Jeremoabo: A Amarga Realidade da Cobrança Unilateral e da Cidadania Seletiva
A experiência de quem já trilhou os caminhos da gestão e da representação popular em Jeremoabo – seja como secretário em duas ocasiões, vereador por seis anos ou na trincheira da oposição por décadas – oferece uma perspectiva crua e desiludida sobre os desafios de governar o município. A constatação, por mais dolorosa que seja, é de que a figura do gestor, para ter sucesso nesta terra, necessita de uma polivalência quase sobrenatural, de uma capacidade de operar milagres diante de uma população que, frequentemente, demonstra uma notável unilateralidade em suas demandas e obrigações cívicas.
O clamor popular por melhorias é constante, a lista de pedidos extensa. No entanto, a contrapartida essencial para o bom funcionamento da sociedade e para o sucesso de qualquer administração – o cumprimento do papel de cidadão – parece, em muitos casos, ser exercida de forma seletiva ou, pior, ignorada por completo.
O flagrante e recorrente problema do lixo nas ruas de Jeremoabo é um retrato visceral dessa desconcertante realidade. O serviço de coleta, segundo relatos, opera regularmente, mas a cena de resíduos espalhados pelas vias públicas persiste, teimosamente. A quem debitar essa mazela? A uma gestão omissa? Aos olhos de quem já esteve do outro lado da trincheira, a resposta é clara e incômoda: a culpa reside, em grande parte, na falta de cooperação da própria população. Jogar lixo na rua, desrespeitando horários de coleta e a normas de higiene e civilidade, para depois vociferar contra o prefeito, é um exercício de hipocrisia e de conveniente terceirização da responsabilidade.
O imbróglio do transporte na Rua Duque de Caxias é outro exemplo gritante dessa disfuncionalidade cívica. Comerciantes que não cumprem sua parte em organizar o espaço público, em garantir a fluidez do trânsito e a segurança dos pedestres, são os mesmos que, posteriormente, engrossam o coro das críticas contra o chefe do executivo. A cobrança recai sobre o gestor, como se ele fosse o único ator responsável pela ordenação da cidade, enquanto a parcela de responsabilidade individual é convenientemente esquecida.
Infelizmente, em Jeremoabo, parece que o exercício pleno da cidadania e da civilidade só se manifesta sob o peso da pressão, quando a iminência de uma penalização se apresenta. A colaboração espontânea, o respeito às leis e a compreensão das dificuldades da gestão parecem ser virtudes escassas, acionadas apenas pelo temor da sanção.
É neste cenário complexo e, por vezes, frustrante que os secretários municipais precisam atuar com rigor e dentro da estrita legalidade, evitando qualquer tipo de arbitrariedade. A lei deve ser o norte da ação administrativa, mas a sua efetividade esbarra, invariavelmente, na falta de engajamento e na postura omissa de uma parcela da população.
Portanto, a mensagem é clara e direta: enquanto o povo de Jeremoabo não internalizar seu papel fundamental na construção de uma cidade melhor, enquanto a cobrança ao poder público não vier acompanhada do cumprimento das próprias obrigações cívicas, as críticas infundadas nas redes sociais e nos microfones das rádios soarão vazias e hipócritas. Direito tem quem direito anda. E em Jeremoabo, o caminho para uma gestão eficaz passa, inegavelmente, pela conscientização e pela corresponsabilidade de cada cidadão.
