quarta-feira, fevereiro 02, 2022

Lula escolhe Augusto Fonseca como marqueteiro para a eleição




A campanha do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva à Presidência da República para rádio e TV, em 2022, será coordenada pelo marqueteiro político Augusto Fonseca, da MPB Estratégia & Criação. A agência venceu outras três propostas que haviam sido apresentadas ao PT e consideradas igualmente "muito boas". Esta será a primeira campanha de rádio e TV que Augusto Fonseca vai comandar para o partido. A MPB Estratégia & Criação venceu a concorrência das agências Leiaute, Corbellini e do publicitário Paulo de Tarso.

A informação sobre o nome do marqueteiro que trabalhará na campanha de Lula foi revelada pelo jornal O Globo nesta terça-feira, 1º, e confirmada pelo Estadão. Augusto Fonseca foi escolhido por Lula, pelo coordenador da comunicação da pré-campanha, Franklin Martins, e pela presidente do PT, Gleisi Hoffmann.

Franklin Martins, que é jornalista e ex-ministro da Secretaria de Comunicação Social (governo Lula, entre 2007 e 2010), continuará como chefe geral da comunicação do ex-presidente. Dentre diferentes tarefas, cabe a ele, por exemplo, montar as estratégias das redes sociais do ex-presidente.

Augusto Fonseca já trabalhou nas campanhas do deputado Aécio Neves (PSDB) à Presidência, em 2014, e de Ciro Gomes (PDT) ao Planalto em 2018. Ele vai dirigir os programas de rádio e TV de Lula, mas não atuará como um "super marqueteiro". O PT decidiu, no ano passado, não investir nessa figura, como fez nas campanhas presidenciais do partido de 2002 a 2014, quando contou com Duda Mendonça e João Santana.

Ex-marqueteiro de Lula e da ex-presidente Dilma Rousseff ao Planalto, Santana fará a campanha de Ciro Gomes (PDT) neste ano. O pré-candidato do Podemos à Presidência, Sérgio Moro, escolheu o publicitário Pablo Nobel para comandar a equipe de marketing de sua campanha. Nobel começou a trabalhar com o ex-ministro da Justiça e ex-juiz da Lava Jato nesta segunda-feira, 31. O presidente Jair Bolsonaro ainda não bateu o martelo sobre o marqueteiro de sua campanha.

Estadão / Dinheiro Rural

Bolsonaro promete reajuste a servidores somente em 2023




Mesmo sem citar números, o presidente Jair Bolsonaro afirmou nesta segunda-feira, 31, que o governo federal deverá reajustar os salários de todos os servidores com porcentual "bastante razoável" no Orçamento de 2023. A declaração veio após a polêmica levantada pela intenção do governo de conceder aumento salarial apenas a servidores da área da segurança em 2022. Funcionários de outros setores se mobilizaram e ameaçam entrar em greve.

"Tendo em vista que devemos ter uma excelente arrecadação este ano, por ocasião da feitura do Orçamento de 2023 nós vamos atender com percentual bastante razoável todos os servidores do Brasil", afirmou Bolsonaro, em entrevista à TV Record, em Campos de Goytacazes, no Norte Fluminense.

Como mostrou o Estadão, porém, Bolsonaro é impedido de conceder o reajuste em 2023. Isso porque uma alteração na Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF) feita durante o seu próprio governo proíbe qualquer ato que resulte em aumento da despesa de pessoal após o fim de um mandato - mesmo que o titular possa se reeleger.

Nesta terça-feira, 1º, o ministro da Economia, Paulo Guedes, criticou o governo Michel Temer pela concessão de reajustes ao funcionalismo que tiveram de ser pagos pelo governo seguinte - o atual - e classificou esse tipo de medida como "muito irresponsável". "Um governo não pode condenar o governo seguinte a dar um aumento de salários. Isso é absurdo", disse o titular da pasta durante uma conferência organizada pelo Credit Suisse.

Evento político

O presidente visitou a região de Goytacazes, onde participou de solenidade no Porto do Açu, em São João da Barra. Marcado por tom político, o evento teve a presença, no palco, dos ex-governadores Anthony e Rosinha Garotinho. Eles se aproximam do mandatário visando às eleições de 2022. Bolsonaro, na ocasião, fez duros ataques ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), líder nas pesquisas de intenção de voto. O tom eleitoral também esteve presente na entrevista à Record.

A promessa veio após Bolsonaro defender o seu governo, citando a pandemia. "Deixei bem claro em 2020, quando o mundo teve conhecimento da covid-19... O ex-presidente da Câmara (Rodrigo Mais) queria um corte de 25% no salário de todos os servidores federais. De nossa parte, nós achamos que congelando por dois anos seria suficiente", afirmou o presidente.

