quinta-feira, fevereiro 03, 2022

Fome ‘made in Brazil’ - Editorial




A catástrofe alimentar no ‘celeiro do mundo’ não é um revés precipitado pela pandemia, mas o resultado de uma persistente precarização das políticas sociais

O Brasil voltou ao mapa da fome. O alerta foi cada vez mais repetido ao longo da pandemia e deve ser ainda mais. Mas seria ruim se ele servisse para disfarçar, sob o manto da excepcionalidade, uma degradação que, malgrado ter sido agravada pela crise sanitária, começou bem antes dela. Levantamento do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) aponta que, entre 2013 e 2018, a população urbana em insegurança alimentar aumentou de cerca de 20% para 35%, e a rural, de 35% para 47%. A insegurança alimentar grave nas cidades cresceu de 2,8% para 4,1%, e no campo, de 5,5% para 7,1%.

O escândalo é ainda maior porque a fome é amargada em pleno “celeiro do mundo”. Os focos mais graves de insegurança alimentar no planeta são países com escassez de recursos naturais ou atingidos por guerras, conflitos civis e catástrofes naturais, tudo aquilo de que o Brasil sempre foi poupado.

Ao contrário, nos últimos 40 anos, a revolução agrícola catapultou espetacularmente a produção de alimentos. A oferta no mercado internacional também cresceu, e o preço dos alimentos caiu. Ou seja, a causa da fome no País nunca foi, e hoje é menos ainda, a escassez de alimentos, mas sim de renda. Entre 2013 e 2018, a insegurança alimentar grave cresceu 8% ao ano. Em 2013, o brasileiro consumia em média 96,7 quilos de carne por ano, e hoje consome pouco mais de 25 quilos. A fome nacional não foi construída do dia para a noite nem é uma condição extraordinária causada pelo vírus, mas é resultado do fracasso retumbante das políticas sociais.

O governo lançou recentemente o programa Brasil Fraterno, para mobilizar doações de alimentos de empresas em troca de isenções fiscais. Também tramitam no Congresso propostas de incentivos para restaurantes e supermercados doarem alimentos excedentes ou com prazo de validade próximo. Evidentemente, são estímulos bem-vindos. Tanto mais se considerando estimativas que apontam que o Brasil desperdiça cerca de 30% de seus alimentos. Segundo o Programa da ONU para o Meio Ambiente, o Brasil ocupa a 10.ª posição entre os países que mais jogam comida fora. Mas restringir as ações de combate à fome à redução do desperdício é só uma folha de figueira para disfarçar a única coisa no Brasil tão abundante quanto a comida: a incompetência.

A causa principal do desperdício, por exemplo, não está no varejo e muito menos nos hábitos familiares, mas na infraestrutura precária e sistemas de transporte atrasados, que progressivamente drenam alimentos entre a colheita e a comercialização.

A inflação dos gêneros alimentícios básicos, muito maior que a inflação média, tem entre suas causas principais o aumento do dólar, a instabilidade política e o aumento do desemprego, fatores made in Brazil, especialmente pelos atos e palavras irresponsáveis do atual presidente da República.

Tampouco o crescimento da extrema pobreza ou o desmonte das políticas públicas de segurança alimentar na última década são fruto de alguma conjuntura internacional e muito menos de reveses naturais. Políticas como o Programa de Aquisição de Alimentos da Agricultura Familiar, o Programa de Alimentação Escolar, o Programa de Cisternas ou o Programa de Restaurantes Populares foram depauperados a olhos vistos para acomodar verbas clientelistas e eleitorais no Orçamento público.

Mesmo com o agravamento da crise na pandemia, além de programas de incentivo a doações, o máximo que Brasília produziu foram propostas natimortas de tabelamento de preços. De investimentos robustos em programas de distribuição de cestas básicas, medidas para reforçar o abastecimento, uso de estoques públicos, modelos de operações bem conduzidas de importação ou incentivos à agricultura familiar não se viu praticamente nada.

O combate à fome é do tipo que pode ser classificado como uma “guerra total”. Cada indivíduo, cada empresa, deve empunhar suas armas e fazer o que estiver ao seu alcance. Cada centavo doado, cada iniciativa social, por mais improvisada que seja, são valiosos. Mas somente o Estado pode evitar uma catástrofe maior.

O Estado de São Paulo

Compra de votos com diesel e fogão

 




Baixar tributos sobre diesel e eletrodoméstico tem pouco efeito e eleva a dívida

Por Vinicius Torres Freire (foto)

Paulo Guedes quer emagrecer o "Estado obeso" cobrando menos imposto sobre eletrodomésticos, para "beneficiar o setor industrial e o consumidor de massa". Diz que o aumento permanente da arrecadação do governo foi de mais de R$ 100 bilhões em 2021. Quer devolver até uns R$ 20 bilhões para a "população abusivamente explorada" pelo governo glutão. Para tanto, diminuiria um imposto sobre fogão, geladeira e lava-roupas.

Hum.

Como no caso de diesel e gasolina, se o governo cobrar menos imposto, vai fazer mais dívida. Vai, pois, pagar mais juros, o que beneficia ricos.

Do jeito que Guedes fala, parece que sobra dinheiro. Não sobra, claro. Com aumento de receita, com tudo, em 2021 o governo federal gastou R$ 36 bilhões a mais do que arrecadou (teve déficit primário de R$ 36 bilhões). Nessa conta, não entram as despesas com juros da dívida, apenas gastos como Previdência, salário, benefício social, máquina, investimento etc.

