segunda-feira, fevereiro 06, 2023

Democracia brasileira regrediu tanto que hoje mais parece um regime de exceção

Publicado em 6 de fevereiro de 2023 por Tribuna da Internet

Charge do Sadel (Arquivo Google)

Fernando Schüler
Veja

“Por que a democracia?”, perguntava um representante diplomático ao professor Francisco Weffort, naquele início de anos 80. Ele tinha curiosidade em saber por que se falava tanto em democracia, e quase mais nada em “revolução”, naquele apagar das luzes do regime militar. Weffort usou a questão para abrir seu livro “Por que Democracia?”, publicado em 1984, e seu argumento jogou luz sobre o Brasil que surgia à frente: um país com um robusto, e raro, consenso em torno da regra democrática.

Anos depois fizemos a nova Constituição, e logo a primeira eleição presidencial. Mesmo o impeachment de 1992 mostrou quanto o pacto democrático havia fincado raízes na vida brasileira.

CONSENSO DEMOCRÁTICO – Ao longo de duas décadas que vão dos anos 90 até quem sabe os movimentos de rua de 2013, o tema da democracia virtualmente desapareceu do nosso cotidiano político. Não por irrelevância, mas pelo consenso. Ministros do STF se sucediam, a Justiça Eleitoral agia com discrição, e a liberdade de expressão era dada como um valor consolidado. Em algum momento, na última década, isso mudou. Dias atrás me dei conta disso em um debate, quando alguém perguntou, com alguma angústia, em que momento a “questão democrática” havia retornado ao centro do debate brasileiro. Eu me lembrei daquela pergunta feita a Weffort, nos anos 80. O tom agora não era o de uma agradável surpresa, mas sombrio. Algo na linha: quando nos perdemos?

Em que momento, temas que já considerávamos superados, a censura, a conversa sobre “golpe”, o “cala-boca” a deputados e jornalistas, e o medo de falar, mesmo nos espaços privados, como os grupos de Whats­App, haviam voltado à tona?

É DIFÍCIL PRECISAR – É possível que tudo venha da polarização tóxica da última década e meia. O “nós contra eles”, o “nunca-antes-neste-país”. E logo a reação conservadora. A ideia da “salvação nacional”, da “nossa bandeira que jamais será vermelha”.

O pano de fundo disso está na migração do nervo da política para o universo tribal da internet e das redes sociais. A nova multidão digital, pouco afeita ao diálogo e à reflexão, levando de arrasto boa parte do mundo político e do mundo-mídia. Ainda me lembro da desistência anunciada por um senador e dizendo algo melancólico: “Gosto de política pública, não tenho chance como youtuber”.

As eleições de 2014 já apresentavam um tipo novo de polarização. Com direito a um sinal: o pedido de auditoria eleitoral, feito pelo PSDB. Ainda que tímido, foi um voto de desconfiança ao sistema, ao embalo do barulho digital.

MOVIMENTOS DE RUA – Na esteira das eleições, surge um novo fenômeno: os movimentos de rua de viés liberal ou conservador. Em um domingo de março de 2015, o movimento anti-Dilma fez o maior comício do país depois das Diretas Já.

A rua havia sido um espaço da esquerda, mas os ventos agora mudavam de direção. A própria lógica da “oposição frontal” havia transbordado. Quem não se lembra do “Fora Sarney”, “Fora Collor, “Fora FHC”, como depois do “Fora Temer”, “Fora Bolsonaro”? Naquele início de 2015, a pauta era um sonoro “Fora Dilma”.

Alimentado pela crise, veio o impeachment. The Economist escreveu que aquilo iria envenenar durante muito tempo a política brasileira, e acertou. Diferentemente de Collor, o PT é uma força estruturada na vida brasileira, e soube converter a derrota em narrativa de guerra.

PARADOXO PETISTA – E aqui surge o paradoxo: ao apostar na “narrativa do golpe”, o partido põe em xeque as instituições da democracia brasileira. Em especial, o Congresso e o STF. Se hoje dizemos que as instituições são postas em questão, há ali um incômodo precedente.

