sábado, novembro 06, 2021

Entrevista: Adam Przeworski: ‘O crescimento da extrema direita vem de pessoas que não votavam antes’




Para o autor de “Crises da democracia” e “Por que eleições importam”, a pressão ambiental e fiscal fará crescer os desafios da democracia e pode surgir uma liderança republicana mais hábil que Trump na corrosão de seus alicerces

Por Maria Cristina Fernandes 

Anos atrás, quando ainda morava em Chicago, Adam Przeworski teve os pneus de seu carro presos no gelo em função de uma nevasca. Ligou para a prefeitura em busca de ajuda e nada conseguiu. A esposa acionou o chefe do diretório local do Partido Democrata. Ele chegou em seguida e logo registrou a ausência deles nas últimas eleições municipais. Przeworski e a mulher lhe garantiram serem registrados como integrantes do partido e lhe prometeram que votariam nas eleições seguintes. Uma hora depois apareceu uma equipe da prefeitura para retirar o gelo. “A administração pública estava comprando nossos votos por meio da oferta seletiva de serviços públicos”, concluiu.

O dono do carro contou a história em “Por que eleições importam” (Eduerj, 2021). Não é uma leitura para curar o complexo de vira-latas tupiniquim, mas para colocar o ponto e a vírgula nas expectativas eleitorais. “Eleições não são belas”, diz, ao descrever chicanas eleitorais mundo afora. E, portanto, não se deve esperar delas o que não podem dar. O livro foi originalmente lançado antes de “Crises da democracia”, publicado em 2020 no Brasil pelo selo Zahar, da Companhia das Letras. Complementam-se ao dissecar as raízes do desencanto.

O autor, nascido em Varsóvia em 1940 e filho de um casal de médicos, não chegou a conhecer o pai, morto pelos soviéticos. Aos 21 anos deixou Varsóvia pela primeira vez para se doutorar na Universidade de Northwestern, em Illinois. Seu destino cruzaria pela primeira vez com o Brasil quando, numa de suas estadias acadêmicas no exterior, recebeu de um amigo brasileiro, Pedro Celso Cavalcanti, militante do Partido Comunista exilado em Varsóvia, o conselho para não retornar ao país. Como seu visto americano havia expirado, foi parar no Chile. Przeworski acabaria voltando aos Estados Unidos, mas não perderia os vínculos com o Brasil ao longo de sua vida acadêmica em universidades americanas e europeias, entre as quais a de Chicago, onde passou 22 anos. Em 2019 reencontrou ex-alunos e colegas em palestra em São Paulo nas comemorações dos 50 anos do Cebrap.

Invasão do Capitólio: Przeworski teme que o país fique paralisado se os democratas perderem a maioria no Congresso nas eleições do próximo ano — Foto: Jose Luis Magana/AP

Przeworski sempre manteve distância regulamentar dos arautos da crise terminal da democracia, mas anda pessimista, ou realista, como prefere. Não idealiza os ritos da democracia. Vê, porém, sombras pesadas sobre a democracia, a começar pela americana. Não apenas pelas chances de o Partido Republicano vir a ser dominado por uma liderança mais hábil que Trump, mas pelo risco de o país ficar paralisado a partir de 2022 numa eventual derrota da maioria democrata na Câmara.

Aos 81 anos, Przeworski é um pesquisador incansável. Detentor do Prêmio Johan Skytte, concedido pela Universidade de Uppsala (Suécia) e considerado o Nobel da ciência política, continua a dar aulas na Universidade de Nova York, onde mora com a mulher e onde sua filha dá aulas de genética na Universidade de Columbia. Nesta entrevista, concedida por Zoom a partir de seu apartamento em Nova York, na última terça-feira, diz que a extrema direita não se elege roubando votos da esquerda, mas engajando o absenteísmo; critica o banimento de políticos, como Trump, das redes sociais; e alerta para a centralidade da questão ambiental: “Os conflitos vão aumentar”. 

A seguir, a entrevista:

Valor: O senhor diz no seu livro que a principal virtude da democracia é a capacidade de processar conflitos com liberdade e sem violência. O que aconteceu em Washington no dia 6 de janeiro foi um contestação violenta às urnas. Como aquela invasão do Capitólio pôs em xeque as eleições americanas como salvaguarda da democracia?

Adam Przeworski: Sou muito pessimista sobre os Estados Unidos. O país foi profundamente afetado pelo 6 de janeiro. Os EUA têm instituições singulares, como um sistema eleitoral indireto. Um presidente pode se eleger tendo perdido no voto popular. Isso aconteceu cinco vezes na história. A última delas, em 2016, na eleição de Trump. E pode acontecer de novo.

