domingo, abril 03, 2022

A mulher que sabia de menos




O que é uma mulher? A juíza Jackson não soube ou não quis responder, espelhando as temerosas e prudentes evasivas da "Esquerda” perante os delírios dos seus mais recentes “ativistas radicais”. 

Por Jaime Nogueira Pinto 

Quando o Presidente Biden anunciou a sua intenção de indicar para a vaga deixada pelo juiz Stephen Breyer “a primeira mulher negra a ocupar o cargo de juíza no Supremo Tribunal de Justiça”, parecia não haver dúvidas sobre o que era uma mulher. Mas na audiência para o Supremo de Ketanji Brown Jackson, a mulher indicada para o cargo, a dúvida instalou-se.

A resposta evasiva da juíza Jackson sobre qual seria a sua definição de mulher, remetendo para os biólogos um eventual esclarecimento, não tardou a ser louvada: afinal, o que era uma mulher? A definição era complexa e sensível, envolvendo um sem número de ciências, variantes, contextualizações, considerações. Mas se a réplica à pergunta armadilhada lhe valeu louvores, não a livrou do inevitável apedrejamento, não por excesso mas por défice de correcção: para quê trazer a Biologia ao debate, e não ciências mais exactas, como a Filosofia da Biologia e a Sociologia e o Direito de Género? Estaria a Juíza a insinuar que era a Biologia, com a sua insana fixação no “sexo atribuído à nascença”, que determinava o que quer que fosse?

O que é uma mulher?

A polémica já tinha estalado do outro lado do Atlântico, no Dia da Mulher, onde também houvera quem tivesse ficado à deriva ao tentar definir o que os dicionários traduzem por “pessoa adulta do sexo feminino”.

No passado dia 8 de Março, em entrevista à BBC, a trabalhista Anneliese Dodds, ministra sombra para as Mulheres e as Igualdades, após laboriosos esforços para encontrar uma definição neutra e inclusiva de “mulher”, não conseguira melhor do que um gaguejado “depende do contexto”. E, no entanto, a mesma ministra sombra tinha publicado nesse mesmo dia a promessa de que o Partido Trabalhista tudo faria para promover os direitos dos tais “objectos indefiníveis”, que, no contexto empolgado e simplista da exortação partidária, a deputada trabalhista não hesitara em designar por “mulheres”: “Labour will lift women up, not hold them back”.

J.R. Rowling, a autora de Harry Potter, registando a contradição, sugerira que alguém fizesse chegar à senhora ministra sombra “um dicionário e uma coluna vertebral”, antecipando também uma futura proposta trabalhista para que o Women’s Day passasse a We Who Must Not Be Named Day.

Rowling é trabalhista e feminista, mas, ao que parece, o seu feminismo, porventura antigo e ultrapassado, tem vindo a ser considerado “tóxico” (trans-exclusive radical feminist é um dos muitos insultos que lhe arremessam), e o mundo fictício de “feitiçaria branca e heteronormativa” que deu ao mundo, a par das suas declarações polémicas e das suas marcadas tendências “binárias” e “natalistas”, parecem tê-la transformado, do dia para a noite, numa bruxa a queimar.

O afastamento da biologia da definição de mulher veio também recentemente garantir uma vitória retumbante nas competições da Liga Universitária Feminina de Natação Americana a Lia Thomas (o ex-nadador Will Thomas, que chegou a competir sem grandes resultados na categoria do sexo que lhe foi atribuído à nascença). As outras concorrentes, após terem sofrido no pódio a opressão dos resquícios biológicos de masculinidade tóxica que, aparentemente, terão sobrevivido à transformação de Lia, limitaram-se a protestar, não ousando evocar “gender based discrimination” para acusar a atleta trans de concorrência desleal. De qualquer forma, entre a pressão académica e mediática e as evidências práticas, o assunto começa a levantar problemas de equidade que os organismos desportivos e de ética desportiva têm dificuldade em arbitrar, pelo que se prevê, também no mundo do desporto, mais uma frenética multiplicação de pequenas leis, subdivisões e sub-categorias. A conhecida frase de Chesterton – “When you break the big laws, you do not get freedom, you do not even get anarchy, you get the small laws.” – promete não perder a actualidade.

Uma coisa é certa: apesar dos silêncios e das evasivas, já não restam dúvidas de que reina a dúvida e a incerteza entre as várias esquerdas sobre estas escorregadias matérias.

A normalidade alternativa que os discípulos e simpatizantes da Cultura do Cancelamento e do Novo Despertar querem instaurar, e que seduz cada vez mais “activistas”, é sectorial, minuciosa e exigente – e tem um infinito capital de queixa e de denúncia. No capítulo do sexo e do género, dado o rol de auto-determinações cada vez mais específicas e minoritárias e o constante acrescentar de letras à já sobrecarregada sigla LGBTQ+, qual deverá ser agora a mais neutra e inclusiva definição de mulher (ou de homem, ou de ser humano, ou do que quer que seja), fora da obsoleta realidade binária? Ninguém sabe, e ninguém, nem o mais credenciado dos militantes de uma qualquer esquerda, ousa arriscá-la, a menos que queira voluntariamente submeter-se ao apedrejamento dos “activistas” de alguma variante identitária erradamente incluída ou excluída. Daí as prudentes ou temerosas hesitações da juíza Jackson e da deputada Dodds, as acusações de que J. K. Rowling tem sido alvo e o relativo silêncio das nadadoras da Liga Universitária Feminina de Natação Americana.

O fim da Esquerda Social?

A ideia de que não há limites à imaginação e à criação de identidades nem barreiras da natureza quer agora afirmar-se como realidade científica, como Ciência, como várias ciências ou simplesmente como a Ciência, e não se conforma com a designação de Ideologia, expressão insultuosa cuja “invenção” alguns atribuem à extrema-direita de Bolsonaro, outros à campanha do Não no Acordo de Paz da Colômbia e outros ainda à Igreja Católica de São João Paulo II e Bento XVI.