"Os informais foram pra lona, mais de 38 milhões de pessoas. Os com CLT, muitos tiveram que negociar com o patrão, com a ajuda do governo, para que não perdessem seus empregos. Reconhecemos o valor de todos os servidores públicos, mas eu peço a eles que, por favor, entendam a situação que o Brasil ainda atravessa. Muitos perderam o emprego e muitos tiveram seus salários reduzidos; os servidores não tiveram."

Estadão / Dinheiro Rural

O joio e o trigo nas contas do governo




Em 2022, as receitas perderão fôlego, os juros estarão bem mais altos e o déficit deverá ser o dobro em relação a 2021

Por Felipe Salto* (foto)

As receitas do governo são um porcentual da produção, do consumo e da renda. Se a inflação aumenta, essas bases incham e a receita cresce. Já a despesa é mais afetada pela inflação passada. É preciso escrutinar os dados fiscais de 2021 para evitar análises equivocadas sobre o déficit de R$ 35,1 bilhões. Houve melhora, mas por conta de fatores transitórios, principalmente inflação, dólar e preços de commodities. Isso não se repetirá em 2022.

A receita líquida do governo central deflacionada pelo IPCA cresceu 21,2%, entre 2020 e 2021, depois de diminuir 13,5% no período anterior. Isto é, o tombo de 2020 foi maior que o do PIB (recessão de 3,9%) e a recuperação, em 2021, superou o crescimento da economia (projetado em 4,6%). Essa distorção das taxas da arrecadação vis-à-vis às do PIB é típica de períodos de recessão. Para o médio prazo, a tendência é a receita caminhar com a economia. 

Mesmo assim, a alta real de 21,2% impressiona. Poderia sugerir uma mudança de dinâmica a autorizar mais gastos. Ocorre que a evolução do dólar e dos preços das commodities precisa ser contemplada na análise. Quando deflacionada pelo IGP-M, índice mais sensível aos preços das commodities e ao dólar, a receita líquida cai 27,4%, em 2020, para subir 11,3% em 2021. Vamo-nos entender: a economia recuperou-se, após a recessão de 2020, e então começou a andar de lado. Não há razão para projetar uma dinâmica permanentemente melhor das receitas. 

Em 2022, a Instituição Fiscal Independente (IFI) prevê crescimento do PIB de 0,5% e inflação na metade do que foi em 2021. Não podemos cair na esparrela de adotar o reflexo no retrovisor como um bom prognóstico. 

Para averiguar melhor o peso da inflação, recorro a dados históricos. De 1985 a 1993, quando a inflação anual (IPCA) saiu de 242% para 2.477%, houve superávit primário anual médio de 1,6% do PIB no setor público. As receitas seguiam a inflação de perto; já as despesas, nem sempre, dada a enorme discricionariedade quanto ao reajuste do funcionalismo e mesmo do salário mínimo. A inflação era uma aliada poderosa para reduzir as despesas sem maior esforço, o que redundava em superávits primários. Mas eles não sobreviveram quando a inflação caiu.

Mais recentemente, entre 2014 e 2015, a inflação também acelerou. Mas por que o déficit primário do governo central superou a estimativa do PLDO – Projeto de Lei de Diretrizes Orçamentárias (déficit de R$ 114,7 bilhões), totalizando R$ 120,5 bilhões, em vez de ficar menor? Primeiro, a inflação prevista no PLDO era de 4,5% e ficou em 10,7%, mas o crescimento do PIB real previsto era de 3%, enquanto o resultado foi uma recessão de 3,6%. Segundo, os preços das commodities caíram. Terceiro, houve pagamento das chamadas pedaladas fiscais (R$ 55,8 bilhões). Nada é tão simples quanto parece.

Então, não houve nada de bom na cena fiscal dos últimos anos? Do lado das despesas, alguns eventos merecem destaque. Primeiro, os gastos realizados contra a covid-19 passaram de R$ 524 bilhões, em 2020, para menos de 1/4 disso em 2021. Segundo, não houve reajuste salarial a servidores e o salário mínimo só foi corrigido pela inflação. Terceiro, a reforma da Previdência conteve as emissões de novos benefícios, que estão subindo menos de 1%. Há quatro anos, cresciam 2,5% em 12 meses.

