sexta-feira, novembro 04, 2022

Você acredita mesmo que Bolsonaro nada teve a ver com o bloqueio das estradas?




Bloqueio das rodovias era parte de um plano que fracassou

Por Carlos Newton

Uma das principais funções de um blog como a Tribuna da Internet é facilitar o acesso às notícias e artigos mais importantes dos principais órgãos de imprensa do país, pois a grande mídia (jornais, revistas e portais) passou a funcionar exclusivamente para os assinantes, e a maioria dos brasileiros não tem recursos para pagar essas assinaturas, embora sejam muito mais baratas do que a mídia ainda impressa. 

Além de divulgar o que há de melhor na mídia, muitas vezes é preciso interpretá-la e corrigi-la, porque o jornalismo está muito sujeito a erros, devido à rapidez com que é trabalhado, fazendo jus ao velho ditado de que repórter precisa matar um leão por dia.

SEM MOTIVO? – Vamos dar como exemplo as recentes matérias informando que os caminhoneiros e manifestantes bolsonaristas teriam interrompido as rodovias sem saber a razão e o objetivo. Ou seja, apenas para protestar contra a derrota de Bolsonaro.

Sinceramente, isso não é jornalismo. Todos sabem que o bloqueio das estradas foi um movimento planejado com antecedência, para a eventualidade da derrota do presidente Bolsonaro. Imaginar que o chefe do governo, seus irrequietos filhos e os militares frotistas do Planalto não tiveram nada a ver com isso é uma suposição delirante, que desconhece a realidade à nossa volta.

É absolutamente claro que as lideranças dos caminhoneiros foram estimuladas a proceder assim. Para trabalhadores como eles, não faz a menor diferença quem está no poder, se Lula ou Bolsonaro. O que importa é o preço do diesel e o valor do frente, o resto é folclore, diz nosso amigo Sebastião Nery.

APELO AOS MILITARES – Da mesma forma, os surpreendentes protestos realizados nesta quarta-feira, diante de unidades militares em Brasília, Rio de Janeiro, São Paulo, Belo Horizonte e Anápolis, tiveram primorosa organização, que deve ser atribuída a Carlos Bolsonaro, o filho Zero Dois, e seu Gabinete do Ódio.

Seria uma doce ilusão achar que manifestações de tamanha magnitude possam ser feitas por osmose, sem uma central organizadora que envie mensagens diretas a centenas de milhares de pessoas.

P.S. – Bem, o bloqueio das estradas e as manifestações são parte de um plano maior, para melar as eleições, mas fracassou. No entanto, se você realmente acredita que Bolsonaro e sua trupe não tiveram nada a ver com o bloqueio das estradas e os protestos desta quarta-feira, é sinal de que está precisando de ajuda altamente especializada, porque seu comportamento nem mesmo Freud conseguiria explicar. (C.N.)

Tribuna da Internet

Contrariar a hegemonia à Direita




«Deixem-me em paz!», «Deixem as crianças em paz!», «Deixem as famílias em paz!», nós percebemos instintivamente que o grito parte de uma pessoa de direita; pelo menos, de alguém que não é de esquerda. 

Por Paulo Silvestre (foto)

Um jogo é algo muito difícil de definir, mas vamos defini-lo, para o que aqui nos interessa, como uma actividade sujeita a regras, desenrolada entre dois ou mais participantes, em que cada um busca a vitória sobre os demais. A política é um jogo complexo, confuso, e complicado, sujeito a regras, algumas escritas, outras não escritas. É sobre estas regras que eu gostaria de falar.

Usando um exemplo que me é caro, o jogo do xadrez, temos que há diferentes classes de jogadores. Capablanca, Kasparov, e Carlsen são dos melhores jogadores de xadrez de sempre; mas não há uma única regra do xadrez que aqueles Gigantes conheçam melhor do que o Carlitos, de 14 anos, que é o melhor jogador da sua turma. Todavia, se o Carlitos jogar um milhão de jogos com cada um deles, o Carlitos vai perder três milhões de jogos. Até mesmo Capablanca, falecido em 1942, é perfeitamente capaz de derrotar o Carlitos sempre, sem excepção, a partir do Além, sem o Carlitos sequer perceber o que se está a passar no tabuleiro.

Deste exemplo flui que não basta conhecer as regras do jogo para nele participar com o mínimo de sucesso. Mais do que saber as regras (e algumas são difíceis de compreender), é necessário conhecimento das aberturas, da táctica, da estratégia, dos finais, de toda a filosofia do jogo. É necessária experiência, presença, resiliência, memorização, e talento. Acima de tudo, é preciso ter fibra moral para ser derrotado milhares de vezes sem perder a vontade de ganhar: os seres humanos pouco aprendem com as vitórias.

Se entendermos que a política é um jogo, então também na política é preciso ter conhecimento, não só das regras, mas também das tácticas e das estratégias de ataque e de defesa, de toda a filosofia do jogo, e é essencial estar permanentemente dotado de situational awareness, ou conhecimento situacional, num cenário em constante mutação, com adversários em constante adaptação.

Será possível aos conservadores jogar o jogo da política? E terão os conservadores a disposição para, mais do que conhecer as regras da democracia, entender a filosofia do jogo e sublimar as inevitáveis derrotas?

«Deixem-me em paz!»

Não sendo eu académico, nem especialista em ciência política, nem filósofo, parece-me claro que o xadrez político é um jogo assimétrico disputado não já entre os tradicionais contendores da Direita e da Esquerda, mas entre aqueles que prezam o indivíduo e aqueles que menosprezam o indivíduo, entre aqueles que acreditam que o Estado tudo pode, e aqueles que acreditam que deve haver redutos (a família, a cama, a consciência) imunes à intervenção estatal.

«Deixem-me em paz!» é hoje um grito de desespero libertário, liberal-clássico, e conservador. Escutado em todas as suas variantes, «Deixem as crianças em paz!», «Deixem as famílias em paz!», nós percebemos instintivamente que o grito parte de uma pessoa de direita; pelo menos, de uma pessoa que não é de esquerda; ou ainda, de uma pessoa que, chocada com os desenvolvimentos culturais e sociais dos últimos dez, quinze anos, «já» não é de esquerda.

