quarta-feira, fevereiro 10, 2021

Eduardo Ramos quebra o silêncio dos generais do Planalto e envergonha os militares


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Ramos perdeu uma ótima oportunidade de ficar calado

Carlos Newton

Os generais que garantem a segurança do presidente Jair Bolsonaro no Planalto, digamos assim, vinham fugindo dos jornalistas e mantendo um silêncio obsequioso acerca dos novos rumos desse governo paramilitar, que abriga mais de 6 mil oficiais. E não interessa se são da ativa ou da reserva – para todos os efeitos, trata-se de militares, uma classe que os brasileiros desde cedo aprendem a respeitar.

Não mais que de repente, lembremos Vinicius de Moraes, o ministro Luiz Eduardo Ramos, da Secretaria de Governo, quebra esse silêncio estratégico dos generais do Planalto não somente para declarar que não se envergonha de articular com Centrão, mas também garantir que os militares da ativa entendem o momento político por que passa o governo.

PEGA NA MENTIRA – Ao fazer essa patética declaração ao repórter Felipe Frazão, do Estado de S. Paulo, o general Luiz Eduardo Ramos conseguiu escorregar duas vezes. Embora este ano não vá haver carnaval, ele tentou vestir a fantasia de articulador político, função que ele jamais conseguiu desempenhar. Parodiando Ruy Barbosa, até as paredes do Planalto sabem que Ramos até tentou fazer isso, mas foi um fracasso.

Com 28 anos de Câmara, o ex-deputado Bolsonaro não precisa de ninguém para fazer sua articulação política. Foi ele quem comandou tudo, com a ajuda do senador Davi Alcolumbre (DEM-AP), dos deputados Ricardo Barros (PP-PR), Osmar Terra (MDB-RS) e outros parlamentares de sua confiança pessoal.

Ramos fez apenas o trabalho burocrático de organizar e comandar os repasses de verbas e cargos para o Centrão, que incluiu cerca de R$ 3 bilhões em verbas extras, distribuídas para contemplar 285 parlamentares. Em matéria de articulação política, desempenho zero.

ENVOLVER OS MILITARES – O pior ponto da entrevista de Ramos foi a tentativa de envolver as Forças Armadas com essa virada de rumo de Bolsonaro, cujo objetivo é evitar o impeachment e blindar os filhos e amigos.

O ministro quis responder ás acusações do general da reserva do Francisco Mamede de Brito Filho, de uma das mais tradicionais famílias do Exército. “A imagem da instituição já está arranhada. Ficam do lado de um governo que comete as barbaridades que estamos presenciando”, afirmou o atual general Mamede, que apoia a oposição que fazem dois outros generais – Santos Cruz, ex-ministro da Secretaria de Governo, e Rêgo Barros, ex-porta-voz da Presidência, integrante da equipe direta de Ramos.

“Tenho contato com vários generais, amigos meus, não há isso, não. Eles entendem que é o momento político, que estou cumprindo uma missão. Não há (constrangimento), muito pelo contrário”, afirmou Ramos, que não tem autoridade para falar em nome dos militares.

MILITARES DIVIDIDOS – Tudo isso é muito desagradável. O general Ramos deveria ter se esquivado de dar declarações. Com essa inoportuna entrevista, quebrou o silêncio dos generais do Planalto e botou na rua o bloco de sujos, mesmo sem haver carnaval.

O fato concreto que resulta é a evidência de que os militares estão cada vez mais divididos em relação ao governo Bolsonaro. Aliás, desde o início, como instituições, as Forças Armadas colaboraram ao máximo com o governo, porém jamais compactuaram com o comportamento extravagante do presidente da República, que não sabe agir como militar de verdade.

E Bolsonaro, na sua ignorância, se acha cada vez mais fortalecido, porém as aparências enganam. Os militares brasileiros jamais compactuarão com um desgoverno de desmoraliza o Brasil interna e externamente. O resto é folclore.

Mourão minimiza constrangimento após ter sido excluído de reunião ministerial: “Não estou incomodado”


Bolsonaro está incomodado com declarações de Mourão à imprensa

Ingrid Soares
Correio Braziliense

Após ter sido excluído pelo presidente Jair Bolsonaro da reunião ministerial desta terça-feira, dia 9, no Palácio do Planalto, o vice-presidente Hamilton Mourão disse a jornalistas que “não está incomodado” com o ocorrido.“Não fui convidado. Não fui chamado. Então, acredito que o presidente julgou que era desnecessária minha presença. Só isso”, apontou. Ao ser questionado se estava incomodado com a situação, o general se limitou a dizer que “não”.

