Nota da Redação Deste Blog - Jeremoabo não pode esquecer o passado: quem ignora os erros está condenado a repeti-los
Por José Montalvão
Há uma frase clássica que atravessa gerações e permanece atual: “Aqueles que não conseguem lembrar o passado estão condenados a repeti-lo.” Não se trata de retórica vazia. Trata-se de um princípio básico de responsabilidade histórica, administrativa e moral. Em Jeremoabo, porém, parte da oposição tenta impor a ideia de que “não devemos olhar pelo retrovisor”. A pergunta que se impõe é: a quem interessa o esquecimento?
Não olhar para trás pode até ser confortável para quem deseja apagar rastros. Mas para um município que herdou dívidas, desequilíbrio fiscal e problemas estruturais na educação e na saúde, ignorar o passado é fechar os olhos para a origem das dificuldades atuais.
Os fatos são públicos e documentados. O Tribunal de Contas dos Municípios da Bahia (TCM-BA), ao julgar o exercício financeiro de 2020 (Processo nº 09869e21), reconheceu irregularidades graves na gestão anterior. Entre elas, o descumprimento do artigo 42 da Lei de Responsabilidade Fiscal, com um saldo a descoberto de R$ 1.777.757,83 — ou seja, despesas assumidas sem cobertura financeira. Isso não é detalhe técnico: é a receita para o colapso de serviços essenciais.
Além disso, o município aplicou apenas 92,85% dos recursos do FUNDEB, quando o mínimo legal exigido era 95%. Também houve ausência de devolução de recursos glosados em exercícios anteriores. Em termos práticos, significa que verbas vinculadas à educação foram mal geridas, comprometendo diretamente a qualidade do ensino. A consequência? Reflexos que ainda hoje impactam transporte escolar, estrutura das escolas e equilíbrio orçamentário.
E aqui está o ponto central: a decisão definitiva só foi proferida quase cinco anos depois. A demora nos julgamentos enfraquece o caráter pedagógico das sanções e alimenta a sensação de impunidade. Um sistema que pune tarde e pune pouco estimula a reincidência.
Diante desse cenário, não é difícil compreender por que o prefeito Tista de Deda, acompanhado da chefe de gabinete Anabel de Sá Lima Carvalho, precisa se deslocar a Brasília para buscar recursos junto ao FNDE, à Federação Nacional de Municípios e a gabinetes de ministros, senadores e deputados. Não se trata de turismo administrativo, como insinuam adversários políticos. Trata-se de reconstrução institucional e financeira.
É evidente que há problemas. Ônibus escolares que precisam de manutenção, atrasos pontuais a fornecedores, limitações orçamentárias. Mas é intelectualmente desonesto apontar o efeito e esconder a causa. Quem governou criando desequilíbrios fiscais e falhando na aplicação correta de recursos vinculados não pode agora posar de fiscal imaculado.
A oposição tem todo o direito — e até o dever — de fiscalizar. O que não pode é praticar amnésia seletiva. Criticar sem contextualizar é manipular. Denunciar sem reconhecer a própria responsabilidade histórica é agir com oportunismo.
Jeremoabo precisa de memória institucional. Precisa compreender que os problemas atuais não nasceram ontem. São frutos de decisões administrativas equivocadas, de ausência de planejamento e de descumprimento de normas básicas de responsabilidade fiscal.
Olhar pelo retrovisor não é viver do passado. É entender o caminho percorrido para não cair no mesmo abismo. Quem insiste em apagar a história talvez tema que ela seja lembrada. Mas a população não é ingênua. Pode até silenciar em alguns momentos, mas observa, compara e aprende.
A reconstrução de um município exige coragem para reconhecer erros — inclusive os herdados — e firmeza para corrigi-los. O que Jeremoabo não pode aceitar é a narrativa conveniente de que tudo começou agora. Porque, definitivamente, não começou.
* José Montalvão - Funcionário Federal Aposentado, Graduado e Pós-Graduado em Gestão Pública, pós-graduação em Jornalismo proprietário do Blog DedeMontalvão, matrícula ABI C-002025