Em 2018, Bolsonaro vence, e a partir daí começa um estranho jogo. De um lado, a recusa permanente da legitimidade de quem venceu. O “coiso”, o “fascista”, o “inominável”, o “gado”; de outro, a tensão, o duplo sentido levado ao estado da arte. O “nosso Exército”, as eleições na condicional, a frase infeliz, no 7 de Setembro.

E finalmente os temas tóxicos, a “fraude nas urnas eletrônicas”, o “Artigo 142”. Tudo isso como avant-première daquele domingo vexaminoso, que por muito tempo manchará não apenas certa “direita”, mas nossa democracia, no seu dia talvez mais constrangedor.

LÓGICA DE EXCEÇÃO – A resposta a isso tudo poderia ter sido, desde o início, uma reação altiva das instituições, mas nem isso conseguimos fazer. Em vez de fincar pé nos preceitos da Constituição, criamos uma difusa lógica de exceção.

Criamos o crime inexistente de fake news, retomamos a censura prévia em larga escala, cancelamos passaportes e bloqueamos contas de jornalistas, fizemos terra arrasada da inviolabilidade parlamentar, do direito ao contraditório, do simples acesso da defesa aos autos de processos.

Criamos inclusive um procedimento novo: a prerrogativa do Estado para “apagar” do mundo digital quem seja interpretado como “risco à democracia”. Tudo sob o signo do autoengano, que inclui achar um tuíte do PCO um risco à democracia, ou fazer de conta que a censura prévia não é censura prévia.

DEFESA DA DEMOCRACIA – Dias atrás, uma jornalista defendeu o banimento de parlamentares, sem devido processo ou manifestação do Congresso, a partir da lógica abstrata da “defesa da democracia”.

Nenhuma pergunta sobre qual o crime, ou sua tipificação. E seguida pela multidão em transe, em um país onde o vezo autoritário não vem só do Estado, mas finca raízes na sociedade. No jornalismo, na academia, na algazarra digital, em tudo o que é tocado pela polarização obsessiva.

Dias atrás, houve um interessante episódio. Um grupo de advogados pediu ao STF a suspensão da posse de mais de uma dezena de deputados, por um suposto apoio aos atos do dia 8 de janeiro. Consultada, a Procuradoria-Geral da República ofereceu uma singela lição sobre o estado de direito. Disse que “não se extrai, ainda que com esforço interpretativo, qualquer indício de crime” nas manifestações daqueles parlamentares.

INVIOLABILIDADE – A Procuroria lembrou que temos uma Constituição que assegura a inviolabilidade dos parlamentares em “palavras e opiniões” e que “eventuais atos praticados por deputados deverão ser apurados nos termos do Código de Ética da Câmara de Deputados”. Por fim, que “instauração de procedimento criminal sem o mínimo de lastro probatório viola direitos fundamentais”.

Uma posição rara no atual transe brasileiro, com uma distinção elementar: uma coisa são opiniões, detestáveis que sejam; outra são crimes, que só existem por força de lei, não brotando da vontade dessa ou daquela autoridade.

Nossa dificuldade, quem sabe, reside no fato de que soubemos construir uma democracia, mas não uma democracia liberal. E muito menos uma cultura liberal enraizada na sociedade civil. Vai daí o mal-estar: os direitos estão todos lá, na Constituição, mas dançam ao sabor das exceções de cada dia, no mundo real da política. Eis o desafio. Escrever, debater, insistir sobre direitos, sobre o império da lei, até que aquela pergunta sobre “por que a democracia?”, feita ao mestre Weffort, há quase quarenta anos, dê lugar a uma quase-resposta: por que não a democracia liberal?


Acusação de Lula abala Campos Neto no comando do Banco Central


Lula dispara contra Campos Neto e estremece o mercado

Pedro do Coutto

Na edição de ontem, domingo, da Folha de00 S. Paulo, Mônica Bergamo revelou que o presidente Lula da Silva encontra-se fortemente insatisfeito com a presença de Roberto Campo Neto na Presidência do Banco Central, sobretudo porque continua aplicando uma política de juros altos que no fundo leva o país a uma crise econômica e social.

