“Insegurança é uma das palavras-chave para descrever o Brasil de hoje. São poucos os locais neste País em que alguém se sinta seguro.” Assim escreve, com precisão cirúrgica e melancolia embutida, o tributarista Everaldo Maciel — e sua frase paira como um epitáfio provisório sobre o presente. Porque, embora os números murmurem uma ligeira melhora, o país permanece acuado, olhos sempre em sobressalto, como quem caminha na beira de um abismo que não se vê, mas que se sente. Em 2023, os homicídios caíram para o menor número em 11 anos. Mas a frieza dos dados não aquece os corpos nem acalma os espíritos. A insegurança, no Brasil de agora, não é uma ocorrência: é um estado de ser.
O medo, no Brasil, não se anuncia com alarde. Ele infiltra-se nos poros, habita os silêncios, contamina os gestos mais banais. Ir e vir — o direito — converte-se em cálculo, em mapa mental de rotas alternativas, em estratégia de sobrevivência. Sessenta e cinco por cento dos brasileiros dizem temer andar à noite. Trinta e nove por cento dizem temer muito. Mas o que essas porcentagens não revelam é que o medo já deixou de ser exceção noturna: tornou-se luz diurna, hábito incorporado, uma segunda pele.
Há, nessa paisagem, um esgar permanente, como se o país inteiro tivesse desaprendido a relaxar os ombros. A insegurança, enquanto estrutura, é filha dileta da desigualdade e da indiferença. A sociologia de Ulrich Beck ajuda a compreender: vivemos em uma sociedade de risco, onde o perigo deixou de ser um acidente e se tornou norma. O Brasil não é mais apenas o território da violência pontual, mas o campo simbólico da ameaça constante. Aqui, a insegurança é ao mesmo tempo substância e símbolo.
E essa substância se converteu em pauta. A política já não se organiza em torno de projetos de futuro, mas em torno da urgência do medo. O medo é o novo programa de governo, a nova moeda de troca. E mesmo assim, tudo parece insatisfatório. As reformas propostas arrastam-se entre gabinetes, a centralização da segurança pública é uma promessa perene, e a confiança da população dissolve-se como sal grosso sob a chuva. No pano de fundo, a perplexidade: o Estado, afinal, serve a quem?
A mídia — essa narradora onipresente da tragédia cotidiana — alimenta a engrenagem com disciplina e espetáculo. Em nome da informação, ela constrói uma topografia de horrores, onde cada esquina pode ser a última. O medo vira vício e linguagem. E assim, uma “cultura do medo” se instala como ideologia difusa, justificação para o autoritarismo e o apelo por soluções fáceis, embora cruéis.
Por fim, talvez devêssemos dizer que a insegurança no Brasil não é uma anomalia: é o sintoma mais fiel de um projeto inacabado de país. Enquanto o medo for o cimento das relações sociais, nenhuma estatística de queda de homicídios será suficiente. A política que se espera é a que desfaz os alicerces dessa sensação contínua de ameaça. Segurança não se impõe — se constrói. Com justiça. Com presença pública. Com política social. E, sobretudo, com uma política de segurança pública baseada em técnica, expertise e recursos de informação e inteligência policial — que não atue por espasmos repressivos, mas com planejamento, diagnóstico e compromisso com o Estado Democrático de Direito. E finalmente, com coragem para imaginar um país onde não se tema viver.
Paulo Baía em 19 de maio de 2025 em Cabo Frio/RJ.