
Eduardo criticou Michelle e Nikolas por falta de apoio a Flávio
Pedro do Coutto
O mais recente embate envolvendo Eduardo Bolsonaro, ainda nos Estados Unidos, contra Michelle Bolsonaro e Nikolas Ferreira revela muito mais do que um desentendimento pontual: expõe a disputa silenciosa pela liderança do campo conservador no Brasil após a inelegibilidade de Jair Bolsonaro. Ao acusar ambos de não apoiarem com a devida ênfase a candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro, Eduardo não apenas defende o irmão; ele sinaliza a tentativa de consolidar uma linha sucessória familiar dentro do bolsonarismo, algo que, na prática, enfrenta resistências internas cada vez mais visíveis.
A cobrança pública dirigida especialmente a Michelle carrega um simbolismo político relevante. A ex-primeira-dama construiu capital próprio junto ao eleitorado conservador, especialmente entre evangélicos e mulheres, e sua postura cautelosa — evitando declarar apoio explícito a qualquer candidatura — preserva uma autonomia estratégica que a mantém como potencial alternativa eleitoral. Essa ambiguidade, comum em lideranças que buscam manter viabilidade política, é interpretada pelo núcleo familiar como um possível risco à centralidade do projeto que pretende alçar Flávio ao posto de principal herdeiro político do bolsonarismo.
REAÇÃO – No caso de Nikolas Ferreira, a reação às críticas evidencia outro elemento importante: a nova direita digital não se submete automaticamente à lógica da sucessão familiar. Com forte presença nas redes sociais e influência direta sobre uma parcela expressiva do eleitorado jovem conservador, o deputado representa um tipo de liderança que dialoga com o bolsonarismo, mas não depende exclusivamente dele para sobreviver politicamente. Sua defesa pública de Michelle e a contestação às declarações de Eduardo indicam que o campo conservador começa a operar com múltiplos polos de poder.
O episódio, portanto, expõe uma fragilidade estrutural do bolsonarismo: a ausência de um comando unificado após o afastamento eleitoral de Jair Bolsonaro. Sem a figura do ex-presidente como candidato natural, abre-se uma disputa por legitimidade que envolve não apenas a família, mas também aliados e lideranças emergentes que buscam espaço próprio. Nesse cenário, a tentativa de consolidar Flávio como sucessor encontra obstáculos naturais em um ambiente político competitivo e em transformação.
REARRANJO – Mais do que um conflito pessoal, o atrito revela um rearranjo em curso na direita brasileira. A defesa enfática de Eduardo pela candidatura do irmão funciona como movimento de pressão interna para evitar a fragmentação do eleitorado conservador e preservar a lógica de continuidade familiar. Contudo, a reação de Michelle e Nikolas sugere que a hegemonia do clã Bolsonaro já não é absoluta e que novas lideranças pretendem participar da definição dos rumos do campo conservador.
A disputa pela sucessão do bolsonarismo, portanto, já começou — e dificilmente será resolvida apenas pelo peso do sobrenome. Como ocorre em ciclos políticos marcados por lideranças personalistas, a herança do capital eleitoral dependerá menos da genealogia e mais da capacidade de mobilização, articulação e aceitação popular. Nesse processo, os embates internos tendem a se intensificar, revelando que a direita brasileira vive, hoje, um momento decisivo de redefinição de comando e identidade política.