Na realidade, o Bacen elevou a taxa Selic para 13,75% ao ano em decorrência da inflação calculada pelo IBGE ter batido em 10% em 2021. Mas, em 2022, o mesmo IBGE visualizou um índice inflacionário de 5,7%. Entretanto, o Banco Central, no final de janeiro, manteve a Selic em 13,75%.  A taxa Selic, como se sabe, é o fator de correção anual da dívida interna do Brasil que se encontra na escala de praticamente R$ 6 trilhões.

JUROS – Assim, o país tem que pagar juros de quase R$ 800 bilhões para rolar o endividamento em que se encontra. Isso de um lado. De outro, para atrair aplicações de títulos do Tesouro, na visão de Campos Neto, é necessário oferecer uma rentabilidade  nominal de 13,75% para 12 meses. Acontece que, como já definiu Einstein, tudo é relativo.

Então, quando a inflação bateu 10 pontos, a diferença entre a Selic e a taxa encontrada pelo IBGE era 3,75%. Mas, com a inflação de 7,5%, a diferença real entre a Selic e o índice inflacionário passou a ser de 8%, taxa que reforça substancialmente as aplicações financeiras. E assim, desvia investimentos do plano económico para, digo, a mesa do mercado onde está sentado sempre um tigre com a pata pronta para golpear os que se encontram à sua volta.

A taxa Selic mais alta interessa diretamente aos bancos, bastando que estes apliquem em títulos do Tesouro depósitos estacionados nas cadernetas de poupança.Só comparar o rendimento das cadernetas com os 13,75% de juros. Torna-se inevitável a transferência estudada de um plano para outro. Um ótimo resultado tanto para os bancos quanto para os fundos de investimento e os fundos de pensão das estatais que também atuam no mercado financeiro.

TRANSFERÊNCIA – Em seu livro “O Capitalismo no século XXI”, obra monumental de Thomas Piketty, ele mostra a transferência no mundo  de aplicações econômicas que geram empregos e os investimentos simplesmente financeiros que não implicam na extensão do mercado de trabalho, nem traduzem avanço para fundamental transferência de renda, única forma de combater concretamente a pobreza e através do tempo a própria concentração de renda que, de ano para ano, torna-se cada vez maior.

No caso de Lula e do BC, Mônica Bergamo informou que, a meu ver, inevitavelmente, a insatisfação do presidente da República torna impraticável a presença de Campos Neto no cargo em que se encontra. Alguém pode dizer, como certamente dirá, que ele possui um mandato. É verdade. Mas é verdade que ninguém pode exercer um cargo dessa importância sem contar com a confiança do presidente da República. Ele próprio, Roberto Campos Neto, sentirá, penso, a pressão para renunciar. Depois da matéria de Mônica Bergamo, ele não tem outro caminho.

ENTRE QUATRO PAREDES –  Também em sua na coluna de ontem da Folha de S. Paulo, Mônica Bergamo publica declarações de Maria Cristina Mendes Caldeira, que foi casada com Valdemar Costa Neto, revelando conceitos que o seu ex-marido (entre quatro paredes) deixou escapar sobre o que ele pensa de fato sobre Bolsonaro e de suas inquietações permanentes.

Isso leva a pensar quanto tempo poderá durar a sintonia entre o presidente do PL e o ex-presidente da República. A meu ver, a sintonia começou a desaparecer com as declarações de Valdemar a respeito do projeto de decreto que tinha como objetivo alucinado incriminar o TSE no resultado das eleições e intervir na Justiça Eleitoral. A impressão que se tem é que Valdemar está se afastando de forma lenta, mas progressiva, de Jair Bolsonaro

Por que o governo ainda não tem um plano para retirar garimpeiros de terra indígena?

Publicado em 6 de fevereiro de 2023 por Tribuna da Internet

Lula acompanha a situação dos Yanomami, povo que vive grave crise sanitária.

O presidente Lula fez muita marola, mas até agora, nada

Bernardo Mello Franco
O Globo

O presidente Lula prometeu “parar com a brincadeira” e varrer os garimpeiros das terras indígenas. “Se vai demorar um dia ou dois, eu não sei”, disse, na segunda-feira. “Pode demorar um pouco, mas nós vamos tirá-los”, assegurou.

