem não se lembra, Eustáquio é um jornalista paranaense censurado pelo nosso STF, preso e tudo mais, e que se refugiou na Espanha.

Seu processo correu, o Brasil gastou um bom dinheiro tentando provar ao Tributal espanhol que ele era um criminoso, mas não conseguiu. Agora, na decisão final, a Espanha diz que parte relevante das posições de Eustáquio estão protegidas “pelo direito fundamental à liberdade de expressão”.

Diz também que ele exerce a profissão de jornalista, e que uma extradição representaria um sério risco de que sua situação se “agravasse por causa de suas opiniões políticas”.

TRADUZINDO – Na prática, o que o Tribunal espanhol está dizendo é que aquele País não criminaliza a opinião política, como o Brasil está fazendo. O problema disso tudo é simples: na Constituição brasileira também não existe “delito de opinião”.

E é isto que torna este caso particularmente vergonhoso, para o Brasil. Ao longo dos últimos anos, escutamos que a liberdade de expressão era “uma coisa dos americanos, com sua Primeira Emenda”.

Pois bem: não é. A Espanha, um país europeu, é que está nos oferecendo uma lição.

RUMO DO JORNALISMO – Nas últimas semanas, tenho lido sobre a retomada do “jornalismo investigativo”, ou ao menos do “jornalismo crítico”, no Brasil.

Haveria um certo cansaço com a lógica da exceção e do abuso de poder, agora inclusive por questões éticas, e seria a hora de dar um basta e se retomar algum respeito pelo direito e pela ética, no País.

Confesso meu ceticismo. Nosso jornalismo silenciou durante anos, em casos como o de Eustáquio. Agora temos que escutar de um alto tribunal espanhol o que não tivemos coragem de dizer a nós mesmos, nos anos recentes. Oxalá, dessa vez, sejamos capazes de prestar alguma atenção.


Nota da Redação Deste Blog = Censura em Jeremoabo: quando denunciar vira crime e o poder se julga acima da lei

A liberdade de expressão não é um favor concedido pelo poder. É um direito fundamental, assegurado pela Constituição, especialmente para aqueles que exercem o jornalismo — a atividade que incomoda, questiona e revela o que muitos preferem esconder. Em Jeremoabo, porém, o que se vê é a tentativa reiterada de calar vozes críticas, por meio de intimidações, perseguições e censura injusta contra jornalistas que têm a coragem de denunciar irregularidades e desmandos de agentes públicos que se comportam como se estivessem acima da lei e da sociedade.

A história ensina que a censura não nasce do compromisso com a verdade, mas do medo dela. Voltaire, no século XVIII, expôs os horrores do fanatismo ao revelar a inocência de Jean Calas, condenado por um crime que não cometeu. O método não era o discurso vazio, mas o confronto dos fatos contra a arbitrariedade. Guardadas as proporções, o princípio é o mesmo: quando o Estado ou grupos de poder passam a punir a palavra, o problema não é a crítica — é a fragilidade do próprio Estado de Direito.

No Brasil contemporâneo, acumulam-se exemplos de excessos que normalizam a exceção: prisões alongadas sem fatos consistentes, censura prévia, silenciamento de opiniões políticas e criminalização do dissenso. O caso recente envolvendo a negativa da Espanha em extraditar um jornalista brasileiro é emblemático. Ao afirmar que opiniões políticas estão protegidas pelo direito fundamental à liberdade de expressão e que a extradição poderia agravar a situação do comunicador por suas posições, um tribunal europeu lembrou ao Brasil algo que a própria Constituição já diz: não existe “delito de opinião”.

Essa lição vinda de fora é constrangedora porque revela um descompasso interno. Não se trata de importar modelos estrangeiros, mas de cumprir a nossa própria lei maior. Quando autoridades confundem crítica com crime, instauram um ambiente de medo que corrói a democracia por dentro. O jornalismo deixa de cumprir sua função pública, a sociedade perde o direito à informação e o poder se fortalece sem fiscalização.

É exatamente esse risco que se percebe quando, em nível local, jornalistas são hostilizados por denunciar irregularidades. Em cidades como Jeremoabo, onde a proximidade entre poder e população deveria fortalecer a transparência, a censura produz o efeito oposto: protege erros, encobre abusos e pune quem ousa perguntar. Não há democracia municipal sem imprensa livre; não há gestão legítima sem contraditório.

Fala-se, agora, em retomada do jornalismo investigativo e crítico no Brasil. A esperança é válida, mas o ceticismo também é compreensível. Houve silêncio demais diante de abusos evidentes. O desafio, daqui para frente, é transformar a lição em prática: respeitar a liberdade de expressão, garantir o direito de informar e proteger quem denuncia — sobretudo nos pequenos municípios, onde o poder costuma reagir com mais truculência à crítica.