Dos 23 ministros da Esplanada, apenas Fábio Faria, do Ministério das Comunicações, não participou da reunião desta terça-feira por estar em viagem ao Japão. Mourão estava com agenda livre. A assessoria do vice alegou que ele está comprometido com a organização do encontro com o Conselho Nacional da Amazônia Legal, previsto para esta quarta-feira, dia 10. O general também não participou da primeira reunião ministerial do ano, por estar se recuperando da covid-19.

INCOMODADO – Fontes palacianas afirmam que Bolsonaro está incomodado com declarações que o vice concede à imprensa. Em janeiro, Mourão indicou a jornalistas que o presidente colocaria em prática uma reforma ministerial e que uma das trocas que deveriam ocorrer era no Ministério das Relações Exteriores, com Ernesto Araújo deixando o cargo. O mandatário foi efusivo e rebateu secamente a ideia dizendo que o governo não precisa de ‘palpiteiros’.

“O que nós menos precisamos é de palpiteiros na formação do meu ministério. E deixo bem claro: todos os meus 23 ministros, eu que escolho e mais ninguém. Se alguém quiser escolher, que se candidate em 2022”, disparou à época.

Um segundo acontecimento ajudou a aprofundar a crise quando um assessor do general alertou o chefe de gabinete de um parlamentar sobre a possibilidade de o Congresso ter de começar a se preparar para analisar um pedido de impeachment contra o comandante do Palácio do Planalto. Mourão exonerou o assessor envolvido no caso, Ricardo Roesch Morato Filho e reforçou que ‘jamais vai trabalhar contra Bolsonaro’.

STF suspende julgamento sobre imposto zero de Bolsonaro a armas importadas


Não há previsão de quando Barroso vai devolver a vista e liberar o caso

Rafael Moraes Moura e Paulo Roberto Netto
Estadão

O ministro Luís Roberto Barroso, do Supremo Tribunal Federal (STF), pediu vista (mais tempo para análise) nesta terça-feira, dia 9, e suspendeu um julgamento sobre resolução do governo Jair Bolsonaro que busca zerar a alíquota sobre importação de revólveres e pistolas.

A medida foi publicada em dezembro pelo Comitê Executivo de Gestão da Câmara de Comércio Exterior (Gecex), mas foi suspensa por liminar do ministro Edson Fachin. A decisão foi tomada em uma ação movida pelo PSB. A discussão, de manter ou não a liminar de Fachin, estava ocorrendo no plenário virtual da Corte, uma plataforma online que permite a análise de casos pelos ministros sem se reunir pessoalmente, ou por videoconferência — longe dos olhos da opinião pública e das transmissões ao vivo da TV Justiça.

SEM PREVISÃO – A previsão original era de que a análise da ação se encerraria na próxima sexta-feira, dia 12. Não há previsão de quando Barroso vai devolver a vista e liberar o caso para julgamento. A resolução publicada pelo governo Bolsonaro integra o rol de medidas que buscam flexibilizar o acesso às armas no País, uma das bandeiras do presidente.

Em junho do ano passado, o Estadão mostrou que lobistas e empresários de armas e munições têm presença assídua nos gabinetes do governo de Bolsonaro – entre janeiro a abril de 2020 foram ao menos 73 audiências e reuniões com representantes do setor. O Instituto Sou da Paz já listou ao menos 20 atos normativos que facilitaram o acesso a armas e munições.

CONTRADIÇÃO – Apenas Fachin já votou no julgamento. Segundo o ministro, a medida anunciada pelo governo tem o potencial de contradizer o direito à vida e o direito à segurança. Em dezembro, ao fixar a liminar suspendendo a resolução, o ministro destacou que não há um ‘direito irrestrito ao acesso às armas’, e que cabe ao Estado garantir a segurança da população, e não o cidadão individual.

“O direito de comprar uma arma, caso eventualmente o Estado opte por concedê-lo, somente alcança hipóteses excepcionais, naturalmente limitadas pelas obrigações que o Estado tem de proteger a vida”, apontou. “Incumbe ao Estado diminuir a necessidade de se ter armas de fogo por meio de políticas de segurança pública que sejam promovidas por policiais comprometidos e treinados para proteger a vida e o Estado de Direito. A segurança pública é direito do cidadão e dever do Estado”.

