domingo, junho 08, 2025

Retificando a História: O Rigor Necessário para Corrigir Datas de Emancipação Municipal

 

Retificando a História: O Rigor Necessário para Corrigir Datas de Emancipação Municipal

A precisão histórica é um pilar fundamental para a identidade de um município. Quando surgem questionamentos sobre a data de sua emancipação política, o processo para corrigir ou ratificar essa informação exige rigor, pesquisa aprofundada e a consulta a fontes oficiais e primárias. Não se trata de uma mera formalidade, mas de um compromisso com a verdade e com a memória coletiva de uma comunidade.

A Busca pela Verdade Histórica: Um Processo Multifacetado

Para estabelecer ou corrigir uma data histórica de emancipação, o percurso envolve uma série de etapas cruciais:

  1. Pesquisa e Documentação Exaustiva:

    • Consulta ao IBGE: O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) é a principal fonte de dados históricos e geográficos sobre os municípios brasileiros. Seus registros devem ser o ponto de partida para qualquer pesquisa sobre emancipação.
    • Arquivos Municipais e Estaduais: É vital mergulhar nos arquivos locais e estaduais, buscando decretos, leis, atas de sessões da Câmara Municipal, registros de posse de primeiros administradores e outros documentos administrativos da época que possam conter informações diretas sobre o ato de criação ou elevação do status do município.
    • Acervos Históricos e Publicações: Livros de história local, teses acadêmicas, jornais antigos da região e publicações especializadas podem oferecer insights valiosos e contextualizar os eventos.
    • Fontes Primárias: A busca por documentos originais, como cartas, relatórios de governo e outros materiais produzidos na época da emancipação, é fundamental para garantir a autenticidade e a profundidade da pesquisa.
  2. Revisão Crítica e Análise Comparativa:

    • Validação das Fontes: As informações coletadas devem ser comparadas e analisadas criticamente. Inconsistências entre diferentes fontes precisam ser investigadas para se chegar à data mais precisa e confiável.
    • Contextualização Histórica: É imprescindível compreender o contexto político, econômico e social da época. Termos como "vila" e "cidade" tinham significados jurídicos específicos em diferentes períodos, e a elevação de um status para outro pode ser o verdadeiro marco da emancipação política, dependendo da legislação vigente no momento.
    • Cadeia Cronológica: A sequência de eventos que levaram à emancipação deve ser meticulosamente reconstruída para identificar o ato legal que, de fato, conferiu autonomia política e administrativa ao território.

O Compromisso com a Correção e a Divulgação

Uma vez que a pesquisa aponte para um erro ou uma inconsistência na data atualmente celebrada, a responsabilidade de corrigir a história recai sobre as autoridades e a comunidade:

  • Identificação Formal do Erro: O erro deve ser formalmente reconhecido e documentado, com base nas evidências coletadas.
  • Comunicação aos Órgãos Competentes: Os órgãos responsáveis pela guarda e disseminação de dados históricos, como o IBGE e as secretarias estaduais de cultura e arquivos, devem ser informados para que seus registros sejam atualizados.
  • Atualização de Documentos Oficiais: Qualquer documento municipal que contenha a data incorreta deve ser retificado, garantindo a uniformidade da informação oficial.
  • Difusão da Informação Correta: Tão importante quanto corrigir é divulgar a informação de forma ampla e transparente para toda a comunidade local. Notícias, materiais educativos, palestras e eventos podem ser utilizados para engajar a população e solidificar o conhecimento da verdadeira história.

A correção de uma data de emancipação não é apenas um ato burocrático; é um imperativo ético e histórico. Contribui para uma compreensão mais precisa e legítima da trajetória de um município, fortalecendo a identidade de seu povo e garantindo que a memória coletiva seja construída sobre bases sólidas de verdade e credibilidade.

