Prefeitos não “representam nada”? Um erro político que pode custar caro
A declaração de ACM Neto ainda repercute no cenário baiano. Ao comentar o fato de que o governador Jerônimo Rodrigues conta com o apoio de mais de 300 prefeitos, o ex-prefeito de Salvador e pré-candidato ao Governo da Bahia, ACM Neto, afirmou que “quem vence eleição é o povo” e que apoio institucional “não representa nada”.
A frase, embora tente reforçar o protagonismo do eleitor, acabou soando como desprezo aos prefeitos — lideranças que, goste-se ou não, são peças fundamentais no tabuleiro político do interior.
A força real dos prefeitos
É evidente que eleição se ganha no voto popular. Mas ignorar o peso político de um prefeito é desconhecer — ou minimizar — a realidade das cidades do interior da Bahia. Em muitos municípios, o prefeito é a principal referência política, administrativa e social.
É ele quem está mais próximo da população, quem acompanha as demandas da saúde, da educação, da infraestrutura. É ele quem busca recursos junto ao governo estadual e federal. É ele quem articula convênios, obras, investimentos. Na hora da necessidade, é o prefeito que o cidadão procura.
No interior, a maioria dos eleitores acompanha a orientação das lideranças locais. Isso não é imposição, é confiança construída no dia a dia. O apoio de um prefeito não transfere votos automaticamente, mas influencia, organiza palanques, mobiliza militância e estrutura campanhas. Dizer que isso “não representa nada” é, no mínimo, politicamente imprudente.
O exemplo de Jeremoabo
Tomemos como exemplo Jeremoabo. É inegável que quem consegue aglomerar maior volume de votos e transferir capital político em favor de seus candidatos são as principais lideranças locais. O atual prefeito Tista de Deda e o ex-prefeito Deri do Paloma, cada um com seu grupo de simpatizantes, têm influência real sobre parcelas significativas do eleitorado.
Negar esse fato é querer tapar o sol com a peneira.
Em cidades médias e pequenas, a política não se faz apenas com discursos em rádio ou redes sociais. Ela se constrói na feira, na praça, na visita às comunidades rurais, no acompanhamento das obras e no atendimento às demandas imediatas da população. Prefeitos são protagonistas nesse processo.
O risco do isolamento
Nos bastidores, comentários dão conta de que prefeitos que marcharam com ACM Neto em 2022 se sentiram distantes após o pleito. A nova declaração reacendeu tensões e reforçou a percepção de que há um distanciamento entre o ex-prefeito e lideranças municipais.
Em uma eleição estadual, especialmente na Bahia — um estado com forte presença de municípios do interior — construir alianças sólidas com prefeitos não é detalhe, é estratégia. Desconsiderar esse fator pode ampliar o isolamento político e dificultar a formação de uma base ampla para 2026.
Política é soma, não subtração
A política é feita de diálogo, respeito e articulação. Prefeitos não são meros figurantes no processo eleitoral. São líderes legitimados pelo voto popular em seus municípios.
É claro que quem decide a eleição é o povo. Mas o povo também se orienta por lideranças que conhece e em quem confia. Ignorar essa engrenagem é cometer um erro de cálculo.
Ao minimizar o papel dos prefeitos, ACM Neto pode ter “pisado na bola”. Em política, palavras têm peso — e, no interior da Bahia, esse peso pode ecoar nas urnas.