Mas mesmo que a Ideologia de Género, parte da Ideologia Woke, não seja exactamente uma ideologia, é, pelo menos, um insidioso “projecto moral”. Um projecto centrado na tríade sexo, género e raça que proporciona modernidade, activismo, fanatismo e conforto cívico aos utentes, que contamina e seca quase tudo, Cultura, Ciência, Pensamento, Liberdade de Expressão, mas que não belisca a Economia, atirando para a irrelevância velhas causas, comuns à esquerda social e à direita social, mas tradicionalmente definidoras da Esquerda, como a Justiça e a Igualdade económica.

Que a esquerda não-identitária pode estar a acordar para esta mortífera ameaça ao seu coração ideológico, é o que convincentemente defende o escritor e jornalista David Rieff, em “Only the Economic Left Can Beat the Woke” (Compact, 24 de Março 2020). Para Rieff, o “radicalismo cultural” e o “conformismo económico” do novo “projecto moral” são notoriamente compatíveis – compatíveis entre si e com o Capitalismo ou o Hiper-Capitalismo, que alimentam e de que se alimentam. Daí que, na América, talvez só a esquerda anti-identitária possa combater eficazmente a nova moral, já que Rieff deposita poucas esperanças numa direita “disposta a virar as costas ao capitalismo” ou na “remoralização do mundo cristão” e vê como altamente improvável a reedição da fusão entre “falcões neoconservadores” e “conservadores religiosos” da América da Guerra Fria.

Para o novo consenso, a representação é tudo e a sub-representação que urge corrigir não é a económica ou a social: é a dos não-brancos e a dos sexualmente descoincidentes. A crítica à cultura popular ou de consumo é inexistente (desde que sejam cumpridos os preceitos vocabulares e as quotas de género e raça, os filmes, por exemplo, podem – ou até devem – ser medíocres e estupidificantes); e o interesse dos cultores do novo caldo cultural pelas desigualdades sociais e pelo funcionamento e práticas reais das empresas e das multinacionais é praticamente nulo (desde que assegurada a representatividade dos sub-representados e certificadas as bandeiras, os pronomes e os slogans a agitar pelos capitalistas e híper-capitalistas).

O pessimismo de Rieff nesta “low, dishonest, cretinous era” – dominada, pelo menos na sua América, pela ideologia ou pelo projecto moral Woke – é quase total. Mas ainda que Rieff detecte reacções articuladas à direita, é no acordar do que ainda resta da Esquerda Social ou Económica que o filho de Philip Rieff e Susan Sontag vê tímidos sinais de esperança.

“Acordai!”

John Hirschman, do American Conservative, atribuiu a dificuldade da candidata a juíza do Supremo Tribunal norte-americano em providenciar uma definição de mulher às “várias e concorrentes afirmações de esquerda sobre identidade e sexo”.

Se os Estados Unidos são uma sociedade patriarcal, governada por homens que querem dominar as mulheres, então, para resistir a esse domínio e confrontar o opressor, há que desafiar a definição da mulher-vítima, e encontrar uma outra para a mulher-emancipada. Foi o que fez o feminismo. Mas como fazê-lo agora, com a galopante proliferação de géneros e sub-géneros, de oprimidos e sub-oprimidos a colidir com um feminismo tornado, também ele, obsoleto, quando não “tóxico”?

Por uma questão de “representatividade sem apropriação cultural” percebe-se que se queira no elenco do Supremo Tribunal de Justiça norte-americano uma juíza mulher e negra. O problema é que o ímpeto representativo dos fiéis da Ideologia Woke tende agora a privilegiar categorias menos monolíticas e mais modernas e exóticas de sub-representados; e a juíza Jackson, conhecedora do terreno que pisa, quer tudo menos ofender a poderosa ala radical da esquerda cultural americana que se prepara para determinar a agenda do Partido (agenda essa que pode custar cara aos Democratas em Novembro).

Irão as esquerdas tradicionais, as esquerdas feministas, as esquerdas que queriam a redistribuição dos recursos, o fim da “oligarquia capitalista” e da “tirania imperialista”, as esquerdas que não se mostravam especialmente interessadas em refazer realidades biológicas e sintáticas, sucumbir sem estrebuchar àquilo a que naturalmente chamariam “uma ideologia burguesa de liberalismo individualista”? Esperarão ver algum dia alguma das suas lutas nas agendas dos novos “activistas radicais”?

Entretanto, e até que estas esquerdas acordem, o dia 8 de Março, Dia da Mulher (esse ser indefinível), ou o dia 1 de Maio, Dia do Trabalhador (esse desconhecido) empalidecem perante o frenesi do hasteamento de bandeiras do dia 31 de Março, Dia Internacional da Visibilidade Transsexual, ou do definitivamente definido até à próxima fobia dia 17 de Maio, Dia Internacional Contra a Homofobia, a Transfobia e a Bifobia. E entre os liberais que, à direita, entregam o destino comunitário à mão invisível do mercado de capitais e de ideias e uma esquerda silenciosamente ferida de morte e dividida, muitos outros dias do género se seguirão.

Observador (PT)

Ucrânia retoma toda a região de Kiev, diz ministra




Militares russos estão deixando o norte da Ucrânia e concentram esforços nos combates no leste e no sul do país. Conforme as cidades são retomadas, surgem registros de civis assassinados.

As Forças Armadas da Ucrânia retomaram neste sábado (02/04) o controle de todo o território da região de Kiev, informou a ministra adjunta de Defesa do país, Hanna Malyar. "Toda a região de Kiev está libertada do invasor", escreveu ela em um post no Facebook.

Ao longo do dia, militares ucranianos avançaram para áreas ao norte de Kiev, repletas de escombros e tanques russos destruídos. O presidente da Ucrânia, Volodomir Zelenski, acusou os soldados russos de deixarem minas nos locais antes de se retirarem.

Okeksiy Arestovych, assessor de Zelenski, disse que os militares do país haviam retomado o controle de mais de 30 cidades e vilarejos na região da capital, incluindo Chernigiv, desde que a Rússia anunciou que iria diminuir sua presença no norte da Ucrânia para centrar esforços nos combates no leste e no sul do país, onde já controla partes do território.