E os próprios moderados, constituintes do centro político, ouvem esses gritos de desespero como gritos libertários, gritos liberais-clássicos, gritos conservadores, a valorar com um grãozinho de sal. Não interessa se o autor do grito é a favor do estado social, a favor de direitos iguais para todas as minorias, a favor do que quer que seja. A partir do momento em que o desespero se transforma em grito, essa pessoa é atirada para o «cesto de deploráveis» de que falava Hillary Clinton. Os individualistas são descartados para a periferia do sistema de crenças, do caldo de cultura que permeia a sociedade: são prontamente amalgamados na “direita radical”, na “extrema-direita”, no “ultra-conservadorismo”.

A hegemonia

Estamos aqui na presença da Hegemonia de Gramsci: uma unanimidade quase perfeita quanto às questões culturais e sociais que enformam as nossas vidas. Gramsci notou que a supremacia e o controlo de um grupo ou classe social sobre os restantes operam de duas maneiras: 1) através da “dominação”, pela qual o comportamento e as escolhas são determinados externamente, coercivamente, mediante a aplicação de castigos e recompensas; e 2) através de uma “liderança intelectual e moral”, que funciona interiormente, intimamente, assente no consentimento do controlado, e moldando as convicções pessoais do indivíduo à imagem das normas dominantes. Esta liderança intelectual e moral constitui a hegemonia cultural gramsciana, uma ordem em que é falada uma linguagem moral-social comum, na qual uma mundividência ou visão da realidade é dominante e influencia todos os modos de pensamento e de comportamento.

A hegemonia é assim o predomínio obtido por um grupo ou classe social por via do consenso, por contraposição à força. E enquanto a “dominação” é realizada, essencialmente, através da máquina coerciva do Estado, a “liderança intelectual e moral” é obtida principalmente através das inúmeras maneiras pelas quais as instituições da sociedade civil (imprensa, escolas, universidades, redes sociais, etc.) operam para moldar, directa ou indirectamente, as estruturas cognitivas e afectivas pelas quais percebemos a realidade.

Ou seja, “aqueles que não são de esquerda”, sempre que contrariam a hegemonia, têm o ónus intelectual, moral e social de provar que estão absolutamente certos, enquanto “aqueles que não deixam de ser de esquerda”, a maioria, ao se conformarem com a hegemonia, nada têm a provar: está-lhes aberta a via mais fácil, o caminho de menor resistência.

A deficiência da Direita

A que se deve esta hegemonia da esquerda, que influencia a própria direita? Como já outros bem notaram, deve-se à seguinte lacuna intelectual da direita política: uma natural falta de curiosidade pela natureza socio-histórica das circunstâncias políticas. Ninguém parece questionar ou explorar as razões pelas quais a esquerda está em constante ascensão cultural e politicamente, enquanto a direita está consignada à franja política. A direita carece de uma Patologia para explorar o poder dos seus oponentes, e não manifesta grande interesse em desenvolvê-la.

A esquerda, graças em boa parte ao Marxismo, com as suas inúmeras permutações ideológicas, desenvolveu uma grande quantidade de críticas sociais e económicas que constituem a fundação das suas estratégias políticas. As organizações de Esquerda são tipicamente criadas com missões cujas estratégias operacionais se baseiam em críticas às relações de poder socioeconómicas, e a aparentes ou reais injustiças e fraquezas da sociedade.

Já a direita regista e critica muito bem as tolices da esquerda e as suas consequências nefastas, mas raramente se dedica a explicar as causas (próximas e últimas) dessas tolices, e muito menos as razões pelas quais elas sistematicamente se tornam normativas na sociedade.

A direita está assim em tremenda desvantagem perante a esquerda. Isto não espanta: a «longa marcha pelas instituições», a que apelaram Rudi Dutschke e Herbert Marcuse, foi um pleno sucesso. É hoje cada vez mais difícil encontrar um jornalista, um académico, um artista que não seja de esquerda. É por isso dificílimo a um intelectual de direita (e há muitos neste Congresso) encontrar um lugar ao sol aos olhos das pessoas comuns.

É também certo que as pessoas que são de direita tendem a ter carreiras exigentes, famílias carentes da sua presença, e reputações a manter, enquanto a nova esquerda usa os jovens e aqueles que pouco têm a perder como tropas de choque ideológicas, dirigidas por líderes impiedosos. A direita não está preparada para combater nestes termos, em tudo contrários ao seu ethos pacífico, conservador e conciliatório — mas pode usar as armas da esquerda contra si própria, assim as domine cabalmente.

A linguagem

O abandono da “não-esquerda” da luta cultural ampliou a vantagem da esquerda. Recordando a “novilíngua” do «1984» de Orwell, criada e mantida pelo Ministério da Verdade em que trabalhava Winston Smith, o desgraçado protagonista, o objectivo do Partido totalitário era dominar a língua, controlando, contraindo, e erradicando palavras, de maneira a que as pessoas nem sequer conseguissem praticar crimes de pensamento, porque não haveria palavras aptas a cometê-los. Assim se produzem súbditos dóceis.

O poder das palavras é essencial, e a Esquerda domina-o muito bem. Realidades, palavras, e conceitos que diariamente nos entram pelos olhos e ouvidos são da autoria da esquerda. Quem não quiser usar esses termos, essas palavras, esses conceitos, não consegue falar das realidades subjacentes, porque não existem alternativas válidas: a direita não as fornece.

Temos que aceitar este facto com tranquilidade. Temos que perder a vergonha que sentimos por não termos uma língua nossa, e usar a linguagem política que já existe: a linguagem, os conceitos, os escritos da esquerda. É assim a vida. A direita já perdeu demasiadas partidas de xadrez político, e tem que compreender, mais do que as regras do jogo, as tácticas e as estratégias desse mesmo jogo. Foi o inimigo que as criou? Pouco importa — são as que existem.

