sábado, novembro 18, 2023

A economia esfriou no terceiro trimestre, mas ainda há condições de virar esse jogo

Publicado em 18 de novembro de 2023 por Tribuna da Internet

Charge do Quinho (Twitter)

Vinicius Torres Freire

A economia brasileira desaqueceu no terceiro trimestre, a julgar pelos dados disponíveis. Não parece dramático nem imprevisto. Há até fumaça de possíveis boas notícias. Mas parece que o tempo do PIB, ao menos, esfriou. Quanto a sinais de alívio, ressurgiu a perspectiva de que o aperto financeiro (juros altos etc.) nos Estados Unidos pare por aqui, dada a queda da inflação deles.

Faz mais de ano, o humor com os EUA tem variado muito, com paniquitos e pequenas euforias, como a desta terça-feira. Mas a perspectiva agora é mais benigna, embora um nível mais alto de juros no mundo ainda seja a expectativa para os próximos anos, o que nos afeta também (taxas maiores aqui, menos influxo de capital etc.).

PODE-SE RECUPERAR – Dá para melhorar, com remédio caseiro. Aprovar a reforma tributária. Não chutar o pau da barraca, que é a meta fiscal, meta que sustenta um arcabouço fiscal meio fraquinho. Ter um plano inteligente de desenvolvimento “verde”.

E daí que se derramou o leite do terceiro trimestre? Dá para pensar no que fazer, no curto prazo, e principalmente no que não fazer, como se sugere mais acima.

O setor de serviços cresceu 0,4% no terceiro trimestre em relação ao anterior, quando crescera 0,5%. Poderia ser o bastante para manter o PIB no azul, excluído o desempenho da agropecuária, que tende a vir no vermelho —e corre risco com um El Niño e uma El Niña na sequência.

COMÉRCIO E INDÚSTRIA – As vendas do comércio não cresceram (houve alta de 1,7% no trimestre anterior). A produção da indústria também ficou estagnada (alta de 0,4% no segundo trimestre). São contas feitas com base nos dados do IBGE. Os números não são tão completos quanto os do PIB, que será divulgado em 5 de dezembro, note-se.

O total de salários (“massa de rendimentos”) ainda cresce. Mas taxas de juros bancários altas, ora caindo mui ligeiramente, complicaram vendas de bens duráveis, que dependem de crédito.

O crédito, no caso o total de dinheiro emprestado via bancos, anda de lado, se tanto. Mas a inadimplência das pessoas físicas tem caído faz alguns meses, de leve. O desemprego continua baixo, em termos históricos, e salários não têm pressionado a inflação, aparentemente crescendo abaixo da produtividade.

CAI O INVESTIMENTO – Mais preocupante é a queda do investimento, as despesas em novas máquinas, equipamentos e em construção civil. O instituto federal de pesquisa econômica, o Ipea, tem um indicador de desempenho do investimento, “formação bruta de capital fixo”. No trimestre encerrado em agosto, dado mais recente, caiu 2,7% (depois de baixa de 0,2% no trimestre até julho e quase estagnação no trimestre até junho).

Juros altos, bidu, e incerteza quanto à economia doméstica e internacional fizeram estrago.

Quanto aos ânimos das empresas, parece ter havido alguma melhora a partir de junho, ao menos a julgar pelas captações no mercado de capitais. São empréstimos via títulos de dívida, como debêntures, e venda de ações, grosso modo; é dinheiro usado em capital de giro, investimento, melhora da dívida etc.

PODE  MELHORAR – O ano havia sido horrível até maio, com média mensal de captação de R$ 21,5 bilhões, graças ao efeito de trambiques como o das Americanas, entre outros problemas em empresas, e por causa da taxa de juros, claro. De junho a setembro, a captação média mensal foi a R$ 45,8 bilhões. Os dados são da Anbima.

Ainda se está muito longe dos anos de 2019 a 2022, alguns muito excepcionais, decerto. Quanto a novas ofertas de vendas de novas ações (“IPOs”), a seca continua, mistura de incerteza com ações valendo pouco.

Trata-se aqui apenas de curto prazo, do período daqui a um ano. Trata-se do jogo, não do campeonato. Dá para virar a partida. Mais importante é não fazer gol contra.

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