Calar jornalistas não fortalece governos; enfraquece a lei. E quando a lei se enfraquece, quem perde é a sociedade. Jeremoabo — assim como o Brasil — precisa escolher entre o caminho da censura, que nos envergonha, e o da liberdade, que nos amadurece como democracia.(José Montalvão)

Causas sociais e políticas ajudam a corromper o caráter dos mais jovens

 


Cartazes do Black Lives Matter ganham acervo nos EUA - 18/02/2022 - Mundo - Fotografia - Folha de S.Paulo

“Esperança há muitas, mas não para nós”

Luiz Felipe Pondé
Folha

Em maio de 2020, no início da pandemia de Covid-19, numa cidade fictícia do Novo México, é onde transcorre o drama do livro “Eddington”, que resume muito o surto que os Estados Unidos, em particular, e o mundo em geral, passava. O filme com o mesmo nome encena o trágico e o ridículo de uma espécie psicótica como a nossa. Como disse certa feita Kafka ao seu amigo Max Brod, que o acusava de pessimista por parecer não ter nenhuma esperança: “Esperança há muitas, mas não para nós”.

O filme “Eddington”, dirigido por Ari Aster, e estrelado por Joaquin Phoenix, Pedro Pascal e Emma Stone, é uma análise psicossocial da América profunda atravessada não só pela pandemia de Covid-19 em 2020, mas também pela tragédia que matou George Floyd e o surgimento do movimento Black Lives Matter. E toda a cacofonia que se seguiu a esses eventos.

PEQUENOS ATOS – Com um leve toque de sátira, o filme é um panorama de como pequenos atos das pessoas crescem ao ponto de mergulharmos num nonsense absoluto. Um dos grandes efeitos do filme é destruir a crença no sentido de muitos dos diálogos em inúmeras cenas.

Ninguém ouve ninguém e a razão soa patética nas tentativas de ser ouvida. O mito idiota iluminista surge em toda sua estupidez. O filme torna-se uma cacofonia histérica em que os protagonistas somos nós, ainda que representados pelos personagens, como na tragédia grega.

Primeiro de tudo, as discussões ridículas que ouvíamos sobre máscara, sim, máscara, não — alguém ainda lembra disso? Uma espécie de liberalismo tosco não queria reconhecer que uma pandemia é um quadro coletivo e social e não, apenas, individual.

LIBERAL TOSCO – O xerife, interpretado por Joaquin Phoenix, faz o discurso do liberal tosco contra a determinação do prefeito, Pedro Pascal, seguindo a norma do governo, que estabelecera o lockdown. Tudo tão longe, né? Como alguém ainda pode acreditar numa memória social?

Lembro da horda de idiotas que afirmavam que a humanidade seria outra por conta da pandemia, mais solidária e humana. Outros viam um sentido espiritual na pandemia. Dela esquecemos cinco minutos depois. E se outra vier, o circo se repetirá. Mas o caos em “Eddington” não se restringe a pandemia enquanto tal.

O movimento Black Lives Matter põe em marcha um significativo grupo numericamente minúsculo de jovens da cidade que se lançam a um protesto e quebram lojas. Cacofonia absoluta. Jovens brancos quase se autoflagelando porque pisavam em solo “roubado” dos povos originários e que deveria ser devolvido a essa população.

QUÃO RIDÍCULO – Um pai lúcido chama a atenção de um desses jovens, seu filho, o quão ridículo era ele, um branco, falar essas coisas. Num discurso mais à frente no roteiro, este mesmo menino anuncia que brancos como ele deveriam perder o direito à palavra. E depois, se torna um influencer conservador nas redes. Como somos ridículos, e ainda tem gente que nos leva a sério.

As cenas revelam o tom grotesco de muitos desses protestos, em que os jovens assumem faces, gestos e palavras de psicopatas alienados numa “causa” qualquer. O ativismo fez e faz muito mal aos jovens, além, é claro, de prestar um enorme serviço à preguiça que os assola quando têm que arrumar o quarto, atividade bem mais difícil do que salvar o mundo e seguir a Greta Thunberg. Causas sociais e políticas corrompem o caráter dos mais jovens.

Uma jovem esposa —a premiada Emma Stone—, completamente perdida, abandona o marido por um guru picareta que mistura Jesus e combate a pedofilia. O “grande líder” vive narrando supostas histórias que teriam acontecido com ele na infância que soam completamente absurdas e mentirosas para quem tem acima de dois neurônios. Ela, por sua vez, vive a clássica esposa entediada em busca de um amante poderoso e audacioso.

ENTROPIA SOCIAL – Pandemia, movimentos sociais de protestos cada vez mais agressivos ao longo do roteiro, seitas de cristãos que deixariam os mais radicais dos evangélicos em crise. Uma verdadeira entropia social anárquica, mascarada de causas políticas.

Mas a loucura escala. Grupos denominados “terroristas”, que voam — em jatinhos — atacam a cidade e o xerife, que tudo que quer é ser prefeito, coroando o caos e o “futuro” político bufão da pequena e irrelevante cidade. O que todo mundo quer é ficar famoso. A cidade lembra o Brasil, no seu ridículo desejo de ser relevante quando é, na verdade, um nada do ponto de vista geopolítico.

O filme é um exercício de cinismo filosófico fazendo um sobrevoo sobre o cenário das causas sociais do século 21. A América, maior potência mundial, se afoga na própria loucura criada no seu quintal, transformando a população num ninho de cobras. O tema é a entropia, o caos social e político.

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