Valor: A violência também pode vir a se tornar uma dessas singularidades dos Estados Unidos?

Przeworski: Havia um cheiro no ar do que acabou acontecendo. Escrevi um artigo antes das eleições (“‘American Exceptionalism’ and the 2020 elections”) em que discorri sobre as dúvidas crescentes que passaram a surgir sobre um eventual engajamento político das Forças Armadas, do serviço secreto e do FBI. Parecíamos estar na América Latina de 30 anos atrás. Parecia inacreditável que os EUA estivessem vivendo isso. Assistimos às Forças Armadas sendo chamadas a agir como salvaguarda constitucional. Isso nunca tinha acontecido antes nos EUA. E essa irracionalidade se estendeu para a vacinação. As pessoas colocaram suas vidas em risco em função de uma identidade política num país extremamente dividido. Então é difícil prever o que pode acontecer na prevalência dessa irracionalidade

Valor: Biden enfrenta dificuldades crescentes. Um retorno de Trump ameaça a democracia?

Przeworski: Chego mesmo a imaginar que isso não dependa da volta de Trump. O vencedor da primária republicana pode vir a ser alguém similar ou mais esperto, como o governador da Flórida, Ron DeSantis. Trump tentou, mas não conseguiu reduzir as chances eleitorais dos democratas. Nixon foi mais bem-sucedido. Usou até a máquina pública para intimidar a oposição.

Valor: O próximo candidato republicano pode então ser mais esperto?

Przeworski: Sim, esse é o risco, mas as coisas podem piorar antes disso. Em 2022, se os democratas perderem a maioria na Câmara, o país pode ficar paralisado, e não vamos nos esquecer de que se trata de um país que ainda não foi capaz de controlar a pandemia.

Valor: Em seu livro o senhor diz que a maioria se desaponta seja pelo resultado eleitoral, seja pelo desempenho do governo. Apesar disso, a cada eleição renovam-se as expectativas. A principal causa do 6 de janeiro e das manifestações antidemocráticas de 7 de setembro no Brasil foi o desequilíbrio entre esperança e decepção?

Przeworski: As pessoas aprenderam nas últimas décadas que os governos podem mudar sem que suas vidas mudem. O fato de que tão largas fatias do eleitorado permaneçam insatisfeitas com o resultado das eleições e dos governos as deixa vulneráveis a soluções mágicas. O que aconteceu nos EUA, no Brasil e nos países europeus foi que apareceram muitos políticos oferecendo soluções mágicas, como a do “America great again”. Os partidos tradicionais não foram capazes de transformar suas vidas, e assim as pessoas ficaram vulneráveis a curandeiros, como pacientes terminais. Na República de Weimar, quando os pacientes ficavam desenganados, passavam a acreditar no poder curativo do queijo cottage. E esse é um fenômeno que não tem apenas causas econômicas

“Redes sociais geram divisões, mas banir a livre expressão é uma má ideia. É preciso circular as ideias para que as pessoas se eduquem”

Valor: O senhor diz que a expectativa de que eleições redistribuam riqueza enfraquece a democracia. Pode explicar melhor esse conceito?

Przeworski: Nos EUA e na Europa os pais perderam a esperança de que seus filhos viverão melhor que eles. Esta era uma crença que perdurava desde a Revolução Industrial. Hoje 60% das pessoas não acreditam mais nisso. E não é apenas uma crença, mas a realidade dos fatos. Em 1970, 90% dos adultos de mais de 30 anos de idade tinham uma situação financeira melhor que seus pais. Hoje apenas 50% vivem melhor que os pais. Quando se pergunta às pessoas o que mais importa para o sucesso, se é educação ou se as conexões que se estabelecem, elas não sabem dizer. Numa pesquisa que envolveu 15 países europeus, perguntou-se se a causa dos conflitos sociais era a desigualdade de renda, o desemprego ou as diferenças étnicas. Antes as respostas eram previsíveis pelas simpatias populistas, marxistas ou conservadoras, mas hoje não usam o filtro da ideologia para responder. Dizem que todos os fatores juntos são a causa. Ninguém entende de onde vêm os problemas.

Valor: A invasão do Capitólio e as manifestações antidemocráticas no Brasil não foram lideradas pelos mais pobres. Se não é a renda, o que os move?

Przeworski: Muitos estudos já tentaram explicar isso. E me confesso cético em relação a seus achados. Alguns são importantes. Outros, nem tanto. Uma teoria para explicar o que leva as pessoas às ruas foi formulada pelo ex-presidente Lula: “Demos o pão, mas eles querem a manteiga”. Há muitas evidências de que as pessoas temem o futuro. Os trabalhadores de indústrias em processo de automação são muito mais propensos a votar na direita. Nem sempre são as condições presentes que determinam a reação, mas o medo do futuro.