Que fique, porém, claro: dominar e utilizar a linguagem da esquerda não significa copiar os seus métodos, nem espelhar os seus objectivos. A direita é diferente da esquerda, tem valores morais diferentes da esquerda, e é bom que assim se mantenha. Compreender não é imitar.

Relembro Frederick Douglass, o escravo americano foragido que, com a sua brilhante oratória e impecável escrita, conseguiu influenciar determinantemente o movimento abolicionista americano, a Guerra Civil centrada em grande parte nesse movimento, e a subsequente Reconstrução do país. Que língua usou? A língua inglesa, a língua dos senhores, a língua daqueles haviam torturado e violado o seu povo. Era a língua que tinha ao seu dispor. Foi a sua única arma.

O Conservadorismo

Eu diria que qualquer conservador tem o dever moral de entender as regras, as tácticas, e as estratégias do jogo político, mais do que se deixar levar por elas.

Para Edmund Burke, o fundador do conservadorismo moderno, a sociedade não se baseia apenas num contrato entre os vivos. Antes representa uma associação entre os mortos, os vivos, e aqueles que estão por nascer. Aos vivos incumbe o dever de custódia da sociedade, na perfeita consciência de que ela não lhes pertence. Como disse Roger Scruton, a sociedade é uma herança partilhada pela qual aprendemos a circunscrever as nossas exigências, a ver nosso próprio lugar no mundo como parte de uma cadeia contínua de dar e receber, e a reconhecer que as coisas boas que herdámos não são nossas para saquear, são nossas para respeitar e salvaguardar em favor daqueles que hão-de vir.

Eu não tenho dúvidas de que todos dentro desta sala concordamos com esta ideia, e que todos desejávamos que os que estão fora desta sala comungassem dela. Todavia, sabemos que esse não é o caso. Lá fora reina a distopia da utopia; tudo o que é velho é para desconstruir e para demolir, e tudo o que é novo é para abraçar acriticamente, obrigatoriamente, permanentemente, até o novo se tornar velho, e o ciclo de destruição criativa recomeçar.

Temos que pensar, temos que escrever, temos que construir e apresentar ao mundo uma mundividência que contrarie a inaceitável hegemonia em que vivemos. Para mim, a solução é o conservadorismo liberal, ou o liberalismo conservador, como preferirem.

Aos meus Amigos liberais progressistas ofereço as palavras do nosso João Pereira Coutinho: «Todos somos conservadores. Pelo menos, em relação ao que estimamos. Família, amores, amigos. Lugares, livros, memórias até».

Todos, sem excepção, somos conservadores. E como conservadores, temos a obrigação de respeitar o passado, entender o presente, e construir o futuro.

Não permitamos que a nossa disposição natural para a temperança nos faça abdicar de engajar no jogo político — um jogo que por vezes é sujo, que é sempre exigente, e que implica saborear a derrota (a derrota é a única coisa que está garantida à partida). Não nos iludamos com o facto de que temos razão — termos razão em nada alivia as vítimas, tantas delas inocentes, causadas pelo adversário. E, acima de tudo, não tenhamos receio de compreender as esquerdas e as suas línguas, as suas ideologias, as suas utopias — compreender o pensamento da esquerda é compreender a hegemonia; e, infelizmente, compreender a hegemonia é compreender o mundo em que vivemos.

A nossa linguagem, a linguagem conservadora, só ganha sentido em cotejo com a linguagem dominante. Quem nos dera não termos que ser conservadores! Quem nos dera simplesmente ser, sem termos que nos preocupar com o jogo político e com as suas vítimas: as mortas, as vivas, e as que estão para nascer. Talvez um dia nos possamos dar a esse luxo. Mas esse dia não é hoje.

Este texto corresponde, com algumas alterações, à intervenção feita no dia 29 de Outubro de 2022, no Porto, no âmbito do “Congresso Portugal no Rumo Certo”, organizado pela Associação Conservadores com Norte.

Observador (PT)

Fim de sigilo de 100 anos? As decisões de Lula que poderão afetar Bolsonaro após posse




O presidente eleito, Luiz Inácio Lula da Silva, já deixou claro que pretende derrubar com rapidez os sigilos de cem anos que o governo de Jair Bolsonaro adotou sobre uma série de informações, como o cartão de vacinação do presidente ou as vezes que seus filhos estiveram no Palácio do Planalto.

Por Mariana Schreiber, em Brasília

"Eu vou ganhar as eleições, e quando chegar dia primeiro de janeiro, eu vou pegar seu sigilo e vou botar o povo brasileiro para saber por que você esconde tanta coisa. Afinal de contas, se é bom, não precisa esconder", prometeu o petista, no debate do segundo turno da TV Bandeirantes.

Além do fim desses sigilos, outras decisões do próximo governo também poderão afetar a família Bolsonaro, como a troca de comando da Polícia Federal e a escolha do novo Procurador-Geral da República em setembro do próximo ano. O presidente enfrenta acusações de ter interferido nessas instituições para evitar investigações contra si e seus filhos.

Entenda melhor a seguir as decisões que Lula tomará e como elas podem impactar o futuro ex-presidente.

Sigilo de cem anos

A imposição de sigilo de um século ocorreu em situações que ganharam destaque durante o governo Bolsonaro, como nesses quatro casos:

- O cartão de vacinação de Bolsonaro foi colocado em sigilo, em meio à pandemia de covid-19 e no contexto de que o presidente questionava eficácia e segurança dos imunizantes;

- O governo determinou sigilo de cem anos sobre informações dos crachás de acesso ao Palácio do Planalto emitidos em nome dos filhos Carlos Bolsonaro e Eduardo Bolsonaro;

- A Receita Federal impôs sigilo de cem anos no processo que descreve a ação do órgão para tentar confirmar uma tese da defesa do senador Flávio Bolsonaro, filho do presidente, sobre a origem do caso das "rachadinhas";

- O Exército impôs sigilo de cem anos no processo que apurou a ida do general da ativa e ex-ministro da Saúde Eduardo Pazuello a um ato no Rio de Janeiro com o presidente Jair Bolsonaro e apoiadores do governo.

