sexta-feira, fevereiro 06, 2026

Tarcísio e os “poliças” nas salas de aula

 

Tarcísio e os “poliças”

nas salas de aula

Tarcísio diz que não será candidato a presidente neste ano para tristeza de Gilberto Kassab e da elite que, entre outras coisas, não depende de serviços públicos essenciais como  educação. Para a maioria da população, porém, a julgar pela gestão do governador no ensino público paulista, uma presidência do “CEO” de São Paulo teria grande chance de agravar nossos atuais problemas e de criar outros pela adoção de falsas soluções. 

São Paulo, o estado que concentra 30% do PIB brasileiro, ocupa a medíocre sexta posição no ranking nacional no ensino fundamental (primeiros anos e finais do ensino fundamental) e um vergonhoso oitavo lugar no Ensino Médio de acordo com os números do Ideb de 2023, divulgados em 2024 (aguardamos ansiosamente os mais recentes). No período de 2019 a 2023, a qualidade da educação caiu em todos os níveis de ensino.

Mesmo que a gestão de Tarcísio tenha chegado já com a curva descendente (aliás, com Jair Bolsonaro no governo federal), as soluções propostas a partir daí foram no sentido contrário ao recomendado pelos especialistas, ou seja, a valorização dos professores, o aumento de investimento na educação básica e na formação dos profissionais e a construção de uma relação de confiança e inclusão com os alunos e seus familiares. 

Tarcísio reduziu a autonomia dos professores em sala de aula, trocou o livro didático pelas plataformas digitais e a avaliação conjunta do ensino por um sistema de denúncias e punições que aponta unicamente para os professores e em nada contribui para a produtividade nas salas de aula. Como “inovação", trouxe um programa cívico-militar que interfere com a sutileza do elefante na sala em todas as relações escolares - da direção aos alunos. 

Ninguém sabe exatamente quem são esses “monitores”, como são chamados os policiais militares aposentados que não realizam nenhuma prova para obter o cargo que lhes garante remuneração superior à dos professores e é contestada pela Procuradoria Geral da República. Os editais para preencher as vagas nas 100 escolas que entraram no programa (das 302 consultadas) falam em provas de títulos - em uma comparação em que entram apenas PMs - e entrevistas (subjetivas). Um caminho livre para o cabide de empregos. 

A falta de preparo dos monitores militares foi flagrada de maneira quase anedótica pela TV Vanguarda, afiliada da Rede Globo no Vale do Paraíba, em São Paulo, como acho que quase todo mundo viu. No vídeo gravado no primeiro dia de aula de uma escola estadual em Caçapava, enquanto um militar ensinava a “ordem unida” (posturas militares) aos alunos, o outro escrevia três palavras na lousa - duas delas com erros de ortografia.

 Vamos lembrar que estamos em um ambiente escolar, em que aprender português de acordo com a gramática faz parte das habilidades esperadas, enquanto o que foi ensinado pelos monitores - ordens de sentido, continência, descansar - são de duvidosa utilidade para dizer o mínimo, dada a sua total inadequação à sala de aula de uma escola.

Os monitores - pelo menos um em cada escola de acordo com a lei estadual que criou programa - têm entre suas atividades a organização escolar, a segurança e o desempenho de atividades extracurriculares, o que significa interferência na autonomia pedagógica e a imposição de um modelo formativo de corporação militar aos estudantes, oposto ao ambiente de acolhimento, compreensão e inclusão adequado ao aprendizado.

Um problema que se torna ainda maior quando a corporação em questão não tem obtido bons resultados nem para formar seus próprios membros como demonstram os altos índices de violência policial e de problemas de saúde mental entre os policiais militares, que  vêm desde o treinamento.

Educar crianças e adolescentes em um país profundamente desigual, racista, com uma herança de fome, analfabetismo e privação, o que torna ainda mais complexos os novos desafios como a exposição nas redes sociais e a crise de comunicação intergeracional, não permite visões estreitas e ultrapassadas, nem o amadorismo e o risco de colocar nas salas de aula pessoas sem formação adequada ou mesmo com problemas sérios de conduta.  

O governador de São Paulo parece não ter repertório para além do porrete diante de problemas complexos, como demonstra também a sua gestão da segurança pública. Também ali, o governador continua tapando os ouvidos para os que pesquisam e tem propostas consistentes de políticas públicas capazes de transformar a realidade, enquanto a caserna e a Faria Lima ditam oportunisticamente os rumos de sua gestão.

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