No fim de janeiro, Lula voou para Boa Vista acompanhado de sete ministros. Visitou abrigos, deu entrevista, assinou um decreto e declarou emergência em saúde. As medidas permitiram o início do socorro aos ianomâmis, vítimas da fome e de doenças ligadas à contaminação dos rios.

DESAFIO COMPLEXO – A desocupação do território é um desafio mais complexo, que está longe de se resolver em um dia ou dois. O governo sabe que terá dificuldade para retirar ao menos 20 mil garimpeiros da região. A atividade clandestina está por trás de boa parte da economia de Roraima. Tem amplo apoio no empresariado e no meio político.

Isso ajuda a explicar por que o estado se tornou uma cidadela do bolsonarismo. Incentivador do garimpo, o capitão recebeu 76% dos votos dos roraimenses, seu melhor desempenho em todo o país.

O governador Antonio Denarium, reeleito em outubro, é outro entusiasta da corrida ao ouro. Já liberou o uso de mercúrio nos rios e proibiu a destruição de equipamentos usados por garimpeiros. As duas medidas foram derrubadas pelo Supremo.

INTERVENÇÃO ADIADA – Na última semana, o Planalto debateu a hipótese de uma intervenção federal para afastá-lo. A ideia foi descartada porque ninguém saberia ao certo o que fazer no dia seguinte.

Um ministro que participou da discussão admite que ainda falta um plano claro para além da proibição do tráfego aéreo. Um dos problemas é a presença de indígenas nos acampamentos. O Planalto foi informado de que milhares foram cooptados para atuar na atividade ilegal. Na hipótese de confronto armado, poderiam ser recrutados para defender os invasores.

Também há incerteza sobre o comportamento das Forças Armadas.

MÃO AMIGA – Na segunda, o ministro Luís Roberto Barroso determinou que o Ministério Público Militar ajude a apurar a participação de autoridades em crimes de genocídio e desobediência durante o governo Bolsonaro. A decisão reforça os sinais de que parte do Exército atuou como braço forte e mão amiga do garimpo.

O capitão não era o único a se lixar para os ianomâmis. O general Hamilton Mourão, agora senador, ainda endossa o discurso bolsonarista que menospreza o modo de vida dos povos originários.

“Você acha que índio quer viver o resto da vida enfurnado no meio da floresta? Índio quer celular, índio quer caminhonete”, provocou nesta quinta, em entrevista à Rádio Gaúcha. Ele chefiava o Conselho da Amazônia enquanto o garimpo poluía os rios e se alastrava pela floresta.

SOCIALISMO DE RESULTADOS – O PSB anunciou na terça-feira a filiação do senador Chico Rodrigues. Em 2020, ele se notabilizou ao ser alvo de uma operação contra desvios na saúde. Apavorado com a chegada da polícia, tentou esconder dinheiro entre as nádegas.

O senador de Roraima é mais um entusiasta do garimpo em terras indígenas. Em vídeo gravado na Raposa Serra do Sol, referiu-se à atividade ilegal como “um trabalho fabuloso”.

Rodrigues se elegeu pelo DEM e foi vice-líder do governo Bolsonaro. Os motivos de sua conversão ao socialismo ainda não foram esclarecidos. Os motivos do PSB para acolhê-lo, menos ainda.

Cláudio Castro se afasta do bolsonarismo radical e divide PL




Reeleito com o apoio do ex-presidente Jair Bolsonaro, o governador Cláudio Castro (PL) busca uma marca própria à frente do Palácio Guanabara e, aos poucos, se afasta da base bolsonarista radical no Estado, berço político do clã Bolsonaro. A movimentação para o centro dividiu o seu próprio partido, o PL, na disputa pelo comando da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, na semana passada. E ameaça se aprofundar, deixando sequelas na relação do mandatário com o bolsonarismo.

Sem falar com o ex-presidente, que está nos Estados Unidos desde o fim do ano passado, Castro tenta equilibrar o afastamento com a manutenção da base bolsonarista. A estratégia expôs o racha no PL e a perda de força de Bolsonaro no Rio. A bancada aliada a ele é a maior da Alerj, mas começa a sentir a força do governador.