As decisões de manter o tema em sigilo são feitas em resposta a pedidos apresentados por meio da Lei de Acesso à Informação (LAI), geralmente sob alegação de que documentos continham informações pessoais.

Também há caso em que o governo tentou manter a informação secreta e depois mudou de ideia — como os dados sobre visitas ao Palácio do Planalto de pastores suspeitos de favorecer a liberação de verbas do Ministério da Educação para prefeitos aliados.

O sigilo de no máximo cem anos, decretado em resposta a pedidos de informação do governo, está previsto na lei que acabou com o sigilo eterno de documentos oficiais — a Lei de Acesso à Informação. Ela foi sancionada em 2011 pela então presidente Dilma Rousseff — e foi assinada junto com a lei que criou a Comissão da Verdade.

No artigo 31, a lei prevê que informações pessoais relativas à intimidade, vida privada, honra e imagem tenham acesso restrito pelo prazo de até cem anos.

Também está lá um trecho que busca conter o uso dessa medida: o texto diz que a restrição de acesso de "informação relativa à vida privada, honra e imagem de pessoa não poderá ser invocada com o intuito de prejudicar processo de apuração de irregularidades em que o titular das informações estiver envolvido, bem como em ações voltadas para a recuperação de fatos históricos de maior relevância".

'Em meio à pandemia de covid-19, Bolsonaro questionou a eficácia e segurança das vacinas — e seu cartão de vacinação foi colocado em sigilo'

Para o advogado Bruno Morassutti, fundador da agência especializada em transparência Fiquem Sabendo, pessoas que ocupam importantes cargos públicos, como a Presidência da República, não devem ter o mesmo nível de proteção de sua privacidade que cidadãos comuns.

Dessa forma, ele avalia que o governo Lula poderá, sim, revisar com facilidade os sigilos decretados pela gestão Bolsonaro.

"O presidente poderia, diante de alguns casos concretos, determinar a abertura das informações, já que ele é o chefe do Poder Executivo e tem competência jurídica para fazer isso. Ou, eventualmente, ele pode orientar o ministro da Transparência e os membros da Comissão Mista de Reavaliação de Informações a revisar essas decisões de acordo com critérios que ele estabelecesse", afirma.

A Comissão Mista de Reavaliação de Informações (CMRI) é um órgão colegiado composto por nove ministérios: Casa Civil; Justiça e Segurança Pública; Relações Exteriores; Defesa; Economia; Mulher, Família e Direitos Humanos; Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República; Advocacia-Geral da União e Controladoria-Geral da União.

Além dessas ações, Morassutti também diz que o governo pode alterar o decreto que regulamenta a LAI ou enviar uma proposta de alteração da lei ao Congresso para que seja adotada uma nova redação que impeça um uso inadequado do sigilo.

"A lei, interpretada da forma correta, não permitiria esse tipo de sigilo. Acontece que ela foi interpretada de uma forma que a torna muito restrita. É uma visão que não interpreta a lei junto com o restante da legislação e com o que a Constituição diz sobre acesso à informação pública", ressalta.

Na sua avaliação, o potencial de impacto do fim desses sigilos vai depender do que for revelado.

No caso das visitas dos filhos do presidente ao Palácio do Planalto, por exemplo, o advogado acredita que há um interesse em saber se houve alguma atuação em encontros com ministros que poderia ser enquadrada como advocacia administrativa, que consiste no crime de patrocinar, direta ou indiretamente, interesse privado perante a administração pública.

Os inquéritos contra Bolsonaro

Bolsonaro enfrenta acusações de interferir na Polícia Federal, órgão que tem inquéritos abertos contra o presidente e seus filhos. Uma dessas investigações apura acusações de interferência levantadas pelo ex-ministro Sergio Moro em 2020, quando pediu demissão do Ministério da Justiça e Segurança Pública.

Assim que assumir o cargo, em primeiro de janeiro de 2023, o petista poderá nomear um novo diretor-geral para a Polícia Federal. O novo chefe da instituição, por sua vez, deve escolher novos nomes para postos chaves, como as superintendências regionais.

'A troca de comando da Polícia Federal é outra decisão que pode afetar a família Bolsonaro ao garantir autonomia às investigações'

Para o professor de direito penal da Fundação Getúlio Vargas (FGV) Davi Tangerino, a gestão petista não vai promover uma "perseguição" à família Bolsonaro, tentando direcionar a atuação da PF contra o antigo clã presidencial, mas deve dar autonomia para que a polícia toque as investigações que julgar pertinentes.

Tangerino lembra que os governos do PT garantiram independência a órgãos de investigação, algo que até expoentes da operação Lava Jato já reconheceram, como o próprio Moro.

"É certo que o governo na época tinha inúmeros defeitos, aqueles crimes gigantescos de corrupção que aconteceram naquela época, mas foi fundamental a manutenção da Polícia Federal para que fosse feito o bom trabalho, seja de bom grado ou por pressão da sociedade, mas isso (a autonomia) foi mantido", disse o ex-juiz da Lava Jato, ao deixar o governo Bolsonaro.

Atualmente, há quatro inquéritos autorizados pelo STF em que o presidente é investigado pela Polícia Federal por suspeitas de diferentes crimes:

- Sobre divulgação de notícias falsas sobre a vacina contra covid-19 (INQ 4888);

- Sobre vazamento de dados sigilosos sobre ataque ao TSE (INQ 4878);

- Inquérito das fake news, sobre ataques e notícias falsas contra ministros do STF (INQ 4781);

- Sobre interferência na Polícia Federal (INQ 4831).

Bolsonaro sem foro

Bolsonaro também enfrenta as acusações de crimes feitas pela CPI da Covid, que estão em apuração pela Procuradoria Geral da República (PGR).

No entanto, a partir do momento em que deixar a Presidência da República, Bolsonaro perde o foro privilegiado e passa a responder por suspeitas na Justiça Comum.

