domingo, junho 18, 2006

Lula faz proselitismo

Por: Tribuna da Imprensa

OLINDA (PE) - O presidente Luiz Inácio Lula da Silva qualificou ontem de "sem caráter" os políticos que têm feito críticas a ele e ao governo. Quinta-feira, o candidato a vice-presidente na chapa do ex-governador de São Paulo Geraldo Alckmin (PSDB), José Jorge (PFL), disse que Lula "é preguiçoso, viaja e bebe muito".
O mesmo partido usou a publicidade gratuita de quinta-feira à noite para insinuar que ele integrava o esquema de corrupção denunciado pelo procurador-geral da República, Antonio Fernando de Souza, como uma "quadrilha que visava manter o PT no poder".
"Todo dia, aparece alguém para me agredir, possivelmente, porque estas pessoas estão pensando assim: 'Poxa vida, nós estamos governando o Brasil desde que Cabral pôs os pés aqui e nós não conseguimos fazer (nada). Por que este metalúrgico está fazendo?'", disse, durante o anúncio de liberação de R$ 74,9 milhões para a erradicação de palafitas e melhorias urbanas de favelas de seis cidades de Pernambuco.
A cerimônia foi realizada num palanque improvisado, às margens do Canal da Malária, em Olinda, onde se levantaram as favelas V8 e V9, um conjunto de estacarias onde famílias inteiras convivem com ratos, fezes e doenças num ambiente fétido.
"Este metalúrgico está fazendo porque tem uma coisa que eles (os políticos que o atacam) não têm", disse, para uma platéia que, vez por outra, gritava "olê, olê, olá, Lula lá" e "está reeleito". "Este metalúrgico tem caráter. Este metalúrgico só é o que é não pela quantidade de diplomas que eu tenho ou pelo apoio da elite política brasileira, mas pelo sentimento e pela alma do povo deste País", afirmou.
Emendou, em seguida, que não perderia tempo com respostas aos detratores. "A eles, que vivem transmitindo ódio todo dia, a eles, que vivem transmitindo inveja e preconceito todo dia, não quero dedicar um minuto, mas, certamente, quero dedicar a vida inteira para ajudar o povo pobre deste País a viver com dignidade e a viver com decência."
Depois, numa resposta direta aos que dizem que ele não trabalha e viaja muito, Lula desafiou-os. "Onde eles estão? Eu estou aqui, no meio de vocês." O presidente disse que a oposição vive torcendo para que ele fique nervoso e entre no jogo rasteiro. Para Lula, sempre que for atacado, a resposta será trabalhar mais e dar carinho para a população. "É a gente mostrar mais amor com o povo deste País." O presidente acrescentou que não fará jogo baixo "porque o povo não merece isso, o povo merece respeito, merece ser tratado com dignidade".
Lula repetiu o que tem dito sempre nos últimos dias, que a administração federal está cada dia melhor. O presidente disse que as manchetes dos jornais lembravam que, pela primeira vez, os recursos destinados aos pobres é maior do que o Produto Interno Bruto (PIB) chinês. "Pela primeira vez, este povo está comendo, os pobres estão tomando café da manhã, almoçando e jantando. Pela primeira vez, as pessoas estão percebendo que as coisas nos supermercados estão mais baratas, as pessoas estão percebendo que até o material de construção está mais barato."
Logo pela manhã, Lula inaugurou, no Centro do Recife, uma central de teleatendimentos do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), que empregará cerca de 1.300 funcionários de uma empresa terceirizada. O prédio foi inaugurado antes mesmo das reformas. Só o primeiro andar tinha recebido tintura nova. Os empregados começaram a trabalhar ontem. O posto atenderá, inicialmente, pelo número 135, a chamadas do Norte, Nordeste e Centro-Oeste.
O presidente estava de cara amarrada. De acordo com assessores do Poder Executivo, ficara irado ao saber do conteúdo da fala de Jorge e da publicidade partidária gratuita do PFL. Nem quis fazer discurso, o que é raro. Quando o governador Mendonça Filho (PFL) encerrou o breve discurso, Lula deu um tapa na perna direita, mostrando toda a impaciência.
Parlamentares aliados do presidente corriam para o defender. O prefeito da capital pernambucana, João Paulo (PT), disse que o candidato do PFL a vice-presidente na chapa de Alckmin tinha sido "garoto de recados do PSDB"; o deputado Fernando Ferro (PT-PE) afirmou que Jorge é um político de segunda categoria, que "só é capaz de organizar festas de São João, assim mesmo, em Brasília", e o deputado Inocêncio Oliveira (PL-PE) afirmou que o PFL e o pefelista estão "nervosos". "Quanto mais eles falam, mais perdem votos. A campanha de Geraldo Alckmin é igual rabo de cavalo, só cresce para baixo", disse.

Informe da Bahia

Por: Correio da Bahia

Lula faz proselitismo
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva desembarga amanhã em Salvador, no início da tarde, para, novamente, fazer campanha com programas que foram criados no governo do antecessor e por lideranças do PFL do estado. Em Santo Estevão, o presidente participa da inauguração de cem mil novas ligações do programa Luz para Todos, que nasceu com base no Luz no Campo idealizado por Rodolpho Tourinho (PFL) quando ministro de Minas e Energia do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Na última visita à Bahia, Lula visitou o Complexo da Ford, em Camaçari - uma conquista do PFL e que o PT foi contrário -, e participou da inauguração da primeira fábrica de pneus da multinacional alemã Continental no país, resultado da política do estado de atrair investimentos externos. Somente este ano, quando está em plena campanha à reeleição, o presidente já esteve na Bahia em quatro oportunidades, mas, em nenhuma delas, explicou porque o seu governo discrimina o estado deixando-o de fora dos principais investimentos na área de infra-estrutura da União.
Reeleição
A Câmara dos Deputados analisa a PEC que determina a simultaneidade das eleições em todos os níveis e proíbe a reeleição para presidente da República, governadores e prefeitos, bem como de quem os houver sucedido ou substituído nos seis meses anteriores ao processo eleitoral. Também fixa em cinco anos a duração dos mandatos de cargos eletivos nos poderes Executivo e Legislativo, em todos os níveis, com exceção dos senadores, que passaria a ser de dez anos.
Indignação
A população de Salvador já começa a demonstrar sinais de indignação com o prefeito João Henrique Carneiro (PDT). No afã de levantar recursos, o gestor da cidade autorizou a Superintendência de Engenharia de Tráfego (SET) a cobrar R$2 pela permanência dos carros por seis horas na orla marítima da capital. No trecho compreendido entre a Barra e Itapuã, soteropolitanos e turistas terão que se render aos desmandos praticados, agora com respaldo oficial, pelos tão conhecidos guardadores de carros.
Pesar
O presidente da Assembléia Legislativa, deputado Clóvis Ferraz (PFL), apresentou moção de pesar pela morte de Edvaldo de Oliveira Flores, ex-vice-governador da Bahia, entre 1982 e 1985. Ele disse que o falecimento "traz consternação a toda sociedade baiana", destacando que o político "marcou a sua trajetória política pela probidade e honestidade no trato da coisa pública".
Saneamento
O Serviço Autônomo de Água e Esgoto (Saae), concessionária pública da prefeitura de Juazeiro (BA), iniciou a obra de saneamento do bairro Itaberaba, uma das principais reivindicações da comunidade. O prefeito Misael Aguilar (PFL) visitou canteiro de obras e destacou que este é mais um compromisso constante do seu programa de governo, colocado em prática. O investimento total da obra é de R$2,4 milhões, sendo R$240 mil de contrapartida da prefeitura.
Educação
O prefeito de Itabuna, Fernando Gomes (PFL), comemorou o recorde baiano de investimentos em educação: mais de 31% do Orçamento no setor, enquanto os demais municípios gastam os 25% previstos pela Constituição. Gomes disse que, só com salários dos professores, o município gasta mais de 20% da receita. Desde o início da gestão, o prefeito tem buscado recursos e parcerias em outras esferas para melhorar a educação municipal.
Obstáculos
O vereador Emmerson José (PFL) é autor de requerimento em que solicita da Superintendência de Engenharia de Tráfego de Salvador (SET) o número de quebra-molas espalhados na cidade, de semáforos e de quem faz a aferição dos radares. "O que a SET faz é indecente. Há quebra-molas até em pista de cooper, isto é motivo de piada. Na Avenida Paralela, alguns radares ficam escondidos, o que demonstra o intuito da SET em extorquir os cidadãos", destacou o vereador.

Tucano quer saber quem lidera `quadrilha de 40 ladrões

Por: Correio da Bahia
SÃO PAULO - O candidato à Presidência da República pela coligação PFL/PSDB, o tucano Geraldo Alckmin, cobrou do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) que esclareça quem é o "chefe da quadrilha de 40 ladrões", na Festa de Peão de Boiadeiro de Americana, interior de SP, na noite de sexta-feira. Alckmin foi aplaudido, apesar de algumas poucas manifestações contrárias. As críticas ao presidente Lula foram contundentes. O tucano o acusou de fazer populismo cambial e fiscal, que gera "emprego na China" e leva a uma grave crise na indústria.
"Sobre caráter, acho difícil que o presidente Lula possa discorrer sobre esse tema", criticou Alckmin. Na sexta-feira, em Pernambuco, Lula dissera que falta caráter aos partidos de oposição. "O procurador geral da República disse que havia nos altos escalões da República uma quadrilha de 40 ladrões. E a população pergunta, quem é o chefe? É isso que ele precisa responder à sociedade brasileira. Enquanto não responde isso, não tem que discutir mais nada", afirmou o tucano.
Em entrevista coletiva, Alckmin disse que, se eleito, pretende mudar a política macroeconômica. "Dos dez milhões de empregos do Lula, parece que grande parte é na China", afirmou, referindo-se à promessa de campanha do presidente. "Teremos uma política fiscal melhor, qualidade do gasto público, política monetária com menos juros e vamos acabar com esse populismo cambial", defendeu.
Segundo Alckmin, a administração de Lula está levando "a uma grave crise na indústria" e "à maior crise na agricultura dos últimos 40 anos".