Um relatório da inteligência militar britânica informou que as tropas russas também haviam deixado o aeroporto de Hostomel, a noroeste da capital, onde havia combates desde o primeiro dia da invasão russa ao país.

A Rússia afirma que sua retirada de áreas próximas a Kiev é um gesto de boa vontade nas negociações de paz. Já a Ucrânia e seus aliados dizem que as forças russas foram forçadas a se reagrupar após sofrerem grandes perdas.

"No norte de nosso país, os invasores estão partindo. É lento, mas perceptível. Em alguns lugares, eles estão sendo expulsos com combates. Em outros lugares, eles estão abandonando as posições por iniciativa própria", disse Zelenski em um discurso em vídeo divulgado no sábado.

"Eles estão colocando minas em todo esse território. As casas têm minas, os equipamentos têm minas, mesmo corpos de pessoas mortas", disse, sem apresentar provas. O Ministério da Defesa da Rússia não respondeu a um pedido de comentário da agência de notícias Reuters sobre essas alegações.

Cadáveres pelas ruas

Enquanto os militares ucranianos retomam o controle das cidades, surgem evidências de possíveis assassinatos de civis nas áreas que estavam sob ocupação russa.

Repórteres da agência de notícias AFP identificaram pelo menos vinte cadáveres em uma única rua na cidade de Bucha, próxima a Kiev. "Todas essas pessoas foram alvejadas com tiros", disse o prefeito de Bucha, Anatoly Fedoruk. Ele afirmou que outros 280 cadáveres haviam sido enterrados em valas comuns na cidade.

Dezesseis dos vinte cadáveres localizados em Bucha estavam na calçada ou próximo à sarjeta. Um passaporte ucraniano aberto estava ao lado de um deles, que tinha as mãos amarradas com um pedaço de pano branco. Todas as vítimas estavam vestindo roupas civis.

Em outra cidade nas proximidades, autoridades ucranianas localizaram na sexta-feira o cadáver do conhecido fotojornalista Maks Levin, de 40 anos. Ele era ucraniano, tinha quatro filhos e estava desaparecido desde o dia 13 de março.

"Segundo informações preliminares, Maxim Levin estava desarmado e foi morto por militares das Forças Armadas da Rússia com dois tiros de pequenas armas de fogo", promotores disseram em um comunicado.

A organização Repórteres Sem Fronteiras disse que Levin foi o sexto jornalista morto na guerra na Ucrânia.

Deutsche Welle

Ucrânia retoma toda a região de Kiev, diz ministra




Militares russos estão deixando o norte da Ucrânia e concentram esforços nos combates no leste e no sul do país. Conforme as cidades são retomadas, surgem registros de civis assassinados.

As Forças Armadas da Ucrânia retomaram neste sábado (02/04) o controle de todo o território da região de Kiev, informou a ministra adjunta de Defesa do país, Hanna Malyar. "Toda a região de Kiev está libertada do invasor", escreveu ela em um post no Facebook.

Ao longo do dia, militares ucranianos avançaram para áreas ao norte de Kiev, repletas de escombros e tanques russos destruídos. O presidente da Ucrânia, Volodomir Zelenski, acusou os soldados russos de deixarem minas nos locais antes de se retirarem.

Okeksiy Arestovych, assessor de Zelenski, disse que os militares do país haviam retomado o controle de mais de 30 cidades e vilarejos na região da capital, incluindo Chernigiv, desde que a Rússia anunciou que iria diminuir sua presença no norte da Ucrânia para centrar esforços nos combates no leste e no sul do país, onde já controla partes do território.

Um relatório da inteligência militar britânica informou que as tropas russas também haviam deixado o aeroporto de Hostomel, a noroeste da capital, onde havia combates desde o primeiro dia da invasão russa ao país.

A Rússia afirma que sua retirada de áreas próximas a Kiev é um gesto de boa vontade nas negociações de paz. Já a Ucrânia e seus aliados dizem que as forças russas foram forçadas a se reagrupar após sofrerem grandes perdas.

"No norte de nosso país, os invasores estão partindo. É lento, mas perceptível. Em alguns lugares, eles estão sendo expulsos com combates. Em outros lugares, eles estão abandonando as posições por iniciativa própria", disse Zelenski em um discurso em vídeo divulgado no sábado.

"Eles estão colocando minas em todo esse território. As casas têm minas, os equipamentos têm minas, mesmo corpos de pessoas mortas", disse, sem apresentar provas. O Ministério da Defesa da Rússia não respondeu a um pedido de comentário da agência de notícias Reuters sobre essas alegações.

Cadáveres pelas ruas

Enquanto os militares ucranianos retomam o controle das cidades, surgem evidências de possíveis assassinatos de civis nas áreas que estavam sob ocupação russa.

Repórteres da agência de notícias AFP identificaram pelo menos vinte cadáveres em uma única rua na cidade de Bucha, próxima a Kiev. "Todas essas pessoas foram alvejadas com tiros", disse o prefeito de Bucha, Anatoly Fedoruk. Ele afirmou que outros 280 cadáveres haviam sido enterrados em valas comuns na cidade.

Dezesseis dos vinte cadáveres localizados em Bucha estavam na calçada ou próximo à sarjeta. Um passaporte ucraniano aberto estava ao lado de um deles, que tinha as mãos amarradas com um pedaço de pano branco. Todas as vítimas estavam vestindo roupas civis.

Em outra cidade nas proximidades, autoridades ucranianas localizaram na sexta-feira o cadáver do conhecido fotojornalista Maks Levin, de 40 anos. Ele era ucraniano, tinha quatro filhos e estava desaparecido desde o dia 13 de março.

"Segundo informações preliminares, Maxim Levin estava desarmado e foi morto por militares das Forças Armadas da Rússia com dois tiros de pequenas armas de fogo", promotores disseram em um comunicado.

A organização Repórteres Sem Fronteiras disse que Levin foi o sexto jornalista morto na guerra na Ucrânia.