A Polícia Federal poderá continuar as investigações sem autorização do Supremo. As apurações que estão sendo feitas pela Procuradoria Geral da República passarão para a competência de instâncias inferiores do Ministério Público. Os processos no TSE passam para o TRE da região onde houve a suspeita.

Se o Ministério Público decidir fazer uma denúncia contra Bolsonaro, ele será julgado por um juiz de primeira instância.

Uma exceção a essa regra, porém, pode ocorrer no caso do inquérito das fake news, já que nesse caso pessoas sem foro privilegiado estão sendo investigadas no STF, suspeitas de ataques contra a própria Corte e o Estado Democrático de Direito.

Enquanto Bolsonaro perderá o foro privilegiado, seus filhos Eduardo Bolsonaro (deputado federal) e Flávio Bolsonaro (senador) continuam tendo foro especial no STF em casos de supostos crimes relacionados ao seus mandatos. Eduardo Bolsonaro é alvo também do inquérito das fake news.

Dessa forma, ambos podem ser afetados por uma provável mudança no comando da PGR, que hoje é chefiada por Augusto Aras, visto como um aliado do presidente. Seu mandato acaba em setembro.

Quando Lula foi presidente entre 2003 e 2010, sempre escolheu como Procurador-Geral da República o primeiro de uma lista tríplice elaborada pela Associação Nacional dos Procuradores da República (ANPR). O petista inaugurou essa tradição, vista como determinante para garantir a independência do Ministério Público Federal.

Dilma Rousseff manteve o procedimento, enquanto Michel Temer nomeou a segunda pessoa da lista tríplice. Já Aras foi nomeado por Bolsonaro sem ter sido selecionado para a lista da categoria.

Lula não se comprometeu na campanha a respeitar novamente a lista, mas Davi Tangerino acredita que ele pode resgatar a tradição, já que a escolha de Aras acabou gerando um desgaste grande para o Ministério Público Federal.

"Foi Lula quem começou (a nomear o PGR pela lista tríplice). Por que mudar agora, justamente para substituir um Procurador-Geral sobre quem sempre pesou a acusação de ser muito dócil com quem o indicou? Eu acho que é um ônus que o Lula não precisa", avalia o professor da FGV.

Flávio Bolsonaro, por sua vez, é alvo de investigação por um suposto esquema de rachadinha (desvio de recursos) em seu antigo gabinete de deputado estadual no Rio de Janeiro. Essa investigação, porém, tramita na Justiça do Rio.

BBC Brasil

Lula não venceu. Foi Bolsonaro quem perdeu




Nada é mais chavista que jornais, jornalistas e políticos festejando ou normalizando a ação paraestatal como resistência. Lembra o surgimento de colectivos e milícias bolivarianas na Venezuela. Tomara que seja apenas um delírio. Tomara. 

Por Leonardo Coutinho (foto)

Parece jogo de palavras ou discurso de quem não aceita resultado. Mas olhando de longe, bem longe, fica a sensação de que há um engano generalizado no petismo – seja ele oficial, militante, acadêmico, redacional, judiciário e carcerário. O ex-presidente Luíz Inácio Lula da Silva, que recebeu mais de 60 milhões de votos, ganhou a disputa, mas ele e sua turma se enganam ao pensar que arrasaram e que aterissarão no Planalto com um cheque em branco. A despeito de seus méritos políticos e de seus seguidores fiéis e reconvertidos, Lula não venceu nada. Foi Jair Bolsonaro que perdeu. Em grande parte, para ele mesmo, como consequência de uma série de fatores que vão desde o seu temperamento quase sempre irascível, aliados insanos e um vício de jogar para uma base permanentemente inflamada.

Lula ganhou a eleição e toda a patacoada de protestos que contestam o resultado não passa de uma combinação de desalento e manipulação. O bolsonarismo parece não ter entendido quão gigante saiu dessas eleições. Estão tão grandes que embora seja impossível fazer uma afirmação honesta, é razoável estimar que apesar de ter perdido, o número de bolsonaristas é de longe maior que o de petistas.

A suspeita se baseia no fato de que Lula não ganhou pelo que ele é, representa ou foi. Parte importante de seu capital eleitoral veio do eleitor que rejeitou Bolsonaro. É a tal da opção pelo menos pior. Ou até mesmo quem por meio de uma conta funesta aposta na viabilidade do vice, o ex-governador Geraldo Alckmin, que já tentou a presidência duas vezes e perdeu.

Na prática parece não mudar muito a discussão se foi Lula que venceu ou Bolsonaro que perdeu. Afinal, no dia primeiro de janeiro, o petista receberá a faixa presidencial e iniciará o seu terceiro mandato. A questão, é que Lula não está por cima da carne seca. Ele certamente começará seu governo com o mesmo clima de lua-de-mel de 2002, quando a imprensa o tratou com muito carinho.

Bolsonaro nunca foi aceito como presidente. Muito antes, por sinal, ainda em 2018, os diretores dos principais meios de comunicação do país se reuniram para discutir como impedir uma possível vitória do então deputado federal, ainda que fosse “fingindo fazer jornalismo”. Bolsonaro nunca entendeu isso e mordeu cada uma das iscas que lhe eram jogadas e os quatro anos que se seguiram foram uma autêntica pancadaria.

A indignação e o sentimento de injustiça dos bolsonaristas tem fundamento. Eles foram achincalhados. Desumanizados, eles foram chamados de gado. Reduzidos a fascistas, viram uma espécie de cancro golpista que precisa ser extirpado da sociedade brasileira.

Atordoados pela derrota, os eleitores de Jair Bolsonaro foram para as ruas no vácuo deixado pelo presidente que ficou dois dias em silêncio e quando falou não foi suficiente claro para seus seguidores. Um dia depois, ele precisou ser explícito. O presidente Bolsonaro entendeu que apesar de cheio de maquinações e injustiças, o processo eleitoral acabou. É hora de seguir em frente. Lamber as feridas, reagrupar a base e olhar para o futuro.