Lula mente sobre Bolsa-família e Luz para Todos

Por: Correio da Bahia

Uma multidão recebeu ACM e Paulo Souto em Bonito
O senador Antonio Carlos Magalhães disse ontem, no município de Bonito, no interior do estado, que o governo federal mente ao fazer propaganda eleitoreira com o Bolsa família. ACM lembrou que o programa foi criado com base no Fundo Nacional de Combate e Erradicação da Pobreza, criado por ele em 2000 e que serviu como base para a implantação, no governo de Fernando Henrique Cardoso, do Bolsa família, que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva transformou no maior cabo eleitoral de sua campanha à reeleição, sobretudo entre a população mais pobre do Nordeste.
"O governo federal mente quando eles dizem aqui que dão bolsa para combater a pobreza. É mentira. O Bolsa-família foi criado por mim em 2000. Agora, eles querem ser os donos do programa. Assim como dizem que o Luz para Todos é deles. Outra mentira. O Luz para Todos foi criado com base no Luz no Campo, que, por sua vez, foi criado pelo hoje senador Rodolpho Tourinho (PFL), quando era ministro de Minas e Energia no governo anterior, e o governador da Bahia era César Borges (PFL), hoje no Senado. O governador Paulo Souto intensificou o programa na Bahia", ressaltou o líder político baiano.
Em Bonito, ACM participou, ao lado do governador Paulo Souto, do aniversário de 17 anos de emancipação do município e da implantação do projeto Flores da Bahia. Também estiveram presentes os senadores Rodolpho Tourinho e César Borges, além de deputados federais e estaduais, secretários estaduais e outras autoridades.
"Se faz política é com trabalho. É o trabalho que nós realizamos. Cuidando de todos os assuntos da agricultura baiana e das indústrias. E Rodolpho Tourinho - guardem esse nome porque esse nome vocês vão repetir nas urnas - tem se destacado no Senado. E o trabalho do governador Paulo Souto nem se fala. Quem tem os melhores não vai querer mudar nunca", salientou o líder político baiano.
ACM começou o discurso que fez em Bonito de forma saudosista. "Recordo nesse instante a figura do meu grande amigo Cleriston Andrade, que insistia comigo, e Bonito ainda não era município, no plantio de café nesta região. Ele e o desembargador Jorge Figueira faziam sempre questão que eu viesse aqui - e eu vim -, quando lançamos um programa de cafeicultura aqui. Tratamos de fazer a estrada que liga Utinga a Bonito e a Morro do Chapéu", destacou.
"É bonito. Bonito que pede ao governador trabalho, escola, esportes. O esporte que tira a juventude das coisas que não devem ser feitas. E a cidade que é bonita não pode deixar de ser o paraíso das flores", acrescentou o senador baiano, elogiando, em seu discurso, o trabalho do secretário estadual da Agricultura, Pedro Barbosa de Deus.

Bahia é campeã nacional em casos de anemia falciforme

Por: Correio da Bahia

Doença genética com prevalência entre afrodescendentes atinge uma em cada 650 crianças nascidas na capital

As hemácias do sangue do portador de doença falciforme têm formato de foice
"Pai, faz essa dor parar". Pais e familiares de pacientes com doenças falciformes têm que aprender a conviver com as crises provocadas pela enfermidade - doença genética, com prevalência na população afro-descendente, caracterizada pela alteração na hemoglobina, pigmento responsável por transportar oxigênio nos glóbulos vermelhos para os tecidos do corpo. Em Salvador, uma em cada 650 crianças nascidas é portadora da anemia falciforme, a mais comum das doenças falciformes, e a Bahia é o estado com maior número de portadores da doença. A dor é conseqüência da falta de oxigênio nos ossos, órgãos e músculos.
Quando o indivíduo é sadio, a hemoglobina F, tipo fetal, com a qual nascemos, vai sendo substituída pela hemoglobina tipo A. No indivíduo com anemia falciforme, os genes possuem uma mutação e não se produz hemoglobina A e sim a S. Com a alteração na informação genética para hemoglobina, o glóbulo vermelho (hemácia) adquire a forma de meia lua ou foice - mais rígido e sem a maleabilidade comum à hemácia saudável. Assim, existe a dificuldade da chegada de oxigênio nos vasos mais finos do corpo, causando a obstrução destes vasos, e comprometendo a circulação sangüínea.
Depois do susto da descoberta - desde 2001, é possível verificar a ocorrência da doença na triagem neonatal, o popular teste do pezinho - é necessário aprender sobre as características desta doença, que não possui cura. O diagnóstico precoce e o tratamento adequado contribuem para melhorar a qualidade de vida da pessoa com doença falciforme. Foi o que fez Altair Lira, atual coordenador geral da Associação Baiana de Pessoas com Doenças Falciformes (Abadfal). "Do diagnóstico até a primeira crise, aos sete meses de idade de Marília, nossa expectativa é de que não acontecesse nada", recorda Lira, referindo-se à filha de 7 anos.
Com a série de crises - em pouco mais de dois anos foram 12 internamentos -, e os intervalos entre elas, Lira foi aprendendo mais sobre como a doença se manifesta em Marília. "O pneumococo, por exemplo, é 600 vezes mais letal para ela. O primeiro atendimento, em caso de crise, tem que ser feito por pessoal capacitado. Nosso tempo é diferente do tempo dela", contou Lira.
Após o diagnóstico, o tratamento é feito com o uso de penicilina profilática, vacinas usuais e especiais (antipneumocóccica, antivaricela e antimeningocócica) e acompanhamento ambulatorial. Segundo a hematopediatra Silvana Fahel, é grande a variação da doença de indivíduo para indivíduo. Se alguns têm maior tendência às infecções, outros podem sofrer até mesmo um acidente vascular cerebral.
"A família é nossa aliada e é ela que assiste mais de perto e vivencia cada uma das crises. Uma febre, por exemplo, deve ser tratada de forma diferenciada, pois pode desenvolver infecção grave", explica Fahel. É importante que a família informe ao profissional de saúde sobre a condição e medicamentos do paciente, em caso de crises.
Fahel destacou o serviço oferecido pela Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (Apae), e o município, há pouco mais de três meses, disponibilizou para a população duas unidades de atendimento aos portadores de doenças falciformes: na Avenida Carlos Gomes e outra no Vale das Pedrinhas. Outra ação do Programa Municipal de Atenção às Pessoas com Doenças Falciformes, que começou a ser implantado pela prefeitura em março de 2005, é a oferta de medicamentos para controle da enfermidade, como penicilina oral e ácido fólico, que podem ser adquiridos nas duas unidades citadas acima, além de nas unidades de atendimento das Sete Portas e no bairro de Marechal Rondon, assim como na Fundação de Hematologia e Hemoterapia do Estado da Bahia (Hemoba).
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SINTOMAS
Os sintomas mais comuns da anemia falciforme são: crise de dor nos pequenos vasos das mãos, ossos, tórax, abdômen, icterícia (cor amarela nos olhos), infecções freqüentes na garganta, pulmões e ossos, úlcera de perna, geralmente próxima aos tornozelos, além de seqüestro do sangue no baço, causando palidez e dor no órgão.
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Apoio psicológico à família
A Abadfal, desde 2001, vem dialogando com o governo estadual para a adoção de um programa baiano para os portadores de doenças falciformes. Atualmente, o atendimento a portadores da doença na rede pública de saúde estadual é feito na Fundação de Hematologia da Bahia (Hemoba). Já a associação oferece apoio psicológico à família de portadores de doenças falciformes e todo segundo sábado do mês realiza uma reunião mensal. A próxima acontece no próximo dia 8, das 9h às 12h, no auditório da Fundação Oswaldo Cruz (rua Waldemar Falcão, 121, Brotas). "Buscamos estimular a família, para que faça o teste, e oferecer solidariedade. A doença sobrecarrega principalmente a mãe. Por vezes, a vida do casal fica abalada e os pais enfrentam um outro conflito: o estigma de que passou a doença para o filho", explicou Lira.
Para identificação do traço falciforme, o teste pode ser feito no Hospital Universitário Professor Edgar Santos (Hupes), no Canela, que oferece ainda aconselhamento genético para os pais que possuem traço. "A decisão é do casal, que vai avaliar os riscos e optar pela preferência conjunta", conta Fahel. Os pais, em geral, são portadores assintomáticos de um único gene afetado, é o chamado traço-falciforme, presente entre 6 e 10% da população baiana, a maior porcentagem nacional. Filhos de casais com traço-falciforme têm 25% de chance de desenvolver doenças falciformes.

Só vencer não basta para a Seleção Brasileira

Por: Agência O Globo

Königstein- Depois de exibição de futebol e força de seleções como a Espanha, Argentina, Equador e Republica Checa na Copa do Mundo da Alemanha, o Brasil volta amanhã a campo com a obrigação de vencer a Austrália e convencer. O time de Carlos Alberto Parreira precisa mostrar o futebol de técnica, arte e gols que o mundo espera que os brasileiros joguem na caminhada rumo a conquista do hexacampeonato mundial. A estréia da Seleção na Copa do Mundo não foi das melhores. Uma vitória suada de 1 a 0 sobre a Croácia, onde sobraram críticas para a maior esperança de gols do time, o atacante Ronaldo. Em má fase, o Fenômeno corre até mesmo o risco de ir para no banco de reservas caso repita a atuação do primeiro jogo. Além de dar todas a oportunidades a Ronaldo, o técnico Parreira tem servido de referência para sua recuperação. No último treino da seleção na Arena Zagallo, o atacante começou bem, fez um gol, mas foi se apagando. A Copa do Mundo exige mais do que isso, como mostrou Parreira. Com a energia que dedicou do início a fim do trabalho, o técnico acabou sendo o maior destaque do treino na despedida de Königstein. "Vamos lá, isso é Copa do Mundo", gritava o treinador, ao se movimentar pelo campo com a desenvoltura que espera ver em Ronaldo no jogo de domingo. O atacante ainda está destoando dos demais. Hoje, ele era o único a usar agasalhos de nylon em cima do uniforme da seleção. Segundo os parâmetros da comissão técnica, nem Ronaldo está gordo nem o uso do casaco é recomendado para emagrecer. A exuberância do craque tem ficado escondida. No treino de finalizações, em que girava o corpo e chutava sem marcação da entrada da área, o atacante só fez um gol em 14 tentativas. Parreira estava mais afiado com as palavras. Na primeira parte do trabalho, comandou um treino alemão em que três times se revezavam no campo. Depois, armou a defesa numa metade do campo contra o ataque reserva. De posse de bola, os titulares acionavam o quarteto ofensivo que tinha apenas dois defensores para superar antes de chegar ao gol. "Agora parte em velocidade! Liga rápido", orientava o técnico. Depois de 20 minutos, Parreira inverteu o trabalho. Kaká, Ronaldo, Ronaldinho e Adriano ganharam o apoio dos laterais e volantes para superar uma defesa reserva completa e bem fechada. "Vamos fazer a jogada por fora", dizia Parreira, pedindo para o time usar mais as laterais do campo. Apesar da expectativa pelo jogo aéreo australiano, o treino terminou sem que o time treinasse escanteios e bolas paradas. Parreira preferiu optar pela movimentação. Ronaldo não tem outro caminho. Está na hora de o craque se mexer.
Ronaldinho cobra movimentação do "quadrado"
Königstein - Ronaldinho Gaúcho sabe que ficou devendo uma boa atuação na estréia do Brasil na Copa. O craque não se escora em desculpas. Assume que ficou abaixo do que poderia render. E uma das explicações é a velha história de que na seleção brasileira ele não joga da mesma forma que no Barcelona. "Comecei nem mal nem bem, fui regular. Tive que ficar mais no meio-campo, segurando, criando as jogadas, tentando ficar mais com a bola, fazendo a equipe jogar. Minha função agora é um pouquinho diferente daquela de buscar o gol toda hora, de ir para cima dos caras", disse o camisa 10, acrescentando que contra a Austrália novamente atuará como meia, sem tanta liberdade como tem no Barcelona. Ronaldinho reconhece que pode render muito mais. Também afirma que precisa haver mais movimentação. Mas não se limita a falar apenas de Ronaldo: "Falta movimentação dos quatro jogadores de ataque e não dizer que um só não se movimentou. O quadrado pode ser muito melhor, a gente tem consciência disso". O craque elogiou a entrada de Robinho na equipe. "Entrou muito bem, ele é um jogador que tem muita mobilidade. Se mexe muito para o lado do campo, que é uma característica bem diferente dos outros dois atacantes".