Dos 17 deputados estaduais do PL, Bolsonaro ainda tem apoio de ao menos oito: Doutor Serginho, Douglas Ruas, Anderson Moraes, Samuel Malafaia, Jair Bittencourt, Márcio Gualberto, Thiago Gagliasso e Fillipe Poubell.

Um dos símbolos do bolsonarismo raiz, o deputado Rodrigo Amorim se aproximou do governador, interessado em presidir a Comissão de Constituição e Justiça, desejo que deve oficializar nos próximos dias.

Inconformado, um grupo do PL lançou a candidatura de Jair Bittencourt à presidência da Casa contra o candidato de Castro, Rodrigo Bacellar (PL), ex-secretário de Governo. A escolha do governador foi resultado de uma articulação iniciada ainda no ano passado. Já Bittencourt teria a simpatia do ex-presidente. Às vésperas da votação para a Mesa Diretora, porém, o deputado recuou e decidiu apoiar a chapa única de Bacellar, que acabou eleito com ampla maioria dos votos.

Atritos

Fiel a Bolsonaro, Poubell minimiza os atritos na bancada e diz que não ficou ruído após o racha interno: “Unidade total”. Parlamentares aliados do ex-presidente ainda aguardam um sinal de Bolsonaro ou da direção do PL no Rio para “calibrar” o nível de resistência que devem aplicar às pautas de Castro na Alerj.

Paz

De sua parte, o governador tem procurado demonstrar distância de pautas caras ao bolsonarismo. Durante seminário do Grupo de Líderes Empresariais, em Lisboa, neste sábado, 4, ele afirmou que o “verdadeiro povo brasileiro” apoia o Judiciário. “Contem com os governos e com governadores. O que queremos é paz para esse País”, afirmou, citando os ministros do Supremo Tribunal Federal Gilmar Mendes e Ricardo Lewandowski e o presidente do Superior Tribunal de Justiça, Humberto Martins, que estavam na plateia do evento. 

COLABOROU DAVI MEDEIROS

Estadão / Dinheiro Rural

Alexandre Moraes versus Jair Bolsonaro




A estratégia de ontem não será a de amanhã. 

Por Joaquim Falcão (foto)

O ex-presidente Jair Bolsonaro e seus assessores brasileiros e americanos trumpistas não contavam ter, como principal contendor, o ministro Alexandre de Moraes. Uma melhor análise das táticas e estratégias jurídico-políticas em jogo teria sido importante. Cometeram vários equívocos.

O que lhes custou caro.

Primeiro. Talvez esperassem um presidente do Tribunal Superior Eleitoral mais discreto e conciliador.

Erraram. Uma matéria-prima do ex-presidente é difundir e administrar o medo. Já o ministro é mais feito de Gonçalves Dias: "A vida é luta renhida, viver é lutar. A vida é combate, que aos fracos abate e aos fortes, os bravos, só pode exaltar".

Segundo. Para a teoria dos jogos, um fator decisivo para a vitória é o tempo que contendores têm para jogar. O ex-presidente tinha tempo limitado. Até 28 de outubro. Se não ganhasse até essa data, perdia. Saía do poder e do jogo. Saiu. Já o ministro é vitalício. Quem tem tempo não tem pressa, dizia Marco Maciel.

Mais ainda. O ex-presidente tem 67 anos. O ministro, apenas 54. O vigor geracional conta.

Terceiro. A assessoria trumpista foi útil em táticas midiáticas, captação das pautas nacionais, marketing eleitoral e mobilização de demanda por um populismo reacionário, diz Christian Lynch. Esqueceram de peculiaridades de nossa cultura jurídica e institucional.

Nesta era da infocracia, alerta Byung-Chul Han, a cultura é forte arma imaterial na arena do poder. Cultura importa, avisou Huntington.

Os Estados Unidos não têm Justiça eleitoral. Tratando-se de ataque ou preservação do Estado de Direito, era provável que a contenda passasse pelos plenários do Tribunal Superior Eleitoral e/ou do Supremo. Trumpistas e bolsonaristas, ao escolherem atacar as urnas eletrônicas, que, de Carlos Velloso a Luís Roberto Barroso, têm sido exemplo para o mundo, erraram. Não é este o ponto fraco do TSE. Importaram a cultura do caótico sistema eleitoral americano. Perderam.