Deutsche Welle

Com as minas terrestres de Putin, a guerra na Ucrânia não terá fim - mesmo quando a paz voltar




Putin não só minou a institucionalidade do país, tentando transformá-lo em um vizinho falido e vulnerável. Putin está minando o solo e seguirá matando, mesmo quando toda essa barbaridade deixar de chamar a atenção do mundo. 

Por Leonardo Coutinho  

Quando começa uma guerra convencional, esta em que se vê soldados de um lado e de outro trocando tiros entre si, é sinal de que a batalha já vinha sendo travada muito antes no campo político, diplomático, informacional, religioso e econômico, apenas para citar algumas das dimensões que antecedem a opção pela força bruta. Essas várias formas de lutas, que sempre são combinadas, minam de tal maneira o campo de combate que tornam quase irreversíveis os danos causados entre as partes envolvidas na contenda.

Mas há um tipo de movimento que vai além das sequelas no âmbito das relações internacionais e que segue matando anos a fio, mesmo depois da volta da paz. Há evidências consistentes de que a Rússia está usando minas terrestres na Ucrânia. Um tipo de arma proibida e traiçoeira, que mata e mutila.

A organização de defesa dos direitos humanos Human Rights Watch emitiu um alerta de que foram localizadas minas russas capazes de atingir quem estiver em um raio de 16 metros do aparato enterrado no solo. Minas terrestres são armas que são abandonadas nos campos de batalha e seguem matando de forma indiscriminada, de soldados a crianças que simplesmente têm o azar de pisar nelas.

Existe um tratado internacional, datado de 1997, que proíbe integralmente o uso de minas, a sua produção, armazenamento e venda. A Rússia jamais se uniu aos 164 signatários do contrato.

As minas desenterradas no solo ucraniano são uma perfeita tradução da covardia e maldade. Quando seus sensores são acionados por quem pisa nelas, uma carga explosiva ejeta uma cápsula no ar que sofre uma segunda explosão, espalhando fragmentos de metal que estraçalham o que está ao seu alcance.

A Human Rights Watch documentou o uso de minas de origem russa em mais de 30 países, incluindo na Síria, na Crimeia (2014-2015) e na Líbia – todos esses conflitos com o envolvimento das forças russas.

Essas minas não desapareceram com o fim da guerra. Elas seguem matando.

Bem do lado do Brasil, na Colômbia, está um exemplo aterrador. O Comitê da Cruz Vermelha denunciou que em 2020 foi registrado o maior número de vítimas de minas terrestres desde a assinatura dos acordos de paz de 2016 com as Farc, a guerrilha membro do Foro de São Paulo que quis implantar um regime comunista na Colômbia e por mais de seis décadas tocou o terror no país, provocando a morte e o deslocamento forçado de milhões de pessoas.

A Cruz Vermelha reportou nada menos que 486 casos, mais de uma explosão por dia. O saldo da tragédia foi de 392 mutilados e 50 mortos. Quarenta deles eram menores de idade.

As minas pessoais na Colômbia são resquícios da guerrilha, mas também são parte de uma cruel atualidade. Os traficantes têm quem venda esse tipo de arma para eles. Usam minas para proteger as áreas de cultivo de folhas de coca. Não há muitos provedores desse tipo de arma no mundo. E ganha uma matrioska quem adivinhar de onde elas podem vir por meio do mercado negro de armas.

A guerrilha da Colômbia foi encerrada em meio a um processo com muita festa, mas poucos resultados. As Farc chegaram à política formal ao mesmo tempo em que suas “dissidências” seguiram cuidando dos negócios do crime. O tráfico de cocaína é o principal deles.

A “paz na Colômbia” é tão absurdamente sem sentido que, em 2021, a Cruz Vermelha contabilizou 53 mil pessoas que foram obrigadas a se mudar de suas vilas e cidades para fugir dos conflitos e das minas. Um aumento de 158% em relação a 2020.

Em meio século de conflito armado, cerca de 120 mil pessoas desapareceram na Colômbia, correspondendo a quase quatro vezes mais que o registrado durante as ditaduras da Argentina, Brasil e Chile. Mas as Farc sempre foram as queridinhas da companheirada. Membros do Foro de São Paulo, que sempre as colocou ao lado de partidos como o PT e o PCdoB.

A Cruz Vermelha soltou um alerta de que 2022 pode ser ainda mais sangrento. Apenas entre janeiro e fevereiro deste ano, 110 pessoas já foram atingidas por essas minas.

Um segundo relatório, produzido pelas autoridades de segurança de Estado, mostra que entre 1988 e 2012, mais de 12 mil colombianos foram atingidos por minas e 2.119 morreram. De 2012 a 2021, ao todo 2.686 militares morreram ou foram mutilados. Vítimas, em tempos de paz.

Na Ucrânia, Putin não só minou a institucionalidade do país, tentando transformá-lo em um vizinho falido e vulnerável. Putin está minando o solo e seguirá matando, mesmo quando toda essa barbaridade deixar de chamar a atenção do mundo.

Gazeta do Povo (PR)

Alemanha quer usar reservas ambientais – para o Brasil, propõe “floresta em pé”




Por Geraldo Luís Lino 

Assim como a União Europeia (UE), a Alemanha também quer promover uma “flexibilização” das leis referentes às áreas de proteção ambiental, devido ao impacto da guerra na Ucrânia sobre as importações agrícolas provenientes da Ucrânia e da Rússia. A exemplo do bloco, a intenção é utilizar as Áreas de Interesse Ecológico (EFAs, sigla em inglês), para cultivos de favas e ervilhas.

Em entrevista à agência Bloomberg (11/03/2022), o ministro da Agricultura Cem Oezdemir justificou: “A guerra de Putin contra a Ucrânia nos mostra os pontos vulneráveis do nosso sistema agrícola. Portanto, as nossas medidas visam a proporcionar uma assistência rápida e a tornar a agricultura em conjunto menos vulnerável às crises.”

Na Alemanha, as EFAs somam 1,2 milhão de hectares (12 mil km2), área que representa pouco mais de um quarto do estado do Rio de Janeiro.

