domingo, abril 03, 2022

Licitação do governo prevê pagar até R$ 732 milhões a mais por ônibus escolares




Uma licitação bilionária do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE), marcada para a próxima terça-feira, prevê a compra de ônibus escolares com preços inflados. O alerta partiu de instâncias de controle e da própria área técnica do fundo. Segundo documentos obtidos pelo Estadão, o governo aceita pagar até R$ 480 mil por um ônibus que, de acordo com o setor técnico, deveria custar no máximo R$ 270,6 mil. Os recursos sairão de um programa destinado a atender crianças da área rural, que precisam caminhar a pé quilômetros em estradas de terra para chegar à escola.

A operação foi montada dentro do FNDE, que concentra a maior fatia de recursos destinados a investimentos em educação. O fundo é presidido por Marcelo Ponte, que chegou a cargo por indicação do ministro da Casa Civil, Ciro Nogueira, de quem foi chefe de gabinete. O processo da concorrência, ao que o Estadão teve acesso, mostra que o FNDE atropelou as orientações dos órgãos de controle e da própria área técnica, que apontaram risco de sobrepreço nos valores dos ônibus que o governo aceita pagar.

O pregão permitirá a aquisição de até 3.850 veículos como parte do programa Caminho da Escola. O preço total, ao final da compra, pode pular de R$ 1,3 bilhão para R$ 2,045 bilhões, com aumento de até 55% ou R$ 732 milhões.

"Entendemos que a discrepância das cotações apresentadas pelos fornecedores em relação ao preço homologado do último pregão (...) implica em aumento não justificado do preço, sem correspondente vinculação com as projeções econômicas do cenário atual", avisou a área técnica do fundo. Em outro parecer, a Controladoria Geral da União (CGU) reforçou: "Observa-se que os valores obtidos (...) encontram-se em média 54% acima dos valores estimados". Alertas também foram feitos pela Advocacia-Geral da União (AGU).

Os documentos obtidos pelo Estadão apontam ainda a atuação direta de um dos diretores do órgão, Garigham Amarante, na definição dos valores superestimados. Ele foi indicado para o cargo por Valdemar Costa Neto, presidente do PL, partido do presidente Jair Bolsonaro. Em ao menos dois despachos, o diretor determina que o prosseguimento do processo, com pequenos ajustes, mas mantendo os preços inflados, apesar dos alertas de sobrepreço.

Mesmo após as ponderações Garigham e Marcelo Ponte assinaram despacho dando prosseguindo ao certame: "Aprovamos o Termo de Referência, o Estudo Técnico Preliminar e a Pesquisa de Preços, bem como autorizamos a reabertura do procedimento licitatório". O certame chegou a ser suspenso, em fevereiro deste ano. Mas retomada depois pelos dois dirigentes do Fundo.

INTERESSE POLÍTICO. Criado pelo Ministério da Educação para ajudar municípios e Estados a diminuir o abandono dos estudantes das salas de aula, o programa tem especial relevância nas regiões rurais de estradas precárias e de difícil deslocamento. Muitos alunos desistem de estudar diante das dificuldades de locomoção.

O programa mobiliza parlamentares interessados em faturar com a entrega dos ônibus em seus redutos eleitorais. No final de 2020, Ciro Nogueira divulgou em suas redes a entrega de ônibus escolares em seu Estado, o Piauí. Nas imagens, o então senador aparece ao lado do seu indicado, o presidente do fundo Marcelo Ponte, e de miniaturas dos veículos. Como ministro, continuou participando de atos de entregas de chaves dos ônibus bancados com recursos do FNDE. O Piauí tem 1 milhão de pessoas na área rural, atendida pelo programa.

O Fundo é órgão vinculado ao Ministério da Educação. Na última segunda-feira, o ministro Milton Ribeiro foi obrigado a deixar o cargo após o Estadão revelar que havia um esquema de cobrança de propina na pasta operado por dois amigos pastores em troca de liberação de dinheiro para creches e escolas.

PRESSÕES. O pregão eletrônico para a compra dos ônibus foi iniciado por ordem de Garigham Amarante, que é diretor de Ações Educacionais do Fundo. O edital tem por objetivo criar uma ata de registro de preços para ônibus rurais escolares de quatro tipos - veículos com capacidade para 29, 44 e 59 assentos. No caso do ônibus menor, há dois modelos: um regular e outro com tração nas quatro rodas.

Nesta modalidade, as empresas vencedoras concordam em vender uma certa quantidade de cada um dos ônibus em disputa por um determinado valor - quem oferece o preço mais barato consegue o contrato. Uma vez registrada a ata, os ônibus podem ser comprados por prefeituras e governos estaduais de todo o País pelo preço ajustado, sem necessidade de nova licitação. A sessão virtual em que as empresas farão os lances está marcada para às 10 horas de terça-feira.

Ao recusar o preço máximo original estimado pela área técnica, a diretoria de Garigham Amarante alegou que corrigir os valores pela inflação não refletiria "os impactos da pandemia" e "o aumento do dólar em uma indústria dependente da importação de peças".

A CGU avisou que o edital poderia favorecer a prática de cartel entre as empresas fornecedoras e recomendou que fosse seguida uma instrução normativa do Ministério da Economia. Pela regra sugerida, o cálculo do preço deveria se basear em valores de licitações anteriores. A diretoria comandada pelo Centrão criou, então, uma nova fórmula de cálculo. Passou a usar um outro indicador de inflação, o IPP, nos custos dos ônibus, além dos valores apontados pelos fornecedores. A alteração do setor, no entanto, pouco mudou o cenário e o valor máximo da licitação foi para R$ 2,045 bilhões.