Entre 2020 e 2021, as despesas caíram de 26,1% para 18,6% do PIB. Desta queda de 7,5 pontos porcentuais (p.p.), boa parte resultou da redução das despesas extraordinárias ligadas à pandemia; o restante, da corrosão inflacionária. Os gastos de pessoal caíram 0,5 p.p. do PIB, entre 2020 e 2021, a Previdência diminuiu 0,7 p.p., o término da ajuda a Estados e municípios colaborou com menos 1 p.p., o benefício de prestação continuada, o abono salarial e o seguro desemprego caíram 0,4 p.p. e os créditos extraordinários no âmbito do combate à pandemia diminuíram 4,4 p.p. do PIB. O meio ponto restante refere-se à soma das variações de outras rubricas.

As despesas indexadas ao salário mínimo serão pressionadas, em 2022, porque ele aumentou 10,2%, mas a inflação será pouco maior que 5%.

Além disso, a despesa de 2021 ficou 0,7 p.p. do PIB menor do que a observada em 2018 (19,3% do PIB). Cerca de 1/3 dessa queda se deveu ao gasto previdenciário e o restante, à folha. Para 2022, esse patamar de gastos primários (sem juros da dívida), de 18,6% do PIB, não deve sofrer grande mudança. 

Contudo, o rombo de R$ 112,6 bilhões no teto de gastos, neste ano, pressionará permanentemente as despesas. Não custa lembrar, também, o calote de R$ 50 bilhões nos precatórios: aumento da dívida pública. A redução de despesas prometida pelo teto, em 2016, era de 4,5 p.p. do PIB até 2026. Transcorridos 2/3 do tempo, a despesa deveria ficar em 16,9% do PIB, mas terminará 2022 R$ 150 bilhões maior.

Em 2022, as receitas perderão fôlego e os juros estarão bem mais altos. O governo prevê o dobro de déficit em relação a 2021. Com honestidade intelectual, o joio e o trigo podem ser devidamente apartados. Inflação nunca é boa coisa.

*DIRETOR-EXECUTIVO E RESPONSÁVEL PELA IMPLANTAÇÃO DA IFI. CO-ORGANIZADOR, COM JOÃO VILLAVERDE E LAURA KARPUSKA, É AUTOR DO LIVRO “RECONSTRUÇÃO: O BRASIL NOS ANOS 20” (SARAIVA, FEV/22)

O Estado de São Paulo

EUA desaconselham viagens ao Brasil devido à covid-19




Governo americano põe Brasil em lista de destinos com risco muito alto para a doença. Em meio à disseminação da contagiosa variante ômicron, mais de 60 países e territórios foram incluídos na categoria desde dezembro.

O governo dos Estados Unidos incluiu o Brasil, nesta segunda-feira (31/01), na lista de países com risco muito alto para a covid-19, desaconselhando viagens de seus cidadãos ao país.

Os Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) dos EUA classificam agora 130 países e territórios no "nível quatro: muito alto" em relação à transmissão da covid-19.

Além do Brasil, foram adicionados à essa categoria nesta segunda México, Chile, Paraguai, Equador, Guiana Francesa, Anguila, Cingapura, Kosovo, Moldávia, São Vicente e Granadinas e Filipinas.

O nível 4, o mais alto de todos, implica em um alerta de "evite viagem" ao país em questão e, caso seja imperativo realizar a viagem, o CDC recomenda estar totalmente vacinado e adverte que, ainda assim, existe o risco de contrair a covid-19.

Desde meados de dezembro, o governo dos EUA adicionou mais de 60 países e territórios à lista, citando a disseminação da variante ômicron do coronavírus, identificada em novembro no sul da África e altamente contagiosa.

No mês passado, os EUA concordaram em remover restrições de viagem a oito países sul-africanos, incluindo a África do Sul, que haviam sido impostas devido à ômicron, que dados apontaram já ter se tornado a variante dominante no mundo.

Alemanha também aponta alto risco

Desde a semana passada, o Brasil também voltou a ser considerado pelo governo da Alemanha uma área de alto risco para covid-19. O país havia deixado a lista no dia 19 de setembro.

Com a mudança, todos as pessoas que desejam entrar na Alemanha e estiveram no Brasil nos dez dias anteriores devem preencher um formulário online antes de embarcar.

Além disso, pessoas que não têm o esquema de vacinação completo com um imunizante reconhecido na Alemanha ou que não se recuperaram da covid-19 nos últimos 90 dias após terem tomado pelo menos uma dose, precisam fazer quarentena de dez dias após chegar na Alemanha. A quarentena pode ser encerrada antes desse prazo com um teste de covid-19 com resultado negativo feito no mínimo no quinto dia após a chegada no país europeu.