Por falar em dívida, o governo federal pagou R$ 407 bilhões em juros no ano passado. Pagou com mais dívida, "rolou".

Neste 2022 e por muitos anos ainda, o governo terá de tomar dinheiro emprestado para pagar suas despesas básicas, o que acontece desde 2014. O déficit federal previsto é de R$ 79 bilhões (ou R$ 95 bilhões, no palpite do "mercado"). Se deixar de arrecadar mais imposto, vai fazer ainda mais dívida e pagar ainda mais juros, fora outros possíveis rolos. O aumento exagerado e incompetente da dívida pode dar rolo: juros e dólar mais salgados.

Jair Bolsonaro desistiu de diminuir o imposto sobre gasolina. Como de costume, o que dizia sobre zerar tributos era da boca suja para fora, pois não sabia o que estava fazendo.

Mas o governo ainda quer que o Congresso invente uma gambiarra que o autorize a baixar o PIS/Cofins sobre o diesel sem ter de compensar a perda de receita com o aumento de outro imposto ou com corte de gastos. Zerando o PIS/Cofins sobre diesel, abriria mão de até R$ 20 bilhões por ano.

Em resumo, Bolsonaro e Guedes querem endividar o governo e dar mais dinheiro para ricos a fim de fazer demagogia eleitoreira.

Em certas situações, em tese, o governo pode se endividar de modo relevante ou necessário. Pode fazer mais dívida para financiar investimentos ditos "produtivos", em "obras", em ciência, em pesquisa. Pode se endividar a fim de evitar que muito mais gente morra de fome, doença ou desespero, como na epidemia em 2020.

É preciso dizer também que parte desse endividamento pode até resultar em algum ganho de arrecadação (parte do dinheiro da redução de imposto voltaria por aumento de consumo, por exemplo teórico). É improvável que isso ocorra de modo relevante por meio de corte de imposto.

Segundo alguns economistas de esquerda, o aumento da dívida via aumento de investimento pode até resultar em mais crescimento da economia. Mas passemos. Essas contas são complicadas e o assunto é extenso e controverso, para dizer o menos. No Brasil de agora, esse endividamento extra dará em apenas mais besteira.

No aspecto mais comezinho, é possível até que o desconto de PIS/Cofins sobre o diesel (33 centavos por litro) nem chegue à bomba, assim como a redução de imposto (IPI) sobre eletrodomésticos, mania antiga de Guedes, pode não chegar ao preço das lojas.

Como de costume, não adianta mostrar algumas tabelas ou problemas básicos de argumento, de justiça social e de incongruência de meios e fins. Chefetes do Congresso dizem que é "prioridade" mexer em combustível. Bolsonaro precisa desesperadamente de alguma demagogia para salvar uns pontos nas pesquisas. Fim.

Folha de São Paulo

Telegram ignora decisão do STF sobre Bolsonaro há 6 meses e expõe descontrole no Brasil




O Telegram ignora há cerca de seis meses uma determinação do STF (Supremo Tribunal Federal) para retirar do ar publicação de Jair Bolsonaro (PL) com informações falsas sobre as urnas eletrônicas.

A decisão, do ministro Alexandre de Moraes, deu-se no inquérito que apura a responsabilidade do presidente no vazamento de dados sigilosos de investigação sobre um ataque hacker à Justiça Eleitoral.

O caso expõe na prática a dificuldade das autoridades brasileiras em lidar com o Telegram, que está na mira do TSE (Tribunal Superior Eleitoral).

Em agosto passado, Moraes ordenou que uma publicação de Bolsonaro sobre a suposta vulnerabilidade das urnas fosse apagada do aplicativo. O texto, porém, segue no ar até hoje.

Outras redes sociais, como o Twitter e o Instagram, cumpriram a decisão do ministro e derrubaram o conteúdo. O Telegram nem sequer se manifestou no inquérito.

“O sistema eleitoral foi invadido e, portanto, é violável”, escreveu o presidente na mensagem que ainda consta em seu canal na plataforma.

Atualmente com sede em Dubai, nos Emirados Árabes, o Telegram se vangloria do fato de não colaborar com autoridades, ainda que seja alvo de decisões judiciais.

Como mostrou a coluna Painel, da Folha de S.Paulo, investigadores na esfera cível e criminal que atuam em apurações sobre disseminação de fake news, discurso de ódio e desinformação não veem muita saída além do bloqueio do Telegram no Brasil.

As autoridades vêm tentando contato com a empresa, sem sucesso, o que torna inviável aplicar multas ou outras sanções em caso do descumprimento de ordens judiciais, como foi a de Moraes de agosto do ano passado.

Com pouca moderação e uma estrutura propícia à viralização, o serviço de comunicação é uma das preocupações do TSE para as eleições de 2022.

A dificuldade de alcançar o Telegram, que não tem sede nem representante legal no país, está inserida em um debate sobre os desafios de tornar legislações nacionais efetivas em um mercado de serviços na internet cada vez mais globalizado.

Nesse cenário, as opções seriam: aceitar o crescimento desenfreado de uma plataforma que não atende aos contatos do Judiciário brasileiro ou bloquear o Telegram até que a empresa passe a dialogar.

Nas últimas semanas, a corte eleitoral subiu o tom nas críticas ao serviço de comunicação e não descarta a medida mais drástica, que é o bloqueio.