Procurados, Ciro Nogueira, e a CGU não se manifestaram. O FNDE não comentou as suspeitas de sobrepreço e disse, em nota, que o pregão "atendeu a todas as recomendações da CGU, inclusive quanto à metodologia de cálculo dos preços estimados, que são sigilosos por recomendação do próprio órgão de controle, que acompanha todas as fases do processo licitatório". Apesar do que disse o órgão, não há manifestação da CGU no processo administrativo endossando o cálculo final de preços.

Estadão / Dinheiro Rural

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Políticos e especialistas cobram governo por esquema na compra de ônibus escolar

Políticos e especialistas em Educação reagiram à revelação do Estadão de que uma licitação do governo prevê pagar até R$ 732 milhões a mais por ônibus rurais escolares. O pregão está marcado para a próxima terça-feira, 5, e prevê a compra de 3.850 veículos com preços inflados. (https://politica.estadao.com.br/noticias/geral,licitacao-do-governo-preve-pagar-ate-r-732-mi-a-mais-por-onibus-escolares,70004026998)

Para o vice-presidente da Câmara, Marcelo Ramos (PSD-AM), o discurso do presidente Jair Bolsonaro (PL) sobre corrupção "começa a ruir".

"Começa a ruir o discurso de Bolsonaro de que o governo dele não tem corrupção. E a corrupção aparece onde mais deveria estar blindada. Já foi na compra de vacina, e agora está na Educação", afirmou o parlamentar ao Estadão. "O episódio da compra de vacina causou muitas mortes que poderiam não ter acontecido. O da Educação compromete o futuro das nossas crianças e do nosso País."

O alerta para o sobrepreço partiu de instâncias de controle e da própria área técnica do fundo. Segundo documentos obtidos pelo Estadão, o governo aceita pagar até R$ 480 mil por um ônibus que, de acordo com o setor técnico, deveria custar no máximo R$ 270,6 mil. Os recursos sairão de um programa destinado a atender crianças da área rural, que precisam caminhar a pé quilômetros e em estradas de terra para chegar à escola.

O deputado Ivan Valente (PSOL-SP) protocolou pedidos no Ministério Público Federal do Distrito Federal e no Ministério Público junto ao Tribunal de Contas da União (TCU) para suspender a licitação e abrir um procedimento para apurar a responsabilidade do presidente do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE), Marcelo Ponte, e do diretor da entidade, Garigham Amarante, no caso.

No documento apresentado pelo deputado, Ponte e Amarante são o foco por terem "ignorado os alertas das áreas técnicas sobre a existência de sobrepreço na contratação mencionada e terem determinado o prosseguimento do referido Pregão Eletrônico". "Basta de corrupção", disse Valente.

A presidente executiva da organização Todos pela Educação, Priscila Cruz, cobrou investigação sobre as suspeitas de sobrepreço. "Pior que não respeitar atributos da eficiência, é a corrupção. Que tal suspeita seja investigada também. A Educação já foi gravemente afetada pela pandemia e por um governo federal despreparado e não pode ser golpeada por desvios e corrupção", disse Priscila Cruz ao Estadão. "O futuro dessa geração de alunos e do próprio país depende de boa gestão dos recursos educacionais."

A operação para a licitação foi montada dentro do FNDE, que concentra a maior fatia de recursos destinados a investimentos em Educação. Ponte chegou à presidência do Fundo por indicação do ministro da Casa Civil, Ciro Nogueira, de quem foi chefe de gabinete. O processo da concorrência ao que o Estadão teve acesso mostra que o FNDE atropelou as orientações dos órgãos de controle e da própria área técnica, que apontaram risco de sobrepreço nos valores dos ônibus.

A presidente do Todos pela Educação observou que a economicidade é um atributo do princípio da eficiência da administração pública e que, ao que tudo indica, não está sendo cumprido pelo FNDE. "Em ano eleitoral, é ainda mais importante que o Congresso exerça sua função de fiscalização prevista pela Constituição Federal. Da mesma forma, é preciso que o TCU analise as contas com transparência para a sociedade", afirmou.

O presidente da Comissão da Educação no Senado, Marcelo Castro (MDB-PI), disse ao Estadão que "todas as denúncias de irregularidades nos repasses de recursos do MEC e do FNDE" serão investigadas a fundo. Segundo o parlamentar, a apuração não vai parar, "mesmo em ano eleitoral".

"Uma área tão sensível, como a Educação, exige a mais alta responsabilidade dos gestores com os recursos públicos destinados para melhorar a qualidade da educação brasileira. No entanto, o que temos visto é que as verbas do Ministério da Educação estão sendo tratadas de forma negligente", declarou.

"As denúncias que estão sendo divulgadas, se confirmadas, são crimes praticados com o dinheiro público. Primeiro, o pedido de propina, por pastores, para a liberação de verbas do ministério para as prefeituras. E, agora, o superfaturamento em licitações para a compra de ônibus escolares."

Congresso

O risco de sobrepreço na licitação provocou reações de outros parlamentares do Congresso. Em uma rede social, a pré-candidata à Presidência, senadora Simone Tebet (MDB-MS), classificou o caso como "onibaço" e citou o lobby de pastores no Ministério da Educação. Na última segunda-feira, o ministro Milton Ribeiro foi obrigado a deixar o cargo após o Estadão revelar que havia um esquema de cobrança de propina na pasta operado por dois amigos pastores em troca de liberação de dinheiro para creches e escolas.

"Depois do "vacinaço" e do "tratoraço", agora o "onibaço" pavimenta o caminho para o futuro do País, por onde passa um coletivo desgovernado. Com o dinheiro da Educação, tem até fotos em Bíblia Sagrada, como se fossem selfies clicadas em nome de Deus. Um sacrilégio. Pecadaço", escreveu Tebet.

