quarta-feira, fevereiro 18, 2009

Na pior hora

Por: Carlos Chagas

BRASÍLIA - Veio na pior hora para o PMDB a entrevista do senador Jarbas Vasconcelos, desancando com o partido. Porque se existem ou não grupinhos interessados em ocupar cargos para fazer negócios e ganhar comissões, cabe ao ex-governador de Pernambuco comprovar, mas a verdade é que um espetáculo de canibalismo acontece em função da substituição de Michel Temer como presidente da legenda. Começa que ele não quer sair. Já deveria ter saído, no dia seguinte à sua eleição para presidente da Câmara, dia 2, mas vai ficando. Pensará, com certeza, no exemplo do dr. Ulysses, que, além de presidente do PMDB e da Câmara, também presidiu a Assembléia Nacional Constituinte.
Havia o compromisso de Michel licenciar-se para que assumisse a primeira vice-presidente, deputada Íris Araújo, mas, por enquanto, ela aguarda.
O primeiro candidato a aparecer para o lugar de Michel foi o ex-presidente da Câmara, do partido e ex-embaixador do Brasil em Portugal, Paes de Andrade, que de tabela é o presidente de honra do PMDB. Questões de saúde o afastaram, ao tempo em que Íris Araújo reivindicava a permanência definitiva, exigindo do ainda presidente não uma licença, mas a renúncia. Nessa hora entrou em campo o senador Romero Jucá, líder do governo, e o deputado Eliseu Padilha, presidente da Fundação Pedroso Horta, do partido.
O primeiro foi afastado porque, afinal, Tião Viana viu-se derrotado para a presidência do Senado, perdendo para José Sarney, situação que lhe permitirá ficar onde está porque os senadores do partido ficaram fortalecidos. Eliseu Padilha, ex-ministro de Fernando Henrique Cardoso, candidatou-se para neutralizar primeiro Paes de Andrade e, depois, Íris Araújo, mas, na verdade, serve de chamariz para a fixação do verdadeiro candidato do grupo que controla a direção do PMDB: é o deputado e futuro senador pelo Ceará, Eunício Oliveira, ex-ministro do presidente Lula. A manobra parece daquelas de dar nó em pingo d'água e só não se concretizará se o espírito do dr. Ulysses tiver mesmo baixado em Michel Temer.
É Aécio mesmo
Acelera-se o processo sucessório presidencial por iniciativa do próprio presidente Lula, situação que vai levando Aécio Neves, em breve, a botar os dois pés na margem do PMDB. Ele que se equilibrava também na praia do PSDB, mesmo mantendo pequenas esperanças, acaba de perceber que José Serra decidiu-se a não perder tempo. O governador de São Paulo segue o conselho de Fernando Henrique Cardoso: já está em campo, percorrendo o País. Além de queimar a tese das prévias, defendida por Aécio, pretende antecipar sua sagração. Será a fórmula de impedir o crescimento de Dilma Rousseff.
Sendo assim, ao governador de Minas não resta senão voltar ao ninho antigo, mesmo alertado de que nele encontrará carcarás e não tucanos. Recebeu significativo apoio de José Sarney, na semana passada, não lhe restando senão seguir em frente, ainda que sob o olhar de censura de Michel Temer. A proposta seria mobilizar o PMDB para uma candidatura própria, reforçado pela condição de maior partido nacional. Enquanto São Paulo entrará nas eleições de 2010 rachado entre a influência do presidente Lula, de um lado, e de José Serra, de outro, Minas terá a vantagem de apresentar-se unida.
Resta saber como reagirá o presidente Lula precisando travar a guerra em duas frentes, contra Serra e contra Aécio. Para ficarmos no reino das especulações, se os dois governadores chegarem à hipótese do segundo turno, deixando Dilma para trás, fatalmente crescerá a proposta do terceiro mandato.
Questão de saúde pública
Poucos confirmam, no Ministério da Saúde, mas questão nada prosaica toma conta da Esplanada dos Ministérios. De uns dias para cá, sem relação nenhuma com o Carnaval, boa parte das repartições públicas vem se esvaziando. Montes de funcionários têm ficado em casa, sem bater o ponto, em especial os que se servem dos bebedouros nos locais de trabalho ou alimentam-se das quentinhas, nos restaurantes funcionais. Com todo o respeito, uma tremenda dor de barriga assola os servidores do Executivo. Equipes da saúde pública, com as cautelas e o sigilo necessário, examinam se o mal deve-se às refeições terceirizadas ou à água a que os funcionários obrigam-se a sorver, dado o inusitado calor na capital federal. São coisas da vida, quem ainda não passou por isso que procure ridicularizar...
Atucanou?
Exegetas das minúcias jornalísticas apontam dois detalhes na explosiva entrevista do senador Jarbas Vasconcelos para concluir que o ex-governador de Pernambuco está atucanando. Porque, primeiro, depois de massacrar a administração do presidente Lula, ele abriu exceção apenas à política econômica, elogiando-a por ser a mesma adotada no governo Fernando Henrique. Depois, por haver gratuitamente criticado a política externa atual, cuja única diferença com a anterior é ser simpática ao bloco dos Chávez, Evos e outros, por coincidência um dos principais alvos do PSDB. Nem é preciso lembrar que Jarbas Vasconcelos também se declarou partidário da candidatura de José Serra.
Fonte: Tribuna da Imprensa

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