Quando vão para as ruas, fecham estradas e pedem a intervenção militar a partir de uma interpretação equivocada da Constituição Federal, os bolsonaristas dilapidam o próprio patrimônio político e eleitoral que eles mostraram ter por mais 58 milhões de votos, embora, obviamente não seja correto chamar todos que votaram em Bolsonaro de bolsonaristas.

Desde o marco inicial do governo de Bolsonaro, o PT e seus assemelhados trabalharam diariamente para convencer meio mundo de que a democracia estava em perigo. E que só eles poderiam salvar o Brasil da barbárie. Um trabalho de difamação tão eficiente que fez com que Bolsonaro se tornasse tão horrendo, que até Lula – que estava preso por seu papel central o maior esquema de corrupção já descoberto – depois que saiu da cadeia e teve suas condenações anuladas por meio de uma manobra jurídica ficou ganhou a simpatia de muita gente como se fatos conhecidos e comprovados jamais tivessem existido.

Mas ele precisa dizer com todas as letras para aqueles que estão sendo manipulados por gente desinformada ou até mesmo mal-intencionada a questionar os resultados. Há um exemplo muito recente que deveria servir de alerta. O americano Donald Trump perdeu a reeleição mais pelos seus erros que pelas virtudes de Joe Biden, mas saiu muito maior politicamente do que na vitória colhida quatro anos antes. Líder de um movimento que certamente o tornaria um candidato viável e possivelmente vencedor nas eleições de 2024, Trump preferiu cair na esparrela de contestar os resultados e se enforcou ao convocar seus apoiadores para rua e ao ficar em silêncio enquanto eles marchavam para o Capitólio. O resultado foi que em menos de duas horas tudo que se dizia contra ele se seu governo representariam para implosão da democracia se tornou realidade.

Não adianta discutir se foi uma armadilha ou se houve manipulação de serviços de inteligência estrangeiros por meio da figura bizarra do QAnon, ou que seja. Trump derreteu e muito da reputação e adesão ao seu grupo foi para o espaço. Quem mais perdeu foi Trump e seus apoiadores. Os eventos no Capitólio passaram a ser tratados como uma antevisão do caos no Brasil pós-eleitoral. A lição do trumpismo ao Brasil deveria ter sido aprendida, mas, ao que parece, quem está na rua no Brasil não entendeu o erro da base trumpista e ao que parece caminha para o abismo como os americanos que não entenderam que, agora sim como gado, caminhavam para o matadouro. O PT deve estar adorando.

Por fim, quem comemora organizada agindo como força paraestatal flerta e estimula um dos elementos de implosão institucional. Por mais que o Estado esteja fracassando na solução dos conflitos é do Estado que devemos cobrar um retorno à normalidade. Nada é mais chavista que jornais, jornalistas e políticos festejando ou normalizando a ação paraestatal como resistência. Lembra o surgimento de colectivos e milícias bolivarianas na Venezuela. Tomara que seja apenas um delírio. Tomara.

Gazeta do Povo (PR)

A direita democrática e o pós-bolsonarismo




Jair Bolsonaro tornou-se o primeiro presidente desde FHC a não conseguir a reeleição. Isso é simbólico, pois ninguém perde a reeleição se estiver fazendo um bom governo. 

Por Gabriel Wilhelms 

Iniciei como colunista no Instituto Liberal em agosto de 2019, com um artigo intitulado Com o silêncio dos moderados, nossa pretensa primavera liberal pode acabar ainda em seu alvorecer. A escolha do título do tema para o artigo de estreia não se deu por acaso. Já se haviam passado oito meses do governo Bolsonaro, certamente não tempo suficiente para o diagnóstico completo de um mandato, mas o bastante para que o presidente pudesse dizer a que veio. Cerca de oito meses após o início de seu governo e dez após eleito, já estava claro que ele não sairia do palanque e não economizaria nos acenos ao seu séquito ideológico mais aguerrido. Nesse cenário, fiz minha estreia no IL como um apelo pela moderação, mas especialmente direcionado àquela parcela de liberais que seguia com um deslumbre cego com o governo, ou com uma timidez acachapante na elaboração de suas críticas, temerosos, na certa, de se tornarem alvo das hostes bolsonaristas ou de terem seu antipetismo posto em cheque. Eu não apelava, por óbvio, por nada próximo da deposição do governo naquela época, tão somente para o óbvio: o governo Bolsonaro merecia, já naquele momento, inúmeras críticas, e parecia ser papel evidente dos liberais fazê-las, já que o servilismo a governos e políticos não condiz com nenhuma ideia minimamente razoável do que seja liberalismo.

De lá para cá, a crítica ao governo Bolsonaro, seja de forma direta, ou indireta, por meio da análise de aspectos específicos de seu governo, como a ampla presença de militares ou a condução na pandemia, foi um aspecto recorrente nos meus artigos. Em um dos artigos, publicado no início de 2020, faço uma provocação, indagando se O bolsonarismo trabalha para colocar o PT de volta no poder. Sou um simples articulista (nas horas vagas) e não tenho ilusões megalomaníacas sobre o peso do que escrevo, mas a provocação que eu fazia ecoava a análise e diagnóstico de muitos além de mim, que enxergavam no bolsonarismo o risco de servir de trampolim para o retorno do PT. Por negação, muitos tentarão apresentar razões outras para a vitória de Lula, mas, como buscarei demonstrar aqui, a coisa é simples: aquele que venceu a guerra de rejeição em 2018 perdeu em 2022; dito de outra forma: o bolsonarismo, de fato, trouxe o PT de volta.

Antes de seguir, vamos retroceder. Tendo vencido nas urnas por quatro vezes consecutivas, o PT esteve no poder por 14 anos, até Dilma ser alijada do cargo em 2016, muito apropriadamente por irresponsabilidade fiscal, já que essa mesma irresponsabilidade causou uma das maiores recessões da história do país (talvez a maior), trazendo de volta o desemprego em massa e a inflação de mais de um dígito. Além disso, estávamos habituados a acordar com as manchetes matinais dando conta de mais uma operação no âmbito da chamada Lava Jato, que desnudou um escândalo de corrupção na Petrobras, cujas cifras chegaram a ofuscar o próprio mensalão.

