sábado, fevereiro 05, 2022

Evaristo de Miranda e Embrapa Territorial na mira da “inquisição verde”

 




Por Geraldo Luís Lino

Há anos, o engenheiro agrônomo e doutor em Ecologia Evaristo de Miranda (foto) e sua equipe da Embrapa Territorial, da qual foi um dos fundadores, têm sido proverbiais pedras nos sapatos dos porta-vozes brasileiros do catastrofismo ambiental. O seu “pecado”: contestar com dados do mundo real os cenários apocalípticos sobre uma apregoada “devastação ambiental” no País, em especial, nos biomas Amazônia e Cerrado, que alimentam as insidiosas pautas intervencionistas do aparato ambientalista-indigenista em sua agenda permanente contra o desenvolvimento nacional.

O ataque mais recente veio de um grupo de 12 cientistas vinculados ao aparato ambientalista-indigenista, com um artigo que será publicado na edição de fevereiro da revista Biological Conservation, mas cujo conteúdo foi devidamente antecipado para dar-lhe a necessária publicidade midiática. No texto, intitulado “O risco de falsas controvérsias para as políticas ambientais brasileiras”, os autores acusam Miranda e sua equipe da Embrapa Territorial de “fabricar falsas controvérsias com o intuito de afrouxar as leis e normas para a proteção do meio ambiente no Brasil”, como sintetizou um artigo publicado no sítio da revista piauí (25/01/2022), que, em março de 2021, já havia publicado um alentado ataque a Miranda (“O fabulador oculto”).

Os 12 autores são: Raoni Rajão (Universidade Federal de Minas Gerais-UFMG); Antonio Donato Nobre (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais-INPE); Evandro Cunha (UFMG); Tiago Ribeiro Duarte (Universidade de Brasília-UnB); Camilla Marcolino (UFMG); Britaldo Soares-Filho (UFMG); Gerd Sparovek (UFMG e Universidade de São Paulo-USP); Ricardo Rodrigues (USP); Carlos Valera (Universidade Federal de Santa Catarina-UFSC); Mercedes Bustamante (UnB); Carlos Nobre (INPE); e Letícia Santos de Lima (UFMG e Universidade Autônoma de Barcelona).

Previsivelmente, o artigo teve ampla repercussão na mídia nacional, invariavelmente, sob a ótica negativa com que o jornalismo em geral costuma tratar das questões ambientais. Alguns exemplos:

– UOL, coluna de Rubens Valente (25/01/2022): “Estudo mostra como ‘falsas controvérsias’ do governo afetaram meio ambiente”;

– Valor Econômico (25/01/2022): “Cientistas apontam ‘falsas polêmicas’ da Embrapa”;

– O Estado de S. Paulo, coluna de João Lara Mesquita/Mar sem fim (26/01/2022): “Evaristo de Miranda, guru ambiental de Bolsonaro, é acuado por grupo de cientistas”;

– G1/Globonews (26/01/2022): “Informações divulgadas pela Embrapa prejudicaram leis ambientais.”

Um exemplo de cabotinice foi o sítio ambientalista Conexão Planeta (27/01/2022), que publicou uma nota intitulada “Em artigo publicado em revista científica, 12 importantes cientistas brasileiros denunciam ‘guru ambiental’ de Bolsonaro”. No texto, Evaristo de Miranda é descrito como detentor de um “currículo pífio”. A qualificação é um tanto questionável para quem tem um mestrado e um doutorado em Ecologia (Universidade de Montpellier, França), é pesquisador da Embrapa desde 1980 e tem desenvolvido um importante trabalho de divulgação sobre temas ligados à agricultura e o meio ambiente em geral, sempre com um enfoque objetivo, racional e sem concessões ao alarmismo “politicamente correto” – motivo maior da contrariedade raivosa que desperta em seus detratores.

No artigo, os autores batem na mesma tecla depreciativa:

    (…) Desde 1982, o Dr. Evaristo de Miranda produziu em média apenas um artigo científico a cada 3,8 anos. Ele é o primeiro autor de apenas três desses dez artigos, todos publicados antes de 1994 e apenas um publicado em uma revista com fator de impacto considerável… Mas o mais importante é que nenhum dos dez artigos científicos indexados e revisados por pares listados no CV [curriculum vitae] de Miranda proporcionou os detalhes metodológicos do seu trabalho relacionado ao Código Florestal e outras controvérsias, restando apenas relatórios internos, vídeos no YouTube ou capítulos de livros não revisados por pares. (…)

A linguagem e os argumentos descritos no artigo da Biological Conservation denotam a evidente pretensão dos autores de se apresentarem como guardiões de um alegado rigor científico, contra o qual qualquer contestação implicaria em “falsas controvérsias” apresentadas pelos discordantes da “ortodoxia” alarmista prevalecente. Em outras palavras, atuando como uma “Inquisição científica” de coloração esverdeada, completa com o seu “índex” de autores proibidos.