Brasil terá 55 milhões vivendo em favelas até 2020, diz ONU

Por: TRIBUNA DA BAHIA Notícias

Um relatório das Nações Unidas sobre os centros urbanos no mundo, divulgado ontem em Londres, diz que o número de moradores nas favelas brasileiras deve subir para 55 milhões em 2020 —o que seria equivalente a 25% da população do país, de acordo com projeções demográficas feitas pelo IBGE. Apesar do número alto, o documento frisa que a taxa de crescimento das favelas no Brasil, em 0,34% ao ano, está praticamente estabilizada. Os dados das Nações Unidas mostram que 52,3 milhões de pessoas viviam em favelas brasileiras em 2005, 28% da população do país. Isso significa que apesar do aumento absoluto no número de habitantes nas favelas nos próximos anos, eles representariam um percentual cada vez menor da população total do país. O relatório elogia diversos programas sociais brasileiros, mas alerta que a vida de quem vive nas favelas continua piorando e que os velhos preconceitos não mudaram. O documento O Estado das Cidades do Mundo 2006-2007, elaborado pelo programa Habitat, mostra como as condições de moradia afetam quem vive nas favelas: eles passam mais fome, têm menos educação, menos chances de conseguir emprego no setor formal e sofrem mais com doenças que o resto da população das cidades. Ainda assim, o Brasil foi citado como exemplo em políticas de urbanização, saneamento básico e orçamento participativo. Segundo o relatório, na América Latina, Argentina, Brasil e México vão ter a maior influência na redução da população nas favelas da região até 2020. Brasil e México já teriam atingido uma redução extraordinária na fatia de moradores de favelas nas áreas urbanas, enquanto em números absolutos, o aumento foi pequeno nos dois países. Em 2020, as populações de favelas nos dois países devem ter aumentado em 4 milhões, totalizando 71 milhões, se a desaceleração no crescimento continuar. Já na Argentina, a taxa de crescimento das favelas é de 2,21% ao ano. Atualmente, quase 1 bilhão de pessoas – um sexto da população mundial – vivem em favelas. Se a tendência atual continuar, este número vai subir para 1,4 bilhão em 2020 - o equivalente à população da China - de acordo com o relatório do programa Habitat. Para a ONU, “a comunidade internacional não pode ignorar os habitantes das favelas, porque, depois da população do campo, eles são o maior grupo nos países em desenvolvimento – e este número vai crescer quando estes países se tornarem mais urbanizados”. Até 2030, as cidades dos países em desenvolvimento vão ter cerca de 4 bilhões de habitantes, 80% da população urbana do mundo. A ONU sugere que os governantes levem as diferenças entre favela e outras áreas urbanas em conta na hora de formular políticas sociais. Para medir a performance de cem nações na redução da população de favelas, a equipe de pesquisadores dividiu os países em quatro grupos: os que estão no caminho certo, os que estão estáveis, os que estão em risco e os que estão indo pelo caminho errado. Brasil está na categoria estável, junto com países como Colômbia e Filipinas, graças ao “compromisso político – apoiado por recursos – em investir nos pobres dos centros urbanos”, de acordo com o relatório da ONU. A cidade de Fortaleza foi citada como um exemplo valioso de como o desenvolvimento de uma infra-estrutura de saneamento pode ter um resultado positivo para a saúde. O relatório mostra que a cidade nordestina teve uma redução nas taxas de mortalidade infantil de 74 a cada mil nascimentos para 28 em ca-da mil nascimentos – e isso aconteceu no mesmo período em que o saneamento básico passou a cobrir mais de metade da população.

Benefício de álcool é só para homens

Por: Tribuna da Bahia

Beber bebidas alcoólicas todos os dias - com moderação - reduz o risco de doenças do coração entre homens, de acordo com um estudo publicado no British Medical Journal. Mas, para mulheres, de acordo com a pesquisa realizada com 50 mil pessoas na Dinamarca, os benefícios não dependem da freqüência, mas da quantidade de álcool consumida. Entre as mulheres que participaram do estudo, as que bebem pelo menos uma vez por semana têm o risco de doenças coronárias reduzido. As que bebem todos os dias também. Mas a diferença entre os dois grupos foi mínima: as que consomem álcool todo dia têm 36% menos chance de sofrer do coração do que as que não bebem. E as que bebem uma vez por semana têm 35% menos chance dos que as abstêmias. Já entre os homens, os que bebem diariamente têm 41% menos chances de terem doenças do coração do que os que não bebem, contra 7% a menos de chances para os que bebem uma vez por semana. “Entre as mulheres, a quantidade de álcool ingerida parece ser a determinante entre a associação de álcool e risco reduzido de doenças coronárias”, afirma o Centro para a Pesquisa do Álcool da Dinamarca.

Assim falou...

Por: Primeira Leitura


Ética petista

“Nenhum deles foi interditado politicamente. Continuam no gozo de seus direitos políticos. O PT conhece a biografia deles e entende que, independentemente de terem cometido erros, têm biografia altamente positiva.”Do presidente do PT, Ricardo Berzoini, sobre a decisão do partido de dar legenda a deputados acusados de envolvimento com o mensalão.• 12.6.2006 – sexta-feira

Chumbo trocado

“É um governo que se caracteriza pela incompetência, pela falta de trabalho. Hoje temos um presidente que não trabalha, só viaja e bebe muito, como dizem por aí.”Do senador pefelista José Jorge (PE), candidato a vice na chapa do tucano Geraldo Alckmin à Presidência da República.• 15.6.2006 – quinta-feira

“Vocês estão percebendo que todo dia tem gente destilando ódio contra mim. Isto ocorre porque eles governaram o país desde a chegada de Cabral e não fizeram nada. E eles perguntam: ´Por que este metalúrgico faz?’. Porque este metalúrgico tem o que eles não têm: este metalúrgico tem caráter. A eles, que vivem destilando inveja e ódio, não vou dedicar um minuto da minha vida, porque vou dedicar minha vida inteira ao povo. Eu quero mostrar é mais trabalho e carinho com o povo.”Do presidente Lula um dia depois das críticas feitas pelo pefelista.• 16.6.2006 – sexta-feira

Otimismo

“Nossa campanha vai ser como a seleção do Brasil na Copa de 70. Na hora certa, o talento vai aflorar, vai aparecer.”Do candidato tucano ao Planalto, Geraldo Alckmin, no dia em que a pesquisa CNI-Ibope mostrou que o presidente Lula lidera as intenções de voto no país e poderá ser reeleito já no primeiro turno.• 13.6.2006 – terça-feira
Realismo


“Ô gente! Vamos fazer oposição ou continuar esperando o horário de TV?”Do prefeito do Rio, o pefelista Cesar Maia, ao cobrar da campanha presidencial do tucano Geraldo Alckmin uma atitude mais combativa.• 14.6.2006 – quarta-feira

Risco-reeleição

“Se não houver segundo turno, a democracia corre risco. Caso Lula saia consagrado das urnas, ele vai ficar acuado para governar, sem maioria no Congresso. A tentação de Lula será de governar direto com o povo, como já faz Hugo Chávez na Venezuela.”Do pré-candidato do PDT à Presidência da República, Cristovam Buarque.• 16.6.2006 – sexta-feira

Nova ameaça

“O que acontecerá nos próximos dias é algo que deixará branco o cabelo de seus filhos: batalhas que revelarão a falsidade de seu poder, a fraqueza de seus soldados e suas mentiras.”Do novo líder da Al Qaeda no Iraque, que, segundo os EUA, se chama Abu Ayyub al Masri, ao prometer vingar a morte de seu antecessor na organização terrorista, o jordaniano Abu Musab al Zarqawi.• 13.6.2006 – terça-feira

Chavismo

“Não podemos ser tão irresponsáveis de seguir dando concessões a um pequeno grupo de pessoas para que usem um espaço, que é do Estado, que é o mesmo que dizer que é do povo, contra nós, embaixo de nossos narizes, como uma quinta coluna. Eu não me importo nem um pouco com o que o dizem os oligarcas do mundo, o que me importa é o destino da minha pátria.”Do presidente da Venezuela, Hugo Chávez, ao justificar por que ordenou a revisão das concessões das emissoras de TV do país, que vencem em 2007.• 14.6.2006 – quarta-feira

Isto é Lula

“Então, a Petrobras teve apenas de ser educada, apenas reeducar a Petrobras, e dizer para a Petrobras: querida Petrobras, pense menos em você e pense um pouco mais neste imenso país.”Do presidente da República no na cerimônia de lançamento da pedra inaugural do complexo petroquímico que a Petrobras vai construir em Itaboraí, no Rio.• 14.6.2006 – quarta-feira