A possibilidade do bloqueio do Telegram, como mostrou o jornal Folha de S.Paulo em recente reportagem, gera preocupação de parte dos especialistas na área, dadas as possíveis consequências da medida, que está inserida em um complexo debate não só da perspectiva legal como técnica.

Por outro lado, o Telegram não responde às autoridades, tampouco a pedidos da imprensa.

O presidente do tribunal, ministro Luís Roberto Barroso, encaminhou um ofício ao presidente do Telegram com o objetivo de formalizar uma cooperação que vise o combate à desinformação. Não houve resposta até o momento.

Para Barroso, serviços de comunicação com papel relevante no pleito do segundo semestre não podem operar no país sem representação jurídica adequada, responsável pelo cumprimento da legislação nacional e das decisões judiciais.

O Telegram é atualmente um dos canais de comunicação prediletos de Bolsonaro, usado para divulgar ações de sua administração. Conta hoje com mais de um milhão de seguidores.

Na semana passada, Bolsonaro disse a apoiadores que o governo está “tratando” sobre o caso do aplicativo. “É uma covardia o que estão querendo fazer com o Brasil”, disse o presidente ao ser provocado sobre o tema.

Procurado pela reportagem, o Palácio do Planalto ainda não se manifestou sobre o assunto.

O Telegram está na mira de ao menos duas apurações, uma na Polícia Federal e outra no MPF (Ministério Público Federal).

A mensagem de Bolsonaro sobre as urnas eletrônicas, que ainda aparece no aplicativo, tem links que direcionam os leitores para arquivos do inquérito da Polícia Federal aberto após invasão cibernética a sistemas da Justiça Eleitoral em 2018.

Foi com base nesse material que ele e aliados encamparam, durante uma transmissão online, a tese de que o sistema eleitoral é suscetível a fraudes, suspeita rebatida pelo TSE. A polícia disse a Moraes que viu crime do presidente no vazamento dos dados dessa apuração.

Os links não funcionam mais porque os arquivos foram apagados de outras bases onde estavam hospedados. Essa providência, contudo, não foi do Telegram.

Foi usada uma rede social chamada “Brasileiros”, construída a partir da plataforma de código aberto Mastodon, para armazenar os documentos anexados.

Embora seja de agosto de 2021 e sobre um assunto tido como superado por ministros do STF e do TSE – a alegação de que o resultado das urnas eletrônicas é manipulável–, a publicação ainda disponível no Telegram é um exemplo dos desafios no combate à desinformação.

Além de Bolsonaro, outros pré-candidatos, como o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Ciro Gomes (PDT), também contam com canais no aplicativo. O petista conta atualmente com 47 mil seguidores e Ciro, 19 mil.

A corte eleitoral já firmou parcerias com quase todas as principais plataformas tecnológicas e entende que exceções, caso do Telegram, não são desejáveis.

Na volta do recesso do Judiciário, informou o TSE, Barroso pretende discutir internamente com os ministros as providências possíveis. Ele conversa com seus sucessores no comando do tribunal, Edson Fachin e Alexandre de Moraes.

FolhaPress / Daynews

Corrida bolsonarista por uma boquinha - Editorial

 




Com a perspectiva de derrota de Bolsonaro, aliados do presidente tentam garantir preciosas vagas e avançar sobre a estrutura do governo

A corrida pelas últimas vagas de emprego no governo começou cedo em 2022. No primeiro mês daquele que, ao que parece, será o último ano de mandato de Jair Bolsonaro, aliados iniciaram um já tradicional movimento de tentar garantir espaço em órgãos públicos e estatais antes que o atual presidente perca o poder que ainda tem. É o caso do Ministério de Minas e Energia (MME), que, segundo revelou o Estadão, tentou criar nada menos que 200 cargos na Empresa Brasileira de Participações em Energia Nuclear e Binacional (Enbpar), companhia cuja razão de existência é permitir a privatização da Eletrobras.

A Enbpar, em tese, apenas assumiria atividades que precisam continuar sob domínio da União, como as usinas de Angra, dado que a exploração das atividades nucleares é monopólio constitucional, e Itaipu, usina binacional regida por um tratado entre Brasil e Paraguai. Há também políticas públicas coordenadas pela Eletrobras que seriam repassadas à nova empresa. O fato de que a estrutura interna de Itaipu e da Eletronuclear não passará por mudanças e será simplesmente transferida da Eletrobras para outra holding garantiria uma “estrutura enxuta”, segundo anunciou no início de janeiro o próprio CEO da companhia, Ney Zanella dos Santos, vice-almirante da Marinha.

Na semântica da ala militar do governo, 200 cargos aparentemente representam uma estrutura enxuta, mas essa interpretação não é compartilhada pela Secretaria de Coordenação e Governança das Empresas Estatais (Sest) do Ministério da Economia (ME), que deu aval a apenas 27. Questionado, o MME disse ter solicitado o que julgava ser “suficiente”, afirmou que o número final de funções a serem criadas ainda estava em análise e não explicou o motivo que justificaria um quantitativo de funcionários sete vezes maior que o autorizado pelo ME. É preciso lembrar que se trata da segunda empresa pública que nasce em uma gestão que prometia arrecadar R$ 1 trilhão com a venda de estatais, e que a capitalização da Eletrobras ainda precisa do aval do Tribunal de Contas da União (TCU) para se concretizar.