O ministério também anunciou medidas para agilizar a burocracia em programas que promovem o uso de energias renováveis na agricultura.

Ao mesmo tempo, em uma tocante demonstração de suas preocupações ambientais, os alemães propõem para o Brasil uma agenda bem diferente, a da “floresta em pé”, eufemismo para a insidiosa pauta do “desmatamento zero”, que, alegadamente, não coloque em risco a estabilidade dos biomas Amazônia e Cerrado e, portanto, não represente uma imaginária ameaça à dinâmica climática global.

Basicamente, esta foi a mensagem transmitida pela maioria dos debatedores germânicos que participaram do 2º Colóquio Brasil-Alemanha sobre Política e Direito Ambiental, em 21 de março. Evento promovido pelo Senado Federal em parceria com o Fórum Euro-Brasileiro sobre Democracia e o Observatório do Meio Ambiente e das Mudanças Climáticas do Poder Judiciário, vinculado ao Conselho Nacional de Justiça.

O recado geral, compartilhado pelos debatedores brasileiros, foi que o Brasil precisa aproveitar a preservação ambiental como um ativo econômico.

A fundadora e presidente da ONG Earth 3000, Maritta von Bieberstein Koch-Weser, afirmou que a “bioeconomia da floresta em pé” proporciona à floresta um valor mais vantajoso que o desmatamento:

    A floresta precisa ser competitiva, ou seja, a floresta em pé precisa ter mais valor, e precisa oferecer valores sustentáveis, do que quaisquer lucros gerados por meio do desmatamento. (…) Ao mesmo tempo, quando nós olhamos para a riqueza biológica, climática, hídrica, nós temos de pensar também em todas as propriedades intelectuais, na herança intelectual, em todos os conhecimentos indígenas de milhares de anos. Temos de pensar também em todos os conhecimentos tradicionais dos caboclos. Isso é um aspecto muito importante quando nós queremos precificar a floresta em pé.

Pelo menos, ela reconheceu que nem só de preservação podem viver os amazônidas: “O investimento no desenvolvimento econômico da região é, desproporcionalmente, pouco. As populações tradicionais indígenas vivem longe, numa região enorme e têm enormes problemas de transporte, energia e infraestrutura.”

Já o físico, biólogo e ex-parlamentar Ernst-Ulrich von Weizsäcker destacou o aumento das queimadas na Amazônia e, também, na própria Alemanha e em países como a Austrália e a China. E também alertou para a elevação do nível do mar: “Imaginem o seguinte: a água do mar sobe três metros. Nós teríamos, em consequência disso, um problema de refugiados que ultrapassaria em grandeza todos os problemas de refugiados que tivemos nos últimos 100 anos. Nós precisamos de soluções urgentes.”

Copresidente do arquimalthusiano Clube de Roma, Weizsäcker insistiu na tecla do alarmismo ambiental, afirmando que nada menos que um milhão de espécies animais e vegetais estão em extinção atualmente e o principal responsável por tal tragédia é o agronegócio: “Quais são as causas? Perdão, nós somos as causas. Nós, homens, somos as causas. (…) A expansão da agricultura de grande porte é o maior inimigo da natureza. Só que ninguém quer saber essa verdade, ninguém quer ouvir essa verdade, mas ela é uma realidade.”

Por ironia, Weizsäcker é filho do físico e filósofo Carl Friedrich von Weiszäcker (1912-2007), um dos grandes cientistas do século XX, que tinha uma visão do mundo muito mais arejada e realista que a de seu rebento.

Por sua vez, a eurodeputada Anna Cavazzini, presidente do Comitê sobre Mercado Interno e Proteção do Consumidor do Parlamento Europeu, enfatizou a política de “neutralidade em dióxido de carbono” do bloco europeu:

E nós estamos agora trabalhando para colocar em prática esse New Green Deal. Nós temos muitos projetos de lei para eficiência energética, energias renováveis, e isso é muito atual agora com a guerra russa. Nós temos de proteger o clima, mas, por outro lado, nós temos de ser independentes das importações de combustíveis fósseis, e o meu país, a Alemanha, depende em 50% das importações de combustíveis fósseis da Rússia.

Ademais, advertiu sobre a política europeia de priorizar o fornecimento de produtos que não envolvam desmatamento, o que, para ela, pode ajudar o Brasil a priorizar uma política agrária sustentável sem desmatamento:

    As empresas europeias ou operadores, como consta na lei, que importam produtos, e isso, no momento, são seis produtos, que é a cadeia de produção de carne, cacau, café, óleo de palma, soja e madeira, se esses produtos foram importados, as empresas precisam fazer uma avaliação de diligência e precisam comprovar que esses produtos não são provenientes de áreas desmatadas. E isso é bastante inovador; não houve no passado. Uma empresa que não consegue provar isso não pode vender o produto no mercado interno europeu.

Semanas atrás, Cavazzini já havia se manifestado “preocupada” com a aprovação pelo Congresso Nacional do texto-base do Projeto de Lei (PL) 6.299/2002, que altera a atual Lei de Agrotóxicos (MSIa Informa, 18/03/2022).

Por sua vez, o presidente da Comissão de Meio Ambiente do Senado, Jaques Wagner (PT-BA), que convocou o evento, preferiu observar a necessidade de punições para os proprietários que prejudiquem os “povos originários”, contaminem um lençol freático ou derrubem a floresta:

    Nós queremos estabelecer o modus vivendi de como produzir sem degradar. Porque senão, me permitam, será uma produção imediatista. Permitam-me até dizer: uma produção burra, porque ela não será longeva. Quantos milhões de hectares nós temos de terra degradada, que poderiam ser recuperados, para não se continuar com a cantilena de que precisa desmatar, desmatar e desmatar?

A diretora do Instituto de Manejo e Certificação Agrícola e Florestal (Imaflora), Marina Piatto, reforçou a cantilena, afirmando que o Código Florestal não é suficiente para conter o desmatamento e promover uma agricultura mais moderna:

    A indústria da carne bovina, os produtores de gado, assim como os produtores de soja, e seus compradores, vêm sendo chamados a agir há mais de uma década por sua parcela de responsabilidade no desmatamento da Amazônia e do Cerrado, e não só pelo desmatamento, mas também pelo trabalho análogo à escravidão e pela invasão de terras públicas.