O resumo (Abstract) do trabalho é revelador:

    Falsas controvérsias falsas têm influenciado a formulação de políticas nos temas de saúde e ambientais durante décadas, resultando em importantes retrocessos de implementação em todo o mundo. Como um estudo de caso, neste artigo, nós examinamos controvérsias falsas produzidas por um pequeno grupo de pesquisadores brasileiros ativos, que têm impactado seriamente a conservação ambiental, particularmente em assuntos ligados ao desmatamento e às mudanças climáticas. Com base na literatura, nós desenvolvemos uma tipologia de estratégias voltadas para as falsas controvérsias, que incluem a fabricação de incertezas, abuso de credenciais científicas e desconsideração pela literatura científica. Em seguida, nós examinamos a influência desse grupo de contrários no Congresso Nacional. Depois, analisamos as falsas controvérsias promovidas por esses contrários e argumentamos que, para entendê-los adequadamente, nós precisamos considerar uma estratégia até agora ausente na literatura: a manufatura de “pseudofatos”, ou seja, afirmativas que contrariam a literatura estabelecida, mas se esforçam para aparecer como fatos científicos. Ao contrário de outros contextos, nos quais os contrários têm basicamente buscado lançar dúvidas sobre assuntos consensuais, argumentando que ainda existem consideráveis incertezas sobre eles, no Brasil, os pseudofatos sobre o desmatamento têm sido produzidos e publicados fora da literatura revisada por pares. Nós concluímos o estudo com recomendações sobre como se opor às falsas controvérsias científicas que ameaçam a conservação ambiental em geral.

A soberba dos autores chega ao ponto de rotular como “pseudofatos” quaisquer evidências que contrariem os relatos alarmistas apresentados como “assuntos consensuais” – deixando de lado, providencialmente, o fato elementar de que “consenso” é um conceito alheio à verdadeira Ciência, que se baseia em evidências observadas no mundo real, e não em proporções numéricas, mesmo majoritárias.

Os dois temas citados pelos autores, mudanças climáticas e desmatamento, proporcionam uma legião de exemplos desse preceito fundamental, que tem sido bastante desprezado pelos cientistas que adotaram o ativismo ideológico como orientação preferencial das suas atividades profissionais.

Em relação ao primeiro, a despeito de todo o alarido em torno da alegada influência humana na dinâmica climática global, inexiste qualquer evidência física de que as temperaturas atmosféricas e oceânicas e de níveis do mar, registradas no período posterior à Revolução Industrial do século XVIII, sejam anômalas em relação às registradas nos séculos e milênios anteriores. Enquanto tais anomalias não forem observadas, não se poderá fazer qualquer ilação sobre uma hipotética interferência humana no clima global – ao contrário do que ocorre nos perímetros urbanos, com o amplamente conhecido efeito das “ilhas de calor” (que afeta não mais que 0,5% da superfície do planeta). Evidências contrárias à hipótese do aquecimento “antropogênico”, provenientes de pesquisas realizadas em todos os continentes, têm sido amplamente publicadas em revistas científicas de todo o mundo, apesar de não receberem sequer uma reduzida fração da publicidade consagrada aos estudos alinhados com o alarmismo climático. Uma excelente fonte de dados facilmente acessível é o sítio www.co2science.org, onde se encontram os resumos de literalmente milhares desses artigos científicos, qualquer um dos quais representa um sério óbice para a hipótese catastrofista.

Sobre o desmatamento, um exemplo de hipótese não comprovada pelos alarmistas é a bizarra tese do “ponto de inflexão” da Amazônia, a partir do qual o bioma entraria em deterioração e se converteria em ecossistemas mais pobres. Seus autores são o climatologista Carlos Nobre, um dos autores do artigo, e o recém-falecido biólogo estadunidense Thomas Lovejoy, um dos maiores expoentes da ciência “engajada” nas causas ambientais com finalidades de influência política. De acordo com a tese, tal “inflexão” se tornará irreversível se a proporção de desmatamento do bioma atingir 20% (a atual é 16%), com a sua conversão em ecossistemas menos biodiversos e mais assemelhados ao Cerrado. Todavia, o prognóstico se baseia apenas em modelos matemáticos sem qualquer base factual, como os utilizados nos prognósticos climáticos (não por acaso, outra especialidade de Nobre). No mundo real, o fenômeno jamais foi observado em biomas brasileiros, inclusive, no mais impactados de todos, a Mata Atlântica, que perdeu cerca de 90% de sua cobertura original desde o início da colonização do território brasileiro, no século XVI.