Não é um caso isolado. Em um País que registrou uma taxa de desemprego de 11,6% no trimestre encerrado em novembro e a menor renda da série histórica, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o secretário especial de Produtividade, Emprego e Competitividade do Ministério da Economia, Carlos Da Costa, teve o mérito de criar um emprego para si mesmo e quadruplicar seu salário. Ele vai chefiar um escritório de representação da pasta em Washington, nos Estados Unidos, cujo objetivo será “fortalecer a interlocução com investidores, consolidando o País como ambiente seguro para se fazer negócios”, de acordo com a Secretariageral da Presidência da República.

Parece uma estrutura redundante, já que essa atribuição pertence à Embaixada do Brasil na capital norte-americana. E de fato é, tanto que Da Costa terá remuneração equiparada à função de embaixador, algo em torno de R$ 75 mil mensais. O decreto estabelece ainda que a “duração da missão” será de dois anos e poderá ser prorrogada uma vez. Com isso, o secretário garantiu um cargo com o qual atravessará, ao menos, o primeiro ano de mandato do próximo governo.

Com a consolidação do resultado das pesquisas eleitorais, a tendência é que o mundo político em Brasília antecipe o fenômeno do “café frio”, expressão que descreve os últimos meses de mandato de um presidente, quando ninguém mais procura o mandatário e nem os garçons se esforçam para agradar-lhe. Mas enquanto o café estiver morno, aqueles que tiveram o nome associado à gestão bolsonarista tentarão avançar sobre a estrutura do Executivo com tanto ou mais apetite que seus antecessores para garantir os últimos nacos de poder. Em seguida, passarão a trabalhar com afinco para se desvincular da tragédia que foi a administração de Bolsonaro e se colocarão como técnicos a serviço do País. São os mesmos que falavam em “despetizar” o governo e que abandonaram a reforma administrativa.

O Estado de São Paulo

"Bolsonaro vai passar e vai entrar para a história como um dos piores presidentes que já tivemos", diz presidente do Novo.

 





Entrevista de Eduardo Ribeiro, presidente nacional do Paratido Novo

Por Alexandre Borges

Eduardo Ribeiro, presidente nacional do Partido Novo, tem 33 anos e é farmacêutico-bioquímico de formação. Empresário e executivo do setor de saúde, concedeu essa entrevista exclusiva para a Gazeta do Povo em que analisa passado, presente e futuro do partido mais identificado com o liberalismo no Brasil. Na entrevista, ele nega o rótulo de bolsonarista do partido e diz que esta eleição será a mais difícil já enfrentada pela sigla. Veja:

O Novo é bolsonarista? Como se livrar desta pecha na eleição deste ano?

O Novo não é bolsonarista. Somos, inclusive, oposição institucional ao Bolsonaro e defendemos seu impeachment. A confusão existe porque Bolsonaro se apropriou de um discurso economicamente liberal na campanha de 2018 muito parecido com o do Novo, e ainda tenta mantê-lo, mesmo depois de três anos de um governo vergonhoso e antiliberal.

Bolsonaro vai passar e vai entrar para a história como um dos piores presidentes que já tivemos. O Novo vai continuar, fiel aos seus princípios e convicto da qualidade e dos diferenciais dos seus políticos. Tentam colocar pecha no Novo desde o seu nascimento: partido de banqueiro, de riquinho, de ex-tucano. Tudo bobagem, essa é só mais uma. Não me preocupo com isso.

Quais foram os mais importantes aprendizados do Novo desde a fundação?

O principal aprendizado foi compreender que é muito difícil convencer as pessoas a entrar para a política. No início, achávamos que seria um caminho natural para muita gente boa, tendo uma plataforma como o Novo, com regras de governança claras, membros ficha-limpa e quadros competentes. Mas não é tão simples, ainda há muita resistência à política e, principalmente à política partidária. O que é muito ruim, porque isso acaba abrindo um espaço muito grande para quem não tem nada a perder, pessoas despreparadas ou com más intenções.

Estamos crescendo, mas com muito trabalho de convencimento pela frente.

Como você avalia o futuro do liberalismo no Brasil? Como ficaria o Brasil num eventual terceiro mandato de Lula?

Acho que o liberalismo conseguiu vencer uma barreira importante, que era a sua demonização pelo discurso hegemônico da esquerda. Nos anos 80, havia só o Roberto Campos falando e apanhando sozinho. Hoje temos mais vozes e a liderança é mais difusa. Possivelmente, daremos alguns passos para trás por causa do governo Bolsonaro, porque certamente vão tentar associá-lo ao liberalismo. Por isso a importância de se posicionar contrário a esse governo e à figura do presidente, e não deixá-lo levar para o fundo do poço, junto com ele, todo o trabalho que foi feito ao longo dos últimos 20 anos.

E um terceiro mandato do Lula seria horrível para o Brasil, comprovaria o descrédito das nossas instituições ao elegermos um criminoso condenado em todas as instâncias. Mas, claramente, isso é mais consequência da conduta desastrosa do Bolsonaro do que o desejo dos brasileiros.

O que você diria para o eleitor do Novo sobre as perspectivas da eleição de 2022?

Será uma das eleições mais difíceis que já enfrentamos. Temos dois adversários principais: o bolsonarismo e o petismo, que são as duas principais máquinas de difamação que esse país já viu. Mas o Novo seguirá firme dentro dos seus posicionamentos históricos e não irá recuar um milímetro, independente do que tentem nos associar. Hoje temos resultado pra mostrar: deputados federais, estaduais e vereadores altamente competentes e atuantes em suas casas legislativas, o melhor prefeito e o melhor governador do Brasil. Para as eleições, teremos uma legião de ótimos candidatos, incluindo à presidência - com Felipe d’Avila -, que vão precisar da ajuda de cada filiado e apoiador do Novo. É trabalhando em equipe, divulgando, doando e se voluntariando, que vamos dar o exemplo e começar a reescrever a história desse país.