Outro ponto levantado por Fachin é que a medida poderia reduzir a competitividade do mercado bélico nacional, visto que armas estrangeiras se tornariam mais baratas e atrativas a consumidores brasileiros, caso o ‘imposto zero’ do governo entre em vigor.

“POUCO AINDA” – No mês passado, Bolsonaro afirmou que prepara três decretos para facilitar o acesso a armas de fogo a grupos de Colecionadores, Atiradores e Caçadores (CACs). “Nós batemos recorde o ano passado, em relação a 2019. Mais de 90% na venda de armas. Está pouco ainda, tem que aumentar mais. O cidadão de bem, há muito tempo, foi desarmado”, disse.

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COM A PALAVRA, O ADVOGADO RAFAEL CARNEIRO, DEFENSOR DO PSB:

“Essa ação envolve tema de extrema relevância referente ao armamento da população brasileira, na contramão da tendência mundial de redução de conflitos, dos preceitos constitucionais do direito à vida e à segurança pública e também na contramão do Estatuto do Desarmamento. É justificável que a Corte tome o tempo necessário para analisar uma questão de tamanha importância, que poderá ter reflexos concretos bastante prejudiciais para o país num breve futuro. Diversos especialistas na área, como o ex-ministro da Justiça Raul Jungmann, vêm mostrando preocupação com um conjunto de recentes medidas que aumentaram o acesso da população a armas e munição e ainda revogaram normas de rastreio e controle dos armamentos.”

terça-feira, fevereiro 09, 2021

Bolsonaro é o primeiro líder político da História a desencorajar vacina, diz especialista francês


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Charge do Duke (domtotal.com)

Daniela Fernandes
BBC News Brasil

O presidente Jair Bolsonaro, é o único líder político da História a desencorajar a vacinação, afirma o historiador francês Laurent-Henri Vignaud, autor do livro “Antivax – Resistência às vacinas do século 18 aos dias de hoje” e professor da Universidade de Borgogne.

“É possível que Bolsonaro seja um exemplo único. Não saberia citar outro”, disse à BBC News Brasil o historiador, que retraçou em seu livro a história dos movimentos antivacinas, desde o desenvolvimento do primeiro imunizante, contra a varíola, realizado pelo médico inglês Edward Jenner em 1796.

CAMPANHA CONTRA – Vignaud lembrou que somente após uma queda nas pesquisas de opinião, Bolsonaro mudou o tom de seu discurso em relação às vacinas contra covid-19, mas passou meses, durante a pandemia, fazendo abertamente comentários que desestimulavam a imunização criando dúvidas em relação a sua eficácia para combater a covid-19, que já matou mais de 226 mil pessoas no país.

Além de destacar que a vacina seria perigosa, o presidente brasileiro questionou sua eficácia em diversas ocasiões e chegou a criticar a pressa para comprar o imunizante contra o novo coronavírus. Ele até descartou a possibilidade de tomá-lo.

Vignaud afirmou que grupos de teorias conspiratórias, que não se interessavam por discussões sobre vacinas, acabaram aproveitando a pandemia para roubar o espaço de movimentos antivacinas tradicionais para difundir teses delirantes.

ESCLARECIMENTOS – O especialista assinalou também que os governos devem refletir sobre a necessidade de divulgação de esclarecimentos sobre as vacinas, destacando que as autoridades mundiais de saúde “foram completamente ultrapassadas pelo fenômeno de redes sociais, onde não se controla mais nada.”

Vignaud disse ainda que crises políticas e a desconfiança em relação às instituições e discursos de autoridades refletem o grau de aceitação dos imunizantes.

“É possível analisar a crise política de um país observando a taxa de confiança nas vacinas”, enfatizou.

Segunda Turma do STF forma maioria e libera acesso de diálogos entre Moro e procuradores da Lava-Jato a Lula


Segunda Turma do STF decidiu validar decisão de Ricardo Lewandowski

Carolina Brígido
O Globo

A Segunda Turma do Supremo Tribunal Federal (STF) formou maioria nesta terça-feira, dia 9, pela manutenção de liminar que deu à defesa do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva acesso a mensagens trocadas entre o ex-juiz Sergio Moro e procuradores da Lava-Jato de Curitiba.Votaram nesse sentido o relator, Ricardo Lewandowski, e os ministros Nunes Marques, Cármen Lúcia e Gilmar Mendes. O ministro Edson Fachin foi o único a se posicionar contra.