Nota da Redação deste Blog  - A pergunta que ecoa pelos quatro cantos de Jeremoabo é direta e necessária: será que os vereadores realmente seguiram todos os trâmites legais para revisar a data da nossa emancipação política, ou as comissões apenas deram um parecer “rasga de conta”, daqueles pra inglês ver?

O tema, como foi bem colocado, vai muito além de uma mera formalidade. Estamos falando da identidade de um povo, de sua história e de um marco que representa a luta e a conquista da autonomia política. Mudar ou confirmar uma data dessas exige não apenas responsabilidade, mas também profundo respeito à memória coletiva.

Infelizmente, conhecendo a prática costumeira de certos vereadores — que muitas vezes tratam temas sérios com descaso ou interesses pessoais — é legítimo que o povo questione se houve realmente uma pesquisa rigorosa, consulta a fontes primárias, como leis estaduais, atas da Câmara da época, registros da instalação do primeiro governo municipal, ou se tudo se resumiu a um relatório apressado, votado de forma simbólica, só pra constar.

Jeremoabo merece mais. Merece que sua história seja tratada com a dignidade que tem. Porque mexer com a memória de um povo sem critério é, sim, uma forma de apagamento histórico. E se isso foi feito sem os devidos cuidados, é mais um capítulo lamentável na longa lista de desmandos que infelizmente já marcaram o Legislativo jeremoabense.

Fica o desafio à Câmara atual: que tornem públicos os documentos, pareceres e fontes usadas nesse processo. Se fizeram tudo certo, não têm nada a esconder. Mas se fizeram no escuro, o povo tem o direito de cobrar, e a obrigação de não esquecer.

Caso Zambelli é ‘pá de cal’ em estratégia para reduzir penas de réus no inquérito do golpe

 Foto: Nilson Bastian/Câmara dos Deputados/Arquivo

A deputada federal licenciada Carla Zambelli (PL-SP)08 de junho de 2025 | 10:20

Caso Zambelli é ‘pá de cal’ em estratégia para reduzir penas de réus no inquérito do golpe

brasil

A fuga da deputada Carla Zambelli (PL-SP), após ser condenada a dez anos de prisão pelo Supremo Tribunal Federal (STF) por invadir o sistema do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), é vista como a “pá de cal” na tentativa das defesas dos envolvidos no inquérito do golpe de amenizar o clima com a Corte. A estratégia montada por advogados dos réus considerava a possibilidade de redução de penas. No entanto, segundo apurou a Coluna do Estadão, essa esperança já não existe e o clima está “péssimo”.

A avaliação é de que o Supremo ficará ainda mais na defensiva daqui para frente, como resultado do caso Zambelli, e não aceitará nenhum alívio nas eventuais condenações de figuras como o ex-presidente Jair Bolsonaro e outros militares e civis investigados por tentativa de golpe de Estado após as eleições de 2022.

Não é a primeira vez que Zambelli leva a culpa pelo destino de aliados. Em 2022, Bolsonaro atribuiu à deputada sua derrota para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O capitão avaliou que perdeu votos por causa da polêmica gerada pela parlamentar na véspera do segundo turno, quando ela correu com arma em punho atrás de um homem em São Paulo.

Roseann Kennedy/Iander Porcella/Estadão


Deputado da oposição apresenta projeto que pode beneficiar Eduardo

 Foto: Bruno Spada/Câmara dos Deputados/Arquivo

O deputado federal licenciado Eduardo Bolsonaro (PL-SP)08 de junho de 2025 | 17:16

Deputado da oposição apresenta projeto que pode beneficiar Eduardo

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O deputado Evair Vieira de Melo (PP-ES), ligado à oposição ao governo Lula (PT), apresentou um projeto de resolução que altera o regimento interno da Câmara para permitir que um deputado possa exercer seu mandato enquanto estiver no exterior.

Caso aprovada, a medida pode beneficiar o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP), que deixou o país em março e se licenciou de seu mandato, alegando temor de que o ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Alexandre de Moraes mandasse apreender seu passaporte. Desde então, está nos Estados Unidos.