Deutsche Welle

Chega de mortes evitáveis - Editorial




O grande volume de chuvas em janeiro não é uma fatalidade, contra a qual não haveria ação humana capaz de impedir sua ocorrência

O descaso de administradores públicos, nas três esferas de governo, e a recorrente ocupação irregular do solo pela população inseriram as tragédias de verão no calendário nacional. Há décadas o País chora a morte de dezenas, às vezes centenas, de pessoas que são vitimadas pelo despreparo de muitas cidades para lidar com as chuvas sazonais e os deslizamentos de terra no início de cada ano. As mudanças climáticas, que têm provocado fenômenos meteorológicos cada vez mais extremos, só tendem a tornar esses desastres ainda mais dramáticos, ao custo de danos materiais milionários e perdas humanas incalculáveis.

A capital paulista terminou janeiro com o volume de chuvas acima da média histórica para o mês. Na região metropolitana e no interior de São Paulo deslizamentos de terra ocasionados por solos encharcados provocaram a morte de mais de 20 pessoas, incluindo crianças. De acordo com o governo do Estado, cerca de 500 famílias ficaram desabrigadas ou desalojadas. Os municípios mais atingidos pelas chuvas do fim de semana passado foram Embu das Artes e Franco da Rocha. Arujá, Francisco Morato, Várzea Paulista, Jaú e Ribeirão Preto também sofreram perdas humanas e materiais com as fortes chuvas. O governador João Doria (PSDB) anunciou a liberação de R$ 15 milhões para a recuperação social e urbana de dez municípios. Por sua vez, a sociedade civil se mobilizou em solidariedade para acudir as populações mais afetadas com doações de alimentos e força de trabalho nos resgates.

O grande volume de precipitação registrado em janeiro não é obra do acaso, menos ainda uma fatalidade, contra a qual não haveria ação humana capaz de impedir sua ocorrência. Em outras palavras, a natureza não pode ser responsabilizada por seguir seu curso. Devastadoras, mesmo, são a negação das mudanças climáticas, da qual decorre a ausência de formulação de políticas públicas consistentes para tratar do problema, e a falta de planejamento urbano para preparar as cidades para uma nova realidade ambiental.

Meteorologistas afirmam que a chuva acima da média histórica que caiu em São Paulo decorre da Zona de Convergência do Atlântico Sul (ZCAS), fenômeno climático que provoca uma “banda de nebulosidade” tão densa desde a Região Amazônica até o Oceano Atlântico que as nuvens carregadas ficam “estacionadas” sobre determinados locais, provocando precipitação muito intensa nessas áreas. Foi o que ocorreu na região metropolitana e no interior paulista. As chuvas persistentes, mesmo quando menos volumosas, impedem que o solo escoe o excesso de água, provocando os deslizamentos de terra. É quando a natureza encontra a inépcia e provoca as tragédias tão tristemente conhecidas pelos brasileiros.

Resultado da falta de planejamento urbano e de sucessivas crises econômicas, a mazela social que mantém uma porção do Brasil aferrada ao atraso impõe às famílias mais pobres locais de moradia sem as menores condições de habitação. Pouco a pouco, vastas porções de terra são ocupadas irregularmente sem que o poder público seja capaz de resolver o problema na origem, movendo essas famílias para locais mais seguros. Como políticas de longo prazo raramente vingam no País, resta aos gestores, sobretudo aos prefeitos, agir pontualmente a cada tragédia. Casas podem ser reerguidas. Pontes podem ser recuperadas. Estradas podem ser desobstruídas. Mas não se remedeia a morte.

Passa da hora de prefeitos, governadores e o presidente da República – que não se preocupa com nada que não diga respeito à sua família – agirem de forma coordenada no enfrentamento das mudanças climáticas e na definição de uma agenda nacional que tire o País do atoleiro, literalmente, e promova a melhoria da qualidade de vida dos brasileiros mais pobres, sem condições de viver nas áreas mais seguras das cidades brasileiras.

Aos prefeitos, especificamente, com apoio dos governos estaduais, cabe o mapeamento das áreas de risco e estruturação de um plano exequível de remoção das pessoas que vivem sob constante ameaça de vida pelas más condições de habitação, sobretudo as que vivem em encostas. Chega de mortes evitáveis.

O Estado de São Paulo

Traquinagem judicial de Bolsonaro - Editorial




Como investigado, Bolsonaro tem direito ao silêncio, em todas as suas consequências. Mas seu comportamento protelatório é um acinte que nada tem de coragem

Ao restaurar o regime democrático, a Constituição de 1988 assegurou um conjunto robusto de liberdades e garantias fundamentais; entre elas, o direito ao silêncio (art. 5.º, LXIII). Toda pessoa investigada tem direito a permanecer calada, não cabendo nenhuma coação policial ou judicial, por mínima que seja, para que produza prova contra si mesma. Trata-se do princípio de não autoincriminação, elemento necessário de todo Estado Democrático de Direito. A pessoa investigada não é um objeto do qual se possa tirar provas, mas sujeito de direitos, com prerrogativa de falar, bem como de calar.

