terça-feira, julho 06, 2021

Contrato da Covaxin só passou a ser fiscalizado após a denúncia dos irmãos Miranda

Publicado em 6 de julho de 2021 por Tribuna da Internet

Uma mulher de óculos e máscara, gesticulando à mesa. Diante dela, uma tela de um notebook e um vidro de álcool em gel

Promovida duas vezes por Barros, ela não viu nada errado

Renato Machado e Raquel Lopes
Folha

Os senadores que integram da CPI da Covid enxergaram novos indícios de falhas na aquisição da vacina indiana Covaxin, após depoimento da servidora do Ministério da Saúde que atua como fiscal do contrato, Regina Célia Silva Oliveira, admitir que o processo ficou sem fiscalização por cerca de um mês.

A servidora também afirmou que não viu nada “atípico” no processo da Covaxin e que não cabia a ela corrigir falhas no chamado invoice, a fatura para o pagamento pelas doses.

HOUVE OMISSÃO – Ela foi convocada para explicar por que deu prosseguimento ao processo de compra da Covaxin do laboratório indiano Bharat Biotech, intermediado pela brasileira Precisa Medicamentos, mesmo após indícios de irregularidades. O contrato foi suspenso apenas no dia 29 de junho.

Em sua fala, Regina Célia afirmou que sua nomeação para o cargo de fiscal desse contrato saiu apenas no dia 22 de março deste ano. Ou seja, deu-se quase um mês após a assinatura do contrato, no dia 25 de fevereiro.

Além disso, a nomeação aconteceu após o descumprimento de duas etapas de entrega de vacinas. E também aconteceu dois dias após o deputado Luis Miranda (DEM-DF) ter alertado o presidente Jair Bolsonaro de irregularidades no processo, segundo informou o parlamentar ao colegiado.

SEM FISCALIZAÇÃO – “O contrato foi assinado em fevereiro. Portanto ficou um mês sem fiscal. Teve um mês sem fiscal esse contrato”, disse o vice-presidente da CPI, senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP).

Esse vácuo temporal também foi explorado pelo relator da comissão, Renan Calheiros (MDB-AL). “Foi designada para fiscalizar o contrato depois do descumprimento”, disse o relator.

“Veja só, o contrato foi assinado dia 25 de fevereiro. As primeiras doses precisavam chegar ao Brasil com 20 dias após a assinatura. Portanto, é 17 de março. As doses tinham que estar no Brasil no dia 17 de março. Ela foi nomeada fiscal no dia 22 de março. Como é que, depois de descumprido o contrato, ela autoriza?”, questionou Simone Tebet (MDB-MS).

RELATÓRIO TARDIO – Os senadores também questionaram o fato de que Regina Célia ter dito que emitiu um relatório no dia 23 de junho apontando o descumprimento total do contrato. A servidora disse que submeteu o documento para a Secretaria de Vigilância em Saúde do ministério para que avaliassem a pertinência da continuidade da contratação.

Os membros da comissão afirmam que a data do relatório se deu de maneira extremamente tardia, beneficiando a empresa.“E você não cumpriu em 17 de março. Depois, 27 de março: não cumpriu. Aí, quando é que a servidora encaminha um relatório dizendo que eles não estavam cumprindo?”, questionou retoricamente o presidente da comissão, Omar Aziz (PSD-AM)

“O seu relatório foi feito em junho, depois do escândalo, depois da Comissão Parlamentar de Inquérito [apontar irregularidades]”, completou Renan.

LIGADA A BARROS – A comissão acredita que Regina Célia seja uma pessoa ligada ao líder do governo na Câmara, deputado Ricardo Barros (PP-PR). A servidora, no entanto, negou ter sido beneficiada por indicação política e mesmo conhecer Barros. “Não o conheço. Eu sei quem é porque é uma figura pública, mas eu não o conheço”, disse.

Posteriormente, no entanto, a servidora de carreira reconheceu que foi comissionada por duas vezes quando Ricardo Barros era ministro da Saúde.

Regina Célia também disse que não caberia a ela tomar providências por eventuais problemas no chamado invoice, a fatura.

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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOG
 – A esculhambação do setor de compras bilionárias do Ministério era de tal ordem que só faltou os roedores civis e militares gritarem “Barata voa!” para sumir com o dinheiro. (C.N.)