“É extremamente grave e impactante o que veio à tona e que deve causar perplexidade em todos aqueles com mínimo conhecimento do que seja o devido processo legal. Não estou entrando no mérito, apenas concedi à defesa que tivesse acesso a elementos de convicção que estavam em poder do Estado e que se encontravam no bojo de uma ação penal na qual os tais hackers foram condenados, com base inclusive numa primeira perícia no material arrecadado”, disse Lewandowski em seu voto.

LEGITIMIDADE – O ministro Nunes Marques concordou. Alegando motivos técnicos, ele esclareceu que os procuradores da Lava-Jato não teriam legitimidade para recorrer da liminar. Segundo Nunes Marques, o recurso deveria ter sido ajuizado pela Procuradoria-Geral da República (PGR). Ele acrescentou que o questionamento sobre se as provas são ou não ilícitas deve ser feito em uma ação específica.

“Não estou fazendo qualquer juízo de mérito acerca da validade ou autenticidade do material coletado na operação. Limito-me, portanto, nos precisos termos do voto do ministro relator, a conferir acesso à defesa do reclamante ao referido material, permitindo, assim, o fiel cumprimento da decisão”, explicou.

VALIDADE DAS PROVAS – Terceiro a votar, o ministro Edson Fachin se posicionou a favor da Lava-Jato de Curitiba, no sentido de impedir que Lula use as mensagens em qualquer ação judicial, até uma posição do plenário do STF sobre a validade das provas.

“Se estamos a falar de garantias do devido processo legal, parece que devamos estender o garantismo a todos. Entendo que têm legitimidade e interesse os agravantes (procuradores da Lava-Jato), porque há explicitação que pode expor violação de direitos a personalidade, até mesmo do direito a intimidade. A decisão do relator (Lewandowski) atinge-os diretamente “, disse Fachin.

A ministra Cármen Lúcia também votou no sentido de não reconhecer a legitimidade do recurso dos procuradores da Lava-Jato — ou seja, mantendo a liminar concedida por Lewandowski.

PLACAR DE 4 A 1 – O último voto foi o do ministro Gilmar Mendes, que também votou pelo direito a Lula de ter acesso aos diálogos, resultando em um placar de 4 a 1. O ministro ressaltou que esse foi o único tema em julgamento na Segunda Turma na tarde desta terça-feira.

“O acesso ao seu conteúdo é imprescindível para o exercício do direito de defesa do reclamante. A extrema gravidade dos acontecimentos perpetrados exige que se confira à defesa o direito de questionar, de impugnar eventuais ilegalidades processuais que se projetam como reflexo da atuação coordenada entre acusação e magistrado”,  disse, completando mais adiante: “A breve análise dos diálogos sugere que a falta de acesso a eles pode ter afetado o direito de defesa do paciente (Lula) e de outros pacientes (outros investigados). Por isso, é de rigor o reconhecimento do direito de acesso. E é disso que estou falando, só do direito de acesso”.

CRÍTICAS – Mesmo assim, no voto Mendes fez críticas pesadas à forma como Moro e os procuradores de Curitiba atuaram na Lava-Jato. “Ou nós estamos diante de ficção, ou nós estamos diante de um caso extravagante. É o maior escândalo judicial da historia da humanidade, é disso que estamos falando. A Republica de Curitiba envergonha os sistemas totalitários, eles não tiveram tanta criatividade. Da União Soviética, da Alemanha Oriental. É disto que nós estamos a falar. A não ser, como eu disse, e dou o benefício da dúvida, que se prove que isso não existiu, que é obra de um ficcionista. Não é mais o julgamento de um caso, nós vamos ser julgados pela historia se nos formos cúmplices desse tipo de situação nos montamos um modelo totalitário”, afirmou o ministro.

A troca de mensagens, que não foi submetida a perícia oficial, revela que Moro e os investigadores teriam combinado estratégias na condução de processos da Lava-Jato, inclusive o caso do triplex no Guarujá (SP), em que Lula foi condenado. Como o material não foi periciado, Lula não obteve autorização para anexar as provas em processos para pedir a nulidade de investigações, como queria a defesa.

Antes de começar a votação, o advogado Marcelo Knopfelmacher, contratado pelos procuradores da Lava-Jato, pediu que as provas não sejam entregues à defesa de Lula e, caso ela já tenha recebido, que fique impedida de usar em processos judiciais. Segundo ele, o material foi obtido de forma criminosa, por meio de hackers e, por isso, não poderia ser usado como prova. A subprocuradora-geral da República Claudia Sampaio Marques reiterou esse entendimento.