A proposta apresentada pelo deputado do PP diz que, “em caráter excepcional e mediante deliberação da Mesa Diretora”, será permitido que um deputado possa exercer suas atividades parlamentares no exterior.

O texto prevê que essa autorização será concedida pela Mesa Diretora e por prazo determinado, “renovável mediante justificativa, quantas vezes forem necessárias”.

Na justificativa, o deputado diz que o projeto “além de proteger o mandato parlamentar em contextos excepcionais” também “evita interpretações arbitrárias que possam ser usadas como instrumento de censura política, exclusão parlamentar ou intimidação de opositores”.

De acordo com o regimento da Câmara, Eduardo tem direito à licença por interesse particular por 122 dias, o que o obriga a retornar ao cargo em 22 de julho. Esse prazo não é renovável, e o deputado pode seguir com faltas injustificadas em até um terço das sessões antes de perder o mandato.

Evair Vieira de Melo diz que “não há nenhum jabuti” em sua proposta e que ele apenas propõe uma atualização do regimento, diante da possibilidade do voto remoto, que foi implementado durante a pandemia da Covid e é usado até hoje.

Ele nega que tenha feito a medida para beneficiar Eduardo e diz que discutiu o tema com o colega só depois de protocolar a proposta. Ele reconhece, no entanto, que, caso aprovada, o filho do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) poderá ser beneficiado.

“A proposta faz com que o parlamentar que teve os seus votos tenha participação nos processos, nas comissões, no dia a dia. E protege o parlamentar. Hoje, pode dar essa oportunidade ao Eduardo, sim, mas amanhã pode ser qualquer outro parlamentar que, por fatores diversos aquém da sua vontade, possa exercer o seu mandato”, diz.

Segundo ele, o líder da oposição na Câmara, Zucco (PL-RS), está colhendo assinaturas de deputados para apresentar um requerimento de urgência e acelerar a tramitação da matéria na Casa. O tema deverá ser levado ao presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), na próxima terça-feira (10).

A proposta foi criticada por líderes governistas. O líder do PT na Câmara, Lindbergh Farias (RJ), diz que ela é uma “loucura”, é “inconstitucional” e “chega a ser um deboche com o Parlamento brasileiro”.

“Tenho convicção que essa proposta foi feita para o Eduardo Bolsonaro. Ele é um criminoso que, de fora do país, continua um ataque sistemático contra o país e vai ser condenado por ataques ao estado democrático de direito. Se a Câmara aprovar esse projeto, significará que a Casa compactua com essa conduta criminosa”, diz Lindbergh.

Victoria Azevedo/Folhapress

Bolsonaro responderá a perguntas de Moraes pela 1ª vez no caso da trama golpista

 Foto: Gustavo Moreno/STF/Arquivo

O ex-presidente Jair Bolsonaro (PL)08 de junho de 2025 | 14:00

Bolsonaro responderá a perguntas de Moraes pela 1ª vez no caso da trama golpista

brasil

Depois de passar anos atacando o STF (Supremo Tribunal Federal), o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) deve se explicar pela primeira vez ao tribunal sobre sua participação na trama golpista de 2022.

Bolsonaro será questionado por Alexandre de Moraes. O ministro do STF foi alvo prioritário das ofensivas de Bolsonaro contra o tribunal. Agora, será o responsável por conduzir o processo que pode levar o ex-presidente à prisão.

A Primeira Turma do STF convocou sessões de segunda-feira (9) a sexta (13) para ouvir os oito réus do núcleo central da tentativa de golpe de Estado após a eleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

O início da etapa indica que o processo contra o principal grupo denunciado pela PGR (Procuradoria-Geral da República) se encaminha para o seu fim. O ritmo adotado por Moraes para a ação penal, com prazos curtos entre as etapas do processo, tem sido criticado pelas defesas dos réus.