Mensagens mostram negociação informal e paralela entre ex-diretor da Saúde e Davati

Publicado em 6 de julho de 2021 por Tribuna da Internet

Negociações pelo celular incriminam diretor Roberto Dias

Constança Rezende
Folha

Trocas de mensagens obtidas pela Folha mostram uma negociação informal e paralela do Ministério da Saúde com a Davati Medical Supply antes mesmo de a empresa apresentar proposta oficial ao governo Jair Bolsonaro para o fornecimento de vacinas contra a Covid-19.

As conversas não oficiais envolvem Roberto Ferreira Dias, exonerado no último dia 29 da função de diretor de Logística do Ministério da Saúde, Cristiano Carvalho, representante da Davati no Brasil, e Marcelo Blanco, coronel da reserva e ex-assessor de Dias no Ministério da Saúde.

PROPINA POR DOSE – Em uma das conversas, Blanco cita Luiz Paulo Dominguetti, intermediário da Davati nessas negociações, que afirmou em entrevista à Folha na dia 29 ter recebido um pedido de propina de US$ 1 por dose de vacina por parte de Dias, em um restaurante num shopping em Brasília, em 25 de fevereiro deste ano.

A versão foi repetida em depoimento à CPI da Covid na última quinta-feira (1º). Demitido horas após a publicação da entrevista à Folha, Dias nega a acusação.

Na manhã de 26 de fevereiro, Herman Cardenas, CEO da Davati nos Estados Unidos, encaminhou por email a Dias uma proposta formal para o fornecimento de 400 milhões de doses da vacina da AstraZeneca —que nega ter dado autorização para a oferta. Naquela tarde, houve uma reunião no ministério para tratar do assunto, com a presença de Dominguetti, denunciante do pedido de propina.

ALTA VELOCIDADE – As trocas de mensagens, no entanto, revelam que as negociações começaram antes, sem registros oficiais — indicando uma pressa da pasta em acelerar as conversas, enquanto, como mostrou a CPI da Covid, houve lentidão por parte do governo nas tratativas feitas diretamente com laboratórios, como ocorreu com a Pfizer.

No dia 3 de fevereiro, Dias entrou em contato com Cristiano, por mensagem de WhatsApp, às 19h10, apresentando-se como diretor de Logística do ministério.

Depois disso, os dois trocaram mensagens, Dias fez ligações para Cristiano e disse que estava aguardando o seu contato. Não atendido, mandou uma nova mensagem, dizendo, no mesmo minuto, “quando puder me ligue”.

AUTORIZAÇÕES – Em 4 de fevereiro, às 11h53, Cristiano encaminhou para o WhatsApp de Dias documentos sobre autorização para a venda de vacinas. Um deles tinha o título “Gov_Hos Letter of Authorization (2) (1).docx, outro “LOI Vaccine Template.docx”.

Após isso, Cristiano mandou: “Bom dia, Roberto. Desculpe, estava negociando para o MS Brasil. O preço ficou US$ 12,51 por dose FOB (Europa). Preciso da LOI e Gov Authorization”’. Em seguida, Carvalho lhe encaminhou um documento de título “AstraZeneca_3E_Procedures_Price.pdf”.

MAIS CONVERSAS – Em 9 de fevereiro, eles conversaram novamente, e Dias ligou três vezes para Cristiano e não foi atendido. Então escreveu: “Quando puder retorne. Obrigado”.

Às 18h41 do mesmo dia, Cristiano mandou uma mensagem de áudio de 20 segundos a Dias. Às 20h11, o então diretor do Ministério da Saúde telefona por duas vezes para o representante da Davati no Brasil. Não é atendido e, em seguida, escreve “quando puder retorne”. Procurado, Dias afirmou à Folha que “os contatos com o senhor Cristiano já haviam sido confirmados e nunca omitidos”.

“Inclusive, conforme os prints [das conversas] demonstram, me identifico formalmente com nome e cargo. As ligações com pouco tempo entre elas mostram conhecido desencontro entre ligações de WhatsApp quando duas pessoas se ligam simultaneamente.”

COM O CORONEL – A Folha também teve acesso a conversas de Cristiano Carvalho com o coronel Blanco, que foi assessor do Departamento de Logística do Ministério da Saúde e depois diretor eventual do setor.

Segundo Dominguetti, Blanco estava presente ao jantar de 25 de fevereiro em que, diz, foi feito o pedido de propina por parte de Dias. Conforme revelou o Painel, da Folha, na véspera daquele encontro, Blanco abriu uma empresa de representação comercial de medicamentos.