Da genealogia do buraco à genealogia de uma moral

Por: Rui Nogueira (Primeira Leitura)

Veja como o governo foi usando a superfície lunar das estradas brasileiras como elemento, a um só tempo, de propaganda e de empulhação. A resposta que não deu a um dos mais graves problemas de infra-estrutura do país expõe uma ética do poder. Na reta final de mandato, Lula decide gastar R$ 450 milhões, sem licitação, para tentar compensar a incúria de antes. E confessa por vias tortas: trata-se, sim, de campanha eleitoral Por Rui Nogueira
Governantes brasileiros, às vezes, têm ataques de “rei-filósofo”. É uma pena que Delfim Moreira, que era maluco, não tenha deixado seus pensamentos. Serviria de emulação a presidentes loquazes que vieram depois. Washington Luís, que dá nome a uma excelente rodovia de São Paulo (sob concessão), disparou uma frase-emblema: “Governar é abrir estradas”. O deputado José Carlos Aleluia (PFL-BA) reinterpretou a máxima, adaptando-a aos modos de um outro Luiz, o Inácio da Silva.
O supremo mandatário da hora, sem ter aberto estradas e sendo incerto que tenha governado, produziu, no entanto, o maior número de máximas filosóficas da história “deste país” (pronuncia-se com acento gutural, quase raspando a garganta). Segundo Aleluia, “para Lula, governar é tapar buracos de estradas sem licitação”. O truque eleitoral do tal do PETSE (Programa Emergencial de Trafegabilidade e Segurança nas Estradas), vulgo “operação tapa-buracos”, não precisa nem ser demonstrado. Foi admitido pelo próprio presidente em discurso no Rio. O que Primeira Leitura faz aqui é escarafunchar os arquivos e discursos petistas para elaborar, com a licença de Nietzsche, uma “genealogia do buraco” e, se nos permitem, da moral – a particularíssima moral petista.
Uma única vez, em abril do ano passado, Lula admitiu que nada fez pelas estradas, mas o mea-culpa durou só algumas semanas. No programa Café com o Presidente, no dia 16 de janeiro, ele arriscou uma desculpa esburacada e um desmentido sobre os bilhões supostamente investidos. “Não tivemos dinheiro no ano de 2003, tivemos apenas R$ 2,5 bilhões em 2004, e somente em 2005 é que nós tivemos R$ 6,5 bilhões empenhados (...). Era preciso juntar o dinheiro para fazer [as obras em 2006], aquilo que é obrigação do governo fazer.” A viagem pela moral esburacada petista começa na campanha eleitoral de 2002.
Em meados de 2002, Lula e aquela penca de supostos especialistas que Duda Mendonça exibiu na TV botaram no papel a convicção (!) de que a infra-estrutura não podia ser alvo de privatizações e concessões. Lula, se eleito fosse, faria tudo diferente. Afirmava-se que “o programa de privatização” do governo FHC havia sido “concebido à margem de uma visão estratégica de desenvolvimento nacional”. Dizia mais o Caderno de Diretrizes: que os tucanos deveriam ter optado por “investir em infra-estrutura”. No volume com o “programa” genérico, aquele que Lula carregava para tudo quanto era lado, em vez de uma proposta para os transportes, havia não mais do que um diagnóstico. Ali se lê que “o novo governo [desenvolveria] uma política nacional de transportes”. E constatava para gáudio do Conselheiro Acácio: “em sua característica mais determinante (...), o setor de transportes no Brasil tem mantido uma excessiva concentração da demanda no domínio rodoviário”. Era uma crônica descritiva rebuscada, não um programa.
Lula assumiu e trabalhou com o Orçamento preparado pelo governo anterior, que previa R$ 490 milhões para a recuperação da malha rodoviária. Apesar do dinheiro apertado e dos problemas fiscais herdados da convulsão financeira provocada pelo próprio PT, Lula dizia que, “por ter percorrido 90 mil quilômetros” nas Caravanas da Cidadania, sabia das condições das rodovias e que era preciso recuperar de pronto “6 mil quilômetros”. O “rei-filósofo” aprendeu tudo na estrada da vida. Nascia ali um número que perseguiria o governo até este janeiro de 2006. A ele se acrescentarão alguns milhares de quilômetros ao sabor das necessidades da propaganda oficial: 7 mil, 14 mil, 42 mil... A progressão geométrica não tem o ímpeto multiplicador que a incompetência petista exige para ser devidamente retratada. FHC deixara também um plano para concessões de rodovias federais. Como Lula e o PT eram contra, o governo que saía houve por bem deixar para o seguinte a definição do que fazer. E naquele ponto estamos. Lula agora já não diz que concessões são privatizações disfarçadas. Mudou de idéia, mas não de competência.