DIREITO À PRIVACIDADE  – “O relator (Lewandowski) não considerou o direito à privacidade dessas pessoas. O eminente relator proferiu decisão desprezando uma jurisprudência construída por este STF de décadas de recusa de prova ilícita. O Ministério Público entende que o que aconteceu neste fato é de extrema gravidade. Nunca vi uma situação dessa magnitude. O ex-presidente tem em suas mãos, sem qualquer tipo de controle, material relativo a opositores políticos. O uso que ele vai fazer disso aparentemente não interessa à Justiça. Todo esse material envolvia mensagens pessoais. Não se trata de atividade funcional. Havia conversas de família e de amigos de todas essas autoridades que tiveram suas comunicações hackeados”, disse a procuradora.

O advogado de Lula, Cristiano Zanin, ponderou que não as mensagens não revelam conteúdo íntimo, mas estratégias para conduzir as investigações da Lava-Jato.

“Não estamos tratando de conversas pessoais, familiares, entre amigos, mas de conversas entre agentes públicos que ocorreram em aparelhos funcionais e que dizem respeito a processos que correm na Justiça brasileira. É disso que se trata. Estamos falando aqui da prática de atos processuais clandestinos para esconder relações espúrias. Tudo acontecia fora dos canais oficiais”, disse, acrescentando: “Nós estamos tratando aqui de atos ilícitos que foram clandestinamente tratados no aplicativo Telegram, inclusive para esconder provas da defesa. Nós temos aqui combinação entre procuradores e juiz, temos quebra ilegal de sigilo de pessoas absolutamente fora do que prevê a lei, temos monitoramento de advogados até mesmo de ministros de cortes superiores. Esse material não diz respeito à intimidade de nenhum procurador, mas diz respeito a um grande escândalo que esta ocorrendo no sistema de justiça do nosso país”.

PRÉVIA – Para integrantes do STF, o julgamento de hoje pode servir como prévia para um outro julgamento, ainda sem data marcada: o recurso em que os advogados de Lula alegam que Moro foi parcial na condução de investigações contra o ex-presidente. A conduta do ex-juiz não estará em análise nesta tarde, mas os ministros da Segunda Turma podem tecer comentários nas discussões que levem a um indicativo de como será o próximo julgamento.

O julgamento sobre a parcialidade de Moro começou em dezembro de 2018, mas um pedido de vista do ministro Gilmar Mendes interrompeu a votação. A interlocutores, Mendes disse que tem a intenção de devolver o processo para a Segunda Turma ainda neste semestre.

PARCIALIDADE – No recurso que está nas mãos de Mendes, a defesa de Lula alega que Moro foi parcial e, por isso, pede a nulidade de condenações. Edson Fachin, relator da Lava-Jato, e Cármen Lúcia já votaram no sentido de considerar Moro imparcial — ou seja, contra a tese do petista. Embora não tenham votado ainda, Lewandowski e Mendes deram a entender que Moro exacerbou em sua conduta. Havendo um empate, o ministro Kassio Nunes Marques decidirá contra ou a favor das pretensões de Lula.

Nesta terça-feira, será a primeira vez que o ministro Kassio Nunes Marques, que tomou posse em novembro para substituir Celso de Mello, vai falar sobre um tema tão semelhante ao que será julgado no futuro. Dentro do tribunal, Nunes Marques é visto como garantista — ou seja, preza mais pelas garantias individuais dos réus do que pelo punitivismo que se consagrou com a Lava-Jato de Curitiba. Esse perfil dá a ministros do STF elementos para acreditar que o novo colega se posicionaria contra Moro na discussão.

CONVITE DE BOLSONARO – No pedido para declarar a parcialidade de Moro, os advogados de Lula citam como evidência da tese o fato de que o ex-juiz aceitou o convite de Bolsonaro, principal adversário do petista, para ser ministro da Justiça. Foi Moro quem condenou Lula pela primeira vez, no processo do triplex. Depois que essa condenação foi confirmada pelo Tribunal Regional Federal (TRF) da 4ª Região, o ex-presidente foi preso, em abril de 2018.

Lula foi solto em novembro de 2019, com a decisão do STF que autoriza presos condenados em segunda instância a recorrer em liberdade. Embora já esteja livre, uma decisão favorável ao ex-presidente na Segunda Turma anularia essa condenação e atrasaria o andamento de outros processos. Isso diminuiriam as chances de Lula voltar à prisão.