O Supremo decidiu alterar a configuração do plenário da Primeira Turma para a fase de depoimento dos réus. O local será adaptado para parecer um tribunal do júri, com os acusados sentados lado a lado.

O ministro Alexandre de Moraes ficará sentado na tribuna principal, em cadeira tradicionalmente ocupada pelo presidente do colegiado. Uma fileira de cadeiras será incluída no plenário, entre os ministros e a plateia, para os réus ficarem sentados em ordem alfabética.

Será o primeiro encontro de Bolsonaro com o tenente-coronel Mauro Cid desde que o militar fechou um acordo de delação premiada com a Polícia Federal.

As revelações de Cid foram o fio condutor da denúncia da PGR. Foi o militar quem confirmou aos investigadores, pela primeira vez, que Bolsonaro convocou os chefes militares para discutir planos para reverter o resultado das eleições.

À direita de Bolsonaro estará o general Augusto Heleno, ex-chefe do GSI (Gabinete de Segurança Institucional) e um dos ministros que esteve mais próximo do ex-presidente nos primeiros anos de mandato. À esquerda, o ex-diretor da Abin Alexandre Ramagem vai ombrear o ex-presidente.

O primeiro réu a ser ouvido será Mauro Cid, ex-ajudante de ordens de Bolsonaro e delator. Os demais serão interrogados por ordem alfabética: Alexandre Ramagem (deputado federal e ex-chefe da Abin), Almir Garnier (ex-chefe da Marinha), Anderson Torres (ex-ministro da Justiça), Augusto Heleno (ex-ministro do GSI), Jair Bolsonaro, Paulo Sérgio Nogueira (ex-ministro da Defesa) e Walter Braga Netto (ex-ministro da Casa Civil e da Defesa).

Os depoimentos serão transmitidos ao vivo pela TV Justiça. As regras estipuladas por Moraes se diferenciam das normas estabelecidas para as oitivas das testemunhas, quando foram proibidas gravações de áudio e vídeo.

O ex-presidente Jair Bolsonaro anunciou na sexta (6) que pretende responder às perguntas em seu depoimento, sem recorrer ao silêncio. Ele pediu aos apoiadores que assistam à audiência —chamada por ele de “inquisição”.

“O que aconteceu em 2022 com toda certeza será falado por mim, quando ao vivo estiver no Supremo com cinco ministros na minha frente me cobrando, vale a pena assistir”, disse.

“Não vou lá para lacrar, querer crescer, desafiar quem quer que seja. Estarei lá com a verdade do nosso lado. Creio que, se Deus quiser, mostraremos para vocês o que é o Brasil e para onde poderemos ir com o povo ao nosso lado”, completou.

A maioria dos réus deve falar ao Supremo, segundo quatro advogados consultados pela reportagem. A principal dúvida é quanto às condutas do ex-chefe da Marinha Almir Garnier Santos e do ex-ministro da Defesa Paulo Sérgio Nogueira.

Os réus podem permanecer em silêncio para não criar provas contra si.

Na Presidência, Bolsonaro acumulou uma série de declarações golpistas, provocou crises entre os Poderes, colocou em xeque a realização das eleições de 2022, ameaçou não cumprir decisões do STF e estimulou com mentiras e ilações uma campanha para desacreditar o sistema eleitoral do país.

Após a derrota para Lula, incentivou a criação e a manutenção dos acampamentos golpistas que se alastraram pelo país e deram origem aos ataques do 8 de Janeiro.

Nesse mesmo período, adotou conduta que contribuiu para manter seus apoiadores esperançosos de que permaneceria no poder e, como ele mesmo admitiu, reuniu-se com militares e assessores próximos para discutir formas de intervir no TSE (Tribunal Superior Eleitoral) e anular as eleições.

A defesa de Bolsonaro nega a participação do ex-presidente em crimes e argumenta, entre críticas à denúncia da PGR, que não há provas de ligação entre a suposta conspiração iniciada no Palácio do Planalto, em junho de 2021, e os atos de vandalismo de 8 de janeiro de 2023.