Faltando quatro meses para Lula terminar o primeiro ano de mandato, aconteceu algo espantoso. Em vez de prestar contas sobre aqueles R$ 490 milhões e os “6 mil quilômetros”, o boletim Em Questão (n° 62), editado pela secretaria do então ministro Luiz Gushiken e, em Brasília, chamado de Pravda, começava assim: “A recuperação da malha rodoviária brasileira é uma das prioridades (...). O governo federal, através do Programa de Recuperação e Manutenção das Rodovias, irá investir [grifo nosso] R$ 490 milhões na licitação de mais de 7 mil quilômetros”. Era o feitiço do tempo. No oitavo mês de governo, Lula não tinha como se sujar com uma gotinha de piche, mas ampliava em mil quilômetros a promessa. E o Pravda continuava: “Em parceria com Estados e municípios, 27.305 quilômetros de estradas estão em processo de manutenção e restauração”. Não satisfeito, sapecou outra enormidade e mandou informar que “outros 30 mil quilômetros, que se encontravam em estado crítico, tinham sido submetidos a uma operação de caráter emergencial, chamada de operação tapa-buracos. Metade dessas obras já está concluída, e o restante será executado até o final de outubro”. Tudo somado, chegar-se-ia a 64.305. Fora os 7 mil em processo de licitação, o total de estradas transitáveis alcançaria 57.305 quilômetros. Só para o leitor ter noção da fanfarronice: o país tem 58 mil quilômetros de rodovias federais. Mas como tudo aquilo teria sido feito se os R$ 490 milhões ainda estavam confessadamente intocados? Tirados do buraco, os fatos são os seguintes: em 2003, o ministro Antonio Palocci (Fazenda) vetou os gastos que estavam previstos, rapou o dinheiro para o superávit primário e mandou o então colega dos Transportes, Anderson Adauto, dar prioridade às concessões rodoviárias. À falta do que mostrar, Gushiken produziu vontades políticas. O Pravda original, o jornal da ditadura soviética, mentia menos.
O governo Lula preparou o Orçamento de 2004, o primeiro inteiramente de sua lavra, e trombeteou que, naquele ano, o dinheiro para a recuperação da malha rodoviária chegaria a R$ 957 milhões. As manchetes, que podem ser consultadas nos arquivos abertos da internet, estampavam: “Orçamento para recuperar estradas quase dobra”. Nominalmente, é claro!
O plenário do Senado assistiu a um curioso debate na noite do dia 13, uma terça-feira. Ante uma saraivada de críticas de pefelistas e tucanos, o senador Aloizio Mercadante (PT-SP), líder do governo, fez um discurso de prestação de contas. Começou afirmando que, no ano anterior, o governo havia recuperado “25 mil quilômetros de estradas” – pelas contas do boletim Em Questão de agosto daquele ano, que era e é a palavra oficial do governo, Lula havia recuperado mais de 57 mil quilômetros, ou 6 mil, ou 7 mil, ou 30 mil, sabe-se lá... Sem convencer os senadores da oposição, acabou entregando os pontos e arrematou com esta pérola: “O governo trabalha na perspectiva [grifo nosso], neste ano, de fazer um programa de recuperação de estradas de amplo alcance”. Ah, bom: era uma “perspectiva”.
Transcorridos seis meses do segundo ano de mandato, aquele que tinha um orçamento quase dobrado para recuperar estradas, a Fazenda havia liberado ridículos R$ 43 milhões (pouco menos de 4,5%). O buraco orçamentário era tão gritante que uma comissão de sindicatos de caminhoneiros foi a Lula e ameaçou: ou o governo investia na recuperação das rodovias ou eles promoveriam o Dia do Paradão Nacional. Os “companheiros” acabaram se contentando com promessas. Entre os dias 24 e 31 de dezembro, sob o impacto da notícia de que o Produto Interno Bruto (PIB) de 2004 registraria um crescimento de 5%, Lula mandou “abrir o cofre”. Era o trivial burlesco: a Fazenda anunciou a “liberação” de R$ 956 bilhões, mas o Ministério dos Transportes teria, para ficar com o dinheiro, de empenhá-lo até as 18h do último dia do ano. Parecia gincana: gaste se puder. A pasta conseguiu usar pouco mais de R$ 300 milhões. Para recuperar estradas? Não. Para pagar dívidas com empreiteiras.
A OPERAÇÃO tapa-buraco em ação na BR-040, que liga Brasília a Minas, em janeiro
O Em Questão publica o boletim 241. Um autêntico 171: “O Ministério dos Transportes terá um reforço de caixa em 2005”. Sem dizê-lo, o boletim dava a entender que 2003 e 2004 foram desastrosos em matéria de investimentos na infra-estrutura rodoviária, mas que, dali para a frente, como na velha canção do Roberto, tudo seria diferente. O Orçamento total dos Transportes, dizia, “deve pular dos atuais R$ 2,7 bilhões para R$ 6 bilhões, montante inédito na história de investimentos em infra-estrutura de transportes. Com isso, a expectativa é que, no ano que vem [2005], 60% da malha rodoviária federal seja recuperada. Até o final de 2006, toda a malha estará em boa condição de tráfego”. Nascia ali outra lenda orçamentária: a de que o governo teria investido um total de R$ 6,5 bilhões só na recuperação de estradas. Tomava-se o orçamento global do ministério como se destinado fosse só à necessidade mais urgente. E se davam asas à síndrome do ineditismo, aquela neurose segundo a qual Lula sempre faz o que ninguém nunca fez.
A superfície lunar das estradas de 2003 só piorou em 2004, com uma administração vivendo no mundo da lua. Mas o governo assegurava que, “até março de 2005”, estaria concluída a recuperação de “20% a 25% da malha rodoviária federal, o equivalente a pouco mais de 7 mil quilômetros”. Como assim?! Se, em outubro de 2003, a malha recuperada chegava a 57 mil quilômetros, o que eram esses 7 mil anunciados ao fim de 2004? Ademais, 25% dos 58 mil quilômetros de estradas federais somam cerca de 12 mil quilômetros... Como já disse Lula, o “rei-filósofo”, o chato de mentir é que é sempre necessário inventar uma mentira nova. Ou, no caso, voltar a uma velha.
Ao completar exatos 850 dias de governo, em 29 de abril de 2005, Lula concedeu a sua primeira entrevista coletiva. Foi no Planalto. Um repórter indagou quais os três maiores erros que o presidente assumia como de sua responsabilidade. Depois de anunciar, ao longo de 2003 e 2004, milhares de quilômetros de estradas “recuperadas” e “investimentos” bilionários, ele enumerou: 1) errou ao não ter tido “uma participação maior na sucessão da Câmara”; 2) “ao não ter feito com que os juros não sejam o único padrão de controle da inflação”; 3) “ao não conseguir fazer as obras nas rodovias brasileiras”.
Menos de três meses depois do mea-culpa, Lula, com o ministro Alfredo Nascimento (Transportes) a tiracolo, foi a São Bernardo do Campo (SP) participar da abertura do 100 Festival dos Cegonheiros. Diante de 3 mil pessoas, já acuado pelo escândalo do mensalão, soltou a língua: “Nós herdamos mais de 38 mil quilômetros de estradas praticamente intransitáveis. Eu fico me perguntando às vezes: o que era feito neste país, que nem a manutenção das estradas era feita?”. Ele chamou Nascimento e pediu-lhe que dissesse o que havia feito pelos caminhoneiros. Segundo as contas do ministro, o governo já autorizara a liberação de “R$ 6,5 bilhões” para a recuperação de “7 mil quilômetros de estradas federais” em 2004. A expectativa era de mais 7 mil naquele 2005. Se o próprio Lula, na entrevista de abril, admitira que nada fizera em matéria de recuperação de rodovias, de onde o ministro sacou os 7 mil quilômetros e os R$ 6,5 bilhões? Ora, esse dinheiro, na verdade, correspondia ao total de toda a pasta. Até porque, convenha-se, se ele gastasse aquela bolada em apenas 7 mil quilômetros, a recuperação de cada um teria custado a soma astronômica de R$ 928,57 mil e seria, então, um caso de polícia. Na operação iniciada no dia 9 de janeiro, 26.506 quilômetros serão “recuperados” com R$ 440 milhões: custo médio de R$ 16.600 por quilômetro. Os recursos autorizados pelo Congresso – antes, portanto, dos cortes do Ministério da Fazenda – para esse tipo de serviço, nos anos de 2003, 2004 e 2005, pouco passam de R$ 3 bilhões. E de onde teriam saído os R$ 6 bilhões do ano passado se todo o custeio e investimento dos Transportes consumiram R$ 2,7 bilhões? Lula e Nascimento, dois líricos, cultivavam ali a máxima de Mário Quintana: “A mentira é a verdade que esqueceu de acontecer”.
No dia 10, o Em Questão voltou a mentir mais do que o antigo Partido Comunista Soviético. Com um “Resumo das principais realizações do governo federal nos seus 30 meses”, no item “Transportes”, lê-se: “O governo está recuperando a infra-estrutura de transportes do país, com obras de construção e modernização nos mais diversos setores. Nas rodovias, já foram realizados serviços de conservação em 42 mil quilômetros”. Nem a reportagem erra nem você vê errado, leitor: 42 mil quilômetros! No mesmo Em Questão, edição do dia 19, o Planalto tascou: “O governo federal promoveu, em 30 meses, a recuperação de mais de 6 mil quilômetros de rodovias, a quantidade mais expressiva dos últimos 20 anos”. Nunca fica claro o que é tapa-buraco e capina (tecnicamente uma operação de “conservação pontual” de rodovias) e o que é “recuperação”, uma obra de engenharia que refaz a base destruída de uma estrada e a asfalta para durar, em tese, pelo menos uns dez anos. A encerrar o texto desse boletim, um quadro mostrava, a título de balanço, que, em 2003, teriam sido tapados os buracos de 2,4 mil quilômetros de rodovias; em 2004, 2,8 mil, e, em 2005, até outubro, outros 800 quilômetros. Eis a soma dos tais 6 mil quilômetros de estradas que, em três anos, passaram por operações tapa-buracos. Eram as mesmas estradas que, no fim de 2005, estavam novamente intransitáveis. No Palácio da Alvorada, diante da buraqueira exibida pelas reportagens das TVs, Lula sentiu o desconforto político-eleitoral que as imagens estavam criando. Dias depois, deparou-se com outra reportagem, exibida na TV Globo, mostrando agentes da Polícia Rodoviária Federal a tapar os buracos mais perigosos de uma rodovia. Nascia ali a eleitoreira operação tapa-buracos versão 2006, batizada agora de Programa Emergencial de Trafegabilidade e Segurança nas Estradas (PETSE).
Definido o PETSE, o boletim do dia 5, o de n° 389, outro 171, escrevia: “No primeiro semestre de 2006, o governo federal vai aplicar R$ 440 milhões na recuperação de 26.506 quilômetros de estradas localizadas em 25 Estados do país (...). Os recursos são provenientes de um crédito extraordinário liberado pela União (R$ 350 milhões) e do Orçamento de 2005, do Ministério dos Transportes (R$ 90 milhões)”. Afinal de contas, por que o Ministério dos Transportes, com orçamentos apregoados de até R$ 6 bilhões, precisa de créditos extras para fazer uma operação tapa-buracos? Como o Orçamento deste ano ainda está para ser aprovado, o do ano passado deveria estar bancando a operação de agora, certo? Se foi preciso abrir crédito extra, o que foi feito com os tais R$ 6,5 bilhões de 2005? Se existem 26.506 quilômetros para recuperar, o que foi feito nos 6 mil, 7 mil, 14 mil, 25 mil, 30 mil, 42 mil, 57 mil ou 64 mil quilômetros de estradas recuperadas? Raros casos, como esse, podem ser classificados de uma verdadeira anatomia de um embuste.
Em 1997, quando o PT ainda se fingia de vestal, em entrevista ao Jornal da Tarde (SP), Lula exemplificava assim a diferença entre o PT e os demais partidos: “Da mesma forma que defendo que todos os funcionários públicos sejam contratados por concurso, acho muito mais lícito que todos os serviços sejam contratados por licitação. Isso faz parte dos discursos e da prática do PT”. A maior parte dos R$ 440 milhões do PETSE será gasta sem licitação, e o governo Lula já botou para dentro da máquina pública federal, sem concurso, cerca de 10 mil servidores.
Fez-se aqui a genealogia dos buracos. E também de uma moral: a petista.
A realidade no buraco
Segundo especialista da área, falta mais competência ao governo para gastar do que propriamente dinheiro
CAFÉ COM O PRESIDENTE: sem corar, ele anuncia R$ 6 bi para as estradas
O leitor já percebeu que uma coisa é o Orçamento aprovado pelo Congresso, outra é o dinheiro empenhado, e uma terceira é o valor efetivamente gasto. Luiz Fernando Santos Reis, presidente do Sindicato Nacional da Indústria de Construção Pesada (Sinicon), observa: “O governo não sofre tanto de falta de dinheiro, mas de incapacidade de gerir e executar o Orçamento”. Tome-se como exemplo o orçamento de 2005 do Departamento Nacional de Infra-Estrutura de Transportes (Dnit). Na versão inicial do Orçamento enviado para o Congresso, o órgão tinha R$ 2 bilhões. Os parlamentares elevaram para R$ 2,3 bilhões. O empenhado chegou a R$ 1,4 bilhão. O liquidado ficou em R$ 744 milhões, e o efetivamente pago, em R$ 679 milhões.
Segundo números do Ministério dos Transportes enviados à Primeira Leitura, a manutenção da malha rodoviária consumiu, em 2005, os R$ 2,3 bilhões. Será? Nos discursos de Lula, a rodovia Corredor Mercosul, por exemplo, recebeu “investimentos” no valor de R$ 729 milhões. Descontada a neurose do ineditismo, foram gastos, com efeito, R$ 156 milhões: 21,39% do anunciado.
Outro documento oficial, com um “resumo da execução orçamentária e financeira” tomando como base o dia 31 de dezembro de 2005, traz como gasto autorizado R$ 7,5 bilhões. O dinheiro pago, no entanto, foi R$ 2,7 bilhões. Lula fica corado? Que nada! No programa Café com o Presidente, no dia 16 de janeiro, não hesitou: “Vou repetir os números: em 2005, empenhamos R$ 6 bilhões, e vamos outra vez empenhar R$ 6 bilhões em 2006. Se nós continuarmos colocando essa quantidade de dinheiro, certamente, em poucos anos, teremos as estradas todas consertadas e muitas estradas novas”. Como nunca “neste país”...
Observemos agora o orçamento de R$ 440 milhões para o tal PETSE. Diz o ministério ao Tribunal de Contas da União (TCU) que pretende gastar de R$ 2,4 mil a R$ 30 mil por quilômetro para fazer a tal “recuperação pontual” (tapar os buracos), obra que agüentaria um ano. Nos trechos que têm “poucos problemas estruturais” e que exigem “recapeamento e conservação”, diz o relatório entregue ao TCU, a obra, que duraria quatro anos (!), custará de “R$ 50 mil a 120 mil” por quilômetro. Segundo Santos Reis, a manutenção das rodovias sob regime de concessão e privatizadas consome R$ 180 mil ao ano por quilômetro. Se é assim numa estrada que já tem um piso de primeira, que serviço o governo está oferecendo em vias em estado crítico, com preços que variam de R$ 2,4 mil a R$ 120 mil por quilômetro?
Lula abriu o ano tapando buracos e falando em construir “estradas novas”, mas essa é outra agonia que toma conta do setor que quer investir em infra-estrutura e esbarra no cipoal burocrático. Na entrevista-balanço concedida no dia 2 de janeiro, o ministro Alfredo Nascimento disse o seguinte: “Ainda neste mês, devemos lançar o edital para a concessão de oito lotes de rodovias”.No dia 20 de janeiro, ao falar à Primeira Leitura, o presidente do Sinicon não parecia animado: “Faltam dez dias para janeiro terminar. Se os editais não saíram, não sei como podem sair em uma semana. E, se não saírem até o fim de março, com toda a política voltada para o ano eleitoral, é que vai ser difícil sair alguma coisa. Corre-se o risco de este governo não conseguir leiloar nenhuma concessão rodoviária”. – RN
Algo que Weingarten não diz, mas fica dolorosamente evidente, é que o New Journalism, visto de perto e com lucidez, é uma fantasmagoria. Houve um momento breve e glorioso em que o grupo se identificou como um movimento e foi percebido como tal. Em realidade, foi uma brilhante invenção de Tom Wolfe para justificar o fato de que ele queria mesmo era ser romancista. Weingarten cita piamente a definição de que o “novo jornalismo” consiste em textos que “se lêem como ficção, mas possuem o som da verdade dos fatos observados”. A receita não é das melhores, e demorou pouco tempo para que os repórteres começassem a imitar o som da verdade com fatos imaginados.
Ademais, a definição não era nova. Ele mesmo cita como uma das grandes influências do grupo a repórter da New Yorker Lillian Ross, autora de famosos “perfis”, que, já na década de 1940, reivindicava o direito de escrever “peças factuais com a forma de romance” (Hemingway achava que seu perfil tinha mais de romanesco que de factual). E, antes ainda, William Faulkner havia dito que “a boa ficção é mais verdadeira do que qualquer jornalismo”. Não sei se Tom Wolfe conhece a frase, mas sua carreira posterior ao New Journalism a ilustra impecavelmente. – Hugo Estenssoro

