O inesperado sucesso dos socialistas nas eleições portuguesas antecipa um roteiro desenhado para o Brasil: ao votar, o eleitor simplesmente esquece os escândalos do passado.
Por Duda Teixeira (foto)
Engenheiro com uma longa carreira no Partido Socialista, o PS, José Sócrates governou Portugal como primeiro-ministro entre 2005 e 2011. Já fora do poder, em novembro de 2014 ele foi preso no aeroporto de Lisboa, ao voltar de uma viagem a Paris. Foi acusado de corrupção, fraude fiscal, lavagem de dinheiro e falsificação de documentos na investigação que ficou conhecida como Operação Marquês, uma espécie de Lava Jato portuguesa. Solto após passar nove meses no cárcere, Sócrates hoje aguarda o julgamento das duas acusações que foram aceitas pelo juiz. Segundo os investigadores, ele recebeu 1,72 milhão de euros (10 milhões de reais, em valores atualizados), uma parte em malas de dinheiro, ao cabo de transações com amigos empresários que tinham negócios com o poder público.
Qualquer semelhança com os peixes graúdos da política brasileira fisgados em operações anticorrupção nos últimos anos não é mera coincidência. Alguns dos casos envolvendo Sócrates tinham conexão direta com personagens também pilhados em transações suspeitas do lado de cá do Atlântico, durante os governos do PT – o ex-primeiro-ministro, aliás, é amigo do peito de Lula. O histórico de suspeitas envolvendo uma das principais cabeças do PS português, contudo, está longe de se refletir no desempenho do partido nas urnas. Muito pelo contrário. Nas eleições do último fim de semana, a legenda de Sócrates surpreendeu e obteve nada menos que 117 das 230 cadeiras no Parlamento. Com isso, governará o país com maioria absoluta. Em Portugal, os escândalos parecem não incomodar os eleitores na hora do voto. De novo, qualquer semelhança não é mera coincidência: no Brasil, Lula lidera as pesquisas de intenção de voto, a despeito das suspeitas sobre ele e seu partido.
No caso português, há várias explicações possíveis para o fenômeno. Nas pesquisas de opinião, os eleitores até se dizem preocupados com a corrupção. O assunto costuma entrar na pauta do dia a dia. Os portugueses gostam de tratar do tema e consomem avidamente as notícias sobre prisões e julgamentos dos políticos envolvidos em malfeitos. Em abril do ano passado, uma parcela significativa da população acompanhou ao vivo, pela televisão, o juiz Ivo Rosa anunciar, ao longo de três horas e meia, quais das 31 acusações feitas pelo Ministério Público contra José Sócrates iriam a julgamento. Embora o socialista, de 64 anos, tenha conseguido se livrar da maioria delas, os casos foram revisitados em prosa e verso e reavivaram os escândalos na memória do eleitorado. A menos de um ano das eleições, seria natural se tudo aquilo tivesse impacto no resultado das urnas. Sócrates não foi inocentado. Nos casos em que o processo não seguirá adiante, o juiz entendeu que o Ministério Público não conseguiu reunir provas suficientes para demonstrar que os recursos suspeitos que ele recebeu tinham conexão direta com decisões de governo. Por essa razão, acusações como a de que ele teria embolsado propinas de companhias como o Grupo Lena, parceiro da brasileira Odebrecht, e a Portugal Telecom, que comprou a operadora brasileira Oi, foram para o arquivo.
Uma pesquisa feita com 1.020 portugueses no ano passado mostrou que eles acham que 69% dos políticos são corruptos. No entanto, quando indagados sobre quanto esse problema afeta suas vidas, 73% responderam que não viam interferência nenhuma. Só um em cada quatro entrevistados disse que a corrupção lhe trazia alguma consequência pessoal. A pesquisa também procurou entender por que os portugueses costumam escolher candidatos envolvidos em desvios. A resposta mais comum foi a de que eles preferiam votar nos nomes dos seus partidos, sem se importar com suas fichas sujas. Outras respostas repetidas foram “a Justiça não funciona”, “rouba, mas faz”, “gratidão”, “todos são corruptos” e “integridade não é prioridade”.
