Em um novo episódio da guerra comercial entre os Estados Unidos e a China, a Câmara de Representantes aprovou nesta sexta-feira (4) um projeto de lei para relocalizar em território americano a produção de chips eletrônicos, essenciais para a fabricação de 'smartphones' e automóveis.
O texto foi aprovado por 222 votos a 210 horas depois da abertura dos Jogos Olímpicos de Inverno, em Pequim, uma demonstração da influência chinesa e que os Estados Unidos boicotaram em nível diplomático.
O "America COMPETES act" prevê um investimento de 52 bilhões de dólares para revitalizar a indústria americana de semicondutores, atualmente fabricados sobretudo na Ásia.
Um texto similar já foi aprovado no Senado em junho, votado por congressistas dos dois partidos. Mas será preciso harmonizar os dois projetos de lei e isto implicará longas negociações no Capitólio.
Os chips de computador são essenciais para um grande número de setores e produtos, de automóveis e telefones inteligentes a equipamentos médicos e aspiradores. E a pandemia provocou uma queda alarmante das reservas de semicondutores.
- "Segurança nacional" -
O governo Joe Biden assegura que esta escassez tem um efeito direto na inflação galopante nos Estados Unidos e que afeta o índice de popularidade do presidente democrata junto à opinião pública.
O projeto de lei da Câmara de Representantes também prevê 45 bilhões de dólares para fortalecer a cadeia de abastecimento americana.
Responde ao "imperativo econômico e de segurança nacional de apoiar a indústria e os trabalhadores americanos", afirmou nesta sexta-feira a presidente da Câmara de Representantes, Nancy Pelosi. Permite que os Estados Unidos "não fiquem à mercê de outros países", disse em coletiva de imprensa.
Mas quase por unanimidade, os republicanos da Câmara de Representantes se opuseram ao projeto de lei, dizendo que não faz o suficiente para que a China preste contas por suas violações dos direitos humanos e prevê investimento um investimento alto demais no combate às mudanças climáticas.
A China, em guerra econômica com os Estados Unidos desde o governo do ex-presidente Donald Trump, é um dos poucos temas em que o presidente democrata coincide com seu antecessor republicano.
Pequim acusa Washington, por sua vez, de exagerar a chamada ameaça chinesa.
- "Fabricado nos Estados Unidos" -
O governo Biden exorta o Congresso a adotar rapidamente um texto final, com a aprovação das duas câmaras, com a esperança de poder apresentar estes investimentos em seu discurso de política geral, previsto para 1º de março.
Biden reforçou em janeiro o enorme potencial econômico destes chips. Deu como exemplo os carros, dos quais atualmente 4% dos componentes são semicondutores. Em 2030, estes vão representar 20% da fabricação de automóveis.
Biden quer que os fabricantes relocalizem a produção nos Estados Unidos e defende o "produzido nos Estados Unidos" ("made in America").
A gigante de chips Intel já anunciou a construção de duas fábricas de semicondutores em Ohio, antigo reduto da produção de aço.
- América Latina e Caribe -
Uma das seções do projeto refere-se à América Latina e concentra-se em promover o fortalecimento da competitividade econômica, governança, direitos humanos e estado de direito nesta região.
Também promove a Iniciativa Energética do Caribe como Alternativa à Nova Rota da Seda da China por meio da cooperação regional com países do Caribe para melhorar a segurança e eficiência energética, reformar os mercados de energia e investir em energia mais limpa.
Por outro lado, visa promover condições de maior resiliência de longo prazo no Caribe diante de desastres naturais e de um ambiente oceânico em mudança.
Para fazer frente à "diplomacia educacional e cultural da China na América Latina", o texto defende a elaboração de "uma estratégia que avalie e expanda os programas existentes" para promover os objetivos da política externa americana.
Nos últimos 20 anos, a China ganhou terreno contra os Estados Unidos na região das Américas, tornando-se o primeiro parceiro comercial de quase todos os países sul-americanos, concedendo empréstimos a juros baixos e investindo em projetos de energia, portos e rodovias, entre muitas outras obras.
AFP / Estado de Minas