Ação de Diogo Mainardi contra Lula

Por: Reinaldo Azevedo (Primeira Leitura)

Diogo Mainardi, colunista da Veja — ou “Diego”, como a ele se refere José Dirceu —, decidiu interpelar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva na Justiça. Fez bem. Dado o descalabro que tomou conta do país, nunca ninguém ousou chamar Lula de “bandido”. O mais perto que a linguagem policial chegou do Excelentíssimo foi por intermédio do procurador-geral da República, segundo quem 40 pessoas do entorno presidencial, muitos deles seus amigos de copa e cozinha, formaram uma “quadrilha”, organizaram-se em “bando”, para assaltar os cofres públicos.
Já o presidente parece ter “menas” moderação do que a mídia. Reagindo a uma reportagem de Márcio Aith e a uma coluna de Diogo Mainardi, disse o Excelentíssimo: “Não sei se o jornalista que escreve uma matéria daquelas tem a dignidade de dizer que é jornalista. Poderia dizer que é bandido, mau caráter, malfeitor, mentiroso”.
A reportagem dava conta de que Daniel Dantas havia contratado a Kroll para investigar autoridades do governo. Na esteira de tal investigação, surgiram números de supostas contas secretas de figurões da República no exterior, uma em nome de Lula. A revista não comprou a versão. Relatou o que era o resultado da bisbilhotagem. Na edição da reportagem, publica-se uma entrevista de Diogo com Dantas em que o banqueiro revela que Delúbio Soares lhe pediu alguns milhões de dólares. Mais: afirma que houve uma “sincronia” entre a solução de demandas suas no governo e a contratação de um advogado que é amigo de Dirceu.
Nem Lula nem o PT contestaram Dantas. Ao contrário. O ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, encontrou-se com ele na casa de um senador, Heráclito Fortes. Tarso Genro, ministro das Relações Institucionais (o que será isso?), disse que Bastos mantivera com o empresário um “encontro institucional”, o que é, para dizer pouco, um enigma. Vá lá: Bastos, investido do cargo, poderia representar o Estado brasileiro e a Presidência da República. São instituições. Mas e Dantas? Deve ser a primeira vez na história em que alguém, na prática, sugere que o governo praticou extorsão e, em vez de um processo, ganha um lero-lero “institucional”.
Mainardi, vejam vocês, teve a ousadia, “neste país”, de interpelar o presidente da República. Já que o digníssimo se referiu ao conjunto dos textos de Veja tendo chamado seus autores de “bandidos” e “malfeitores”, é justo que venha a público dizer a quem estava se referindo. Que eu saiba, Diogo não rouba nem banana com Neston de seu caçula ou bolacha recheada do mais velho. Aith tampouco. Aliás, são jornalistas que não se empenham em roubar nem um pouquinho da caridade do petismo dominante na imprensa brasileira para se mostrar simpáticos às esferas influentes de opinião.
Lula não se dá bem com esse tipo de “mau-caráter”. Talvez prefira aquele que gosta de prestar servicinhos ao poder em troca de notinhas exclusivas.
A ação é movida pelo colunista da Veja. Até agora, o interpelado não respondeu. Fazendo-o ou não, o “querelante” (é você, Diogo, hehe...) pode dar seqüência à ação, insistindo para que o presidente seja responsabilizado civil e criminalmente pela agressão. Sua defesa vai tentar argumentar que ele não se referia a ninguém em particular, nem a Diogo nem a Aith... Bem, então teria sido a quem? Ao conjunto dos jornalistas? Só aos jornalistas de Veja? Apenas àqueles que não lhe fazem as vontades?
Interessante a ação. “Nunca antes neste país” se havia tratado este presidente como alguém responsável por aquilo que faz e fala. É protegido por uma bolha de inimputabilidade que vai da aritmética (sempre joga os números que lhe dá na telha) à política, desferindo golpes para todos os lados. É visto pelos jornalistas à moda como ele próprio vê os bandidos do PCC: segundo o Demiurgo, quando crianças, os pobrezinhos não tiveram a atenção merecida. Na cabeça do jornalismo, o petista é um “Marcola da sociologia”: como sua mãe nasceu analfabeta (uma fatalidade!), tudo lhe é facultado. O colunista, apropriadamente, lembrou que o homem tem, sim, suas responsabilidades. Ele não pode tudo. Nem tudo lhe é permitido.
Mas vá lá: digamos que Diogo roubasse banana amassada com Neston de seu caçula e bolacha de chocolate de seu mais velho. O Menas poderia ter com ele a tolerância que tem com os “quadrilheiros” da casa. Dia desses, Ricardo Berzoini, presidente do PT, disse que os ditos-cujos, que estão disputando eleições, merecem ser “julgados pelo povo”. Urna, na era petista, virou tribunal criminal. Faz sentido. O mensaleiro que for reeleito está absolvido. Não é possível que quem tunga dinheiro público, faz caixa dois (“coisa de bandido”, segundo Bastos) e superfatura contrato de estatal mereça palavras mais doces de quem pode, no máximo, roubar papa de bebê.
Estou curiosíssimo para saber a quem Lula se referia. Diogo não deve estar menos, uma vez que até moveu uma ação para ter direito a essa iluminação. Se Lula quiser, pode me chamar como testemunha contra o colunista da Veja: eu acuso Diogo de ter roubado o papel que cabia ao jornalismo político e de ter evidenciado com quantos puxa-sacos se constrói uma farsa de Luís Bonaparte. Eu o acuso de integrar um grupo de três ou quatro pessoas e veículos que ousaram, precocemente, desafinar o coro dos contentes.
[reinaldo@primeiraleitura.com.br]

Íntegra da petição do colunista Diogo Mainardi

Por: J. Montalvão

PETIÇÃO 3.668-9 DISTRITO FEDERAL

RELATOR: MIN. GILMAR MENDES

REQUERENTE(S): DIOGO BRISO MAINARDI

ADVOGADO(A/S): LOURIVAL JOSÉ DOS SANTOS E OUTRO(A/S)

REQUERIDO(A/S): LUIZ INÁCIO LULA DA SILVA

DECISÃO: Trata-se de pedido de explicações formulado por Diogo Briso Mainardi, com o objetivo de que o Excelentíssimo Senhor Presidente da República ofereça esclarecimentos quanto a afirmações que teria feito em entrevista concedida a jornalistas brasileiros na cidade de Viena, em viagem oficial à Áustria, as quais foram amplamente divulgadas na imprensa.
Afirma-se que a presente interpelação é medida cautelar preparatória de ação criminal, tendo por fundamento o art. 144 do Código Penal, e art. 25 da Lei no 5.250/67 (fl. 3). A par da consideração de que o pronunciamento do Presidente da República teria caráter ofensivo e potencialmente caracterizador de crime contra a honra, aponta-se o caráter dúbio das afirmações.
O Requerente formula o seguinte pedido:
“Assim, (...) requer seja o Exmo. Sr. Presidente da República compelido a explicar a que jornalista da revista Veja, especificamente, se referiu quando declarou que ‘não sei se o jornalista que escreve uma matéria daquelas tem a dignidade de dizer que é jornalista. Poderia dizer que é bandido, mau caráter, malfeitor, mentiroso’, posto que da matéria participaram o Requerente e o jornalista Marcio Aith”. (fl. 8)
A interpelação processa-se perante o mesmo órgão judiciário que é competente para julgar a ação penal principal em tese cabível contra o suposto ofensor. Tendo em vista que o suposto ofensor é o Presidente da República, o processamento desta interpelação compete ao Supremo Tribunal Federal.
Quanto à legitimação ativa, cabe registrar o seguinte pronunciamento do Plenário desta Corte em Agravo Regimental na PET no 1249 (Rel. Min. CELSO DE MELLO):
"LEGITIMIDADE ATIVA PARA O PEDIDO DE EXPLICAÇÕES EM JUÍZO. Somente quem se julga ofendido pode pedir explicações em juízo. A utilização dessa medida processual de caráter preparatório constitui providência exclusiva de quem se sente moralmente afetado pelas declarações dúbias, ambíguas ou equívocas feitas por terceiros. Tratando-se de expressões dúbias, ambíguas ou equívocas, alegadamente ofensivas, que teriam sido dirigidas aos Juízes classistas, é a estes - e não à entidade de classe que os representa - que assiste o direito de utilizar o instrumento formal da interpelação judicial. O reconhecimento da legitimidade ativa para a medida processual da interpelação judicial exige a concreta identificação daqueles (...) que se sentem ofendidos, em seu patrimônio moral (que é personalíssimo), pelas afirmações revestidas de equivocidade ou de sentido dúbio." (RTJ 170/60-61)
Assim, com base no precedente citado, determino seja notificado pessoalmente o requerido, para que preste, querendo, no prazo de quarenta e oito (48) horas, as explicações que reputar cabíveis, exclusivamente no que concerne ao interpelante.
Publique-se.
Brasília, 12 de junho de 2006.
Ministro GILMAR MENDES
Relator
* Fonte: Revista Consultor Jurídico