Quarto. Não previram o risco de o ministro bem coordenar duas competências institucionais ao mesmo tempo. Presidente do TSE e ministro do Supremo. Ambos vinham sendo arrogantemente atacados. O ministro conseguiu união momentânea dos ministros na defesa das instituições e de cada um.

O ex-presidente não conseguiu a união dos militares. Inagiram. Paralisaram-se.

O ex-presidente ameaçou demais. Excessivamente demais. Simbolizado na expressão: "Eu sou, realmente, a Constituição". Parafraseando Vinicius de Moraes, o homem que diz sou, não é. Porque quem é mesmo, não diz. Deveria ter falado menos. Uniu os desunidos.

Quinto. Junte-se invulgar conhecimento jurídico pragmático. O que explica a rapidez e segurança com que Moraes decide qualquer demanda processual.

Seu livro "Direito Constitucional" vendeu cerca de 700 mil exemplares. Em 38 edições. É atualizado todo ano. Magistrados, faculdades, escritórios de advocacia e procuradorias o compram sistematicamente.

Sexto. Muitas das críticas ao ministro são sobre seu eventual ativismo. Extrapolaria sua competência na investigação e punição dos atos antidemocráticos. Essa crítica tem que enfrentar o fato de que quem primeiro lhe concedeu tal competência foi o então presidente Dias Toffoli. Corroborada pelo plenário do Supremo.

O artigo 43 do regimento interno determina que somente cabe ao Supremo investigar e julgar infração à lei penal na sede ou dependência do tribunal. Até então se entendia "sede ou dependência" como seu espaço "físico". De pedra e cal. Ora, na infocracia, atos danosos podem ser físicos e/ou virtuais. O golpe foi a soma desses atos.

O conceito de ativismo muda de acordo com a cultura jurídica. Maior ativismo não houve do que a omissão do Supremo norte-americano no caso Bush v. Gore. Recusou-se a apurar eventual fraude de contagem de votos que ocorria na Flórida. Beneficiaram o candidato Bush. Ativismo envergonhado. O Supremo de lá afirmou que não mais se repetiria. E que não constituía jurisprudência.

Não somos nem melhores nem piores, apenas diferentes, diria o Salgueiro. Às vezes, a omissão é o pior ativismo.

A contenda continua. Os contendores mudam-se e mudam. A estratégia de ontem não será a de amanhã.

Folha de São Paulo

Sem plano - Editorial




Fala confusa de Lula na economia expõe erros e falta de programa coerente

De modo vago e grosseiro, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) indicou em entrevista que pode rever a autonomia formal do Banco Central. Pouco se entendeu do que disse, além de um desejo de interferir nos juros. Esse tem sido o padrão das declarações econômicas do mandatário, que revelam, mais do que ideias erradas, a falta de planos.

Além de confusas, as declarações carecem de caráter programático e institucional. A crítica de políticas públicas e a proposta de mudanças são parte do debate democrático e decorrências da alternância de poder. Lula, porém, não apresenta uma agenda organizada.

Seus discursos sugerem que a mudança está associada apenas à vontade ou ao capricho do líder. São imprudentes e contraproducentes —elevam a taxa de juros e provocam mais deterioração das condições financeiras em geral.

Tem sido assim desde o desfecho das eleições, quando o petista passou a criticar a ideia de conter o aumento da dívida pública. O presidente e integrantes do seu governo também pregam a expansão do BNDES (para também se contrapor ao BC, como disse Lula), criticam a Lei das Estatais e a política de preços da Petrobras.

Pretendem ressuscitar, sem mais, programas como o PAC, de escasso ou desastroso resultado, ou o Minha Casa, Minha Vida.

É como se bastasse reviver uma mítica era dourada, interrompida apenas pela deposição de Dilma Rousseff (PT) e pela dita ascensão do neoliberalismo. Tudo se passa como se não tivesse havido erros graves de política econômica, como se certos programas não tivessem envelhecido desde os primeiros governos petistas.