É curioso – e perigoso – que tantos brasileiros se deixem iludir por esse discurso hipócrita e oportunista dos europeus “amantes da natureza”, que defendem a produção na Europa e a proteção ambiental no Brasil. É mais que hora de abrir os olhos sobre a agenda pseudoambientalista de interesses muito mal disfarçados.

MSIa

Maioria prefere democracia com toda a sua bagunça a seguir China num novo tipo de totalitarismo’, diz Niall Ferguson




‘Minha esperança é que a democracia prevaleça’, diz Niall Ferguson

Por Julia Braun

Com a invasão russa à Ucrânia e a forte reação dos Estados Unidos e da Europa às ações de Vladimir Putin, observam-se importantes e decisivas mudanças na geopolítica global. Mas, para o historiador britânico Niall Ferguson, a democracia deve prevalecer como modelo dominante em todo o mundo.

“A maioria das pessoas no mundo, tendo a possibilidade de escolher, preferiria aceitar a democracia com toda a sua bagunça, complexidade e decepções do que seguir a China rumo a um novo tipo de totalitarismo”, afirmou o especialista em entrevista à BBC News Brasil.

“Por isso, minha esperança é que a democracia prevaleça.”

Segundo Ferguson, que é pesquisador da Universidade de Stanford, na Califórnia, e já foi professor em Harvard, Oxford e na London School of Economics, as democracias resistiram muito bem até o momento porque são “economicamente, tecnologicamente e militarmente dominantes”.

“Há países que podem optar pelo modelo chinês, mas eles precisam estar cientes de que isso implica um controle muito mais drástico do indivíduo pelo governo”, diz o autor de 16 livros, dos quais seis se tornaram best-sellers.

Na entrevista concedida em 24 de março, o historiador que será um dos palestrantes especiais do Fórum da Liberdade 2022, tratou também das muitas possibilidades para o futuro do conflito na Ucrânia que, segundo ele, pode durar anos até que o país seja reduzido a escombros.

“Meu medo é que essa guerra se estenda primeiro por semanas, depois por meses e depois por anos. E no final, a Ucrânia será reduzida a escombros e se transformará em um país independente que foi amplamente despovoado”, avalia.

De acordo com Ferguson, o mundo deveria estar preocupado com “o perigo da guerra na Ucrânia se transformar em um confronto maior e, potencialmente, em uma guerra nuclear”.

À BBC News Brasil, o historiador disse ainda esperar um futuro brilhante para o Brasil, desde que o país consiga superar o choque da pandemia, impulsione reformas e se mantenha como economia de mercado.

“O Brasil é a economia mais importante da América Latina e um país que nunca se deve subestimar por seus recursos naturais, sua população e seu ambiente de negócios cada vez mais favorável ao mercado”, diz.

Leia a seguir os principais trechos da entrevista de Niall Ferguson à BBC News Brasil.

BBC News Brasil – Estamos realizando esta entrevista no dia 24 de março, ou seja, um mês depois do início da guerra na Ucrânia. O senhor acredita que ainda há espaço para uma resolução diplomática?

Niall Ferguson – Tem que haver. As guerras geralmente terminam quando há um impasse que leva a negociações ou quando um lado é derrotado. No momento, não há sinal de uma vitória decisiva ou de um impasse definitivo. Creio que provavelmente ainda teremos mais algumas semanas de guerra pela frente.

Mas estamos chegando a um ponto em que será muito difícil para a Rússia manter sua iniciativa, pois suas linhas de suprimento estão sobrecarregadas, o país sofreu muitas baixas importantes para uma guerra tão curta e o ritmo de seus avanços claramente diminuiu. É difícil ver Kiev caindo tão cedo. Portanto, espero que negociações sérias comecem quando os russos realmente não puderem avançar mais.

E já podemos ver os contornos de um acordo em alguns aspectos. Está claro que a Ucrânia não vai se tornar um membro da OTAN e será um país neutro, mas com garantias de segurança de algumas potências externas. A parte difícil está na divisão territorial, porque a Ucrânia teve um desempenho superior até agora e há um sentimento de que o país não deveria fazer concessões reconhecendo a anexação da Crimeia de 2014 ou cedendo [as províncias separatistas de] Donetsk e Luhansk. E esse é o problema com as guerras: quanto mais duram, mais difícil se torna chegar a um acordo, porque muitas vidas foram perdidas e as apostas aumentaram.

Me preocupo que tenhamos perdido a oportunidade de acabar com essa guerra há duas semanas e que tudo só tenha ficado mais difícil desde então. Também tenho sentido falta da presença dos Estados Unidos nas negociações. Creio que será difícil chegar a qualquer tipo de cessar-fogo ou acordo de paz até que os EUA estejam diretamente envolvidos.

BBC News Brasil – Como o senhor acredita que os historiadores no futuro verão o momento atual? Como os principais personagens dessa guerra serão retratados nos livros de história?

Ferguson – Os futuros historiadores podem dizer foi assim que a Terceira Guerra Mundial começou. Em outras palavras, eles podem comparar a situação atual com a de 1939 na Europa, quando a Polônia foi invadida após receber promessas de apoio das potências ocidentais que provaram ser praticamente inúteis. Ou então dirão que esta foi a primeira ‘guerra quente’ de uma segunda Guerra Fria. Eu tendo a acreditar mais nessa segunda analogia, pois creio que já estamos na vivendo a segunda Guerra Fria. Acho que a Ucrânia é hoje o que a Coreia foi para a primeira Guerra Fria.

Mas há muitas outras analogias que podem ser mais apropriadas. A verdade é que não se pode escrever a história com antecedência, tudo o que se pode fazer é oferecer cenários com mais ou menos plausibilidade e tentar atrair probabilidades. E o que acontece a seguir dependerá muito da China, assim como dos Estados Unidos

Meu medo – e esta é a última observação que farei – é que essa guerra se estenda primeiro por semanas, depois por meses e depois por anos. E no final, a Ucrânia será reduzida a escombros e se transformará em um país independente que foi amplamente despovoado.