O senador de oposição ao governo, Rogério Carvalho (PT-SE), também se manifestou sobre o caso. "Até na compra de ônibus escolares, (a) autarquia do MEC atropela orientações dos órgãos de controle e da própria área técnica e faz licitação com sobrepreço. É esse o governo livre de corrupção?", questionou.

O ex-ministro da Educação e pré-candidato ao governo de São Paulo, Fernando Haddad, afirmou, em uma rede social, que dezenas de veículos foram comprados "com total lisura" durante sua gestão. "Os bolsonaristas agora querem embolsar R$ 700 milhões de propina", escreveu.

Procurados, Ciro Nogueira, e a CGU não se manifestaram. O FNDE não comentou as suspeitas de sobrepreço e disse, em nota, que o pregão "atendeu a todas as recomendações da CGU, inclusive quanto à metodologia de cálculo dos preços estimados, que são sigilosos por recomendação do próprio órgão de controle, que acompanha todas as fases do processo licitatório". Apesar do que disse o órgão, não há manifestação da CGU no processo administrativo endossando o cálculo final de preços.

Estadão / Dinheiro Rural

Orçamento secreto: Congresso revela parlamentares que indicaram verbas

 




Apesar da resistência de parlamentares, o Congresso enviou nesta sexta-feira, 1º, ao Supremo Tribunal Federal (STF) documentos inéditos sobre o orçamento secreto. As informações revelam o papel do ex-ministro da Secretaria de Governo (Segov) general Luiz Eduardo Ramos (esq.) como um grande operador do esquema. O militar da reserva aprovou 26 ofícios com pedidos de recursos da pasta, alguns deles superando os R$ 70 milhões, como o encaminhado pelo deputado Isnaldo Bulhões (MDB-AL).

As informações estavam até então restritas ao relator-geral do Orçamento de 2020, deputado Domingo Netto (PSD-CE), que foi obrigado por decisão da ministra Rosa Weber, do Supremo, a dar transparência aos nomes dos responsáveis pelas demandas parlamentares e aprovações nos Ministérios. Na semana passada, o presidente do Congresso, Rodrigo Pacheco (PSD-MG), solicitou que todos os deputados e senadores dessem publicidade em até dez dias aos seus pedidos feitos por meio do orçamento secreto, após a Suprema Corte ter negado dar mais tempo para que as medidas fossem tomadas.

A série de reportagens do Estadão sobre o caso revelou o funcionamento do mecanismo de sustentação do governo Jair Bolsonaro (PL) no Congresso, mediante a cooptação de apoio, a partir da liberação de verbas do Executivo. O jornal já havia revelado como o Ministério do Desenvolvimento Regional comandado por Rogério Marinho se tornou um balcão de liberação de recursos sem a adoção de critérios técnicos. O material também expôs como o general Ramos, à época na Casa Civil, participou diretamente da articulação e criação do orçamento secreto para favorecer políticos aliados do governo.

Quando passou à Segov em uma das muitas mudanças no governo, Ramos autorizou repasse de R$ 20 milhões ao deputado Cezinha Madureira (PSD-SP), eleito em 2020 presidente da bancada evangélica. Em outro ofício autorizado em 28 de maio daquele ano, o general da reserva repassou R$ 34 milhões ao senador Fernando Bezerra (MDB-PE), então líder do governo no Senado, que utilizaria os recursos em uma ação orçamentária alocada no Ministério do Turismo.

Há também um repasse de R$ 40 milhões ao deputado Hugo Motta (Republicanos-PB), então presidente do Republicanos, partido que compõe o Centrão. Até mesmo o governo do Distrito Federal, Ibaneis Rocha (MDB), foi beneficiado por duas emendas autorizadas por Ramos que somam R$ 22 milhões.

Além de Ramos, constam nos documentos encaminhados ao Supremo ofícios com pedidos de recursos autorizados pelos ministros e ex-ministros Sergio Moro (Justiça e Segurança Pública), Paulo Guedes (Economia), Milton Ribeiro (Educação), Onix Lorenzoni (Trabalho e Previdência), Rogerio Marinho (Desenvolvimento Regional), Damares Alves (Mulher, Família e Direito Humanos), Ricardo Salles (Meio Ambiente), Tereza Cristina (Agricultura), Tarcisio Freitas (Infraestrutura), Marcos Pontes (Ciência e Tecnologia), e Fernando Azevedo e Silva (Defesa). Até mesmo o presidente do Instituto Chico Mendes de Preservação Ambiental, Homero Cerqueira, teve pedidos de emendas encaminhados para ajuste da autarquia.

As revelações feitas por Domingos Netto, porém, não põem um fim no cabo de guerra entre o Congresso e o Supremo em torno do orçamento secreto. O relator-geral de 2021, senador Marcio Bittar (União Brasil-AC), ainda resiste em divulgar os ofícios que mediou entre os parlamentares e os ministros do governo no ano passado. Segundo fontes relataram ao Estadão, a exigência do presidente do Senado para que fosse dada transparência aos pedidos dos parlamentares só ocorreu, em caráter obrigatório e urgente, porque Bittar (PL-AC) não quis enviar os documentos.

Os parlamentares tiveram desde dezembro passado para tornar pública toda a documentação que embasou a distribuição de verbas por meio da emenda de relator-geral do orçamento (RP-9) - dispositivo formal para operar o orçamento secreto. No entanto, os senadores e deputados envolvidos no esquema resistiram até o último minuto a cumprir a decisão de novembro dos ministros do Supremo para que fosse dada ampla publicidade ao orçamento secreto em até 90 dias.

Estadão / Dinheiro Rural

Um passe livre para as fake news




Por Pablo Ortellado (foto)

Depois de idas e vindas, o relator do PL das Fake News, deputado Orlando Silva, finalmente entregou seu relatório, que substitui o projeto aprovado pelo Senado. O texto dá tratamento cuidadoso e sistemático para problemas importantes das mídias sociais, mas apresenta pelo menos dois problemas relevantes.