Foi-se o Lula de verdade; resta-nos o falso Bussunda

Por: Reinaldo Azevedo


Já havia escrito um outro texto para ser A Parte e O Todo desta edição. Fica para depois. Mudo para prestar uma homenagem a Cláudio Bessermam Vianna, o Bussunda, vitimado por um infarto fulminante. Era um grande sujeito e irmão de outro.
Bussunda foi capa da edição nº 20 da revista Primeira Leitura, de outubro de 2003, transcorridos apenas 10 meses do governo Lula, quando a maioria da imprensa vivia, então, em lua de mel com o governo. Era este o título da capa: “Este país é do casseta”, com o seguinte subtítulo ou “olho” (como se diz no jargão jornalístico) “A sátira política do Casseta & Planeta une todas as classes sociais do país e faz rir menos do que certo jornalismo que se quer sério. Bussunda, o ‘Lula’ da turma, é uma das estrelas do grupo que chega no mês que vem aos cinemas com o filme A Taça do Mundo É nossa: a ditadura e a esquerda como farsa”.
Cláudio Besserman Vianna, o Bussunda, era um homem notavelmente inteligente e, vejam vocês, um bom pensador que preferia ser humorista. Sérgio Besserman Vianna, que presidiu o IBGE no governo FHC, é uma das melhores cabeças do país e não deve nada ao irmão mais famoso em senso de humor. Mas sempre preferiu o rigor da política, da sociologia aplicada e da matemática. Ridendo castigat mores — rindo, moralizam-se os costumes — diz o busto do Arlequim. Essa bem poderia ser a divisa de Bussunda, que se vai precocemente, como qualquer ser humano que preste, ainda que viva mais de 110 anos: ele iria fazer 44.
A reportagem que assinei em companhia da jornalista Betina Bernardes, então na equipe da revista, evidenciava que o país se preparava para assistir a um dos mais vergonhosos espetáculos de adesismo do jornalismo político de que se tem notícia. Ao “jornalismo mentira” tomado como regra, opôs-se, então, o “humorismo verdade” do pessoal do Casseta & Planeta, que não perdeu nada do seu vigor, mesmo sendo uma das atrações da TV Globo, a emissora líder de audiência. O pessoal não se acomodou na fama e fez o devido trabalho de desconstrução da mitologia vagabunda que fermentava em torno de Lula (Clique aqui para ler reportagem). Bussunda também nos concedeu uma entrevista. E falou muito sério (Clique aqui para ler).
O país fica mais burro. Bem pensado, por que haveria de ser o contrário? Agora só falta a longevidade premiar os canalhas e levar os homens de bem. Bussunda era o imitador do presidente. Não é exagero dizer que o verdadeiro Lula morre junto com o humorista. Restou-nos um falso Bussunda, este sem nenhuma graça. A Sérgio, meu amigo, por quem tenho um afeto fraterno, à família de Cláudio e a seus amigos do Casseta & Planeta, o meu abraço triste e comovido.[http://www.primeiraleitura.com.br/html/institucional/faleconosco/reinaldo_azevedo.php]

terça-feira, junho 13, 2006

Caso exemplar

Por: O Globo (RJ)



Não estivesse o mercado de escândalos saturado, o caso das vendas superfaturadas de ambulâncias e equipamentos médicos para prefeituras teria repercutido mais junto à opinião pública. Um certo cansaço com o noticiário sobre golpes contra o erário e malfeitoria de políticos também contribuiu para que mais esse assalto aos cofres públicos ficasse em relativo segundo plano. E até permitiu que num primeiro momento o Congresso resolvesse, de forma no mínimo polêmica, deixar para o Ministério Público e a Polícia Federal o processamento das descobertas feitas pela PF na operação batizada com o sugestivo nome de sanguessuga.
Mas pressões internas e a avaliação óbvia de que a imagem do Congresso, já bastante atingida pela não condenação de mensaleiros notórios, ficaria ainda mais deteriorada fizeram com que a CPI dos Sanguessugas fosse aprovada.
A comissão herda rico acervo de informações da Polícia Federal sobre o esquema montado para aprovar emendas ao Orçamento destinadas a bancar essas compras superfaturadas. Tudo com a ajuda de políticos e assessores, e pelo menos uma alta funcionária do Ministério da Saúde - uma engrenagem movida à base de comissões.
O caso tem o tamanho de escândalo de primeira grandeza e é capaz de rivalizar com o dos anões do Orçamento, aqueles parlamentares que na década de 90 se especializaram em desviar dinheiro público para bolsos privados por meio de emendas.
Desta vez, a central do crime teria sido montada em Cuiabá, na empresa Planam, de Darci José Vedoin. O Ministério Público pediu ao Supremo Tribunal Federal que 15 deputados sejam investigados e já denunciou 81 pessoas, entre elas ex-parlamentares conhecidos: Carlos (Bispo) Rodrigues, Ronivon Santiago e o ex-presidente do INSS e ex-senador por Mato Grosso Carlos Bezerra. Rodrigues e Ronivon são dois dos 48 presos na operação da PF.
A ação dos sanguessugas demonstra como a criminalidade de colarinho branco se infiltra na vida política. Mais de mil ambulâncias passaram pela quadrilha. Calcula-se em no mínimo R$ 110 milhões o movimento financeiro da gangue. E o golpe pode ser muito maior, a julgar por auditorias em execução pela Controladoria Geral da União. Não havia mesmo como o Congresso lavar as mãos.