O PT acusava o legítimo processo de impeachment de golpe (mesmo quem discorda do desfecho não pode negar a legitimidade institucional do impedimento), defendia a queda de Temer, acusava a Lava Jato de causar a crise econômica e apostava todas as suas fichas no discurso de perseguição política contra Lula. Uma vitória do partido em 2018 teria, em sua narrativa, coroado essa versão dos fatos, sendo vendida como a justiça operada pelos eleitores contra os “golpistas” que teriam violado a soberania popular dois anos antes. A derrota do apadrinhado de Lula implodiu essa narrativa, e o argumento de que se Lula fosse candidato ele teria vencido é do território da fantasia e pouco crível, sobretudo pela vitória extremamente apertada de agora. E não foi qualquer derrota: eles perderam para Bolsonaro, cujo histórico dispensava apresentações, significando que a maioria ainda o preferia ao retorno do PT.

Esse é o precedente, e, para garantir de vez o fim da hegemonia petista, Bolsonaro só precisava de uma coisa: fazer um bom governo. Como tantos outros, eu não tinha otimismo de que ele seria capaz de fazer isso, mas era sua grande oportunidade de nos provar errados.

Infelizmente, para o Brasil, tivemos um prenúncio do que viria quando, ao invés de se sentir grato e fazer jus à vontade popular, Bolsonaro acusou de fraude o processo do qual saiu vitorioso. Já no governo, continuou agindo como se ainda estivesse em plena disputa eleitoral, com acenos reiterados e desnecessários ao seu séquito mais radical (eles o apoiariam, ainda que moderasse seu discurso). Então, veio a pandemia. É preciso ser justo e reconhecer o fato de que Bolsonaro também foi muito “azarado”, não podendo, obviamente, ser culpado pela pandemia ou pela Guerra da Ucrânia, dois eventos com amplos impactos globais e que, por sua sucessão, concorreram para a carestia de gêneros em todos os cantos do mundo; mas, se um governo não pode ser responsabilizado pela gestação de uma pandemia, certamente o pode por sua gestão.

Desastrosa – é no mínimo como podemos categorizar a gestão e postura do presidente frente à pandemia. Não vou entrar aqui em querelas sobre as medidas de isolamento, das quais já tratei no passado, mas o fato é que, enquanto milhares de brasileiros morriam mensalmente, Bolsonaro protagonizava episódios baixos e até mesmo de deboche das vítimas. Já em sua ânsia para confrontar governadores e prefeitos, o que sugeriria fazer o que fosse necessário para que pudéssemos retornar à normalidade, o mandatário contrariou a lógica e não só colocou óbices e atrasou a compra das vacinas como se recusou a sequer dar o exemplo, vacinando-se, como fizeram presidentes e primeiros-ministros mundo afora, preferindo fazer o inverso e vocalizar suspeitas infundadas de um movimento antivacina tosco e inconsequente.

No plano político e da corrupção, vimos na retórica de seus apoiadores a emulação de velhos discursos, com alguns apequenando as denúncias de rachadinhas envolvendo sua família e até o próprio presidente (enquanto deputado) e, pasmem, tratando como algo normal, defenestrando o por eles outrora adorado Sérgio Moro, quando este desembarcou do governo acusando-o de interferência na Polícia Federal, atacando a imprensa por divulgar o episódio de corrupção envolvendo os dois pastores e o MEC e, para coroar, referendando o casamento com o Centrão e, ou relativizando, ou tentando negar as digitais do governo na criação do chamado Orçamento Secreto, que, ao alocar recursos sem nenhuma transparência, nada mais é do que um mensalão “legalizado”, não podendo se confundir com as convencionais emendas parlamentares, estas sim com indicação de quem aloca e onde é alocado. Embora Bolsonaro tenha vetado, a princípio, a coisa, foi seu governo que, semanas depois, enviou para o Congresso o projeto elaborado pela Secretaria-Geral do Governo que estabelecia a prática.

No plano democrático, por sucessivas vezes o presidente ameaçou não reconhecer o resultado eleitoral caso perdesse (embora pareça ter moderado isso nas semanas antecedentes ao pleito), chegou a convocar uma ridícula reunião com embaixadores para apresentar sua ridícula tese de fragilidade nas urnas, além de ministros seus, militares, terem emitido notas ameaçadoras que bastavam para bons entendedores.

Por fim, o governo Bolsonaro, com o apoio do Congresso, este estimulado pela festa do Orçamento Secreto, não só emulou, mas turbinou algo que tanto criticávamos no PT: conseguiu aprovar, em pleno ano eleitoral, um estado de emergência injustificável para embasar aumento de repasses em programas sociais, em claro desrespeito à lei e com gritante oportunismo eleitoreiro.

Sou, é claro, mesmo sendo um opositor, capaz de elencar pontos positivos do governo Bolsonaro, mas aqui discutem-se as razões da derrota, e, contrapondo os pontos positivos com os negativos elencados acima (e tantos outros que, para ser econômico com as palavras, não citei), o conjunto da obra é um governo evidentemente ruim. Esse, obviamente, é o diagnóstico de 66 milhões de brasileiros (incluindo brancos e nulos), que rejeitaram Bolsonaro no segundo turno.

Jair Bolsonaro tornou-se o primeiro presidente desde FHC a não conseguir a reeleição. Isso é simbólico, pois ninguém perde a reeleição se estiver fazendo um bom governo. Para muitos, é cômodo buscar culpados outros que não o próprio presidente, até mesmo partindo para o ataque e xingando uma parcela expressiva da população brasileira.