Antes de apontar os problemas, seria justo com o trabalho do relator apresentar os méritos da proposta. O texto regulamenta os relatórios de transparência de plataformas de mídia social como Facebook e Twitter, que passariam a ter de informar semestralmente ao público os usuários ativos, os detalhes das medidas de moderação, o cumprimento de decisões judiciais e a quantidade de conteúdos irregulares identificados. Exigências análogas passariam a valer também para ferramentas de busca como Google ou Bing.

A moderação de conteúdo, uma das ações mais controversas das plataformas, passa a ser regulamentada. A moderação é o arsenal de ações das plataformas para excluir, limitar o alcance ou rotular as postagens dos usuários que ferem os termos de uso. Há muita reclamação de usuários, porque essa moderação é predominantemente feita por meios automatizados, e erros acontecem com muita frequência. A proposta obriga as plataformas a avisar o usuário quando uma postagem é moderada, a informar a regra infringida e a abrir um canal de apelação e revisão da medida.

Outra medida positiva é a transparência dos impulsionamentos — ampliação do alcance de uma postagem mediante pagamento. No texto do relator, passam a ser sempre identificados e, no caso do impulsionamento eleitoral, os usuários poderão saber detalhes das estratégias de divulgação dos candidatos, como valor gasto e perfil a que a propaganda foi dirigida.

Se o texto consolidou avanços nestes pontos, houve grande retrocesso na regulação de serviços de mensageria como WhatsApp e Telegram. Na versão do projeto aprovada pelo Senado, esses serviços teriam de rastrear mensagens virais, resguardando o sigilo da comunicação, que é interpessoal e privada. Isso permitiria identificar os autores de mensagens desinformativas virais que tanto dano causaram nas eleições de 2018 e na pandemia. Com a retirada da rastreabilidade de conteúdos virais, o vácuo regulatório de 2018 permanece, e poderemos esperar mais uma dura rodada de abusos no WhatsApp em 2022.

As contas de mídias sociais de interesse público —do presidente, governadores, prefeitos, parlamentares, juízes e promotores —passariam a ter regras especiais. Não poderiam bloquear usuários — já que privariam o bloqueado de acessar informação de interesse público. Mas o relator incluiu também duas medidas muito preocupantes.

A primeira diz que, caso essas contas sejam bloqueadas pelas plataformas — como aconteceu com o ex-presidente americano Donald Trump —, a conta poderá ser recuperada por meio de ação judicial, com celeridade, desde que mostre que “seguiu os princípios da legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade e eficiência”. Isso significa que, se as plataformas bloquearem uma conta por ferir algum termo de uso, mas a Justiça entender que ela não feriu os princípios da administração pública, a conta volta. Na prática, essas contas dificilmente serão bloqueadas, mesmo que sistematicamente desobedeçam aos termos de uso que valem para todos os usuários comuns.

Além de não poderem ser bloqueadas, as contas de parlamentares passariam a ter a prerrogativa da “imunidade parlamentar material”. Esse princípio garante a inviolabilidade civil e penal das opiniões, palavras e votos dos parlamentares. Há amplo temor de que a menção à imunidade parlamentar seja interpretada como o direito de parlamentares a não ser submetidos a moderação de suas postagens. Isso é muito preocupante porque as pesquisas têm seguidamente mostrado que parlamentares são os maiores disseminadores de desinformação nas mídias sociais.

Chega a ser irônico que um projeto de lei que nasceu para coibir a desinformação —daí o apelido “PL das Fake News”— não enfrente o jogo sujo no WhatsApp e confira tanta proteção aos políticos, os que mais difundem desinformação. Se for aprovado com essa redação, eles poderão alegar que seu conteúdo não pode ser moderado e, se suas contas forem suspensas pelas plataformas, poderão facilmente resgatá-las por meio de um sistema de fast track na Justiça. É um passe livre para as fake news.
 
O Globo

Batalha ganha, guerra perdida




Por Carlos Brickmann (foto)

Início da década de 1960. O primeiro-ministro Tancredo Neves convocou uma reunião de seu partido, o PSD, e pediu a um jovem ministro, Mauro Salles, que coordenasse tudo. No Hotel Nacional de Brasília, alguns dos mais importantes políticos do país. Bom uísque, bons tira-gostos, conversas sobre tudo, menos política. A horas tantas, todos foram embora. Tancredo ligou para o lendário Benedito Valladares, cacique-mor do partido, e disse que a reunião tinha sido ótima. Comentou as principais decisões – e Mauro Salles, perplexo, não tinha visto nem ouvido nada. Disse isso a Tancredo. E o sábio mineiro explicou: político bom decide primeiro e faz a reunião depois.

A falta que faz uma boa cabeça política! Doria fez que foi, não foi, no fim ficou onde estava, feliz com uma carta em que o PSDB confirmava sua candidatura. Confirmou, é verdade. O problema é que Doria acreditou. O primeiro a traí-lo será Bruno Araújo, que assinou a carta. E caciques como Jereissati, Aécio, Eduardo Leite, José Aníbal e outros, protegidos pela carta, continuam buscando um candidato palatável, sabotando Doria e negando tudo. Doria foi um ótimo governador. Mas dentro do partido foi destrutivo: brigou com os caciques, com Tasso, com Alckmin – até mesmo com Bruno Araújo. Doria se comportou como se Araújo tivesse importância. E tem, mas para atrapalhar. Não valia uma briga. Em política, quem atropela os outros só ganha se nunca errar. Uma falha e os derrotados engolem o atropelador.