No regime constitucional vigente, o interrogatório é, portanto, um ato de defesa do investigado. Entre outras consequências, o Supremo Tribunal Federal (STF) declarou, em 2019, a inconstitucionalidade da condução coercitiva de réu ou investigado para fins de interrogatório judicial ou policial. Na decisão, o Supremo reconheceu o direito de ausência do investigado ou acusado ao interrogatório. “O direito de ausência, por sua vez, afasta a possibilidade de condução coercitiva”, disse o acórdão do STF.

Tudo isso conduz a uma cristalina conclusão: ao não comparecer na sexta-feira passada ao interrogatório marcado pelo ministro Alexandre de Moraes no inquérito sobre quebra de sigilo, Jair Bolsonaro, a rigor, não descumpriu uma ordem judicial. Ele tinha o direito de ausência. No entanto, isso não significa que o comportamento do presidente da República esteja sendo correto ao longo do caso. Longe disso.

Desde o início da investigação, a atuação de Bolsonaro é manifestamente protelatória. Em função do cargo que ocupa, Jair Bolsonaro tem a prerrogativa de definir o local e a data de seu interrogatório. No entanto, descumpriu os dois prazos – de 15 dias e, depois, de mais 45 dias – para ajustar com as autoridades policiais os moldes em que ocorreria a oitiva. Em vez de dizer que não tem interesse em depor e, assim, dispensar formalmente esse ato de defesa pessoal, Bolsonaro preferiu ganhar tempo por meio da dubiedade processual. Fez que ia marcar a data, não marcou e, quando o STF a marcou, não foi ao ato.

É constrangedor que o presidente da República se valha desse tipo de artifício. Vale lembrar que a prorrogação do prazo foi solicitada pela própria Advocacia-Geral da União (AGU). Por óbvio, a lealdade processual recomenda outra modalidade de comportamento.

Para piorar, a traquinagem não teve apenas o objetivo de postergar o término da investigação. Jair Bolsonaro tentou tirar proveito político da artimanha processual. A seus apoiadores, deu a entender que sua ausência no depoimento de sexta-feira havia sido um ato de confronto com o Supremo e, em especial, com o ministro Alexandre de Moraes.

Como se vê, a desfaçatez não tem limites. Jair Bolsonaro tentou transformar o exercício de um direito reconhecido expressamente pelo Supremo – o direito de ausência do investigado no seu depoimento – em suposto ato de valentia contra o próprio Supremo. Tal retórica bolsonarista nada tem de coragem. É tão somente mais uma manipulação de quem, abdicando de qualquer resquício de integridade ou de honestidade intelectual, deseja criar conflito e confusão.

É notório o caráter contraditório do comportamento de Jair Bolsonaro. Aquele que elogia a ditadura militar e flerta com o AI-5 vale-se de uma garantia da Constituição de 1988 – o direito ao silêncio – para atacar o Judiciário e, em último termo, as garantias que sustentam a sua própria liberdade. Ao refugiar-se na proteção do regime que deseja negar aos outros, o bolsonarismo é a antítese da valentia.

Não é demais notar que a desinformação sobre questões jurídicas para fins políticos é mais uma semelhança entre o bolsonarismo e o lulopetismo. Recentemente, o PT transformou uma decisão sobre a prescrição de eventuais crimes praticados por Luiz Inácio Lula da Silva no caso do triplex do Guarujá em suposta declaração da Justiça a respeito da inexistência desses crimes. É urgente resgatar o valor da verdade na vida pública.

O Estado de São Paulo

Os menos iguais




Por Pedro Valls Feu Rosa* (foto)

Dia desses fiquei a contemplar, pela televisão, as cenas de uma solenidade realizada em algum cantinho perdido deste planeta. Lá estavam impolutas autoridades declarando publicamente séria preocupação com a saúde dos seus semelhantes em tempos de pandemia. Invariavelmente declaravam, com voz firme e grave, que somos todos parte de uma mesma humanidade, afinal!

Poucos dias depois desta vibrante cerimônia tive a oportunidade de ler – em um jornal da África, claro – sobre o escândalo das vacinas vencidas ou praticamente vencidas enviadas para os africanos como prova de que somos todos, ao fim do cabo, parte de uma mesma “aldeia global”.