O voto em corruptos – ou em partidos onde há suspeitos de corrupção – encontra explicação na psicologia. “As pessoas escolhem seus candidatos principalmente porque veem neles algumas coisas em que acreditam, suas ideias, valores e crenças. Mas essa escolha é bastante intuitiva e pouco racional, parecida com a dos torcedores de times de futebol”, diz o psicólogo Francisco Miranda Rodrigues, presidente da Ordem dos Psicólogos de Portugal. O caráter duvidoso de um candidato pode ser um empecilho menor se a sua orientação política ou o seu partido forem os mesmos do eleitor. Além disso, esse defeito pode ser facilmente contornável a depender dos valores reais que os eleitores trazem consigo. Um indivíduo pode esbravejar contra a corrupção em um bar, mas no fundo achar que o delito cometido não é tão grave assim, que todo mundo de certa forma faz aquilo, ou que ele próprio poderia cometê-lo em situação parecida. “O conceito do que as pessoas entendem por corrupção varia muito, dependendo do contexto social e cultural. Comportamentos que são condenados publicamente muitas vezes podem ser aceitos no plano privado e, por isso, não geram uma rejeição nas urnas”, diz Rodrigues.
Outra explicação para o fato de os eleitores deixarem de lado as suspeitas de corrupção na hora de votar é o surgimento de outros temas considerados mais urgentes, que eles consideram impactar mais em suas vidas – como saúde e economia em tempos de pandemia, por exemplo. Nas eleições portuguesas, a maior parte dos partidos se concentrou nessas questões. O único que priorizou o tema da corrupção foi o Chega, de extrema-direita, que espalhou outdoors nas ruas com o rosto de José Sócrates, em preto e branco, e a palavra “vergonha”. A agremiação levou apenas 7% dos votos.
“A corrupção tende a perder relevância porque é um tema batido, recorrente, sem novidade. Com isso, outras discussões mais provocantes ganham maior destaque. Nos momentos cruciais da última campanha, por exemplo, os portugueses só queriam saber da foto que um dos candidatos postou do seu gato”, diz a cientista política Patrícia Calca, da Universidade de Lisboa, que participou de um estudo sobre a percepção da corrupção.
Se há semelhanças entre o caso português e o brasileiro, há também uma diferença a ser levada em conta na comparação. Alguns fatores impediram que os escândalos de José Sócrates manchassem o Partido Socialista. Enquanto aqui o PT continuou submisso a Lula e deve anunciá-lo oficialmente como candidato, o PS se afastou de Sócrates após as denúncias. O maior responsável por essa separação foi António Costa, atual primeiro-ministro, que em 2005 ocupou o cargo de ministro de Estado e Administração Interna no governo do correligionário enrolado. “António Costa criou um cordão sanitário para isolar José Sócrates. Ele não fala sobre o assunto e, quando perguntam, diz que esse é um problema da Justiça”, diz o cientista político Francisco Pereira Coutinho, da Escola de Direito Nova, em Lisboa.
Desde que saiu do governo, há onze anos, Sócrates não ocupa cargos públicos. Em 2018, um ano antes das eleições legislativas, ele se desligou do PS fazendo críticas ao partido, após 37 anos de filiação. Disse que a agremiação o tinha abandonado. Faltando menos de dez dias para a última eleição, disse em uma entrevista que “quem quer uma maioria absoluta (no Parlamento) talvez devesse começar por não desmerecer a única que o Partido Socialista teve na história”, referindo-se ao seu mandato. A aparição de Sócrates às vésperas do pleito levou analistas portugueses a cogitar que isso espantaria os eleitores do PS. Sua figura poderia ser tão fantasmagórica quanto a de Dilma Rousseff para a campanha atual do PT. Mas não foi o que aconteceu. Os portugueses mal prestaram atenção.
Surpreendentemente, o ex-ministro parece estar recebendo mais atenção em veículos brasileiros, onde comenta com desenvoltura o resultado das últimas eleições portuguesas e faz previsões sobre o Brasil. Quando fala com jornalistas de cá, ele tenta emplacar a narrativa de que a Operação Marquês cometeu abusos, assim como, na sua opinião, a Lava Jato teria perseguido Lula. Tenta se mostrar merecedor da liberdade, assim como o amigo petista obteve a sua. Enquanto Lula foi condenado e deixou a prisão aproveitando-se das idiossincrasias da Justiça brasileira, Sócrates ainda aguarda sentença nos tribunais portugueses.
Revista Crusoé