O coronel se apresentou ao representante da Davati em mensagem enviada na tarde de 1º de março, dizendo que quem passou seu contato foi Dominguetti.

OUTRAS MENSAGENS – “Cristiano, boa tarde! Aqui é Blanco, ligo aqui de Brasília, e seu contato me foi passado pelo Dominguetti. Tentei contato agora pra entrarmos juntos numa ligação com o Roberto, pois recém falei com ele. Aguardo um ok pra retomar a ligação. Abraço”. Minutos depois ele escreve “podemos fazer uma call”.

Cristiano, em seguida, manda um print para Blanco com o email encaminhado pelo CEO da Davati a Dias, no dia 26 de fevereiro, com a proposta de venda de vacinas e uma série de documentos da empresa.

Blanco respondeu: “Já vi aqui” e encaminha um print com a resposta de Dias ao email do diretor da Davati, pedindo documentos à empresa, ao que Cristiano agradece.

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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOG
 – A que ponto chegamos… O coronel, nomeado para cargo civil, não resistiu à tentação de se tornar representante comercial. Ainda bem que não chegou a general. (C.N.)

Documento comprova que o preço da Covaxin foi aumentado 50% de uma hora para outra

Publicado em 6 de julho de 2021 por Tribuna da Internet

Luís Miranda exibiu o documento em sua conta do Twitter

Luiz Calcagno
Correio Braziliense

O deputado Luis Miranda (DEM-DF) apresentou, em suas redes sociais, na noite desta segunda-feira (5/7) um documento do Ministério da Saúde que mostra as negociações do governo federal com a Precisa Medicamentos para a compra da vacina indiana Covaxin. A Precisa é representante brasileira da farmacêutica indiana Bharat Biotech, que produz o imunizante.

Na reunião, segundo documento apresentado pelo parlamentar, o medicamento era oferecido por US$ 10 a dose, e não US$ 15, conforme acordo firmado entre o governo Bolsonaro e a representante legal da empresa estrangeira.

MIRANDA DENUNCIOU – O acordo pelo preço 50% mais caro foi firmado em 28 de fevereiro. Mas, no encontro anterior, em 20 de novembro, os representantes apresentaram o valor mais barato. Em uma filmagem, Luis Miranda questiona o motivo da mudança de preço.

 “Esse é um memorial de 20 de novembro de 2020, quando as vacinas eram mais caras, porque todo mundo queria e não tinha, do Ministério da Saúde. (…) Sabe quanto custava a vacina, e depois da reunião, incrivelmente, aumentou pra US$ 15? Quanto está aí? Dá uma olhada. US$ 10?”, provocou Miranda.

“Vamos pedir pra CPI intimar todo mundo, para explicar como sai de US$ 10 para US$ 15? Se isso não é faturamento, não sei o que é”, continuou o parlamentar. Além de representantes da Bharat na Índia, participaram da reunião diversos investigados pela CPI da Covid. Dentre eles estão o então secretário-executivo do Ministério da Saúde, Elcio Franco Filho; a então coordenadora geral do Plano Nacional de imunização, Franciele Fantinato; o secretário de Ciência, Tecnologia, Inovação e Insumos Estratégicos (SCTIE) Hélio Angotti Neto; além do presidente da Precisa medicamento, Francisco Emerson Maximiano; e a diretora executiva da empresa, Emanuela Medrades. Todos estão na mira da CPI da Covid.

TEVE INTERMEDIAÇÃO – A reunião foi aberta pelo secretário-executivo do Ministério da Saúde (MS), com a participação de representantes da Precisa Medicamentos e da Bharat Biotech International para tratar sobre a vacina Covaxin. O presidente da Precisa Medicamentos esclareceu que fez acordo com a Bharat Biotech para importação e comercialização da vacina no Brasil, sendo o representante exclusivo da empresa indiana no país”, afirma o documento.

No trecho que lista os aspectos sociais e jurídicos do contrato, o documento informa que o valor da vacina “é de US$ 10 (dez dólares americanos) por dose, que, em razão de eventual aquisição de montante elevado de doses, o valor poderia vir a ser reduzido e estaria aberto à negociação”.