Os exemplos

No final daquela ditadura que Bolsonaro e Braga Netto não perceberam, o MDB se preparou para chegar ao poder. Tinha três candidatos: Tancredo, Ulysses Guimarães e Franco Montoro. E não dava briga: combinaram que, em eleição indireta, sairia Tancredo; em direta, Ulysses; e, em imprevistos, Montoro. Combinaram e cumpriram.

Em 2002, Serra era o candidato natural do PSDB. De cara afastou o presidente Fernando Henrique de sua campanha: acreditou na propaganda dos adversários. Em seguida, triturou Jereissati, que também queria disputar. E não houve quem convencesse a família Sarney de que Serra não estava por trás de uma operação policial que flagrou o marido de Roseana com um monte de dinheiro em cima da mesa. Roseana era uma candidata em ascensão e foi liquidada. Em seguida, trabalhou contra Serra.

Moro pretende, disse, manter acesa a luta contra a corrupção (e pode até voltar a ser candidato). Tem adversários duros como ACM Neto e Ronaldo Caiado. Só que agora, no União Brasil, ele terá, como colegas de combate à corrupção, gente famosa, como Luciano Bivar, Daniel Silveira e outros.

Quem ganha?

Todos os candidatos estão cantando vitória. Mas, cá entre nós, quem iria votar em Moro pode passar para Bolsonaro? Por que não votar em Bolsonaro de uma vez, já que ambos são praticamente iguais (a opinião é da esposa de Moro, Rosângela)? Um denunciou o outro por agir ilegalmente, outro acusou o um de ser traidor. Quem não se importa com isso, agora, importava-se uns dias antes? Eleitor de Moro dificilmente escolherá Lula, claro. E Moro, que vai fazer? Presidência? Difícil. Talvez candidato a deputado federal por São Paulo. Por que não pelo Paraná, seu Estado natal, onde já é bem conhecido?

Negócios à parte

Aqueles generais que Bolsonaro fritou em seu governo certamente não o apoiarão (alguns, como o general Santos Cruz, farão campanha contra ele). Mas há surpresas: Abraham Weintraub, que foi seu ministro da Educação, que se referiu deseducadamente aos ministros do STF naquela reunião que ficou famosa), bolsonarista entre os bolsonaristas, entrou no antigo Partido da Mulher Brasileira (agora Brasil 35), querendo se candidatar a governador contra o candidato de Bolsonaro, Tarcísio Freitas. O ministro da Educação a quem sucedeu, aquele estranhíssimo colombiano, diz que Bolsonaro perdeu o rumo.

Ambos são bolsonaristas de raiz, discípulos de Olavo de Carvalho.

Um tapinha não dói

Um tapa na cara que não deixa marca, em que a vítima não dá um ai, em que a plateia (até mesmo a ofendida) ri. Será que só este colunista desconfia?

Brickmann.com.br

Bravata golpista - Editorial




2º colocado nas pesquisas, Bolsonaro volta a atacar legitimidade das eleições

"Os votos serão contados no Brasil. Não serão dois ou três que decidirão como serão contados esses votos", afirmou Jair Bolsonaro (PL) na quarta (30). A frase poderia passar por hermética, não fosse a ficha corrida de ofensivas golpistas e autoritárias do mandatário.

Bolsonaro voltava a insinuar que haverá alguma apuração paralela —sabe-se lá como, pois fracassou seu plano de instaurar a votação em papel. Ameaçava desobedecer ao Supremo Tribunal Federal.

Para não haver dúvida, em discurso no dia seguinte no qual defendeu outra vez a ditadura, atacou quem atrapalha a transformação do país em uma "grande nação". "Se não tem ideias, cala a boca. Bota a tua toga e fica aí."

Apesar da truculência, Bolsonaro não foi tão explícito quanto no ápice de sua fracassada campanha subversiva, no 7 de Setembro passado. Depois de ser barrado pelas instituições, o presidente interrompeu momentaneamente as ameaças ao pleito deste ano.

A partir do final de 2021, porém, voltou à carga. Em dezembro, criticou o STF pelo que chamou de abuso na prisão de correligionários —investigados, como ele próprio, no inquérito das fake news. Em janeiro, disse que teria vencido no primeiro turno em 2018, se as eleições fossem "limpas".

Também afirmou que os ministros Alexandre de Moraes e Luís Roberto Barroso "querem o Lula presidente". Em fevereiro, acusou Moraes, Barroso e Edson Fachin de pretender torná-lo "inelegível na base da canetada".

Bolsonaro, mais uma vez, procura para colocar sob suspeita a cúpula do Poder Judiciário, o Tribunal Superior Eleitoral e, assim, a legitimidade da eleição. Desse modo, atiça também seu eleitorado extremista e seus correligionários mais ferozes, como o deputado federal Daniel Silveira (União Brasil-RJ), que desafia abertamente decisões de Alexandre de Moraes.

Ao que parece, pretende no mínimo espalhar o temor de que suas palavras possam se transformar em atos caso as urnas confirmem a derrota eleitoral hoje indicada pelas pesquisas de intenção de voto.

Convoca seus militantes e deixa no ar a possibilidade de que incentive um ensaio geral para uma tomada do Capitólio, tal como fizeram as milícias que pretendiam reverter a derrota de Donald Trump.

Trata-se de conduta grotesca e inaceitável para um chefe de Estado, mas em nada surpreendente. Está claro que, incapaz de governar, Bolsonaro rosna a esmo contra as instituições. Ainda mostra fôlego como candidato, mas felizmente não como golpista.

Folha de São Paulo

Faltam estadistas

 



Os interessados na preservação da democracia não se mobilizam

Por Ricardo Rangel (foto)

Há 58 anos, um golpe militar instaurou no Brasil uma ditadura que durou 21 anos e censurou, perseguiu, prendeu, exilou, torturou, matou. O obscurantismo e a estupidez provocaram enorme sofrimento e criaram um apagão na cultura, hiperinflação, arrocho salarial, concentração de renda.

