Ex-chefe do BC que recebia R$ 760 mil por mês de Vorcaro
Sérgio Quintella
O Globo
O ex-banqueiro Daniel Vorcaro simulou contratos de prestação de serviços fraudulentos para justificar o pagamento de propinas a Belline Santana, ex-chefe do Departamento de Supervisão Bancária do Banco Central, segundo relatório da Polícia Federal (PF), obtido pelo O Globo.
Santana teria criado um grupo de WhatsApp com Vorcaro para prestar uma espécie de consultoria especializada ao banqueiro. A ligação de ambos começou em 2023 e durou até o fim de 2025, quando a relação de ambos foi tornada pública.
SIGILO RETIRADO – Na noite de quinta-feira (10), o ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), retirou o sigilo dessa e de outras investigações relacionadas ao Banco Master, após solicitação do presidente da corte, Edson Fachin.
Nas conversas extraídas do celular de Vorcaro pela PF, o servidor afastado e o empresário trocam diversas mensagens. Inicialmente, os diálogos eram mais simples e rápidos. “Bom dia. Preciso falar com você”, disse o ex-diretor ao então dono do Master. Na sequência, os investigadores observaram registros de ligações por telefone. Porém, com o passar do tempo, as relações foram se tornando maiores e as conversas foram aumentando, ao ponto de Belline criar o grupo com o “chefe”.
A atuação do servidor, ainda segundo os investigadores, era de aconselhamento, revisão de documentos e de resoluções de questões que seriam de sua alçada. Em abril de 2024, Santana agendou uma reunião presencial com Vorcaro para tratar de “visão prospectiva e estratégica”. A escolha do local ficou a cargo do banqueiro, podendo ser na sede do BC em Brasília ou no Banco Master, na mesma localidade.
ENVIO DE MINUTA – Em mensagem enviada em 15 de abril de 2025, Santana pergunta a Vorcaro se ele conseguiu “enviar a minuta”. Como resposta, o banqueiro diz que “sim” e que “estamos mexendo números”. Na sequência, o servidor responde: “Ok, estou por aqui”. Às 16h daquele dia, Daniel Vorcaro envia um documento a Santana, intitulado “Ofício Banco Master ao diretor de Organização do BC”.
Para a Polícia Federal, a relação de ambos foi aumentando, ao ponto de, em outubro de 2025, na ocasião em que Vorcaro tentava negociar o Banco Master para escapar de uma liquidação que ocorreria no mês seguinte, Santana informar que criara um grupo para “facilitar nossa interlocução”.
“Muitas vezes, a comunicação é aprofundada com chamadas de voz entre os participantes. Porém, as mensagens de texto associadas, via de regra, indicam a atuação conjunta na defesa de interesses do Banco Master”, diz o relatório da PF sobre a atuação de ambos.
PAGAMENTOS MILIONÁRIOS – A forma como Belline Santana recebia seus “vencimentos” do Banco Master também ocorria por meio de ilegalidades, segundo a PF. Em outubro de 2024, o servidor recebeu R$ 760 mil após simular a prestação de serviços para uma entidade de fachada.
“Para “esquentar” os pagamentos, simulam uma prestação de serviços, em que Belline é contratado pela Varajo Consultores para compor o grupo de desenvolvimento, voltado a desenvolver “estudo técnico, econômico e social focado na inserção de jovens no mercado financeiro”, diz o relatório da Polícia Federal. Outros pagamentos, de R$ 1 milhão, R$ 750 mil, entre outros, também constam como executados nas planilhas apreendidas pelos investigadores.
Além de receber propina em dinheiro, o ex-servidor do Banco Central também era agraciado com outras formas de remuneração, como o custeio de viagens ao exterior. Em setembro do ano passado, ele e a mulher embarcaram para Paris, com tudo pago pelo Master, incluindo jantares em restaurantes caros.
EXPLICAÇÕES – Quando o escândalo do Master tornou-se público e Belline foi implicado juntamente com Daniel Vorcaro, o ex-servidor foi chamado para prestar esclarecimentos no BC. No início deste ano, ele esteve na Procuradoria-Geral do Banco Central e tentou se explicar. Afirmou que os valores recebidos a partir de 2023 foram oriundos da elaboração de projetos sociais, mas que não sabia que os montantes vieram de um banco, no caso o Master.
Em março deste ano, no mesmo processo que determinou a prisão de Vorcaro, a Justiça estabeleceu diversas medidas cautelares contra Belline Santana: Proibição de acesso às dependências do Banco Central; proibição de manter contato com as pessoas investigadas na Operação Compliance Zero; proibição de se ausentar da comarca onde reside; suspensão do exercício de função pública exercida junto ao Banco Central e monitoração eletrônica. Procurado por meio de seus advogados, Belline não respondeu.