Publicado em 4 de fevereiro de 2022 por Tribuna da Internet
Desde o início, a preocupação com um ensino de qualidade
César Cavalcanti
Em meio as comemorações do centenário de nascimento de Leonel Brizola, evidenciam-se seus grandes feitos, suas ideias trabalhistas e sua trajetória política ímpar. É de se estranhar que um líder de tal magnitude não tenha conseguido chegar ao poder.
À luz da Historiografia, porém, não há como negar que Brizola sofrera um veto superior, cuja determinação não fora decidida por quem fala português, porque desde o século passado as elites brasileiras se mostram vassalas aos interesses internacionais, especialmente em função dos ditames do imperialismo norte-americano.
VETO DOS EUA – Sim, de forma nenhuma Washington permitiria que Brizola fosse presidente. Para os americanos era inconcebível que Brizola pudesse assumir a presidência do Brasil.
Muitos livros de cientistas políticos nacionais e de brasilianalistas estrangeiros, especialmente norte-americanos, com vastos relatórios, depoimentos de testemunhas e provas materiais, relatam as preocupações americanas em bloquear Brizola.
Fruto fecundo do Queremismo, movimento no final da década de 1940 que defendia da volta de Getúlio Vargas, o também gaúcho Brizola herdou do ex-presidente e de João Goulart a conceituação mais genuína sobre soberania nacional.
BOICOTE DOS EUA – Aliás, o trabalhismo de Getúlio, Jango e, consequentemente, de Brizola, sofreram diretamente o controle e o boicote de sucessivos governos dos Estados Unidos, preocupados com a possibilidade de o Brasil se aliar à União Soviética, uma expectativa completamente fantasiosa.
A posição dos Estados Unidos contra Getúlio, Jango e Brizola na verdade não tinha caráter político, o trabalhismo defendido por Alberto Pasqualini não incomodava os americanos, para eles o problema era o nacionalismo desses líderes, que não permitiam que o Brasil se tornasse seguidor de potências estrangeiras.
A questão era econômica, porque o vertiginoso crescimento da indústria brasileira pós-Vargas criara um grande concorrente no quintal dos norte-americanos, como se dizia na época.
A SERVIÇO DO BRASIL – Com Brizola no poder, não seria muito diferente. Até porque suas ações durante o governo do Rio Grande do Sul (1959-1963) revelaram suas ideias e seu comportamento antivassalagem. Foi assim ao desapropriar empresas como a Bond and Share e a Internacional Telephone and Telegraph.
Estes fatos mexeram com os interesses americanos e marcaram Brizola, definitivamente, como opositor aos EUA. Por isso, jamais poderia ser assumir a Presidência, tornando-se o inimigo número da golpe de 1964, como um dos exilados mais vigiados e monitorados pelas agências de inteligência.
Nem mesmo a ação humanitária do presidente Jimmy Carter, ao conceder asilo político a Brizola, devido à sua expulsão do Uruguai, removeu o veto que os americanos armaram contra o líder trabalhista brasileiro.
AJUDA DAS ELITES – Nessa operação de bloqueio a Brizola, os norte-americanos sempre contaram com ajuda preciosa do regime militar e das elites brasileiras, destaque aqui para as famílias Marinho, Mesquita, Frias e Civita, comandando órgãos de imprensa para enfraquecer imagem de Brizola.
Os defeitos de Brizola eram sua independência, sua coragem e sua dedicação ao interesse pública. Disputou eleições, perdeu-as, mas manteve a honra, as ideias coerentes e a dignidade pessoal, como demonstração de sua grandiosidade.
Brizola não chegou a ser presidente. E o Brasil perdeu a grande oportunidade de se desenvolver com base na educação adequada de suas crianças. Todos nós, inclusive as elites, no final saímos perdendo.