Gazeta do Povo (PR)

Falta a Bolsonaro visão de Brasil




Jair Bolsonaro deu para demonstrar tamanho fastio com a tarefa de governar o Brasil que fica difícil entender por que, além da razão exclusivamente política, ele pretende gastar mundos e fundos para tentar se reeleger.

Por Vera Magalhães (foto)

Duas das últimas manifestações do presidente de turno apontam uma completa ausência, da sua parte, de visão do que seja o país que administra (sic) há três anos.

Para se contrapor à avassaladora constatação de que foi o presidente que mais gastou nos cartões corporativos da Presidência, sobre os quais ainda colocou camadas adicionais de sigilo, o capitão (ou seus filhos, esses luminares da comunicação) teve uma ideia: por que não dar um dos seus apreciados rolês de motoca pela capital federal e se deixar fotografar coberto de farofa, comendo um frango com as mãos numa barraca de rua? Genial, não?

Não. Poucas cenas podem ser mais emblemáticas da falta de empatia do presidente com quem de fato carece de recursos para se alimentar, ou precisa muitas vezes fazer uso das mãos pois não dispõe de casa, cadeira, talheres e pratos.

Aqueles que estão nessas condições têm pelo parco alimento de que dispõem um respeito absoluto. Não desperdiçam sua exígua quantidade nem denotam certo asco pelo ato de comer, como o Bolsonaro que se deixou filmar numa tentativa mambembe de se mostrar como um “homem do povo”.

Dois dias depois da Operação Farofa, Bolsonaro decidiu sobrevoar municípios da Grande São Paulo mais afetados pelos desabamentos e pelas mortes provocados pelas fortes chuvas no estado nos últimos dias.

E se saiu com a pérola de que faltou “visão de futuro” àqueles que construíram casas em regiões sujeitas a desabamentos, ou irregulares. A frase choca pelo descolamento com a realidade histórica da moradia no Brasil.

Num país em que cada vez mais as grandes cidades veem as populações mais pobres forçadas a morar em favelas e ocupações de áreas de mananciais e encostas pela completa ausência de política habitacional da parte de todas as esferas de governos, falar que falta visão de futuro é, aí sim, total falta de visão do país que deveria governar.

Falta de tudo a quem é forçado (não se trata, de forma estrita, de uma decisão) a arriscar a própria vida e a da família construindo barracos precários em pirambeiras. Falta sobretudo Estado. Não aquele Estado demonizado pela direita reacionária ou aparelhado por uma esquerda retrógrada, mas o que utiliza seus recursos em benefício da parcela da população mais necessitada.

E é pelo fato de que Bolsonaro não tem compreensão rudimentar que seja dos problemas profundos de um país cada vez mais desigual e socialmente perverso que não adianta gastar os tubos para buscar tirar votos de Lula entre os mais pobres e, assim, se reeleger.

Essa estratégia foi enunciada pelo ministro da Casa Civil, Ciro Nogueira, em entrevista ao GLOBO. Nesse cálculo, o Auxílio Brasil seria uma ferramenta milagrosa a transferir votos para Bolsonaro diretamente de seu maior antípoda.

Poderia funcionar? Sim, uma vez que nesse Brasil sem emprego de fato os programas de transferência de renda são poderosos vale-votos. Mas Bolsonaro não tem conexão real com essa parcela da população, e já demonstrou fartamente em declarações ao longo de sua carreira ter desprezo a mecanismos como o Bolsa Família, marca que não por acaso tratou de apagar.

Lula pode ter todos os problemas que tem e que parte dos eleitores vê nele e no PT. Mas é o político brasileiro que tem o maior legado no enfrentamento da fome e da miséria, além de uma conexão genuína com a realidade da população mais sofrida, pois vem dessa realidade. Isso não há farofa cenográfica ou sobrevoo de má vontade a áreas de tragédia que transplante.

O Globo

Nota "Brasil Soberano e Livre": Lula é daquele grupo de políticos desonestos que rouba mas faz. Um ladrão já condenado até em terceira instância.

'Woke racism', uma nova religião




Em seu novo livro, Woke Racism, o professor e linguista John McWhorter argumenta que esse “despertar” é uma religião que, longe de se opor ao racismo, tende a reforçá-lo. 

Por Elan Journo

    “Supremacia branca” define a nossa sociedade. Na verdade, a fundação de nossa nação foi em 1619, com a chegada do primeiro navio que transportava escravos africanos. Se você é “branco”, verifique seu “privilégio”. O simples fato de resultados distintos nas escolas é uma prova óbvia de racismo. Negar que você é conivente com isso só prova que você é racista.

    Essas ideias são cada vez mais difundidas em salas de aula, auditórios, instituições culturais e locais de trabalho. Não se alinhe ao discurso “desperto” e será perseguido, intimidado ou despedido.

    Mas os “despertos” acreditam em quê?