Nem o período mais nefasto de nossa história produziu, no entanto, um presidente com personalidade mais autoritária do que Jair Bolsonaro, e dá arrepios imaginar o que ele faria se tivesse o poder de um Geisel. Isso não é impossível: os golpes de hoje não se dão com tanques, mas pelo desmonte das instituições, processo em que Bolsonaro vem sendo bem-sucedido. Se ganhar mais um mandato, pode destruir a democracia por completo.

É grave que os maiores interessados na preservação da democracia não se mobilizem. Metade do Congresso Nacional, incluindo boa parte da oposição, segue Artur Lira e Ciro Nogueira e se vende a Bolsonaro pelos bilhões do orçamento secreto. Parafraseando Churchill, alimentam o crocodilo na esperança de serem devorados por último.

Ainda mais grave é que os progressistas não consigam se organizar para enterrar Bolsonaro em outubro. Alckmin, sabotado por João Doria, migrou para o PSB para ser vice de Lula. A adesão, eleitoreira, não inclui agenda programática, e Alckmin fica calado enquanto Lula ataca bandeiras históricas do PSDB. A adesão serve apenas para que Lula finja que acena ao centro.

Eduardo Leite concorreu nas prévias do PSDB e perdeu. Quis ganhar no tapetão e perdeu. Decidiu abandonar o partido para ser candidato, desistiu ao perceber que não teria chance. Ainda quer jogar a final mesmo tendo sido derrotado na semifinal. Ciro Gomes tampouco cogita renunciar.

Doria já se desentendeu com Alckmin, Eduardo Leite, Tasso Jereissati, Bruno Araújo, José Aníbal etc.: não consegue unir seu próprio partido, muito menos a oposição. Em um gesto unilateral e inesperado, anunciou a desistência de concorrer à Presidência, jogando seu partido no caos. Depois, desistiu da desistência… e ninguém mais sabe onde isso vai dar.

Lula lutou pelo impeachment de todos os presidentes não petistas exceto Bolsonaro, que poupou por acreditar ser mais fácil de derrotar. Poderia negociar uma agenda comum com o centro e até vencer no primeiro turno, mas segue defendendo propostas incendiárias. Quer governar sozinho, como sempre fez.

O PT não mudou, por sinal. Em 1985, na eleição indireta entre Paulo Maluf, homem da ditadura e corrupto notório, e Tancredo Neves, democrata indiscutível e de caráter ilibado, o PT determinou o voto nulo e expulsou quem votou no democrata. Tancredo venceu, mas não exerceu a Presidência. Sabendo-se doente, atrasou a internação por medo de que os militares impedissem a redemocratização; acabou internado de emergência na véspera da posse e morreu semanas depois.

Estadistas, como Tancredo Neves, sacrificam os interesses pessoais, e até a vida, pelo país. Os políticos de hoje parecem dispostos a sacrificar o país por seus interesses pessoais (se arriscam a sacrificar os dois).

Revista Veja

Falso delito




Imposição de prazo às campanhas atenta contra a liberdade e não combate o criminoso abuso de poder

Por Dora Kramer (foto)

Os arcaicos meios e modos da política brasileira, que sabidamente não acompanharam a evolução de variados setores desde a redemocratização do país, volta e meia dão as caras. Suscitam breves debates, mas de pronto voltam ao recôndito de suas obsoletas tocas.

Foi o caso da tentativa do partido do presidente de interditar, via Tribunal Superior Eleitoral, manifestações de artistas no festival Lollapalooza. A decisão de um juiz do TSE provocou indignação geral, mas o assunto candidatou-se ao esquecimento em meio ao turbilhão de acontecimentos e depois de Jair Bolsonaro mandar o PL retirar a ação.

Ato desastrado aquele, diga-se, pois que reclamações à Justiça Eleitoral no curso das campanhas não é hábito dos partidos. Preferem a tolerância cúmplice, por medo de que decisões contrárias ao adversário venham a confirmar que a madeira bate com intensidade igual em Chico e em Francisco.

Provavelmente essa conta de reciprocidade inspirou a ordem de Bolsonaro para o PL recolher os flaps. Com a cena tomada pela demissão do ministro da Educação, a troca de comando na Petrobras e, num segundo plano, a volta de Eduardo Leite à disputa pela legenda do PSDB para concorrer à Presidência, o tema das restrições a campanhas subiu no pódio das irrelevâncias.

Não deveria, dada a importância do assunto. Com esse desdém per­de-se a chance de lançar luz, dúvidas e contestações sobre a questão: precisamos mesmo que o Estado nos diga quando, onde e como deve ser permitido fazer campanha eleitoral? Claro que não, assim como não temos a menor necessidade de ser obrigados a votar, por definição o exercício de um direito.

São amarras estatais absolutamente anacrônicas, tentativas de controle incompatíveis com a realidade que, além de infantilizar o eleitorado, desviam o foco daquilo que realmente precisa ser combatido e corrigido. Deixemos por ora de lado o voto obrigatório para nos concentrarmos na questão da campanha antecipada, cuja urgência reside demonstrada em sua total incompatibilidade com os fatos.

A lei que estabelece o momento a partir do qual as campanhas eleitorais são permitidas data de 1997, ocasião em que o mundo era outro e nem se sonhava com o uso ampliado da internet na forma como agora conhecemos. Até 2015, as campanhas tinham duração de noventa dias, mas desde então o prazo foi reduzido para 45 dias e assim é ainda hoje.