Piada do Ano! “Não há nenhum fato novo que justifique o impeachment”, afirma Arthur Lira

Publicado em 6 de julho de 2021 por Tribuna da Internet

Lira não defende o voto impresso, mas quer auditagem

Sofia Aguiar
Estadão

O presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira (PP-AL), reforçou o discurso de que não há justificativa para dar andamento a um processo de impeachment contra o presidente Jair Bolsonaro. Apesar da abertura de investigação da Procuradoria-Geral da República (PGR), semana passada, para verificar se Bolsonaro cometeu crime de prevaricação ao não determinar a apuração das suspeitas de irregularidades na compra da vacina Covaxin, Lira avalia que “neste momento, não há nenhum fato novo que justifique e que tenha alguma ligação direta com o presidente da República”.

O fato de “algum parlamentar ter dito que entregou um documento” a Bolsonaro “não justifica” a abertura do processo de impedimento, ressaltou o deputado.

MUITA SERIEDADE – “Não podemos institucionalizar o impeachment no Brasil, temos de aprender a discutir esses assuntos com muita seriedade”, declarou o presidente da Câmara à rádio Jovem Pan. Para ele, o País “não pode ser instabilizado politicamente a cada presidente que é eleito”. Segundo Lira, a abertura de um processo neste momento “desestabilizaria a economia e pararia o Brasil”.

 Na semana passada, o presidente da Câmara recebeu um ‘superpedido’ de impeachment firmado por diversos partidos de oposição, movimentos sociais e representantes do centro e direita, inclusive ex-bolsonaristas como o deputado Alexandre Frota (PSDB-SP).

Para Lira, os trabalhos da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Covid trouxeram “realidades” que já estão sendo investigadas pela comissão. “A presidência da Câmara tem o papel de atuar com imparcialidade e neutralidade e vai esperar o desenrolar dos acontecimentos”, afirmou.

PAUTA DE VOTAÇÕES – Lira afirmou que busca o consenso para dar a andamento a votações importantes na Casa, tanto entre os parlamentares quanto com setores da economia. Sobre a reforma tributária, o presidente da Câmara avalia que chega um momento da discussão em que “as coisas tendem a subir um pouco a temperatura”.

“Mas eu costumo dizer aqui sempre com muita paciência, com muita transparência, o assunto será discutido com os setores, com os setores produtivos, com o governo, com os entes federativos, com todos os que geram divisas e riquezas para o País”, afirmou o deputado. Segundo ele, “não teremos aumento de carga tributária”.

“Nós vamos trabalhar para que a reforma seja neutra, sem a sanha arrecadatória da receita. Iremos desburocratizar, simplificar, dar segurança jurídica, sem atrapalhar o crescimento do Brasil”, afirma.

VOTO IMPRESSO – Lira disse que não tem queixas sobre a urna eletrônica, mas que não vê problemas em ter auditagem “para acabar com a versão que está posta na rua que tem fraude no sistema”, afirmou, referindo-se à Proposta de Emenda Constitucional em tramitação na Câmara.

“Muito melhor uma averiguação matemática, calibrada, do que talvez uma eleição questionada.” O voto impresso tem sido defendido pelo presidente Jair Bolsonaro. “O que temos que afastar são as versões. Tem muita versão sobre voto impresso, polarização sobre voto auditável, tem muitas situações que a população tem tido informações muito divergentes”, afirmou.

A China que Lula não vê nada tem de democrata e deixou legado de milhões de mortos

Publicado em 6 de julho de 2021 por Tribuna da Internet

Festa dos 100 anos do Partido Comunista em Pequim

Demétrio Magnoli
Folha

Nos cem anos do Partido Comunista Chinês (PCC), celebrados em 1º de julho, Lula ofereceu um panegírico completo. “Por que a China pode fazer o que diz? Porque ela tem um partido politico forte.” O erro básico do líder da esquerda brasileira é conceitual: desde que chegou ao poder, o PCC deixou de ser um partido político.

Partido é uma parte, uma parcela, uma facção. Partidos só existem no plural, em sistemas de concorrência política, que reconhecem a legitimidade da divergência de opiniões no conjunto da sociedade.

PARTIDO-ESTADO – O partido único, uma contradição em termos, não é um partido mas o reflexo da captura do Estado por uma elite política que cala as vozes de todos os demais —e, portanto, almeja eliminar a própria política. O PCC é, desde 1949, um Partido-Estado.