Seis, seis, seis. O número da Besta

Por: Eclesalia *
Adital - Por Xabier PikazaMuitas vezes, na Bíblia, os números têm um valor simbólico vinculado à ordem da criação, na perspectiva do tempo (sete dias, sete astros), do espaço (sete pontos cardeais) e da organização social (doze tribos...). Especial importância recebe o seis, relacionado com as obras de Deus e com os dias de trabalho da semana transcendidas no sábado, que está além de todo número (o sete é de Deus). Nesse sentido, humanamente falando, os judeus somente contam até seis, pois todas as coisas deste mundo são seis. O sete pertence a Deus. Por isso, não se junta com os seis anteriores, que são números humanos.
Uma parte considerável da especulação dos livros apocalípticos judeus (como os livros de Daniel, 1 Enoc e Jubileus) e, em especial, de alguns textos do Qumrán está relacionada com cálculos numéricos e fixação de tempos sagrados. No Novo Testamento, o livro que mais tem insistido nos números é o Apocalipse. Este é o sentido de alguns de seus números:
Um. Significa excelência e autoridade e pode ser aplicado a Deus (que É, Era e que Vem: Ap 1, 4.8) e a Cristo (Primeiro e último..: Ap 1, 17; 2, 8; 22, 13).
Dois. Implica cooperação, tanto positiva (nos profetas: Ap 11, 1-13) como negativa (nas bestas: Ap 13, 1-18).
Três e meio (= metade de sete) é o tempo que passa, momento breve de perseguição dos fiéis. Partindo de cálculos tomados de Dan 7, 25; 12, 7, João o identifica com um tempo (=ano), dois tempos e meio tempo: os 42 meses ou 1260 dias simbólicos da crise final (Ap 11, 9-13; 12, 14).
Quatro. É o mundo perfeito e perigoso: quatro são os Viventes do céu (4, 6.8; 5, 6 etc.), os cavalos destruidores da história (6, 1-8), os elementos cósmicos (8, 7-12; 16, 1-9), os ângulos do mundo com seus anjos e ventos (7, 1-3; cf. 9, 14-15; 20, 8), o mesmo que os cornos do altar (cf. 9, 13) e os ângulos ou muros da Cidade nova (21, 16).
Seis. É a imperfeição do mundo (do ser humano), que, opondo-se ao sete de Deus e de seu Messias, acaba encerrando-se a si mesmo em violência destruidora. É o número da Besta: 6.6.6 (Ap 13, 18) e do 6º imperador, que agora reina (após os cinco passados), sendo incapaz de permanecer, pois não pode tornar-se sete (cf. 17, 10-11).
Sete. É a plenitude divina que se expressa nos espíritos (Ap 1, 4; 3, 1; 4, 5; 5, 6), anjos (1, 20; 8, 2. 6), candelabros (1, 12.20; 2, 1), astros (1, 16.20; 2, 1), igrejas (1, 4.11.20) e nos cornos e olhos do Cordeiro, que refletem seu poder (5, 6). Sete são também os acontecimentos finais que marcam o juízo de Deus sobre o mundo: os selos (5, 1.5; 6, 1), as trombetas (8, 2.6), os trovões (10, 3.4) e as taças destruidoras (15, 1.6.7). Há também um sete negativo que se expressa nas cabeças do Dragão e da Besta (12, 2; 13, 1; 17, 3.7), nas colinas (de Roma) que formam o assento da Prostituta, nos reis perversos da história (17, 9) e, sobretudo, no 7º imperador, que permanece pouco tempo…, pois um sete humano é sempre perversão, é idolatria. Quando este imperador desapareça, voltará como oitavo um dos anteriores, porém Cristo o destruirá (17, 10-11).
Dez. É o número do poder perverso: os cornos do Dragão e da Besta (13, 3; 13, 1; 17, 3.7), os reis da terra (17, 12.16) e os dias de provação que Daniel e seus companheiros padecerão porque não aceitam a comida impura do império (2, 10). Opõe-se provavelmente ao doze da perfeição israelita e cristã.
Doze. Número perfeito dos Zeus, como mostram as estrelas da coroa da Mulher (12, 1), e da história messiânica, que se expressa pelos filos de Israel e pelos apóstolos do Cristo, vinculados aos anjos de Deus e aos cimentos e portas da Jerusalém perfeita (21, 12-14), com suas medidas e pedras preciosas (21, 16.21). Desde esse fundo devem ser entendidos seus múltiplos: os 24 Anciãos (dois vezes doce) que formam a corte de Deus (4, 4) e os 144.000 triunfadores (doze mil vezes doze mil) do Monte Sião (14, 1; cf. 7, 4).
Mil. É o signo de uma grande multidão (milhares de milhares formam a multidão incontável dos anjos 5, 11). Emprega-se de um modo especial para indicar o milênio: os anos do tempo de reino dos eleitos; frente ao breve três e meio da perseguição se eleva o mil de glória dos eleitos (20, 2-7).
Seis, seis, seis. Sentido básico do número
A partir do que se coloca anteriormente, pode-se interpretar melhor o Número da Besta, que é um número muito concreto, vinculado à vida econômica do império, à injustiça dos ricos. Assim, se diz que o Falso Profeta, que é a propaganda (filosofia, religiões, meios de comunicação), que se põem a serviço da primeira Besta, "também fez com que todos, grandes e pequenos, ricos e pobres, livres e escravos levassem gravada uma marca na mão direita ou na fronte. E somente quem levava gravado o nome da Besta ou a cifra de seu nome poderia comprar ou vender. Aqui se deve aplicar a sabedoria. Quem se sinta inteligente, tente decifrar o Número da Besta, que é o número humano: seis, seis, seis" (Ap 13, 16-18).
Esse é o texto básico, que continua nos fazendo pensar e sofrer. A identidade da Besta e o possível sentido cifrado de seu número (6-6-6) tem sido e continua sendo tema apaixonante de estudo e adivinhação para estudiosos e curiosos (especialmente para curiosos). Como veremos, em sua origem, deveria ser (e é) um número bastante fácil de entender para os cristãos das sete igrejas as quais se dirige o livro do Apocalipse (cf. Ap 2-3). O conhecimento desse número servia para manter o compromisso cristão: não era objeto de erudição abstrata, mas de experiência de cada dia.
Esse número da Besta não podia aludir a uma qualidade interior, ou a um pecado espiritual, pois vai associado a comprar e vender, no âmbito social e econômico. Não aludia tampouco a um acontecimento ou sucesso imprevisível que não se pode evitar, vinculado com a magia ou as aparições astrais, mas à vida social e está relacionado com o dinheiro (comprar e vender), pois aqueles que não levavam a marca da Besta (o seis.seis.seis) não podiam comercializar, nem enriquecer, nem tomar parte de sociedade dominadora dos favorecidos pelo poder romano (cf. Ap 13, 17). A coisa é muito simples: o mesmo dinheiro injusto, o comércio daqueles que se aproveitam do Sistema Romano para comprar e vender e enriquecer às custas dos pobres, é o Seis-Seis-Seis. Segundo esse raciocínio, os que venderam sua alma ao sistema romano levam o signo da Besta. No fundo, é o mesmo que está escrito em Mateus 6, 24 par: a Mamona é Satã objetivado.
Este é o grande paradoxo. Buscamos o número como se fosse algo externo, com grandes adivinhações e teorias esotéricas ou mágicas, como se aquele que soubesse decifrá-lo pudesse resolver problemas superiores. Pois bem, o Apocalipse diz tudo ao contrário: ainda que não queiram adverti-lo ou confessá-lo, todos os que "compram ou vendem" e enriquecem às custas dos pobres levam o número na mão ou na fronte, como se fosse sua carteira de identidade, seu passaporte. Os outros, os que não podem conseguir esse número (ou não querem levá-lo por honradez e opção cristã) estão condenados a ser uns parias, sem direitos, sem oportunidades, como os fiéis da igreja do Apocalipse.
Entendido dessa forma, esse número indica dinheiro e tudo o que se pode comprar por dinheiro: e a marca completa daqueles que assumem o sistema do império. Os fiéis de Jesus conhecem o número, não querem levá-lo, porque é o número da opressão. Esta é a realidade que está no fundo do tema: o Falso Profeta (2ª Besta) oferece a marca da Primeira Besta aos privilegiados da sociedade, para que possam comprar e vender, para bem comum do império (não dos pobres). Nessa linha deve-se entender o 6-6-6, o número mais simples, mais vulgar deste mundo mau: o número dos que se aproveitam do sistema e vivem às custas dos outros.
Recordemos que o império romano quis apresentar-se como primeira sociedade global, capaz de oferecer meios de comunicação entre tribos, povos, línguas e nações (cf. Ap 13, 7). Aparecia como milagre de convivência, âmbito de paz para os homens. Não era uma Nação-estado, mas o Estado-império onde cabiam todas as nações, cada uma com sua própria identidade e diferenças. Esse foi seu "milagre", aquilo que nunca se havia conseguido sobre o mundo, de tal forma que muitos veneraram a Roma como Deusa, como revelação de Deus na história. Por isso, seu Número e signo devia ser a eternidade: a Roma Eterna, sentada no trono das grandes águas (cf. Ap 17, 3). Pois bem, contra essa divinização, resistem e protestam os cristãos, contra ela se eleva o Apocalipse, mostrando através desse Número que, no fundo, Roma não é mais do que um signo de impotência e morte, um número incapaz de oferecer plenitude e salvação aos homens. Os romanos acreditavam-se enviados por Deus (pelos deuses) para fundar e expandir sua ordem divina sobre o mundo, de maneira que eles deveriam ser 7-7-7 (como os astros do céu, como a semana sagrada, como Deus). Contra isso, os cristãos sabem que o número de Roma é um simples 6-6-6, o número de uma criatura má, que quer divinizar-se, oprimindo aos demais, porém que acabará por destruir-se.
Há mais segredos? Decifrar o Número
A identidade básica do número da Besta (seis.seis.seis) é a que acabamos de indicar: é um número de injustiça e morte. Em sentido estrito, nosso argumento poderia terminar aqui. Porém, no mesmo livro do Apocalipse e com a tradição posterior, podemos dar um passo a mais. É muito provável que o próprio autor do livro e seus ouvintes e leitores mais antigos tenham querido jogar com esse número, de um modo humorista, em voz baixa, para consolar-se: este não é um número para dar medo, pelo contrário, é para tirar o medo. É um número para dizer aos cristãos e aos pobres: não se preocupem; esse mesmo imperador que parece divino, esse mesmo império que acredita ser Deus, não são do que simples criaturas impotentes, condenadas à morte.
A partir dessa visão, a questão da identidade mais concreta do Número (666, 6-6-6), aplicado ao nome de algum imperador, torna-se secundária. O importante era o anterior: o seis.seis.seis é a expressão da impotência do império divinizado. Partindo disso, muitos cristãos puderam aplicar em voz baixa esse número a algum dos imperadores, alegrando-se com isso, pois, ao identificar o império/imperador com esse número, estavam dizendo que este tinha os dias contados, que já estava próximo o tempo da libertação dos pobres.
Parece que naquele tempo se podia interpretar sem dificuldade; e mais, é possível que se pudesse aplicar de diversas maneiras, conforme os métodos de gematria (sistema criptográfico que consiste em atribuir valores numéricos às letras), comum naquele tempo. Sem dúvida, seu sentido está relacionado com a lista de reis (imperadores) que, partindo do modelo oferecido por Dan 7, 25-27, o mesmo autor do Apocalipse esboçou mais tarde em seu livro (Ap 17, 11-14). Trata-se de um Número que pode ser calculado seguindo vários modelos de gematria, como faziam, naquele tempo, judeus e helenistas: cada número é uma letra e vice-versa, de maneira que o conjunto pode ser decifrado como código cifrado... A riqueza do tema (e, para alguns, o problema) começa quando se quer dividir 666 (ou 606, segundo outros manuscritos) em possíveis cifras inferiores, utilizando o alfabeto grego ou hebreu (aramaico) para calcular a soma ou sentido de conjunto. As combinações e leituras propostas desde antigamente são variadas e não concordantes. As mais significativas são: Titã Latino, Nero César, Caio (=Calígula) César... Porém, nenhuma conseguiu convencer à comunidade dos sábios exegetas, o qual significa que o segredo se perdeu com o autor e com os destinatários do livro...; ou que não havia tal segredo, pois deixava-se que cada um buscasse as aplicações, sabendo todos que o seis.seis.seis é a expressão e anúncio da queda de um tipo de império destruidor, que eleva os ricos-comerciantes passando por cima dos pobres e que mata os inocentes. Um império desses não pode persistir; esse império é um simples seis.seis.seis… e seu representante pode ser Nero, Calígula… ou simplesmente Roma, imperadores e cidade condenada à morte, para o bem dos pobres do mundo.
É possível que o autor do Apocalipse tenha querido deixar em aberto o tema do sentido concreto do Número. Querendo indicar que se trata somente de um signo e de um número que é puramente humano, finito. Recordemos de novo o sentido de alguns números. A plenitude é Quatro (há quatro viventes, ventos, elementos: Ap 4, 8; 7, 1; 20, 28); a revelação escatológica é Sete (há sete espíritos, candelabros, astros): o número de prova é Três e meio (metade de sete), com seus equivalentes (42 meses, 1260 dias). Assim, o Número do império perverso (que parece divino, porém tem pés de barro manchados de sangue: cf. Dan 2) é um seis repetido, que nunca chega a Sete, que nunca pode alcançar a plenitude.
Por isso, quando dizemos seis.seis.seis… podemos continuar incluindo números de "seis" até o infinito (a repetição tripla do "seis" é indicação de algo que se pode continuar dizendo sem fim). Isso significa que Roma não é Quatro (não é o Cosmos inteiro), nem é Sete (não é Deus). Roma é um simples seis repetido, impotente; um "seis" que destrói àqueles que se apóiam em sua força brutal, porém desumana, em sua riqueza imensa, porém sangrenta. Este é o número daqueles que põem sua segurança no Império, entregando-lhe sua liberdade humana. Os cristãos mais simples sabiam disso e o sabem. Ao contrário, os investigadores ou curiosos que buscam com imensa erudição o sentido mais oculto desse número, podem estar repetindo-o ao longo de toda sua vida sem perceber que põem ter caído sob o poder do 6-6-6, que é a impotência e a violência da finitude; que é a injustiça da história humana. Aqueles que se tornam ricos às custas do medo do seis.seis.seis caíram em sua armadilha. Os que querem se converter o seis.seis.seis em objeto de magia ou de cálculos curiosos perdem seu tempo.
Por isso, todos aqueles que, de um modo ou de outro, querem aplicar o seis.seis.seis a um dia concreto (como o seis de junho de 2006) estão contra a Bíblia cristã. Podem saciar uma curiosidade, porém seu gesto não tem nada a ver com o Evangelho do Apocalipse de João.
* Ciberiglesia, Burgos

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