Começando com pais irados em reuniões escolares, passando por protestos vulgares e algumas vozes conservadoras, você ouvirá que os “despertos” buscam minar a sociedade americana, inspirados pela Teoria Crítica da Raça. Alguns políticos inclusive decidiram bani-la das escolas. Negligenciando essa reação, algumas vozes progressistas insistem que a Teoria Crítica da Raça é apenas uma obscura especialização acadêmica sem ligação direta com o que é ensinado em sala de aula. O que os “despertos” buscam, na verdade, é um acerto de contas a nível nacional com o racismo.

Em meio a essa confusão, John McWhorter oferece uma explicação penetrante. McWhorter, que leciona na Universidade de Columbia, é um intelectual dissidente em questões raciais. De forma apaixonada e convincente, ele discorda da ideia complacente de que o fenômeno do “despertar” é um impulso sensato de combate ao racismo, afirmando que seu objetivo é remodelar politicamente os Estados Unidos, apropriando-se da Teoria Crítica da Raça. Mas para compreender sua crueldade inquisitorial, seu impulso condenatório e seu poderoso domínio sobre a mente de tantas pessoas, precisamos ver esse fenômeno sob um ângulo diferente. Em seu novo livro, Woke Racism, McWhorter argumenta que esse “despertar” é uma religião que, longe de se opor ao racismo, tende a reforçá-lo.

Uma nova religião

McWhorter batiza os seguidores dessa nova religião como “eleitos”, um termo que evoca não apenas fanatismo, mas também uma “certa presunção” de serem “portadores de sabedoria”. Essa religião, ele aponta, exibe características semelhantes às religiões já existentes e, na maioria das vezes, as semelhanças que ele destaca são pertinentes. Há um suposto pecado original: “privilégio branco”. Há uma linha de pensamento apocalíptico: o presente é um esgoto, perdição; o progresso nas questões raciais depende de um juízo final. Há também uma caça aos hereges, considerados não apenas errados, mas moralmente corruptos. Assim como os católicos medievais defendiam “perseguir judeus e muçulmanos”, os inquisidores de nosso tempo “abraçam exatamente o mesmo tipo de missão, só mudam o alvo”.

Os “despertos” não têm uma figura divina, mas McWhorter observa que nem toda religião precisa de uma. Chamando a atenção para a mentalidade dos seguidores, ele observa uma semelhança com as religiões abraâmicas: “Não se trata de se submeter a UM Deus. É preciso mostrar-se descrente para não ser considerado submisso”. Seguidores fervorosos da nova religião do “despertar” não sustentam crenças baseadas em fatos, opondo-se fervorosamente a eles. Os despertos também não se deixam abalar por contra-evidências.

Considere a alegação de que, na educação, as diferenças nas notas entre alunos brancos e negros evidências inquestionáveis de racismo. McWhorter mostra que isso é implausível, pois não leva em conta o papel de outros fatores causais. Entre eles está a ideia perniciosa de que ser bom na escola é trair a própria raça. Essa ideia, sugere McWhorter de forma plausível, provavelmente se originou em uma época em que os alunos negros sofriam racismo por parte dos professores e tinham de suportar a rejeição daqueles que apoiavam a segregação. Entretanto, mesmo com esse preconceito diminuindo muito ao longo do tempo, a ideia criou raízes na mente de muitos americanos, incluindo americanos negros.

Sentimentos acima dos fatos e da lógica

O desprezo pela lógica é uma característica da religião do “despertar”. McWhorter justapõe algumas de suas injunções conflitantes (homilias?): “Os negros não podem ser responsabilizados por tudo que todo negro faz”, mas, ao mesmo tempo, “todos os brancos devem reconhecer sua cumplicidade pessoal na perfídia da ‘brancura’ ao longo da história.” Temos o dever de “mostrar interesse no multiculturalismo”, mas, ao mesmo tempo, “não é culturalmente apropriado. O que não faz parte de sua cultura não é para você, e você não pode tentar vivenciá-la, ‘apropriando-se dela’”. Quando os negros dizem que você os insultou, “peça desculpas com profunda sinceridade e culpa”, mas, ao mesmo tempo, “não coloque os negros numa posição em que espera que eles o perdoem. Eles já passaram por coisas demais”.

“Religião”, escreve ele, “não tem lugar na sala de aula, nos corredores das universidades, em nossos códigos de ética, muito menos em decretar como todos os membros da sociedade devem se expressar, e quase todos nós espontaneamente entendemos isso e vemos qualquer incompreensão dessa premissa como retrógrada.”

Para os adeptos desta perspectiva, o fato de que esses princípios “cancelam um ao outro é considerado trivial”. Mas o fato de servirem “ao seu verdadeiro propósito de revelar as pessoas como fanáticos é fundamental – sacrossanto, por assim dizer”.

O medo e a culpa são fundamentais para entender como os “despertos” evangelizam. Eles têm sucesso, ele acredita, por intimidação moral e ao aterrorizar as pessoas com a ameaça de serem rotuladas de racistas: “Nós nos tornamos uma nação de pessoas inteligentes que atestam que ‘entenderam o recado’, tremendo de medo”.

Ironicamente, porém, este termo encontra-se terrivelmente corrompido por causa do imenso progresso que vimos no racismo, um fato que os “despertos” negam. Quando a intolerância e o preconceito eram muito mais comuns e aceitos que hoje, essa acusação não teria sido nem de longe socialmente letal, muito menos representaria o fim de uma carreira. O progresso tem sido “tão vívido nos últimos 50 anos que um segregacionista da velha-guarda transportado para os Estados Unidos atual, mesmo no Sul, teria dificuldade em não vomitar com o que visse”. Para os “eleitos”, “a vida dos negros é importante, mas a transformação sociopolítica profunda na forma como os negros são percebidos, não”.

