sexta-feira, julho 11, 2025

Alvo de operação, ex-prefeito de Itatim faz vídeo se defendendo; delegado é investigado por 8 mortes

 

Alvo de operação, ex-prefeito de Itatim faz vídeo se defendendo; delegado é investigado por 8 mortes
Foto: Reprodução / Redes Sociais

Alvo da Operação Sangue Oculto, deflagrada pela Polícia Civil nesta sexta-feira (11), o delegado e ex-prefeito de Itatim, no Piemonte do Paraguaçu, Gilmar Pereira Nogueira, disse que está “tranquilo” diante das acusações. Tingão, como é conhecido, teve celulares e outros dispositivos eletrônicos apreendidos durante o cumprimento dos mandados de busca e apreensão.

 

No vídeo, o ex-prefeito declarou que “tudo será esclarecido” e que vai provar que “agiu dentro da estrita legalidade”.

 

Segundo a Polícia Civil, a operação desta sexta é um desdobramento da primeira fase da “Sangue Oculto”, deflagrada em 7 de junho do ano passado. O objetivo é apurar as mortes de oito pessoas [duas mulheres e seis homens, sendo três adolescentes, a mais nova com 13 anos], em uma operação da Rondesp Chapada no Morro do Tigre, em Itatim, no dia 30 de julho de 2023.

 

Conforme o Ministério Público do Estado (MP-BA),Tingão teve participação direta na idealização, planejamento e execução da ação que resultou nas oito mortes.

 

Atuaram na operação os grupos de Atuação Especial Operacional de Segurança Pública (Geosp) e de Combate às Organizações Criminosas (Gaeco) do MP-BA, além da Força Correicional Especial Integrada da Corregedoria-Geral da Secretaria da Segurança Pública (Force) e da Corregedoria da Polícia Civil.

Os BRICS e a desdolarização da economia global

 

Faculdade Mackenzie Rio

Os BRICS e a desdolarização da economia global

Fernanda Brandão, coordenadora do curso de Relações Internacionais da Faculdade Presbiteriana Mackenzie Rio

 

Durante a reunião de cúpula dos BRICS, uma declaração do então presidente norte-americano Donald Trump chamou a atenção: “o dólar é rei” e qualquer país que se alinhasse aos BRICS na adoção de medidas antiamericanas sofreria consequências, como a imposição de tarifas adicionais de 10% sobre suas importações. A motivação para a ameaça foi a menção, na declaração final da cúpula dos BRICS+, ao fortalecimento do comércio entre os países do grupo, favorecendo o uso de suas moedas nacionais, reduzindo os custos de transação e a dependência em relação ao dólar. Mas seriam essas medidas realmente antiamericanas, como afirmou o presidente norte-americano?

Os BRICS foram institucionalizados como um espaço de cooperação entre países emergentes após a crise financeira de 2008-2009. O impacto direto da crise sobre esses países foi menor, pois seus mercados financeiros estavam pouco expostos aos títulos de altíssimo risco que desencadearam a crise do subprime nos Estados Unidos. Contudo, os efeitos chegaram posteriormente, via dólar. As políticas anticíclicas adotadas pelo Federal Reserve (FED) exportaram inflação para esses países e forçaram a desvalorização do dólar, prejudicando a competitividade de suas exportações em um contexto de desaceleração da economia global. A China, por meio de um massivo pacote de estímulo doméstico, contribuiu para que o desaquecimento não fosse ainda mais grave, mantendo a atividade econômica interna em ritmo acelerado e sustentando sua demanda por importações — inclusive de países impactados pela crise.

Nesse cenário, os BRICs, ainda sem a África do Sul, institucionalizaram o grupo como um espaço de cooperação entre economias emergentes, com o objetivo de se apresentarem de forma coordenada e uníssona na governança financeira global. Esses países buscavam maior poder de voz nos fóruns internacionais sobre economia, uma vez que haviam se tornado importantes motores do crescimento global e desempenharam papel relevante no processo de reequilíbrio da economia internacional no pós-crise. Já não podiam mais ser ignorados como atores periféricos: mostraram-se peças-chave para a manutenção de uma economia global dinâmica e próspera. A inclusão da África do Sul, em 2011, teve como objetivo reforçar a legitimidade do grupo como representante do Sul Global e dos países em desenvolvimento, ao incorporar um membro do continente africano.

Desde sua criação, os BRICS defendem, entre outras pautas, a reforma das cotas de votação do Fundo Monetário Internacional (FMI) e do Banco Mundial; a redução da dependência do dólar — que torna essas economias reféns da política macroeconômica dos Estados Unidos, guiada prioritariamente por seus próprios interesses, e não pela estabilidade global; e o fortalecimento do G20 como principal fórum de governança financeira internacional, uma vez que esse grupo inclui representação dos países em desenvolvimento. Dentro desse contexto, os BRICS passaram a incentivar a realização de transações comerciais entre si com preferência pelas moedas nacionais, buscando reduzir vulnerabilidades cambiais. Na cúpula realizada no Brasil neste ano, esse compromisso foi reafirmado, agora no âmbito de um BRICS+ com novos integrantes, além dos cinco membros originais.