Na vida real, o que se consegue com essa retórica palanqueira é tumulto e incerteza.

A respeito do BC, Lula pretende encerrar a autonomia formal ou nomear dirigentes heterodoxos? Propõe um novo modo de definir metas de inflação ou políticas monetárias diferentes?

Pretende replicar a gestão voluntarista do BNDES sob Dilma Rousseff, que não resultou em aumento de investimento e transtornou as contas públicas? Vale a mesma pergunta para a Petrobras, outro fracasso desastroso.

É obviamente compreensível que um novo governo pretenda dar rumo diferente à administração, talvez com mudanças profundas. Tem mandato obtido nas urnas para tanto. No entanto a saraivada de declarações autolaudatórias, confusas, saudosistas e desprovidas de argumentos só causa insegurança política e econômica.

Além do mais, não demonstra o devido apreço pela seriedade e pelo caráter institucional do governo e de sua agenda, algo que o país tanto precisa recuperar.

Folha de São Paulo

Cinco personagens decidirão o rumo do país nos próximos dois anos




“Não há muitas dúvidas sobre o poder de Lula, mas o presidente manda menos do que mandava”. 

Por Murillo de Aragão (foto)
 
Com a eleição dos presidentes da Câmara dos Deputados e do Senado, Arthur Lira e Rodrigo Pacheco, respectivamente, está completo o time dos personagens que vão determinar o rumo de nosso país nos próximos dois anos.

Além de Lira e Pacheco, integram a lista o presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva; o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto; e o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, que é uma espécie de ombudsman da nação.

Não há muitas dúvidas sobre o poder de Lula como presidente. Por outro lado, existe a certeza de que o presidente da República manda menos do que mandava. É um fenômeno que vem ocorrendo de forma gradual em razão do exercício de poder crescentemente expandido do Congresso e do Judiciário.

Na escala de poder, Arthur Lira, como presidente da Câmara, é o segundo nome mais poderoso do país. Tanto por ser o grande agregador de maiorias na Casa quanto por ter a palavra inicial no processo de impeachment do presidente da República. Lira tem ainda o poder “engavetador” de temas que não tenham consenso, além de imensa influência nos destinos do Orçamento da União.

Prosseguindo, temos Rodrigo Pacheco que tem poder semelhante ao de Lira, mas sem a capacidade de iniciar pedidos de impeachment presidencial. Caso a investigação seja aprovada na Câmara, o presidente é afastado do poder e aguarda, fora do cargo, o julgamento do Senado.

Na sequência, temos Roberto Campos Neto, presidente do Banco Central, que é o comandante das políticas cambial e monetária. De fato, é quem lidera o combate à inflação e tem imensa influência sobre os humores do mercado e as decisões de investimento.

Por fim, temos Alexandre de Moraes, que, pelo seu protagonismo e ascensão sobre a agenda do momento, assume a liderança dentro do Judiciário em termos de influência política. Os demais ministros, em especial Rosa Weber, presidente do STF, também são importantes e se revezam com Moraes na participação no pentagrama do poder no país.

Alguns podem estranhar certas ausên­cias entre os cinco mais poderosos. Porém o comando direto do país está entre os cinco que eu mencionei. A lista deve ser expandida com outros cinco que também se destacam: Fernando Had­dad, ministro da Fazenda; Augusto Aras, procurador-geral da República; Tarcísio de Freitas, governador de São Paulo; Geraldo Alckmin, vice-­presidente da República e ministro da Indústria e Comércio; e Rui Costa, chefe da Casa Civil da Presidência da República, que é uma espécie de secretário-geral do governo.

Como vemos, o núcleo duro de poder no Brasil é facilmente identificável. O quadro se completa com os ministros do STF, que, em face de seu poder monocrático, são decisivos, bem como mais alguns ministérios estratégicos, como os da Agricultura, Planejamento e Defesa, além de lideranças do Congresso.

O que parece limitado em termos de personagens revela uma fragmentação de poder única na história do país. Todos os poderes têm relevância na condução do Brasil. Historicamente, não foi assim. O fenômeno merece ser observado com atenção. Tanto por quem governa quanto por quem é governado.

Revista Veja

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