Valor: O medo como o motor da história?

Przeworski: Boa frase. O medo tem esse papel. Medo de mudanças culturais muito rápidas, como Fernando Limongi [professor da FGV e pesquisador do Cebrap] um dia explicou num artigo, impacta no voto. Solteiros e, principalmente, solteiras votam mais no Partido Democrata do que os casados. As sociedades estão sob profundas mudanças. A maneira como vivem juntas, como se casam, se divorciam, têm filhos ou fazem aborto, tudo isso dificulta a adaptação e repercute no comportamento político.

Valor: O senhor escreveu que o fortalecimento do Judiciário e de bancos centrais independentes serve como freio à pressão das maiorias eleitorais. Esse freio também enfraquece a democracia?

Przeworski: Este é um tema complexo. A função contramajoritária do Judiciário é muito importante. É fundamental que o Judiciário possa contrabalancear a vontade da maioria, mas não é razoável que a voz da maioria seja sempre derrotada. Os juízes não são livres de paixões, não são anjos. Eles dizem uma coisa e seu contrário. Mas, ao fim e ao cabo, o Judiciário acaba seguindo a opinião pública. Já os bancos centrais independentes são instituições liberais desenhadas para redistribuir as pressões da democracia e desempenham, muitas vezes, um papel antidemocrático. É preciso aceitar que a democracia representativa falhou em redistribuir a renda. Nesse ponto não sou crítico dos populistas. Eles estão certos quando dizem que as instituições representativas falharam.

Valor: Se o mercado é parte do problema, também pode ser parte da solução?

Przeworski: Não existe um mercado. Há uma multiplicidade de mercados. E o que importa é como são regulados e como lidam com as externalidades. Os Estados Unidos já foram muito bem-sucedidos nessa regulação. Nos anos 1950 a economia americana era muito competitiva. Hoje é extremamente monopolista.

Valor: Mas não foi o apelo por regulação o legado da crise de 2008?

Przeworski: Essa regulação não foi muito longe. Houve alguma redução do risco, mas a tendência monopolista não se reduziu. Thomas Philippon tem um bom livro sobre o tema, “The great reversal”. Morei muitos anos entre Nova York e Paris por conta do trabalho de minha esposa. Nos EUA, usar a internet e comprar remédios custa o dobro do que na França por conta do caráter monopolista da economia.

Valor: No “Crises da democracia” o senhor diz que as pessoas mantêm sua identidade de esquerda ou direita muito embora não reconheçam essas clivagens nos partidos. E diz que a emergência da extrema direita vem desse paradoxo. Pode explicar isso?

Przeworski:Em pesquisas conduzidas na Europa, quando se pergunta às pessoas se a distinção entre direita e esquerda faz sentido, elas dizem que não. Mas, se você pede que elas se localizem no espectro político, 90% o farão. Essas dimensões são irrelevantes mas, de alguma maneira, ainda importam. A maior proporção de votos que a extrema direita ganhou foi de eleitores que não votavam, e não de eleitores que migraram da esquerda para a direita. Isso vale na França e na Inglaterra. O eleitor não confia nos governos, nos políticos e na política. É difícil se identificar. Não se trata de ser contra a direita ou a esquerda. Eles são antigoverno. Os partidos tradicionais da Europa perderam suas fatias de votos, sejam eles da centro-direita, da centro-esquerda, conservadores ou social-democratas. Houve uma fragmentação do sistema partidário. Talvez porque esses partidos já não têm muito mais a oferecer. Os partidos verdes têm avançado na Europa na medida em que os mais jovens estão mais preocupados com o clima. Tenho uma preocupação central com a democracia, mas percebo que a questão climática ganha cada vez mais centralidade.

Valor: Vê-se na cúpula do clima em Glasgow que os conflitos sociais e políticos podem crescer, uma vez que os governos enfrentam a dificuldade de reduzir as emissões de carbono num momento em que há demanda reprimida na economia. O vírus deixou ainda a herança da inflação. Qual o impacto da pandemia sobre a democracia?

Przeworski: Um conflito que se tornará cada dia mais intenso. A pressão fiscal já é grande e ficará maior.

Valor: No Reino Unido e na França é a esquerda que reclama de um Estado que impõe regras na pandemia. No Brasil é o inverso. Como a pandemia mudou a relação das pessoas com o Estado e afetou o ódio e a hostilidade na política?

