
Charge do Ivan Cabral (ivancabral.com)
Pedro do Coutto
O xadrez político em Brasília ganhou novos contornos com os sinais cada vez mais evidentes de afastamento do Centrão em relação ao governo do presidente Lula da Silva. A reportagem de Renata Agostini, publicada por O Globo, revela que líderes do bloco já discutem abertamente a possibilidade de romper a aliança com o Executivo e buscar novos caminhos para as eleições de 2026.
Embora esse movimento possa ser interpretado como mais um episódio do fisiologismo que marca a história política recente do país, o recado não deixa de ser contundente: Lula pode estar perdendo o controle da base que sustentou sua governabilidade até aqui.
INTERESSES – O Centrão nunca foi um aliado por afinidade ideológica. Sua adesão a qualquer governo sempre se deu por interesse, traduzido em cargos, verbas e espaços de influência. Desde o início do terceiro mandato de Lula, a expectativa desse bloco era de uma fatia considerável do orçamento e de postos-chave da administração federal. A demora no atendimento dessas demandas, somada ao crescimento da rejeição popular ao governo, parece ter acendido o alerta vermelho entre as lideranças do grupo.
O estopim mais recente foi a tentativa do governo de elevar as alíquotas do IOF (Imposto sobre Operações Financeiras), anunciada na última semana. A resposta do Congresso foi imediata e articulada: tanto deputados quanto senadores preparam uma ofensiva para barrar a medida, evidenciando que o ambiente de lealdade dentro da base governista já não é mais o mesmo. Trata-se de um gesto simbólico, mas com impacto direto na autoridade presidencial e no controle da pauta econômica.
Há, ainda, um componente eleitoral em jogo. O Centrão, com sua capacidade de leitura pragmática do cenário político, avalia que manter uma aliança com um governo em declínio de popularidade pode representar um custo alto demais nas urnas. Com a aproximação de 2026, as legendas que compõem o bloco — como União Brasil, PP, PSB e MDB — sabem que precisam construir uma narrativa própria, distanciada de um Executivo que começa a se tornar alvo preferencial da oposição.
DUPLA FUNÇÃO – Nesse contexto, a movimentação do Centrão tem dupla função. De um lado, serve como aviso ao Palácio do Planalto de que há um preço a pagar pela manutenção da aliança. De outro, é uma tentativa de reposicionamento estratégico, buscando preservar a força do bloco em uma eventual nova composição de poder. Não se trata, necessariamente, de um rompimento definitivo, mas sim de uma reconfiguração dos termos da parceria.
O governo, por sua vez, enfrenta um dilema: ceder mais espaço ao Centrão pode significar ampliar sua base de apoio e reduzir o risco de derrotas legislativas, mas também representa um custo político e simbólico. Afinal, ao ampliar concessões, Lula corre o risco de aprofundar a percepção de que seu governo é refém do pragmatismo congressual, afastando setores de esquerda que esperavam uma gestão mais programática e ideológica.
A situação é particularmente delicada porque se insere em um cenário mais amplo de erosão da autoridade presidencial. As dificuldades na articulação política, o controle instável da pauta legislativa e a pressão por resultados econômicos mais concretos criam um ambiente de vulnerabilidade. O movimento do Centrão apenas potencializa essa crise, tornando mais difícil qualquer tentativa de retomada do protagonismo por parte do Executivo.
RECONFIGURAÇÃO – Além disso, essa reconfiguração da base pode abrir espaço para o surgimento de novas candidaturas de centro-direita com apoio parlamentar robusto. A antecipação do calendário eleitoral, impulsionada pelas incertezas dentro da própria base governista, tende a fragmentar ainda mais o já complexo sistema partidário brasileiro. O Centrão, nesse cenário, pode se tornar o fiel da balança, oferecendo suporte a quem melhor atender seus interesses, independentemente de ideologia.
Lula, experiente em lidar com o Congresso, sabe que enfrentará um teste crucial nos próximos meses. A capacidade de recompor sua base, oferecer estabilidade política e, ao mesmo tempo, sustentar seu projeto de governo será determinante para o futuro do mandato — e, possivelmente, para o desfecho das eleições presidenciais de 2026. A inércia, neste momento, pode ser fatal.
O que está em jogo não é apenas a fidelidade do Centrão, mas a própria governabilidade. E quando os aliados começam a negociar o valor do apoio em praça pública, é sinal de que o prato principal já está sendo servido em outra mesa.