O que motiva o “eleito”?

De onde surgiu essa religião e o que motiva seus adeptos? McWhorter rastreia suas raízes de volta à Teoria Crítica da Raça. Discutindo brevemente essa questão, ele ilustra a influência da TCR no comportamento dos “eleitos”, por exemplo, na elevação das “narrativas” sobre os fatos. O que motiva os crentes dessa religião? McWhorter acredita que não se trata principalmente de “dinheiro ou poder, mas puro propósito, no sentido de sentir que você é importante e que sua vida tem um fim significativo”.

Mas os “despertos” variam em seu nível de comprometimento, e esse fato pode explicar os muitos adeptos conformistas que seguem a multidão. E quanto aos mais zelosos, que sentem uma necessidade contínua de expulsar os hereges e, assim, reafirmar sua fidelidade aos olhos de seus companheiros de seita? E os líderes intelectuais? Uma objeção aqui é que McWhorter é excessivamente caridoso com as motivações dos “despertos”, especialmente aqueles que exibem um interesse pessoal em negar a realidade do progresso e desinteresse em soluções viáveis.

Tal indiferença ultraja McWhorter. Nesse ponto, e em outros lugares, sua indignação fica estampada. Ele se revolta contra a noção dos “eleitos” de que, se os negros quiserem progredir, o racismo deve ser completa e totalmente erradicado. Embora totalmente ciente da persistência do racismo, ele rejeita a visão de que “nosso foco principal deve sempre ser a eliminação dos vestígios do preconceito racista”, o que implica que “esse viés é um obstáculo conclusivo para o sucesso dos negros”. Esse é um argumento inusitado para qualquer outro grupo, e para os negros implica que:

Nós, e somente nós, exigimos uma vasta transformação no procedimento psicossocial e distributivo no que é, apesar de suas falhas, um experimento democrático funcional em que o racismo é proibido em um grau desconhecido na história humana até 50 anos atrás, e em um grau que teria sido considerado ficção científica 30 anos atrás.

Essa ideia retrata os negros como crianças com deficiência mental e espiritual…

McWhorter mostra que, apesar de se apresentar como inimiga do racismo, essa postura prejudica os negros e ofusca os problemas reais. A perspectiva “desperta” fecha os olhos “para crianças negras sendo atacadas por outras na escola”; “para a loucura da ideia de ‘identidade’ negra como tudo sobre o que os brancos pensam, e não sobre o que os próprios negros pensam”; “aos lapsos no trabalho dos intelectuais negros, porque os negros carecem do privilégio dos brancos”.

A conclusão condenatória de McWhorter é que a religião “eleita” é racista, não apenas em sua concepção da identidade negra, mas também em sua condescendência para com os negros.

Essa conclusão é bem defendida, mas há algumas questões controversas que McWhorter deixa de lado ou só aborda artificialmente. Entre elas está o “privilégio branco”, que McWhorter acredita ser real em certo sentido. No entanto, ele reforça que o importante são nossas respostas a ele. A ideia de “racismo sistêmico” é outro termo que valeria a pena desdobrar mais, dada sua relevância. Investigar mais essas questões fortaleceria o argumento do livro.

Deixando a balcanização de lado

O fenômeno do “despertar”, no relato de McWhorter, é uma espécie de força atávica: ele nos leva “de volta às categorizações raciais balcanizadas e artificiais que todos pensamos que queríamos superar.”

No entanto, pergunte por que não devemos mais superá-los e os eleitos – espere – rotulam-no como supremacista branco. Todo o foco do Iluminismo no individualismo, toda a permissão do modernismo para que as pessoas sejam elas mesmas em vez de ficarem presas a classificações predefinidas, esfacela-se diante dessa ideia de que ser qualquer coisa menos branco requer obsessão com o fato de que você não é branco e diminuído pela possibilidade de eles não o verem em sua totalidade.

Ao enfrentar os “eleitos”, aconselha McWhorter, não permita ser intimidado moralmente: enfrente-os, pare de tratá-los como o normal.

A demanda dos “despertos” de “acabar com o racismo”, argumenta McWhorter, é uma “versão infantil de progresso “. O racismo, escreve ele, não é apenas preconceito, mas também atitudes e políticas persistentes: “Algo tão multiforme e atemporal deve ser restringido tanto quanto possível, mas é impossível simplesmente eliminá-lo. Mais especificamente, não é necessário fazer isso.” O que deveria ser feito? McWhorter propõe três reformas de políticas que acredita serem de alto nível, mas modestas o suficiente para serem implementadas: acabar com a “guerra às drogas”; ensinar adequadamente todos os alunos a ler; e tornar o treinamento vocacional mais acessível, desfazendo a ideia de que todos devem ir para uma faculdade de quatro anos. Ele explica como isso poderia abrir caminhos para que os indivíduos levassem uma vida produtiva e gratificante, e mesmo se alguém discordar dele, é claro que essas recomendações evidenciam uma preocupação genuína com o progresso.

Inabalável em sua análise, o livro esclarece o fenômeno do “despertar” que nos rodeia.

New Ideal

UE aprova energia nuclear e gás como fontes sustentáveis




Comissão Europeia aponta que proposta busca solução para que o bloco atinja gradativamente a neutralidade climática até 2050. Texto, porém, desperta críticas de ambientalistas e de países como a Alemanha.