Przeworski: Tem um cientista político espanhol, Ignacio Sánchez-Cuenca, que diz que a perda de confiança das pessoas nos governos durante a pandemia aconteceu em países em que essa confiança já era baixa. O que significa que o comportamento dos governos na pandemia não impactou a reação das pessoas. O que continua sendo difícil de explicar é como as pessoas conduzem sua vida e a vida de suas famílias a partir do apoio a condutas dos governos sobre temas que definem sua vida e sua morte. Na Polônia, por exemplo, a taxa de vacinação é baixa, o governo consegue estabelecer lealdade entre pessoas que não se importam com isso. No Brasil parece que é alta, não?

Valor: Sim. O senhor relaciona baixas taxas de comparecimento com a emergência da extrema direita, bem como com a defasagem entre o crescimento da produtividade e dos salários. O voto obrigatório no Brasil dificulta as comparações, mas durante o governo do PT, quando o bolsonarismo foi incubado, os salários cresceram mais do que a produtividade. Como entender?

Przeworski:O que é interessante sobre o comparecimento na Europa é que o voto da extrema direita não veio da esquerda, mas dos não eleitores. Isso já havia acontecido na década de 1930, quando Hitler mobilizou meio milhão de não eleitores. O crescimento da extrema direita vem de pessoas que não votavam antes. E a relação desse crescimento com a disparidade entre produtividade e salário é clara, na Europa e, principalmente, nos EUA. Aqui os salários estão estagnados há 40 anos, e na Europa, desde os anos 1990. No Brasil, não entendo por que é diferente.

Valor: O senhor diz que as eleições não são uma panaceia e não se pode esperar delas o que elas não podem dar. Eleições servem para escolher governantes e mandá-los para casa. A mudança vem da mobilização da ação política. A que ação política o senhor se refere?

Przeworski: Não sou tão ativista assim (risos). O que acontece é que há uma busca um pouco desesperada por mudanças institucionais. Sou realista, mais do que pessimista, mas basicamente acho que não gostamos de ser governados. Alguns governos são bem-sucedidos em mostrar às pessoas que são capazes de mudar suas condições de vida. Outros não. E desgostam muitas pessoas. Mas assim é que o mundo funciona. Nem sempre é possível ficar satisfeito com o desempenho dos governos. Não é fácil governar. Muitas vezes os governantes não têm a mais pálida ideia do que fazer diante dos problemas. Há uma famosa frase de Harry Truman [presidente americano de 1945-53]: “Deem-me economistas que tenham uma única mão”. E por quê? Porque os economistas costumam dizer: por um lado (“on one hand”), esta solução tem este benefício; por outro (“on the other hand”), tem esse problema. Os governos lidam com esses dilemas diariamente. E por isso cometem tantos erros.

Valor: Os sindicatos se enfraqueceram em todo mundo, da mesma maneira que o movimento estudantil. Mas as redes sociais ganharam muitos adeptos. Que impacto têm sobre as eleições? As redes sociais mobilizam a ação política?

Przeworski: As redes sociais são um meio de mobilização, mas não diria que mobilizam para a ação. Este é um tema de intensa pesquisa da qual sou um leitor secundário. Muitas pessoas acreditam que o Facebook ou o Twitter intensificam posições, mas não necessariamente mobilizam ação política. Geram perturbações, não ação. Os sindicatos, sim. É o único poder real contra o capital. E entraram em crise sem que nada os tenha substituído. É preciso organizar para mudar. Há um autor italiano, Alessandro Pizzorno, que diz que organização é a capacidade de traçar estratégia. Maurice Thorez, secretário do Partido Comunista Francês em 1936, costumava dizer que é preciso saber quando pôr fim a uma greve. Havia uma organização para lidar com isso. Hoje não há meios para disciplinar as pessoas nessa direção.

Valor: Desde a eleição de Trump e Bolsonaro, a extrema direita inventou novas formas de propagandear fake news. A jornalista Maria Ressa, prêmio Nobel da Paz, disse que não há integridade na política sem integridade de informação. O senhor concorda?

Przeworski: Sim, a imprensa ainda tem um papel fundamental em informar, mas um número crescente de pessoas não acredita no que lê ou no que vê e prefere acreditar nas redes sociais. A imprensa, de fato, perde audiência.

Valor: Trump foi banido das redes sociais pelas próprias empresas, e a CPI da Pandemia do Congresso brasileiro propôs que Bolsonaro também o fosse. A primeira-ministra alemã Angela Merkel protestou contra o banimento de Trump. O senhor também se incomodou?

Przeworski: Sou relativamente extremado na defesa da liberdade de expressão. Cresci numa Polônia sob um regime autoritário. Sou contra censura. Não acho que a livre expressão de ninguém deveria ser censurada. John Stuart Mill dizia que quanto mais as ideias circulam, mais educadas as pessoas se tornam. É verdade que as redes sociais geram divisões, mas banir a livre expressão é uma má ideia.

Valor Econômico

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