No mesmo artigo de estreia, citado no primeiro parágrafo, eu disse que era uma estupidez chamar quem votou no Bolsonaro em 2018 de fascista e coisa que o valha. Em minhas críticas ao governo, sempre tomei o cuidado de nunca agredir seus eleitores. Fiz críticas sim a seu séquito, mas não pelo seu voto, e sim por algumas de suas atitudes. Não faz sentido que agora aqueles que se debruçavam nos 58 milhões de votos de Bolsonaro e clamavam (com razão) pela necessidade de se respeitar a vontade popular e buscar entender o significado da vitória (em especial, o porquê da rejeição ao PT), demonizem aqueles que agora decidiram de outra forma e se esquivem de buscar entender a rejeição ao bolsonarismo.

Agora, a vitória de Lula foi estreita e, mesmo com todo o repertório supracitado, Bolsonaro, na guerra de rejeições, ainda conseguiu uma votação expressiva, além de seu campo ter feito uma grande bancada no primeiro turno e eleito muitos governadores. Isso só reforça o argumento central do meu artigo: bastava ter feito um bom governo, e bom governo implicava moderação. Talvez, se o apelo de tantos pela moderação tivesse sido ouvido e assimilado, a coisa tivesse sido diferente; mas o campo populista da direita não queria intercâmbio algum com o que adjetivavam como “esquerdismo”.

Alguns podem derivar do capital político de Bolsonaro que ele deve continuar figurando como a opção da direita contra o petismo. Para além de ser um erro nos aglutinarmos em torno de um nome, qualquer que seja (o personalismo faz tão mal quanto o fisiologismo), se um nome houvesse, não poderia ser o de Jair Bolsonaro e nem de ninguém que se assemelhe ideologicamente a ele. Se, mesmo depois de Bolsonaro ter efetivamente trazido o PT de volta, dando um inédito terceiro mandato a Lula, a opção for permanecer sob o guarda-chuva do bolsonarismo, incorreremos naquela falsa definição de insanidade (repetir os mesmos erros esperando resultados diferentes). Precisamos enterrar de vez o personalismo bolsonarista, antes que ele, nos dividindo e canibalizando, enterre o que logramos alcançar a partir de 2014, isto é, quebrar a hegemonia das esquerdas no debate público. Que também não fiquemos reféns de um identitarismo ideológico, tão ruim quanto as demais formas de identitarismo, andando em círculos e conversando exclusivamente dentro de uma bolha, cada vez mais diminuta, até finalmente estarmos falando com as paredes. Não é a direita que precisa de uma oposição ao petismo e o que ele representa; é o país, e o país, assim como nosso campo, é plural e urge ser democrático.

Fontes:

https://noticias.uol.com.br/reportagens-especiais/ex-cunhada-implica-jair-bolsonaro/#page1

https://www.estadao.com.br/politica/propina-em-ouro-via-biblia-e-no-pneu-entenda-o-escandalo-dos-pastores-e-gabinete-paralelo-no-mec/

Gleisi diz que PT dispensa perdão do bispo Edir Macedo a Lula

 ANNA VIRGINIA BALLOUSSIER

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - A presidente nacional do PT, Gleisi Hoffmann, disse nesta sexta (4) que o partido dispensa o perdão oferecido pelo bispo Edir Macedo.

Edir Macedo, líder da Igreja Universal do Reino de Deus Divulgação/Presidência da República retrato de edir macedo, que sorri **** O fundador da Igreja Universal do Reino de Deus, que disparou vários ataques contra Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e a esquerda em geral durante a campanha presidencial, afirmou em live que fiéis deveriam perdoar o agora presidente eleito, pois o contrário seria fazer o jogo do diabo.

"O diabo quer acabar com sua fé, com seu relacionamento com Deus por causa de Lula ou dos políticos. Não dá, não dá, minha filha, bola pra frente, vamos olhar pra frente."

"Dispensamos o perdão de Edir Macedo. Ele é quem precisa pedir perdão a Deus pelas mentiras que propagou, a indução de milhões de pessoas a acreditarem em barbaridades sobre Lula e sobre o PT, usando a igreja e seus meios de comunicação para isso. A nossa consciência está tranquila", afirmou a deputada reeleita em sua conta no Twitter.

A Universal, que preferia ver reeleito o presidente Jair Bolsonaro (PL), fez uma oposição feroz ao petista. O bispo Renato Cardoso, genro e provável sucessor de Macedo no comando da igreja, assinou texto dizendo que não é possível ser cristão e de esquerda ao mesmo tempo. A Folha Universal, jornal da casa, publicou vários editorias contra Lula.

O texto do domingo seguinte ao 7 de Setembro bolsonarista dizia que a esquerda podia "chorar copiosamente" à vontade, porque "as "manifestações cívicas" galvanizadas pelo presidente deixaram claro que "o líder supremo da esquerda no Brasil não terá vida fácil".

Macedo tem um histórico de vaivéns com Lula. Em 1989, incentivou a demonização do petista, então candidato de primeira viagem.

Três anos depois, o líder evangélico em ascensão foi preso, acusado de práticas como charlatanismo. Lula foi um dos raros políticos a visitá-lo na prisão. "Se não tomarmos cuidado, daqui a pouco a polícia está na sua casa, prendendo sem critério", disse à época.

A Universal retomou a hostilidade com ele nas campanhas seguintes, vencidas pelo tucano FHC.

Os dois se reconciliaram quando o PT entrou no Palácio do Planalto, em 2002. O então vice de Lula, José Alencar, era do PL, partido que concentrava nomes da Universal, e depois migrou para o PRB (atual Republicanos), arquitetado pela igreja em 2003.

Em 2018, Macedo a princípio optou por endossar Geraldo Alckmin. Declarou voto em Bolsonaro de última hora, quando ficou claro que o ex-governador paulista, hoje vice de Lula, não tinha chances naquele pleito.

YAHOO

Em destaque

Quando o lucro passa na frente da segurança: um alerta grave no Assaí da Adélia Franco

Quando o lucro passa na frente da segurança: um alerta grave no Assaí da Adélia Franco Ir ao supermercado é um ato rotineiro, quase automáti...

Mais visitadas