A despeito disso, os autores afirmam que “o risco para o meio ambiente global representado por contrários que promovem falsas controvérsias no Brasil e em outros países pede a necessidade de repensar como a comunidade científica, a sociedade civil e a mídia devem lidar com esses pesquisadores e seus materiais não publicados que definem tendências”.

Para eles, “a comunidade científica não está bem preparada para lidar com falsas controvérsias científicas e difusão de pseudofatos. Ao considerá-los indignos de atenção, a comunidade científica tem permitido que alegações falsamente científicas não sejam contestadas”.

Ou seja, tudo que contrarie a ortodoxia alarmista entra na categoria “falsamente científico”.

Portanto, dizem, “a academia também deve ser culpada pela longa e crescente capacidade das falsas controvérsias científicas de influenciar a política”. Isto, porque, “embora seja bastante extenuante verificar todas as alegações que são tornadas públicas por tais ‘cientistas’ (sic), mais espaço deve ser aberto em periódicos científicos (ou seja, seções de comentários especiais ou artigos de refutação como o nosso), para identificar e discutir de maneira rigorosa as falsas controvérsias científicas”.

Estas poucas passagens de um texto de 12 páginas são suficientes para se aquilatar a pretensão olímpica dos autores. A rigor, tal inclinação não surpreende, já que a metade deles (Raoni Rajão, Antonio Donato Nobre, Britaldo Soares-Filho, Mercedes Bustamante, Carlos Nobre e Letícia Santos de Lima) integra o Painel Científico para a Amazônia (SPA, em inglês), entidade com a pretensão de constituir-se em uma versão “amazônica” do notório Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), a encarnação institucional do alarmismo sobre o clima global.

Como o IPCC, o SPA, criado em 2019, está vinculado à Organização das Nações Unidas (ONU), por intermédio da Rede de Soluções de Desenvolvimento Sustentável (SDSN), entidade criada em 2012 para promover os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS) da organização mundial. Com sedes em Nova York e Paris, é presidida pelo economista estadunidense Jeffrey Sachs. Embora o seu orçamento não seja divulgado, recebe recursos de uma pletora de entidades filantrópicas, agências governamentais e empresas privadas, muitas das quais são presenças constantes entre os financiadores do aparato ambientalista-indigenista internacional. Entre outras, destacam-se: Bill & Melinda Gates Foundation; Charles Stewart Mott Foundation (especificamente para o SPA); Gordon & Betty Moore Foundation; William and Flora Hewlett Foundation; Deutsche Gesellschaft für Internationale Zusammenarbeit (GIZ); The Foreign, Commonwealth & Development Office of the UK Government (FCDO); Swedish International Development Cooperation Agency (SIDA); The Prime Minister’s Office of the United Arab Emirates; Unilever; Bayer; Iberdrola.

No ano passado, o SPA lançou o “Relatório de Referência sobre a Amazônia”, para alertar sobre um suposto “alerta vermelho” de desmatamento e degradação do bioma, o qual requeriria ações imediatas visando a um “desmatamento zero” até 2030.

“Alerta vermelho”, como se sabe, é a expressão empregada pelo IPCC para referir-se à situação supostamente alarmante do clima global, descrita em seu último relatório, divulgado também em 2021.

Na ocasião, Carlos Nobre, copresidente do SPA, ressaltou: “Nossa mensagem aos líderes políticos é que não há tempo a perder. O atual modelo de desenvolvimento está alimentando o desmatamento e a perda da biodiversidade, levando a mudanças devastadoras e irreversíveis. Para que a Amazônia sobreviva, devemos mostrar como ela pode ser transformada para gerar benefícios econômicos e ambientais que seriam o resultado de colaborações entre cientistas, detentores do conhecimento indígena e seus líderes e governos (Alerta Científico e Ambiental, 07/10/2021).”

Observe-se que, para ele, a “salvação” da Amazônia virá da colaboração entre “cientistas, detentores do conhecimento indígena e seus líderes e governos” – nenhuma menção, por exemplo, a representantes dos setores produtivos amazônicos, que, de resto, costumam ser ignorados nas discussões sobre o futuro da região.

Sua colega no SPA e coautora do artigo, a bióloga chileno-brasileira Mercedes Bustamante, reforçou: “Com os recentes surtos de desmatamento que estão devastando a mais extensa floresta tropical do planeta, devemos também anunciar um alerta vermelho para a Amazônia. Salvar as florestas do desmatamento e degradação contínuos e restaurar os ecossistemas é uma das tarefas mais urgentes de nosso tempo para preservar a Amazônia e suas populações, e enfrentar o risco global e os impactos das mudanças climáticas.”

É exatamente o cenário construído a partir de visões como essas que se vê ameaçado pelo trabalho de cientistas como Evaristo de Miranda e seus colegas.

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