Antes disso não são permitidos comícios, divulgação de candidaturas nos espaços reservados aos partidos no rádio e na televisão e muito menos pedir votos em quaisquer atos públicos. Pergunto: tais regras, individualmente ou em conjunto, são respeitadas?

Não são. Inexiste fiscalização, viceja a tolerância por parte da Justiça Eleitoral, grassa a cumplicidade leniente entre partidos, mas principalmente não são normas respeitadas porque não fazem sentido. Comícios tais como se faziam antigamente já não existem. Se a regra fosse aplicada com rigor, estariam enquadradas nela as manifestações de natureza política que acontecem o tempo todo e nas quais o pedido de votos está implícito.

Temos campanhas autorizadas por 45 dias e vivemos em clima de eleição há mais de três anos, desde a proclamação dos resultados eleitorais de 2018. Não só Bolsonaro se comporta como candidato diuturnamente. Luiz Inácio da Silva governou por oito anos ao modo de palanque.

Se os presidentes dão o exemplo — cuidado aqui para não se atribuir culpa à reeleição, pois o defeito não é da norma, é dos homens e das mulheres —, natural que seus adversários atuem da mesma maneira. Esperado que a imprensa registre os movimentos e normal que a parcela da sociedade interessada em política entre na onda. De acordo com a lei, são todos infratores: políticos, partidos e brasileiros engajados na discussão eleitoral.

A restrição em vigor cria um falso delito lastreado em amarra arcaica. Fere a liberdade de expressão, mas deixa de lado o que realmente é grave: o criminoso, por inconstitucional, abuso de poder político e econômico cometido principalmente, mas não só, por governantes.

Essa é a delinquência mestra a que a Justiça, o Ministério Público, o Congresso, as demais instâncias de fiscalização e as torcidas eleitorais deveriam dar, mas não dão, a devida atenção. O controle deveria estar aí, e não na tutela do exercício da liberdade e dos direitos dos cidadãos.

Revista Veja

Feridas da ditadura - Editorial

 




Julgamento de militares na Argentina revive a estupidez da Guerra das Malvinas

Passados 40 anos da Guerra das Malvinas, o embate em torno do grupo de ilhas no Atlântico Sul que opôs Argentina e Reino Unido, o país vizinho ainda lida com feridas não cicatrizadas do conflito.

Para além da derrota no confronto armado, uma questão sensível para uma nação que até hoje não aceita a soberania britânica do arquipélago, nos últimos anos vem ganhando corpo um conjunto de denúncias contra militares argentinos, acusados de cometer crimes contra seus próprios comandados.

Diversas formas de tortura teriam sido praticadas contra soldados que se recusavam a combater, seja em razão da precariedade de armas e treinamento, seja devido às terríveis condições enfrentadas pela tropa, como a escassez de alimentos e de abrigo, numa região em que as temperaturas caem abaixo de 0ºC.

A lista de supostos abusos tem a marca da barbárie. Soldados amarrados seminus em árvores e deixados ao sabor das intempéries; jovens oficiais enterrados até o pescoço por dias, sem receber alimentos. Os militares são ainda acusados de terem se valido de métodos então utilizados nos centros de detenção clandestinos da ditadura argentina, como choques elétricos.

O regime militar iniciado em 1976 estava longe de constituir uma exceção no panorama político sul-americano. À época, por exemplo, Brasil, Chile e Bolívia também eram comandados por ditaduras impostas pelas Forças Armadas.

Com o conflito de 1982, os generais argentinos buscavam dar sobrevida a um regime em processo de falência, insuflando o sentimento nacionalista para unir o país. A estratégia funcionou de início. Até a esquerda, massacrada sob os militares, apoiou a trágica aventura.

A arrasadora vitória britânica, porém, desmoralizou os fardados e selou o ocaso do período autoritário, encerrado no ano seguinte.

Desde o desfecho do conflito, os poucos julgamentos sobre os abusos nas Malvinas terminaram inconclusos ou com a absolvição dos acusados. O panorama começou a mudar há cerca de 15 anos, quando juízes passaram a considerar alguns desses casos como crimes contra a humanidade.

A ação presente, que conta com cerca de 170 denúncias, está paralisada desde o ano passado, aguardando a Suprema Corte decidir se os crimes atribuídos aos militares são de lesa-humanidade —e, portanto, imprescritíveis.

Uma resposta positiva permitirá aos argentinos esmiuçar esse momento de sua história em que a estupidez da guerra se juntou às práticas abomináveis da ditadura.

Folha de São Paulo

Centrão infla, União Brasil murcha e balcão de negócios opera na janela partidária




A janela de um mês em que deputados puderam trocar livremente de partido sem risco de perder o mandato chega ao fim nesta sexta-feira (1º) com um saldo positivo para o centrão de Jair Bolsonaro, que viu o seu PL se tornar a maior bancada da Câmara, com mais de 70 deputados, e com o já esperado esvaziamento do União Brasil.

Mais de 100 dos 513 parlamentares mudaram de legenda, número que pode crescer ainda mais já que os partidos não são obrigados a informar as trocas imediatamente nem à Câmara nem à Justiça Eleitoral.

Nos últimos dias, a reportagem colheu relatos de parlamentares, a maioria falando de forma reservada, dando conta de ofertas, pelos partidos, de verbas milionárias de campanha, tempo de propaganda na TV, controle de diretórios regionais e outras benesses para tentar atrair os deputados.

No período, o interesse das siglas de atrair nomes que julguem ser competitivos se soma ao de parlamentares que buscam melhorar suas chances na disputa.

O PL de Bolsonaro somava nesta sexta, oficialmente, 69 deputados federais, mas a reportagem apurou que cerca de uma dezena de novas filiações ainda seriam computadas.