Bolsonaro e os demais réus foram denunciados por supostamente liderar um plano no fim de 2022 para evitar a posse de Lula à Presidência da República. As principais acusações contra o ex-presidente estão relacionadas à edição de minutas de decreto e tentativa de conseguir apoio dos chefes das Forças Armadas para as iniciativas golpistas.

Todos os oito respondem pelos crimes de golpe de Estado, tentativa de abolição do Estado democrático de Direito, associação criminosa armada, dano qualificado ao patrimônio público e deterioração do patrimônio tombado.

Parte dos crimes atribuídos aos réus tem relação com os ataques de 8 de janeiro de 2023. Segundo a denúncia, a multidão bolsonarista que invadiu as sedes dos Poderes foi incentivada por Bolsonaro e seus aliados para atentar contra o Estado.

O STF tenta acelerar o processo da trama golpista para julgar o núcleo principal ainda este ano. O objetivo, dizem ministros nos bastidores, é evitar que o calendário eleitoral de 2026 contamine o julgamento do caso, que tem forte impacto político.

As defesas dos réus reclamaram do pouco tempo dado por Moraes entre a fase de depoimento das testemunhas para a etapa de inquirição dos réus. Elas alegam que o ritmo acelerado do processo impede a análise do material apreendido pela Polícia Federal durante a investigação.

Os investigadores enviaram para os advogados os arquivos com todas as informações usadas no inquérito da PF sobre a tentativa de golpe de Estado.

São 77 terabytes de arquivos digitais. Além da grande quantidade de dados, os advogados relatam dificuldade de manejar o material, que chegou de forma compactada, com documentos corrompidos, e outros cuja senha não foi disponibilizada.

Cézar Feitoza/Ana Pompeu/Folhapress

O sorriso desaparecido de Rubem Braga

 

O sorriso desaparecido de Rubem Braga

Tônia Carrero e Rubem Braga

Com a grande paixão, Tônia Carrero, o sorriso esboçado

Julián Fuks
do UOL

Desconfiado de sua palavra, senti uma súbita urgência de ver o rosto do jovem Braga. Queria saber se ele mentia numa crônica, se mentia quanto à existência de uma tal Pierina, uma vizinha com quem ele travou na juventude um amor através das janelas, por sinais e gestos, e a quem lançou um avião de papel que foi dar bem em seus seios, num voo perfeito. Algo na crônica sugeria que aquilo só podia ser uma ficção deslavada, embora tão singela. Como precária conferência, me ocorreu que devia ver o rosto do Braga garoto: para viver algo assim ele tinha que ser ao menos um pouco atraente.

O que descobri, porém, se revelou muito mais transcendente do que a verdade ou a mentira da crônica, assunto estúpido de qualquer maneira. Vasculhei todas as imagens que pude, das remotas às recentes, vi o cronista em sua casa, na praia, na guerra, o cronista solitário ou cercado de amigos, o cronista através do espelho, vasculhei todas as imagens que pude tomado de uma estranha vertigem, e não vi sorriso em parte alguma, nem um mísero relance de seus dentes.

CARA FECHADA – Em todas as fotos o mesmo semblante severo, contrafeito, furibundo até. Ao que parece, Rubem Braga não sorria. Se acreditamos nos registros de sua época, não é impossível alegar que nunca sorriu.

Aquilo me intrigou numa parte profunda de mim, aquilo me indignou e me enterneceu a um só tempo. Era estranho, era injusto que um homem como esse não tivesse o hábito frequente de sorrir, se tanta beleza e tanta ternura via no mundo, e se conseguia traduzi-las em palavras perfeitas para todo tipo de contentamento.

Não devo ser apenas eu, pensei, a percorrer as páginas de seus livros com um tremor sempre iminente nos lábios, sem saber se sorrio ou se choro, ou se lanço nos ares algum grito vulgar: esse cara é foda!