STJ suspende análise de recursos de Flávio Bolsonaro no caso das “rachadinhas”


Charge do Iotii (gauchazh.com.br)

João Paulo Saconi
O Globo

Os recursos da defesa do senador Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ) que seriam avaliados nesta terça-feira, dia 9, pela Quinta Turma do Superior Tribunal de Justiça (STJ) voltaram para as mãos do relator, o ministro Félix Fischer, e ainda não tiveram o julgamento finalizado pelo colegiado.

Esse é o segundo pedido de vista relativo aos três habeas corpus de Flávio na Corte. Neles, os advogados do filho do presidente Jair Bolsonaro pedem a anulação parcial ou total de procedimentos relativos ao caso das  “rachadinhas”.

DENÚNCIA – Flávio foi denunciado pelo Ministério Público (MP) do Rio, em novembro do ano passado, junto a outras 16 pessoas pelos crimes de peculato, lavagem de dinheiro e apropriação indébita. Um dos denunciados é Fabrício Queiroz, ex-assessor do parlamentar, que também tinha um recurso a ser julgado pelo STJ nesta terça, antes do pedido de vista de Fischer.

A sessão da Quinta Turma começou às 14h e foi presidida pelo ministro Ribeiro Dantas. Participaram dela, além de Dantas e Fischer, os ministros João Otávio Noronha, Reynaldo Soares da Fonseca e Joel Ilan Paciornik. Os três últimos ainda não chegaram a se manifestar sobre os pedidos das defesas de Flávio e de Queiroz.

INTERRUPÇÃO – Os casos estão em julgamento desde novembro do ano passado. Fischer votou contra um dos recursos de Flávio, antes de Noronha fazer o primeiro pedido de vista relativo a todos eles. O julgamento ficou interrompido até esta terça-feira, quando, na retomada dos trabalhos deste ano, Noronha devolveu as ações para a análise da Quinta Turma.

Antes da nova interrupção, Noronha declarou seus votos nos quatro habeas corpus e decidiu atender parcialmente aos pedidos das defesas. Não houve leitura da íntegra dos votos do ministro e o conteúdo deles permance sem ter sido detalhado.

PEDIDOS DA DEFESA – Os pedidos da defesa de Flávio foram apresentados ao STJ em duas levas. A primeira, em abril do ano passado, contém duas ações sob responsabilidade da equipe do advogado Frederick Wassef, responsável por representar o senador naquele momento.

O primeiro habeas corpus solicita a anulação de um relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) sobre as movimentações do senador. A advogada Nara Terumi Nishizawa, da equipe de Wassef, pede que o documento seja considerado uma prova ilícita, sob o argumento de que o sigilo bancário e fiscal de Flávio teriam sido violados pelo Coaf. A tese é refutada pelo MP do Rio, que defende a legalidade da requisição do relatório e já comprovou ter utilizado os meios adequados para solicitá-lo ao Coaf.

O segundo habeas corpus, também apresentado por Nara Terumi Nishizawa, questiona a decisão do juiz Flávio Itabaiana, da 27ª Vara Criminal do Tribunal de Justiça (TJ) do Rio, de autorizar a quebra de sigilo fiscal e bancário de Flávio e de outras cem pessoas e empresas ligadas a ele e ao gabinete na Alerj, em maio de 2019.

ANULAÇÃO – À época, o magistrado era responsável por instruir as investigações na primeira instância e utilizou uma decisão única para autorizar o repasse de dados de todos os envolvidos ao MP, abrangendo movimentações num período de quase 12 anos. A defesa de Flávio refuta a fundamentação da decisão, reclama da maneira sucinta como ela foi escrita e solicita que seja anulada.

A segunda leva inclui um habeas corpus, apresentado em setembro passado pela nova equipe de defesa de Flávio, formada pelos advogados Luciana Pires, Rodrigo Roca e Juliana Bierrenbach.

Esse terceiro habeas corpus também tem como objeto decisões de Itabaiana e pede que o STJ desfaça todos os atos processuais determinados pelo juiz de primeira instância, inclusive a quebra de sigilo. O motivo é o foro especial por prerrogativa de função, conquistado em junho do ano passado junto ao TJ do Rio. Com ele, o caso deixou as mãos de Itabaiana e passou a tramitar no Órgão Especial da Corte, sob a tutela de 25 desembargadores.

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