Por: Carlos Chagas
BRASÍLIA - Até os papas morrem, e o nosso, específico dos jornalistas, foi para o céu há quinze anos. Carlos Castello Branco deixou, entre volumosa herança, 7.849 colunas sobre política, escritas no "Jornal do Brasil" entre 1962 e 1993. Fora milhares de outros artigos, entrevistas, poesias e até um romance. Mas foi particularmente em função de suas colunas no outrora jornal líder da mídia nacional que se credenciou a ser eleito para a Academia Brasileira de Letras.
Quem quiser entender a política brasileira nos diversos períodos de atuação jornalística do Castelinho tem agora a oportunidade de acessar toda a obra do mestre de todos nós pelo site "Carlos Castello Branco".
Para que os jovens colegas de hoje não confundam o jornalista com o primeiro marechal-presidente do ciclo militar, vale referir um encontro que o então presidente da República promoveu com um grupo de jornalistas políticos, nos idos de 1964. Aliás, eram parentes não muito próximos, mas de origem comum, ambos nascidos no Piauí. Os dois baixinhos e feios, também.
O presidente, que iniciava um ciclo de conversas informais, chegou arredio à residência do então chefe do Gabinete Civil, Luiz Vianna Filho, onde se realizaria um almoço. Éramos poucos, de Castello a Pedro Gomes, Villasboas Corrêa, Heron Domingues, Heráclio Salles, Evandro Carlos de Andrade e este que vos escreve. Para quebrar o gelo, o marechal dirigiu-se ao jornalista perguntando se ele havia lido nota publicada num jornal de Montevidéu, afirmando que o principal cronista político do Brasil era filho do presidente da República.
Castelinho, frio como aço, implacável e sarcástico, em vez de comentar com humor o equívoco dos confrades uruguaios, replicou: "Não foi bem o que eu li, presidente. Eles escreveram que o principal cronista político do Brasil era filho do ditador de plantão..."
O gelo não foi propriamente quebrado, formando-se em torno da mesa um imenso iceberg, dissolvido apenas na sobremesa.
Direito à prolixidade
Não caberá a qualquer cidadão criticar o Supremo Tribunal Federal pela prolixidade dos votos de seus ministros. Mas que chama a atenção, chama. Carlos Alberto Meneses Direito gastou três horas para ler sua sentença. Nenhum dos outros ficou muito atrás, a média de duas horas por voto tomou três dias da sessão mais importante do ano, até agora.
Se existem semelhanças entre as profissões de juiz e de jornalista, e existem muitas, eis uma diferença fundamental. Somos treinados para a concisão. Já os doutos mestres do direito primam por exprimir-se no maior número de laudas possível. Aliás, de caracteres, com a informatização das duas atividades.
Tudo bem, nada a opor. Em especial os membros da mais alta corte nacional de justiça dispõem da prerrogativa de pronunciar-se como quiser e pelo tempo que quiserem. Só que a decisão da semana passada caberia num único parágrafo: "Por maioria de um voto, o Supremo colocou o Brasil no século XXI".
Não cola mais
Durante algum tempo a desculpa para roubalheiras praticadas por agentes maiores e menores do poder público, do mensalão ao dólar na cueca, dos sanguessugas aos produtores de dossiês, quando flagrados em corrupção explícita os corruptos alegavam estar recolhendo dinheiro não contabilizado para pagar despesas de campanhas já realizadas ou por realizar.
De tanto desmoralizarem a prática eleitoral, nota-se que não dá mais. Ou alguém acredita que Paulo Pereira da Silva, Álvaro Lins e Anthony Garotinho, para ficarmos nos acusados da semana passada, juntavam dinheiro para enfrentar débitos de campanha?
O descrédito de mais uma mentira acontece antes mesmo que o Congresso aprove o financiamento público das campanhas, mesmo tratando-se de medida inócua porque muitos candidatos continuarão arrecadando dinheiro por baixo do pano. Quem alegar despesas eleitorais, de agora em diante, precisará provar. Bem como demonstrar que seu aumento de patrimônio deveu-se à sorte na mega-sena.
Todos os caminhos levam a Roma
Hoje e amanhã, segunda e terça-feiras, o presidente Lula enfrentará pesada agenda de trabalho, em Roma. A reunião da FAO acontece em momento tumultuado. Se não estão faltando, pelo menos encareceram de muito os alimentos produzidos no mundo. Aumentaram por causa da alta no preço do barril de petróleo? Por que os Estados Unidos utilizam o milho para produzir etanol? Ou será por que o Brasil planta cana, pelos mesmos motivos? Será viável esquecer a ganância dos produtores, dos atravessadores e dos que comercializam e vendem os variados produtos?
Tanto faz, mas o presidente brasileiro precisará apresentar um diagnóstico eficaz da situação, e, mais do que isso, apontar soluções. Afinal, representa um país onde sobram os três requisitos maiores para produção de alimentos: terra, sol e água.
Enquanto Lula se desdobrará até para rebater acusações injustas sobre não fazermos nosso dever de casa, sua família encontra-se desde quarta-feira passada na capital italiana. Mulher, filhos, noras e netos passeiam pela antiga capital do mundo. Nada a opor, todos têm direito de viajar, mas um apelo, ao menos, deve ser feito: nada de pizzas nas refeições, porque não exportamos trigo. Que tal uns bifinhos de carne de Mato Grosso?
Fonte: Tribuna da Imprensa
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