Dali lancei um olhar para os EUA, onde descobri, pelas imprensa, que “dos US$ 510 bilhões distribuídos pelo governo como parte de um programa de assistência [face aos efeitos da pandemia] em 2020 mais de 70% – ou quase US$ 370 bilhões – foram para os bolsos de empresários e acionistas que integram os 20% mais ricos da população”. Aliás, por falar em pandemia, li que a da fome nos EUA está piorando – já são 60 milhões de habitantes precisando de assistência.

Em tempos tão bicudos era de se esperar que pelo menos a sagrada igualdade no ato de pagar tributos fosse respeitada. Mas qual o que! Pasmo, fui informado de que “as 25 pessoas mais ricas dos EUA pagam menos impostos – uma média de 15,8% da renda bruta – do que o padrão para a maioria dos trabalhadores americanos”. E mais: “nomes que estão entre os mais ricos do mundo chegaram a pagar pouco ou nenhum imposto em determinados anos”.

Porém, coisa mais grave há. É quando chegamos na seara cinzenta dos benefícios fiscais. Eles podem ser muito bons para estimular a economia – e fique isto muito claro. Mas por qual motivo ordinariamente não amparam aqueles pequenos empreendimentos que, ao fim do cabo, fazem a grandeza de um país? Por que, via de regra, são secretos e mantidos afastados dos olhos da população em um tempo no qual tanto se prega a transparência? Por que quase sempre não sabemos sequer os nomes dos contemplados?

Pois é. Fiquei a recordar o escritor inglês George Orwell e sua clássica exclamação segundo a qual “todos os animais são iguais, mas alguns são mais iguais que outros”. E concluí, com Bernard Shaw, que “o maior dos males e o pior dos crimes é a pobreza”.

*Pedro Valls Feu Rosa é desembargador do Tribunal de Justiça do Espírito Santo.

Diário do Poder

Reflexões sobre a recente “década perdida”




Perspectivas são positivas em alguns fronts, como fontes limpas de energia, 5G e economia verde

Por Luiz Schymura* (foto)

Em 2022 passaremos por mais um ciclo eleitoral. Com o mercado de trabalho bastante deprimido e a inflação elevada, a economia será tema-chave na disputa. Por causa disso, procurar entender o que levou o país a chegar a uma trajetória de desempenho econômico tão frustrante parece um caminho importante e natural.

Ao percorrer essa trilha, começo destacando alguns indicadores da economia brasileira. A recessão de 2014-16, que fez o PIB recuar 3,5% em 2015 e 3,3% em 2016, marca dramaticamente o fim de um período de cerca de uma década que alimentou a ilusão de que o país poderia manter um ritmo satisfatório de crescimento, em torno de 4% ao ano (a.a.). O momento talvez mais emblemático dessa fase de otimismo foi a célebre capa da revista britânica “The Economist” sobre o Brasil, no fim de 2009, na qual o Cristo Redentor foi transformado num foguete decolando.

Entretanto, ao contrário de outras recessões de mesma intensidade e duração, a crise iniciada em 2015, e que foi aguda até o fim de 2016, não foi sucedida por um período, ainda que breve, de rápido crescimento. Na verdade, o que ocorreu na sequência foram anos de desempenho econômico acanhado, com alta de cerca de 1,4% a.a. do PIB em 2017-2019, até novo mergulho de 3,9% em 2020, ano inicial da pandemia. Para 2021, é estimado que o crescimento tenha sido de cerca de 4,5%, evolução que praticamente apenas repõe a perda sofrida em 2020. E a previsão mais recente da turma do Boletim Macro do FGV Ibre para 2022 é de uma alta de somente 0,6%.

Diante desse quadro desalentador, foram desenvolvidas justificativas que orbitam em torno de duas visões basilares. A primeira reputa a sofrível trajetória da economia brasileira a erros na condução da política econômica. A maioria dos simpatizantes dessa tese considera que o mau desempenho a partir de 2015 deve ser imputado na conta da chamada “Nova Matriz Econômica” (NME). Oficialmente, a NME durou de 2012 a 2014, mas não é incomum que se vá buscar no fim da chamada “era Malocci” (1995-2006) as sementes que gerariam a “década perdida” brasileira recente.

Uma segunda concepção atribui o desanimador caminho da economia brasileira à onda de notícias negativas com as quais teve que conviver ao longo dos últimos anos. Bráulio Borges, meu colega no FGV Ibre, procura levantar em diversos estudos o papel do que a literatura especializada costuma chamar de “bad luck” (“má sorte”) em nosso descompasso econômico. A reversão do choque positivo das commodities seria o exemplo mais notório. Assim, a década iniciada em 2011 teria sido economicamente frustrante devido ao fim do superciclo das commodities, que havia prevalecido entre 1999 e 2011.