A utopia da igualdade social funcionou, até 1989, como fonte de legitimação discursiva dos totalitarismos comunistas. Três décadas atrás, o PCC sobreviveu à queda da URSS substituindo a ideologia comunista pelo nacionalismo chinês e o sistema econômico fechado por um capitalismo de Estado integrado à globalização.

Na China, a fome, crônica ou aguda, deu lugar a um longo ciclo de crescimento da economia e da renda. Hoje, a esquerda ainda enfeitiçada pelo regime de Partido-Estado só pode justificá-lo sob o argumento da eficiência.

DISSE LULA – “A China é capaz de lutar contra o coronavírus tão rapidamente porque o governo tem controle e poder de comando”, disse Lula. Hitler ergueu uma poderosa máquina de guerra e uma colossal fábrica de extermínio. Stálin montou a extensa rede de campos do gulag e seus sucessores transformaram a URSS em superpotência nuclear.

O totalitarismo é eficiente para finalidades que exigem comando inconteste sobre populações e recursos. A China congelou a circulação do vírus por meio de lockdowns absolutos. Mas, quando se trata de inovação, o cenário é outro: as vacinas mais eficazes nasceram nas sociedades abertas ocidentais.

Eficiência, o argumento de Lula, é atributo que exige qualificação. Os sistemas totalitários revelam-se singularmente ineficientes quando se trata da transição de poder. As democracias operam sob regras claras e consensuais de sucessão no governo. Nos regimes de Partido-Estado, a sucessão desenvolve-se sob a forma de guerras palacianas mais ou menos subterrâneas. A política, que jamais é efetivamente abolida, manifesta-se como conflito faccional dentro do partido único.

REVOLUÇÃO CULTURAL – Na China maoísta, a Revolução Cultural, deflagrada para cimentar o poder pessoal do Timoneiro, deixou um legado de milhões de cadáveres. O PCC, em seu centésimo aniversário, segue enredado na armadilha da transição de poder.

Deng Xiaoping, o segundo Timoneiro, inventou o mecanismo da “direção coletiva” para afastar o espectro das guerras sucessórias. A geringonça estabilizou o regime durante 20 anos, os ciclos de governo de Jiang Zemin e Hu Jintao, mas emperrou com a ascensão de Xi Jinping.

As tensões internas provocadas pela expansão da classe média e dos intercâmbios com o exterior e pelo advento das redes sociais conduziram a uma nova concentração pessoal de poder. Xi Jinping tornou-se o terceiro Timoneiro: líder vitalício, oráculo da Verdade Estatal. A China que Lula não vê restaurou o sistema de governo maoísta, cuja estabilidade depende do recurso à violência crescente.

UTOPIA IGUALITÁRIA – Os comunistas justificavam o sistema de Partido-Estado por meio de uma invocação moral: a utopia igualitária. Lula, que só é comunista nos discursos delinquentes do bolsonarismo, escolheu justificá-lo pela razão pragmática: a eficiência de comando.

Na hipótese benevolente, o candidato presidencial exprime-se sinceramente, como prisioneiro da própria ignorância. A hipótese alternativa é que, de fato, ele admira —e inveja— um sistema no qual a opinião divergente constitui crime punível com o degredo ou a morte.


No desastre chamado Bolsonaro, renda do trabalho cai e reduz o poder de consumo

Publicado em 6 de julho de 2021 por Tribuna da Internet

Charge do Ivan Cabral (ivancabral.com)

Pedro do Coutto

Além das repetidas atitudes e atos negativos do governo Bolsonaro, um estudo revela dramaticamente a queda do poder aquisitivo da população, especialmente das classes D e E, os mais pobres. Reportagem de Eliane Oliveira, Cássia Almeida, Gabriel Shinohara e Alex Braga, O Globo, desta segunda-feira, mostra que, mais uma vez, a renda do trabalho no Brasil se retraiu, comprimindo a capacidade de consumo, especialmente das classes de menor remuneração que representam 54,7% da força de trabalho brasileira.

O levantamento é da Tendências Consultoria e, a meu ver, reflete também o resultado decorrente do congelamento salarial e da subida de preços, criando um impasse efetivamente impossível de ser superado. A solução somente seria factível se os salários empatassem com a inflação do IBGE e da Fundação Getulio Vargas. Como isso não aconteceu,a força de trabalho do país perde cada vez por maior distância a corrida contra os preços.