BBC News Brasil – Como esse conflito afeta o confronto entre EUA e China e a posição de Pequim em relação a Taiwan?

Ferguson – Do ponto de vista do governo [americano de Joe] Biden, a China é mais importante do que a Rússia em ordem de magnitude. Creio que há uma crença em Washington de que se a situação atual na Ucrânia acabar mal para [o presidente russo Vladimir] Putin, isso impedirá a China de tentar assumir o controle de Taiwan.

Há relatos de que a China planejava invadir Taiwan já em outubro deste ano e isso provavelmente não ocorrerá mais depois dos últimos acontecimentos. Mas não acho que o país vá desistir da ideia, porque Xi Jinping fala sobre isso há anos e quer inclusive estender seu mandato para dar continuidade ao plano.

Mas este é o momento da verdade para a China, pois se Xi Jinping está mesmo decidido a assumir o controle de Taiwan não pode demorar muito. Nos próximos anos, o Ocidente vai aprender muitas lições com a Ucrânia e vai armar Taiwan até os dentes para impedir uma invasão da China.

BBC News Brasil – E o resto do mundo? Haverá uma mudança nas forças geopolíticas após o conflito?

Ferguson – Já estamos vendo uma tremenda mudança ocorrer com a demonstração de força e unidade do Ocidente. A importância da Otan também foi realçada, pois afinal de contas nada do que estamos vendo hoje aconteceria se a Ucrânia já estivesse na aliança. A outra grande transformação que observo é a aproximação entre Rússia e China. Se eu estiver certo, estamos vivendo uma segunda Guerra Fria – e está bem claro quem está do lado de quem no Hemisfério Norte.

Mas ainda há algumas alguns quebra-cabeças na região sul. No Oriente Médio, o Irã está do lado da Rússia e da China, enquanto os Estados árabes e Israel se mostram desapontados com a política do governo Biden de tentar ressuscitar o acordo nuclear iraniano. Já a Índia, que deveria ser uma aliada americana, não está interessada em tomar partido contra a Rússia. E cada vez mais países da Ásia estão se perguntando: importa mais a uma aliança com os EUA em prol da segurança nacional ou uma aliança com a China pelo bem da economia? Essa é uma questão para o Brasil e muitos outros países da América Latina também.

Felizmente, o Brasil está longe do conflito e pode adotar uma abordagem mais relaxada, evitando escolher lados. Há inclusive vantagens, pois o aumento dos preços das commodities pode ser uma boa notícia economicamente. Mas a desvantagem é que a inflação não para de subir em todo o mundo e pode ser uma dor de cabeça.

BBC News Brasil – No início dos anos 2000 falava-se muito sobre a ascensão econômica de países como Brasil, China, Rússia, Indonésia e outros. Na sua opinião, essa ainda é uma possibilidade?

Ferguson – Sempre fui um pouco cético em relação aos Brics e as teorias de que Brasil, Rússia, Índia e China eram as economias do futuro. Quando adicionaram a África do Sul foi ainda mais difícil de acreditar. Meu principal argumento é que há diferenças enormes entre a China e os outros. O crescimento chinês pôde ser sustentado e envolveu a criação da maior economia industrial do mundo. Estamos vendo uma desaceleração causada por fatores demográficos e pelo peso da dívida, mas ainda é concebível que a China possa ser a maior economia do mundo nos próximos 10 ou 20 anos.

A situação dos demais Brics sempre foi diferente. A Índia tem grandes problemas com sua população grande, porém pouco educada, e provavelmente não se tornará uma potência manufatureira como a China se tornou. Já a Rússia preferiu ressuscitar seu império por meio da força militar e se fechou para a economia global como resultado dos eventos das últimas quatro semanas.

A situação do Brasil sempre foi distinta. O Brasil é a economia mais importante da América Latina e um país que nunca se deve subestimar por seus recursos naturais, sua população e seu ambiente de negócios cada vez mais favorável ao mercado.

O Brasil de hoje é muito diferente daquele da minha infância nos anos 1960 e tem um caminho relativamente brilhante pela frente. Estou otimista sobre os rumos do Brasil caso o país consiga superar o choque da pandemia, aproveitar algumas das reformas que estavam sendo feitas no início do mandato do presidente Bolsonaro e lembrar à sua população que tem um futuro excepcional como economia de mercado.

BBC News Brasil – O pensamento Ocidental permanecerá dominante nas próximas décadas?

Ferguson – Uma das grandes lições que a História nos ensinou é que existem alternativas à democracia, ao livre mercado e ao Estado de direito. O único problema é que elas não são boas alternativas. Podemos experimentá-las, inclusive mais de uma vez, mas o resultado será sempre o mesmo. Uma sociedade que restringe a liberdade será uma sociedade menos inovadora do que uma sociedade que permite a liberdade.

Não estou dizendo que o modelo americano seja perfeito. Há muitas coisas erradas nos Estados Unidos – às vezes olho para nossa política e nossos debates culturais e me desespero, porque usamos nossa liberdade para dizer coisas sem sentido. Mas sempre vou concordar com Winston Churchill, que disse que a democracia era o pior dos sistemas políticos, à exceção de todos os demais.

BBC News Brasil – Mas veremos a democracia prevalecer nos próximos anos ou novos regimes autoritários e antidemocráticos ganharão força?

Ferguson – As democracias resistiram muito bem até agora. Periodicamente ouvimos dizer que elas estão em recessão, mas não é como se o autoritarismo tivesse ganhado muito espaço desde a década de 1990. Houve uma enorme onda de democratização após a queda da União Soviética. Mesmo que a Rússia e algum países do antigo bloco soviético tenham recuado, outros se saíram tremendamente bem, particularmente aqueles como os Países Bálticos que entraram na União Europeia.