Vale lembrar que o “fundo do poço” foi alcançado somente no início de 2016, quando os preços estavam em torno de 60% abaixo do pico alcançado em 2011. A partir de 2017 houve alguma recuperação, especialmente no fim de 2020 e ao longo de 2021. Mas os níveis desses preços ficaram ainda muito aquém daqueles registrados em 2011, ao menos para boa parte das commodities.

No rol dos eventos provenientes da “má sorte”, não se pode deixar também de mencionar a significativa diminuição no volume das chuvas em território nacional - houve redução em 17% da média entre 2012 e 2021 frente à média dos últimos 40 anos. Evidentemente, o impacto foi sentido em diversas atividades. Como resultado da estiagem crônica e da elevada dependência das hidrelétricas, o Brasil vivenciou um choque de oferta desfavorável, relevante e persistente: as tarifas de energia elétrica residencial subiram ao ritmo de 11% ao ano no período 2012-21, comparado a um IPCA médio anual de 6%. O fantasma de um novo racionamento compulsório nos assombrou em vários anos desse período.

Sem dúvida a década passada foi marcada por inúmeras notícias ruins, culminando com a chegada da covid-19, a ponto de a expressão “tempestade perfeita” se tornar corriqueira. Mas, por outro lado, também é fato que as políticas econômicas efetivamente implementadas não se mostraram adequadas para dar conta do momento pelo qual o país passava. Na verdade, há de se reconhecer que, em um país complexo como o Brasil, não é fácil neutralizar uma onda de “má sorte”.

Fica claro, por exemplo, nas pesquisas de opinião com os congressistas realizadas por Cesar Zucco e Timothy Power, em meados da década passada que as dificuldades fiscais do setor público, que já despontavam como um problema grave, não seriam tratadas a contento. Havia um forte posicionamento dos parlamentares favorável ao crescimento das despesas sociais. Afinal, os movimentos de rua de junho de 2013 deram um recado claro e direto à classe política. Nunca é demais lembrar que a população pedia, na verdade exigia, uma ação mais contundente do Estado na promoção de ações que desaguariam em mais gastos.

Não à toa, entre meados da década de 1990 e 2015, a despesa primária federal cresceu em média 6% real ao ano. Frear o processo parecia politicamente impossível. No entanto, os sinais inequívocos de enfraquecimento da economia acabaram forçando medidas de contenção da despesa pública.

Assim, à luz da experiência da recente “década perdida”, o que se pode esperar à frente? Quanto à política econômica, creio que houve muito aprendizado tanto na confecção como no processo de implementação dos programas. Em função disso, hoje estamos mais bem preparados para formular políticas públicas bem estruturadas que estejam mais bem alinhadas às necessidades do país. Quanto à sorte, as perspectivas são positivas em alguns fronts. A energia eólica e a fotoelétrica já vêm demonstrando potencial para aumentarem bastante suas fatias na matriz elétrica brasileira, diversificando nossas fontes de energia e diminuindo, com isso, nossa dependência das hidrelétricas. A tecnologia 5G traz muita eficiência ao processo produtivo, e o agronegócio já comemora a sua chegada. A economia verde também pode trazer boas novas. É possível, portanto, que o vento esteja virando e a onda da “má sorte” fique para trás.

*Luiz Schymura é pesquisador do FGV Ibre, ex-presidente da Anatel (2002-2004) 

Valor Econômico

Vaga de vice de Bolsonaro abre guerra entre generais do governo




Por Vicente Nunes (foto)

A decisão do presidente Jair Bolsonaro de deixar para os 48 minutos do segundo tempo o anúncio do nome do vice de sua chapa à reeleição abriu uma guerra entre os generais que ocupam cargos no governo.

De um lado está o general Heleno, responsável pelo Gabinete de Segurança Institucional (GSI), apontado, entre os militares, como o melhor nome para concorrer ao lado de Bolsonaro a mais quatro anos de poder. De outro, os generais Braga Netto, ministro da Defesa, e Luiz Eduardo Ramos, secretário-geral da Presidência.

Aqueles que acompanham a disputa de perto dizem que Braga Netto e Ramos “estão sufocando” Bolsonaro para que ele anuncie logo o ministro da Defesa como vice. Isso, segundo essas mesmas fontes, ficou evidente na motociata que o presidente fez por Brasília no fim de semana. Os dois generais não largaram um minuto do chefe.

A aliança de Ramos com Braga Netto tem um objetivo: o hoje secretário da Presidência quer porque quer se tornar ministro da Defesa. Por uma razão simples: se Braga Netto for o escolhido para compor a chapa com Bolsonaro, o caminho para Ramos estará livre.