RETRAÇÃO – O estudo considera gastos essenciais com alimentação, habitação, transporte, saúde, educação e comunicação. Por esse motivo, principalmente pelo maior peso do gasto com alimentação para os mais pobres, estima-se que a renda disponível, o dinheiro que sobra após as despesas básicas, encolheu entre os que ganham menos. Nas classes D e E, a queda este ano será de 17,7%.

Quanto mais baixa for a renda, maior é o peso algébrico da alimentação, pois se trata de uma questão de sobrevivência. Os segmentos de renda mais alta sofrem um impacto menor pelo aumento dos alimentos pois possuem tanto despesas essenciais, quanto aquelas que não têm o mesmo caráter.

O consumidor geral pode praticar os preços mínimos, mas para isso terá que percorrer no mínimo três supermercados por dia, o que é muito pouco provável. Como se constata, o desastre da atual administração é maior do que aquele que se poderia pensar.

VOCAÇÃO – O presidente da República tem uma vocação ao erro irreversível. Tanto é assim que, segundo ele próprio, não tinha conhecimento do tamanho da ofensiva de corrupção na área do Ministério da Saúde. Empresas produtoras de vacinas que não tinham necessidade de intermediários passaram a ser estranhamente representadas por pessoas sem conhecimento suficiente do tema, como assinalou o senador Tasso Jereissati, e portadoras de propostas mirabolantes, como as feitas e recebidas por Luiz Paulo Dominguetti.

Esta semana, a partir de hoje, terça-feira, será inevitavelmente bastante tensa e igualmente densa, uma vez que o senador Omar Aziz, presidente da CPI, convocará depoimentos específicos de envolvidos na trama e até mesmo promoverá acareações. O quadro crítico cada vez mais se expande e se aprofunda deixando perplexa a opinião pública brasileira.

DESMATAR, MATAR E ROUBAR  –  Muito bom o artigo de Fernando Gabeira na edição de ontem de O Globo sobre três verbos: desmatar, matar e roubar. O desmatamento ganhou a dimensão de um escândalo praticamente igual ao da investida por comissões baseadas na venda de vacinas e em pagamentos muito acima do valor de mercado com a participação até do ex-diretor de insumos do Ministério da Saúde.

Mas chama a atenção um fato altamente negativo. O roubo, de uns tempos para cá, transformou-se numa rotina envolvendo administrações públicas  e privadas. Sim, porque a corrupção se desenvolve no  campo sinuoso em que se articulam empresas e administradores públicos.

INVERSÃO – Chegou-se ao ponto de se pensar que ser honesto é algo negativo para investidura em cargos de maior responsabilidade. Pode estar até acontecendo o seguinte, alguém se dirige a quem tenha a caneta e diz ironicamente: “Você vai nomear esse sujeito, fulano ? Ele é honesto, atrapalhará tudo”. O que era exceção, a partir do governo Fernando Collor, transformou-se em fato constante.

Gabeira ilumina o caminho no qual o verbo roubar ganha uma incrível transparência. Infelizmente, está sendo assim e com isso aumenta a pressão sobre opinião pública cuja única saída é esperar pelas urnas de 2022.

TAXAÇÃO DE DIVIDENDOS – Na edição de domingo, Adriana Fernandes, do Estado de São Paulo, publicou reportagem assinalando que, com a taxação de dividendos, projeto do ministro Paulo Guedes, a administração Bolsonaro pretende arrecadar mais de R$ 54 bilhões no Imposto de Renda. A investida contra os dividendos também se volta sobre os lucros das empresas, inclusive de pequenas e médias.

Com base em estudo feito pelo economista Sérgio Gobetti, solicitado pelo Estadão, a taxação de dividendos atingirá 20 mil pessoas físicas, com renda média anual de R$15 milhões e patrimônio proporcional a tal rendimento. Essas 20 mil pessoas, entre 3,6 milhões de contribuintes de renda acentuadamente alta, vão proporcionar a arrecadação adicional que o governo projeta. Entretanto, acredito ser muito difícil que os dividendos venham a ser tributados, principalmente porque o imposto já incidiu sobre o balanço das empresas, notadamente os bancos.

Seria um caso assim de bitributação. Além do mais, os detentores de grandes riquezas, assim considerados na reportagem, reagirão e possivelmente o Congresso Nacional não aprovará o projeto. Mais uma produção do ministro Paulo Guedes que já chegou ao ponto de sugerir a distribuição de sobras de restaurantes para combater a fome no país.

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