NÃO ERA FELIZ – Então como, agora, me via a lamentar que ele não tivesse sido tão feliz quanto eu pensava, que a melancolia de que tantas vezes falava não pudesse ser vencida pela força de suas palavras, a ponto de suscitar algum sorriso em si próprio?

Me ocorreu que talvez não devesse acreditar nas fotos, que as fotos mentem ainda mais do que as crônicas, e que portanto era mais confiável procurar sorrisos em seus textos. Fui atrás de crônicas que lembrava como joviais, leves, expressões da graça do mundo e do gozo da existência.

Voltei a topar com duas meninas que brincavam à beira do mar vestidas de azul e de verde, e deixavam que a espuma molhasse suas roupas, e riam muito, “e isso era alegre e tinha uma beleza ingênua e imprevista”. Braga até diz que sorriu por um instante, mas é difícil acreditar nele porque o resto do texto fala apenas de tristeza, “da grossa tristeza da vida, com seu gosto de solidão”, de uma angústia dolorosa que só por um instante se faz leve, à vista fugaz das meninas.

AULA DE INGLÊS – E fui parar também em sua famigerada aula de inglês, a mais sutil e cômica aula de inglês de toda a literatura universal que eu conheça, e descobri que não, nem ali ele sorri quando enfim acerta a resposta que a professora deseja, limitando-se ao susto por sua reação, e ao orgulho, e à vergonha.

Mas não deixa de provar que conhece bem a mecânica de um sorriso, ao descrever como a professora “teve o rosto completamente iluminado por uma onda de alegria”, “e um largo sorriso desabrochou rapidamente, nos lábios havia pouco franzidos pela meditação triste e inquieta”.

Concluí que Braga conhecia bem o sorriso, é claro, só não queria exercê-lo. Então fiquei me perguntando se Braga não teria afinal algo de clown, se precisava sofrer para que outros se divertissem, se encantassem, se comovessem.

IDEAL ERA ESCREVER – Se cultivou por toda a vida uma angústia que se tornasse fonte de escrita, para alcançar alguma cumplicidade com outras almas partidas, doloridas como a sua. Por isso seu ideal seria escrever, como ele confessou no jornal um dia, “para aquela moça que está doente naquela casa cinzenta”, moça reclusa e enlutada, escrever para ela a história mais engraçada que já existiu para quem sabe assim animá-la, para que ela risse e todos à sua volta se espantassem ao vê-la tão alegre.

E me ocorreu, por fim, que talvez também eu pudesse almejar utopicamente a algo parecido, embora nunca tenha me atrevido a nenhuma crônica engraçada, e embora não acredite em qualquer escrita que faça despertar os mortos, dessa forma literal e imediata, um tanto sinistra.

Mas que meu ideal de escrita, ao menos neste dia, seria escrever uma pequena e singela crônica que, anacronicamente, pudesse fazer o velho Braga trair sua severidade e sorrir, mesmo que preferisse esconder o sorriso sob o bigode no instante seguinte.

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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOG
 – Uma crônica maravilhosa de Julián Fuks, que Rubem Braga iria adorar e abrir um belo sorriso. Trabalhei com ele duas vezes, na Manchete e na Revista Nacional, do Mauritônio Meira, e eu era diretor da Redação. Nossa seleção de colunistas era espetacular, com Joel Silveira, Sebastião Nery, Nina Chavs, Nertan Macedo, Nássara, Paulo Peres e muitos outros. Realmente, Braga raramente sorria, e Mauritônio, um tremendo gozador, se divertia trocando os nomes deles. Braga era chamado de Joel Silveira e vice-versa. Quando conheceu Paulo Peres, Braga se surpreendeu ao ver que ele tinha problemas que lhe afetavam os movimentos das mãos. E me perguntou como Peres conseguia datilografar seus textos. Respondi que ele escrevia batendo à máquina apenas com o indicador da mão direita. Braga disse: “Caramba, é igual ao Nelson Rodrigues”, e sorriu, ao lembrar que o grande dramaturgo e cronista também escrevia usando apenas o indicador da mão direita. Por fim, Braga tinha motivos de sobra para sorrir. Namorava com a mulher mais cobiçada do país, Tônia Carrero, e a gente tinha uma inveja danada dele(C.N.)

