
Charge do Miguel Paiva (Brasil 247)
Carlos Newton
Enquanto o resto do mundo acompanha a Copa do Mundo, na Alemanha as forças de segurança executam uma megaoperação em 130 locais do país, para prender os principais líderes e desbaratar um golpe de estado engendrado por radicais de direita, e no Peru o próprio presidente Pedro Castillo é preso por tentar um governo de exceção, dissolver o Parlamento, estabelecer toque de recolher e “otras cositas más”,
Caramba, foi uma quarta-feira de cinzas para o regime democrático, embora todos os golpes de estado sempre sejam feitos justamente a pretexto de preservar a própria democracia, dentro da realidade virtual dos dias de hoje, em que predomina o novo normal.
EREÇÃO CÍVICA – Ao tomar conhecimento dessas novidades na Alemanha e no Peru, o imbroxável Jair Bolsonaro imediatamente deve ter experimentado uma ereção cívica e ficou com a mente cheia de ideias impossíveis de se concretizarem.
No entanto, o Brasil está mais para Alemanha do que para Peru. As instituições aqui são altamente imperfeitas, como no Peru, porém se mostram bastante sólidas, como na Alemanha, e a possibilidade de golpe de estado é rarefeita.
Os bloqueios das rodovias estão cada vez mais raros, embora os manifestantes insistam em continuar diante dos quarteis. Sabe-se que a data-limite deles é a próxima segunda-feira, dia 12, quando o Tribunal Superior Eleitoral vai diplomar o presidente eleito Lula da Silva, o que significa declarar causa perdida a alegação de fraude eleitoral.
ADEUS ÀS ILUSÕES – O Alto-Comando do Exército, que funciona no Brasil como uma espécie de Poder Moderador, já desfez as esperanças de Bolsonaro, apesar de uma clara inclinação golpista da Aeronáutica e da Marinha. O comandante do Exército, general Freire Gomes, mostra ser um oficial legalista, na linha do marechal Teixeira Lott. Em resumo, não haverá golpe tipo peruano.
Portanto, é hora de Jair Bolsonaro fazer um retrospecto de sua trajetória, para entender que perdeu as eleições devido a seus próprios erros.
Como presidente da República, jamais poderia ter aceitado o canto de sereia do ministro Dias Toffoli e do senador Davi Alcolumbre, para fechar um acerto entre os três Poderes. Não é assim que a democracia funciona, nos ensinamentos iluministas do barão de Montesquieu.
ERROS DE BOLSONARO – Desde o início do mandato, em 2019, Dias Toffoli defendia por interesse próprio uma “entente cordiale”, como se dizia antigamente. E Bolsonaro acabou aceitando, também por interesse próprio, para se livrar de impeachment e para evitar processos judiciais em família.
Assim, em novembro de 2019, quando o Supremo proibiu a prisão de condenados após segunda instância, para libertar Lula, Bolsonaro aceitou tornar o Brasil o único país da ONU a adotar essa prática medieval de garantir impunidade aos poderosos.
Com isso, afastava-se por completo o risco de prisão do filho Zero Um, senador Flavio Bolsonaro. Por isso, o presidente não acionou a procuradoria-geral da República, Augusto Aras, para recorrer da equivocadíssima decisão do Supremo. A partir daí, foi um erro atrás do outro.
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P.S. 1 – Da mesma forma, em abril de 2021, Bolsonaro também não acionou Aras quando o Supremo anulou as condenações de Lula, com base numa alegação fantasiosa e improcedente de competência territorial, que já tinha sido indeferida, de forma unânime, por dez magistrados – dois juízes da 13ª Vara Federal Criminal de Curitiba, três desembargadores do Tribunal Regional Federal da 4ª Região e cinco ministros do Superior Tribunal de Justiça. A decisão do STF era ilegal, mas Bolsonaro gostou, porque entendeu que seria fácil derrotar Lula.
P.S. 2 – Agora é tarde, diria Dom Pedro, diante do corpo de sua Inês de Castro. No Planalto, Bolsonaro misturou governo e família, cometeu erros e tem de pagar por eles. Não adianta sonhar com um golpe peruano. Segunda-feira, dia 12, o inescrupuloso ex-presidiário Lula da Silva vai mesmo ser diplomado presidente da República. E o culpado de tudo isso chama-se Jair Messias Bolsonaro. Fazer um “mea culpa” lhe cairia bem. (C.N.)
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