Apesar das críticasde parte da população, de ambientalistas e de países como a Alemanha, a Comissão Europeia aprovou nesta quarta-feira (02/02) o projeto que conceitua a energia nuclear e o gás como fontes de energia sustentáveis – ao menos sob determinados critérios – dentro do bloco. Ambos serão incluídos na assim chamada regulamentação de taxonomia, um sistema de classificação que visa direcionar os investimentos no setor para as energias verdes.

A coalizão governamental alemã, de social-democratas, liberais e verdes, era contra a proposta, e conseguiu que algumas condições para a inclusão do gás no projeto fossem flexibilizadas. Berlim também se posicionou contra a energia nuclear, que conta com o apoio de países como França – onde 70% da eletricidade é de origem nuclear – e do Norte, Centro e Leste Europeu.

Polônia, Hungria, República Tcheca, Bulgária, Eslováquia e Finlândia estão do lado da França, enquanto Áustria, Dinamarca e Luxemburgo concordam com a Alemanha.

Concretamente, as usinas de energia a gás natural, por exemplo,só serão consideradas "verdes" se não ultrapassarem um limite de emissões de CO2 de 270 gramas por kWh (kilowatts/hora) até o começo da década de 2030. No entanto ficam obrigadas a reduzir suas emissões até, no máximo, 2035.

'Eletricidade a partir de gás liquefeito é uma das "pontes" da Alemanha rumo à energia sustentável'

Para serem classificadas como verdes, as novas usinas nucleares terão que obter licença de construção e desenvolvimento antes de 2045. Além disso, até 2050 os países onde forem construídas terão que dispor de um plano e dos recursos financeiros necessários para a eliminação segura dos resíduos radioativos.

Os críticos reclamam que a taxonomia perde credibilidade com a inclusão do gás e da energia nuclear, acabando por não ser aceita pelos investidores nos mercados de capital.

A comissária da UE para Estabilidade Financeira, Serviços Financeiros e União dos Mercados de Capitais, Mairead McGuinness, rebateu que o texto aprovado nesta quarta-feira "pode não ser perfeito", mas oferece "uma solução real" para o objetivo do bloco de alcançar a neutralidade climática até 2050.

Para tal, será preciso investir em torno de 350 bilhões de euros anualmente, conforme a Comissão. Uma das formas para atingir essa meta seriam, justamente, os investimentos privados via taxonomia.

'Presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen classifica o taxonomia como "o homem na Lua da Europa"

Críticas de ambientalistas e especialistas em energia

Desde que propôs o anteprojeto, no fim de 2021, a Comissão Europeia fez alguns ajustes no texto. Da aprovação até a entrada em vigor da legislação, em 2023, os Estados-membros da União Europeia têm agora quatro meses para alterar pontos que considerem cruciais. Mas isso é improvável, pois exigiria os vetos de 20 dos 27 países do bloco ou da maioria absoluta no Parlamento Europeu.

A chefe da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, já havia descrito o acordo como "o homem na Lua da Europa". Identificada com questões climáticas, a política alemã também classificou o projeto como "nosso destino europeu".

Organizações ambientais veem o texto com ceticismo e argumentam que a proposta pode justamente comprometer o objetivo da UE de alcançar a neutralidade climática até 2050. A Climate Action Network Europe criticou que a Comissão "sacrifica a integridade científica da taxonomia pelos lobbies de gás fóssil e nuclear", e que não conseguiu "reorientar os fluxos financeiros para investimentos genuinamente positivos para o clima".

E não são somente ativistas climáticos que criticam o projeto: especialistas em energia estão preocupados com "os impactos ambientais em que pode resultar", como no caso de um acidente nuclear. Eles também objetam que a construção de novas usinas nucleares levaria tempo demais para contribuir para os objetivos de neutralidade climática, projetados para 2050.

'Desde 31/12/2021, Alemanha só tem três usinas nucleares em funcionamento'

Dilema alemão com as usinas e o gás

No caso da Alemanha, a principal crítica se dirige à energia nuclear, já que o gás segue sendo fundamental para a substituição gradual do carvão mineral, sendo classificado como uma "ponte", até as fontes verdes – como a solar e a eólica – serem capazes de atender à demanda energética do país.

Nas últimas décadas, a Alemanha tem sido palco de oposição crescente à energia nuclear, sobretudo desde o desastre na usina japonesa de Fukushima, em março de 2011. Em 31 de dezembro último, o país fechou três das seis usinas que ainda em atividade.

Ao ser anunciado, dezembro, que o projeto seria levado à apreciação e votação da Comissão Europeia, o vice-chanceler federal da Alemanha, Robert Habeck, acusou a UE de planejar uma "lavagem verde", usando políticas que parecem favoráveis ​​ao clima para encobrir práticas destrutivas. "Não podemos antever uma aprovação para as novas propostas da Comissão Europeia", disse Habeck, que é filiado ao Partido Verde.

Habeck classificou como equivocada a intenção de classificar a energia nuclear como sustentável, apontando os efeitos de longo prazo dos resíduos nucleares. "É mais do que duvidoso. De qualquer forma, é questionável se essa 'lavagem verde' encontrará algum tipo de aceitação no mercado financeiro."

A também verde ministra do Meio Ambiente, Steffi Lemke, igualmente criticou o plano: "Acho completamente errado que a Comissão Europeia pretenda classificar a energia nuclear como uma atividade econômica sustentável.".

Deutsche Welle

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