A grave crise do INSS e o espelho partido do Governo Lula


Charge de Fred Ozanan (paraibaonline.com.br)

Pedro do Coutto

A entrevista concedida pelo ministro da Controladoria-Geral da União (CGU), Vinícius Carvalho, ao jornal O Globo, revelou mais do que uma disputa narrativa sobre a crise do INSS: escancarou a desorganização política interna do governo Lula e a fragilidade de suas estruturas de governança.

Ao afirmar, com clareza incomum no ambiente palaciano, que “todo mundo conhecia o problema do INSS e o ministro Rui [Costa] sabe disso”, Carvalho rompeu o protocolo de lealdade ministerial e acendeu um sinal de alerta sobre o grau de deterioração do diálogo dentro do núcleo do Executivo.

FRAUDES – A operação que revelou fraudes bilionárias no INSS — mais de R$ 6,3 bilhões em descontos indevidos de aposentados e pensionistas — deveria ser, em tese, um ponto de união para o governo: combate à corrupção, proteção ao cidadão vulnerável, resgate da imagem pública.

Mas o que se viu foi um jogo de empurra, uma batalha por versões, e uma tentativa velada — mas agora exposta — de se atribuir culpas e responsabilidades de maneira seletiva. Rui Costa, ministro da Casa Civil e figura central na coordenação política do governo, chegou a insinuar que a CGU falhou ao não alertar previamente sobre as irregularidades. A resposta veio na forma de uma entrevista-bomba, onde Vinícius Carvalho, respaldado por documentos e pelo próprio mandato legal da CGU, devolveu a crítica com a contundência de quem se sente injustamente alvejado.

A dimensão política da crise vai além dos embates verbais. O caso do INSS é, por si só, uma tragédia institucional: milhões de brasileiros, a maioria em situação de vulnerabilidade, foram vítimas de um esquema que, ao que tudo indica, contou com conivência ou omissão de agentes públicos e empresas privadas. O fato de que isso se arrastou por anos sem uma resposta firme expõe falhas não apenas de controle interno, mas de prioridade política. A leniência com o problema, agora transformado em escândalo, cobra seu preço.

REAÇÃO – O ponto mais sensível, no entanto, está na forma como o governo reage. Ao invés de uma atuação articulada e transparente, a sociedade assiste a ministros trocando acusações, como se a responsabilidade institucional fosse um fardo a ser repassado. Esse tipo de comportamento mina a credibilidade do governo não apenas diante do eleitorado, mas também entre os próprios aliados. Expõe um gabinete fraturado, onde cada ministério parece operar sob lógicas próprias, muitas vezes conflitantes.

O presidente Lula, que construiu sua imagem sobre a ideia de diálogo e liderança política, agora enfrenta o desafio de recompor a unidade e restabelecer autoridade. Não se trata apenas de encontrar culpados, mas de entender por que os sistemas de controle falharam e como evitar que tragédias administrativas se transformem em desastres políticos. Mais ainda, é necessário dar respostas rápidas à população afetada — com ressarcimento, responsabilização e, principalmente, mudança.

O episódio do INSS, portanto, não é um caso isolado. Ele é sintoma de algo mais profundo: a dificuldade do governo em organizar sua própria estrutura interna, em comunicar-se com clareza entre si e com o público, e em reagir de forma institucional — e não emocional — às crises. A depender da forma como for conduzida daqui em diante, essa crise pode marcar uma inflexão no governo Lula, revelando que a terceira gestão do petista convive com as mesmas mazelas que um dia jurou combater.

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