Além de convencer Bolsonaro a escolher Braga Netto como vice, o marqueteiro Ramos terá outra missão pesada: convencer o alto comando das Forças Armadas a lhe dar apoio. É evidente que Ramos não é bem-visto entre os comandantes das três Armas. Ninguém o respeita.

Braga Netto também não é o ministro dos sonhos do alto Comando das Forças Armadas. Não é carismático nem tem liderança, apesar de ser considerado uma boa pessoa. E o pouco prestígio que tinha ficou ainda menor depois que vestiu de vez o uniforme da política.

Heleno, por sua vez, é apontando como uma liderança nata entre os militares. E aqueles que o defendem como vice de Bolsonaro garantem que ele agrega votos, palavra mágica neste momento em que o presidente está com elevadíssimo grau de rejeição e muito distante do ex-presidente Lula em todas as pesquisas de intenções de votos.

Correio Braziliense

Crise de liderança e populismo condenam Brasil a baixo crescimento, dizem analistas

 




“Existe algo mais profundo acontecendo aqui”, afirmou Pedro Jobim, da Legacy, para quem o país não consegue escapar da armadilha do populismo.

Mais do que uma crise econômica, o Brasil vive uma crise de liderança e caiu na armadilha do populismo que o condenou a anos de fraco desempenho econômico. A avaliação foi compartilhada nesta terça-feira por economistas de bancos e gestoras de recursos em debate promovido pela Brazilian-American Chamber of Commerce sobre os cenários político e econômico do País.

“A crise de liderança está no centro do problema. O Brasil viveu mais de 20 anos de regime militar e depois 40 anos lutando contra os fantasmas do regime militar”, comentou Drausio Giacomelli, chefe da equipe de pesquisas de mercados emergentes do Deutsche Bank Securities.

Na avaliação de Giacomelli, o Brasil precisa superar a divisão entre direita e esquerda para que a lógica de “ação e reação”, que se traduz na falta de progresso econômico, dê lugar a um país onde as políticas de governo fazem sentido. A vantagem do Brasil, considerou, é que sua população tem mais em comum do que o debate político possa sugerir.

Para Pedro Jobim, sócio fundador da gestora Legacy Capital, as dificuldades brasileiras não se limitam a problemas cíclicos ou que poderiam ser resolvidos apenas por reformas. Além de citar a instabilidade política que permeia quatro décadas de estagnação econômica, ele comentou que, salvo uma mudança inesperada de tendência, o Brasil caminha a uma escolha novamente populista nas eleições deste ano. A referência é aos dois candidatos que estão na frente das pesquisas de intenção de voto: o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o atual presidente, Jair Bolsonaro (PL).

“Existe algo mais profundo acontecendo aqui”, afirmou Jobim, para quem o país não consegue escapar da armadilha do populismo.

Ao colocar o seu argumento sob perspectiva histórica, o sócio da Legacy lembrou que entre 2003 e 2012 o Brasil conseguiu crescer ao redor de 3% e com inflação em declínio por conta de um ambiente no qual as metas fiscais eram observadas.

Já em ciclos de desorganização fiscal, como acontece neste momento, após as mudanças do arcabouço fiscal que abriram espaço a mais gastos públicos neste ano, as expectativas de inflação costumam piorar no Brasil, resultando em aumentos de juros que esfriam a atividade econômica. “Do ponto de vista de bem-estar da população, ainda estamos longe da situação da Venezuela, ou mesmo da Argentina, mas seguimos avançando devagar na direção correta pela perspectiva de longo prazo”, assinalou.

Estadão / InfoMoney

Ômicron continua a avançar e a se tornar variante dominante pelo mundo, diz OMS




Líder técnica da Covid-19 na Organização Mundial de Saúde (OMS), Maria Van Kerkhove disse nesta terça-feira que a variante Ômicron, mais contagiosa, continua a se disseminar pelo mundo, tornando-se a cepa dominante em cada vez mais países, tirando espaço da Delta. “A Ômicron em geral é mais transmissível e causa uma doença com severidade menor, em comparação com a Delta, mas ainda é um vírus perigoso”, ressaltou.

Ela foi questionada, durante entrevista coletiva, sobre a subvariante BA.2. Lembrou que esta é parte do grupo da Ômicron e que está na lista das “variantes de preocupação” monitoradas pela OMS.

Há relatos de que a BA.2 pode ter uma taxa de crescimento um pouco maior que a BA.1, apontou.

Segundo a autoridade, o mais importante diante disso é que as pessoas tenham a consciência de que o vírus continua a circular, por isso a necessidade de manter medidas para conter o problema.
 
Correio Braziliense / Daynews

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