A expectativa do partido era fechar com 75 deputados federais, ou seja, 15% do total da Casa. A legenda de Valdemar Costa Neto atraiu a maior parte dos bolsonaristas que saíram da União Brasil, sigla criada pela fusão de DEM com PSL, partido pelo qual Bolsonaro se elegeu em 2018.

A legenda também ganhou adeptos de outras siglas que querem associar seus nomes ao do presidente.

A segunda maior bancada está sendo disputada por PT e PP, com cerca de 55 deputados cada um.

O PSB, à esquerda, e PSDB e PTB, à direita, foram alguns dos partidos que perderam parte das bancadas. O PV, que fechou federação com o PT, viu sua bancada praticamente renovar -3 dos 4 saíram da legenda e outros quatro entraram.

A cada ano eleitoral, os 30 dias da janela são marcados por fortes negociações, juras de fidelidade ao novo partido e tentativas de legendas menores ou em baixa no campo político de estancar a sangria em suas bancadas.

Outro fenômeno registrado foi o de deputados abandonando partidos mergulhados em crises. É o caso do PTB, cuja presidência é alvo de disputa interna. Outras legendas, como o PSDB, viveram risco de saída de parlamentares após a decisão de João Doria de manter a pré-candidatura à Presidência.

A reportagem ouviu relatos de assédio ostensivo aos parlamentares.

Um dos protagonistas do caso Covaxin, o deputado Luis Miranda (DF) disse ter recebido convites de oito partidos, por exemplo, mas acabou decidindo trocar a União Brasil pelo Republicanos, de Marcos Pereira. Ele afirmou que o motivo principal para a mudança foi o cenário do partido de Luciano Bivar (PE) no Distrito Federal. Além disso, o parlamentar estuda trocar o domicílio eleitoral e sair por São Paulo, onde pesquisas internas apontariam um elevado potencial de votos, ainda de acordo com o parlamentar.

“O que eu estou escutando de todos os partidos: o teto [de recursos para a campanha] será dado para quem está eleito. Então, por exemplo, é R$ 2,5 milhões o teto [valor das eleições de 2018, que será reajustado neste ano]? Quem está eleito já tem esse teto automático”, disse o deputado, se referindo a parlamentares que os partidos já consideram ter votos suficientes para se eleger.

O Republicanos acenou também com espaço na propaganda eleitoral na TV -ele e Marcos Pereira vão gravar um vídeo juntos- e com recursos pré-campanha. “O partido disponibilizou toda infraestrutura para que eu possa fazer essa campanha, até porque eu teria que construir tudo do zero. O partido já tem tudo pronto e vai disponibilizar tudo para a gente.”

Um relato comum é o de deputados que recebem ofertas que chegam ao teto de gastos permitido na disputa para deputado federal, que deve ficar em cerca de R$ 3 milhões ou mais. Como o período de campanha foi reduzido de 90 para 45 dias, a avaliação na classe política é de que essa etapa se tornou imprescindível para conquistar uma cadeira no Congresso.

Nesse ponto, porém, há controvérsias jurídicas. Geralmente, as legendas usam verba do fundo partidário, que não deveria ser voltado para este fim, para imprimir materiais dos seus candidatos, como panfletos e adesivos que ainda não contêm o número que vai para as urnas.

As propostas dos partidos vão além de recursos e também envolvem controles estadual e municipal das legendas. Além disso, siglas da base do governo acenam com emendas nas negociações para ampliar suas bancadas. A promessa é de liberação das emendas de relator, em que os governistas têm maior liberdade no manejo dos recursos para enviá-los às bases eleitorais de aliados.

Ciente dessa movimentação, o presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), bloqueou a distribuição da verba até o fim da janela partidária. A intenção seria aguardar para avaliar o tamanho final das bancadas antes de retomar a liberação das emendas, usadas como moeda de troca em negociações políticas.

A União Brasil, apesar de ter sofrido um forte processo de desidratação com a saída dos bolsonaristas, vai continuar sendo dona da maior parcela do fundo eleitoral, que é calculado com base no número de parlamentares eleitos para a Câmara e para o Senado nas últimas eleições.

A reportagem ouviu dois deputados sob reserva, segundo os quais o partido tem feito promessas de repasse de dinheiro de campanha para atrair deputados para repor as perdas sofridas.

Outras estratégias também foram lançadas para conquistar novos integrantes. A deputados estaduais e vereadores que não podem trocar de legenda porque a janela é restrita ao âmbito federal, por exemplo, muitos partidos estão oferecendo ajuda de advogados para defendê-los na Justiça Eleitoral a fim de evitar eventual perda de mandato por infidelidade partidária.

Muitos migram também por motivos estratégicos, o principal sendo melhorar suas chances na disputa local. O deputado Luizão Goulart deixou o Republicanos para se filiar ao Solidariedade e disse que decidiu mudar de partido para ter mais influência partidária em âmbito regional.

“A troca se deu menos por questão ideológica e mais por questão de espaço aqui no estado do Paraná”, diz. E complementa: “O que mais me motivou foi a autonomia para trabalhar no estado, eu não era presidente estadual do outro partido”.

Ele relata que, no Republicanos, “não tinha poder interno para poder atuar”, mas que agora é o chefe da sigla e teve liberdade para montar toda diretoria regional da legenda.

Da mesma forma, o deputado Augusto Coutinho (PE) deixou o Solidariedade e migrou para o Republicanos por avaliar que havia mais chances de ser eleito, segundo aliados.

Pessoas próximas a Coutinho dizem que ele recebeu propostas financeiras equivalentes de ambos os partidos, mas optou pelo Republicanos pela avaliação de que teria maior sucesso eleitoral.

Procurado, o União Brasil e o Republicanos não se manifestaram.

POR MATHEUS TEIXEIRA, DANIELLE BRANT E JULIA CHAIB 

FolhaPress / Daynews

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