Se olharmos para o mundo com cuidado, veremos que as democracias são economicamente, tecnologicamente e militarmente dominantes e que as opções autoritárias são muito menos atraentes. Há países que podem optar pelo modelo chinês, mas eles precisam estar cientes de que isso implica um controle muito mais drástico do indivíduo pelo governo.

Uma das razões pelas quais os chineses conseguiram bloquear e controlar a propagação da covid foi justamente o poder draconiano que o Partido Comunista tem sobre a vida cotidiana. A China tem um sistema de vigilância que invade a liberdade individual de maneiras que nós, nos países ocidentais, consideraríamos intoleráveis. Portanto, não creio que existam muitos países que estejam realmente ansiosos para aderir a um sistema de governo de partido único e vigilância total.

A maioria das pessoas no mundo, tendo a possibilidade de escolher, preferiria aceitar a democracia com toda a sua bagunça, complexidade e decepções do que seguir a China rumo a um novo tipo de totalitarismo. Por isso, minha esperança é que a democracia prevaleça.

BBC News Brasil – Na sua opinião, onde a América Latina e o Brasil se encaixam nesse mundo dividido entre Oriente e Ocidente?

Ferguson – Hoje em dia são as perguntas fáceis que as pessoas parecem achar mais difíceis. É claro que a América Latina faz parte do Ocidente. Assim como a América do Norte, o continente foi colonizado por europeus e suas instituições foram essencialmente importadas da Europa Ocidental. Apesar das instituições de Portugal e Espanha serem diferentes daquelas da Inglaterra ou França, o ponto de origem é muito semelhante.

As Américas como um todo são, em muitos aspectos, a parte mais dinâmica do que chamamos de mundo Ocidental. E estou relativamente otimista sobre o que pode ser alcançado na América Latina nas próximas décadas desde que as pessoas não se esqueçam das lições da História e não apostem mais uma vez em experimentos socialistas que sempre fracassam economicamente. Como economia de mercado, a América Latina tem muito a seu favor.

Contanto que se invista na educação e se proporcione às pessoas que nascem na pobreza a chance de sair dela, o futuro de um país como o Brasil deve ser muito brilhante. Considerando minhas chances de uma vida pacífica e próspera, eu certamente preferiria nascer hoje no Brasil do que no Leste Europeu.

BBC News Brasil – Segundo o Banco Mundial, a pandemia ampliou a desigualdade de renda mundial. O senhor disse no passado que a crise financeira de 2008 ajudou a abrir os olhos das pessoas para o tema. O que será preciso agora para que a redução da desigualdade volte a ser importante para a população e para os governos?

Ferguson – Acho que é justo dizer que a desigualdade subiu na hierarquia de relevância com a pandemia. Em alguns países, houve uma mudança em direção à esquerda na política. Foi o que aconteceu nos Estados Unidos em 2020 – a covid-19 foi a razão pela qual Donald Trump não foi reeleito. E isso provavelmente vai acontecer no Brasil também.

Portanto, talvez a principal consequência da pandemia tenha sido deslocar a política um pouco mais para a esquerda e, dessa forma, aumenta-se a probabilidade de políticas fiscais mais redistributivas.

BBC News Brasil – O senhor afirmou no passado que muitos dos erros que levaram ao agravamento da pandemia não podem ser inteiramente atribuídos a presidentes ou primeiros-ministros. Mas é difícil para o público não culpar aqueles que estão no topo da cadeia de comando por eventos como a pandemia. Na sua opinião, como a atual crise de saúde pode afetar as eleições?

Ferguson – Em 2020, quando a pandemia se espalhou pelo mundo, foi muito tentador culpar o presidente [americano] Donald Trump, o presidente Jair Bolsonaro, o primeiro-ministro [britânico] Boris Johnson ou Narendra Modi da Índia pelas altas taxas de mortalidade nos países em que governavam. E muita gente fez isso. Esses líderes cometeram todo o tipo de erro, e não quero subestimar isso – às vezes parecia que havia uma competição para ver qual deles poderia ser o mais estúpido em relação à saúde pública.

Mas se analisarmos com cuidado, vemos que houve mortalidade alta em muitos países que não tinham líderes populistas no poder. A realidade é que o fracasso de vários países ocidentais, do Hemisfério Norte e Sul, teve maior relação com as falhas cometidas por aqueles [que ocupam cargos] na burocracia da saúde pública do que com decisões tomadas pelos presidentes.

Como tudo isso vai influenciar no Brasil é difícil de prever. Neste momento, meus amigos brasileiros parecem esperar a volta de Lula à Presidência e a derrota de Bolsonaro, mas não sou especialista em política brasileira. Direi apenas que, nos Estados Unidos, certamente foi a covid-19 que garantiu que Donald Trump não cumprisse um segundo mandato. Ele teria sido reeleito se não fosse a pandemia.

BBC News Brasil – Depois de ler seu livro mais recente sobre desastres globais (Catástrofe, da Editora Planeta), algumas pessoas o chamaram de pessimista. No momento atual, considerando tudo o que vivemos nos últimos anos e as previsões para o futuro, o senhor se sente pessimista?

Ferguson – Não creio que ‘Catástrofe’ seja um livro pessimista, pois inclusive ressalto que a possibilidade do mundo acabar é muito pequena. Os desastres que temos que enfrentar – e teremos que enfrentar novos desastres no futuro – não vão matar grandes proporções da humanidade ou acabar com nossa existência na Terra.

Mas posso pensar em algumas razões para preocupação no momento, entre elas o perigo da guerra na Ucrânia se transformar em um confronto maior e, potencialmente, em uma guerra nuclear. Posso pensar ainda em um cenário de nova pandemia, com uma doença ainda pior e mais mortal. Mas a mensagem do livro é que se estivermos cientes dos riscos, poderemos desenvolver tecnologia e conhecimento científico para lidar com eles.

O verdadeiro inimigo do sucesso é o fatalismo. Posso estar ciente dos riscos que enfrentamos, mas não sou fatalista. Sempre podemos agir para reduzir nossa vulnerabilidade e melhorar as chances de uma vida longa, próspera e feliz.

BBC Brasil / Daynews

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