Vale destacar que o processo de desdolarização, lento e progressivo, da economia global teve início no pós-crise, e os BRICS não são os únicos preocupados em reduzir sua dependência em relação ao dólar. Dados do COFER (Currency Composition of Official Foreign Exchange Reserves), do FMI, mostram a redução gradual das reservas cambiais globais denominadas em dólar — sem, no entanto, um aumento proporcional das reservas em moedas dos BRICS. Em contrapartida, moedas como o dólar canadense, o dólar australiano e o franco suíço vêm ganhando espaço como ativos de reserva. Além disso, dados da rede SWIFT evidenciam o aumento das transações comerciais realizadas em moedas alternativas ao dólar. Embora este ainda seja, de
forma incontestável, a moeda dominante na economia internacional, outras moedas começam a ganhar relevância e participação.

A desdolarização global é um fenômeno em curso, apesar de sua lentidão. Afinal, uma desvalorização repentina dos ativos denominados em dólar não interessa a nenhum país que detenha grandes reservas nessa moeda. Contudo, a percepção de instabilidade econômica causada pelas decisões e pela condução da política econômica dos Estados Unidos tem reforçado a tendência gradual de diversificação. As políticas comerciais erráticas e unilaterais do governo Trump apenas reforçaram a imagem dos EUA como uma fonte de instabilidade e um parceiro econômico pouco confiável. O engajamento dos BRICS na redução da dependência do dólar visa proteger suas economias das vulnerabilidades geradas por essa dependência. Trata-se de uma
estratégia de resiliência fundamental, sobretudo para países em desenvolvimento, cujo avanço econômico é peça-chave para a manutenção da estabilidade política e social.

A cúpula dos BRICS e as reações destemperadas dos EUA

 Trump pode espernear e dar coices à vontade. Isso não vai paralisar os BRICS

Por PAULO NOGUEIRA BATISTA JR.

Publicado em 10/07/2025 às 18:33

Alterado em 10/07/2025 às 19:15


                           Bandeiras dos países do Brics Marcelo Camargo/Agência Brasil


Foi bem-sucedida a cúpula dos BRICS, diferentemente do que muitos temiam (inclusive eu). Preocupado com o que me parecia o risco de um insucesso, enviei sugestões e manifestei receios diversas vezes, tanto em público quanto em diálogos com integrantes do governo. Fiquei contente com os resultados e parabenizo as equipes do governo brasileiro e de outros países que contribuíram para o sucesso, notadamente a Rússia.

Não foi por acaso que Donald Trump passou a exorbitar outra vez, durante e depois da cúpula dos BRICS, pois ela confirmou que o grupo é, de fato, o principal contraponto no mundo à hegemonia dos Estados Unidos e seus aliados. Na verdade, os resultados da cúpula no Rio de Janeiro surpreenderam para melhor.

Na área econômico-financeira, algumas iniciativas importantes foram reafirmadas e desenvolvidas, algumas outras foram lançadas. E o trabalho continuará – espero – no segundo semestre da presidência brasileira. Deve-se notar que esses resultados positivos foram alcançados mesmo com problemas consideráveis que afetam o funcionamento dos BRICS. O artigo tratará desses problemas, de um lado, e das instituições e iniciativas financeiras do grupo, do outro.


Para não alongar demais o texto, deixo de lado as questões diplomáticas e políticas. Tratarei apenas das reações políticas e econômicas de Trump.

E é tão vasta a agenda econômica dos BRICS que nem poderei sequer abordar todas as iniciativas do grupo nesse campo.

Lula e Trump
Começo com os destemperos de Donald Trump. Foi interessante a declaração do presidente Lula, logo antes da cúpula, de que os BRICS precisam criar uma moeda alternativa para transações internacionais. Declaração destemida, pois ignora, e faz bem de ignorar, as repetidas ameaças de Trump contra os BRICS e qualquer país que atue para destronar o dólar da sua condição de moeda de reserva internacional.

Durante a nossa cúpula, Trump voltou a ameaçar: “Qualquer país que venha a se alinhar com as políticas antiamericanas dos BRICS terá de pagar uma tarifa ADICIONAL de 10%”, escrevendo em letras maiúsculas mesmo, e acrescentando que “não haverá exceções a esta política”.

Logo depois da cúpula, Trump fez declarações ainda mais agressivas, dizendo que os BRICS têm a intenção de “destruir o dólar” e que o grupo “foi criado para desvalorizar o a nossa moeda”. E foi enfático: “O dólar é rei. Vamos mantê-lo assim. Se as pessoas quiserem desafiá-lo, podem. Mas terão que pagar um alto preço”. Estipulou, além disso, que as novas tarifas entrarão em vigor em 1º de agosto.

No dia seguinte, deu um coice ainda maior: enviou uma carta aberta a Lula em que anunciou uma tarifa extra de 50% sobre a importação de produtos do Brasil a partir de 1º de agosto, justificando esse tarifaço, entretanto, sobretudo com questões políticas internas nossas, em especial uma suposta caça às bruxas contra o ex-presidente Bolsonaro, que “deve terminar IMEDIATAMENTE” (mais uma vez em maiúsculas), além de reclamar das “centenas de ordens de censura do Supremo Tribunal Federal brasileiro, SECRETAS e ILEGAIS (outra vez em caixa alta), dirigidas a plataformas de mídia social dos Estados Unidos”. Reclamou, também, das barreiras tarifárias e não-tarifárias praticadas pelo Brasil. Curiosamente, os Estados Unidos têm expressivos superávits comerciais com o Brasil há muito anos, o que dá um caráter totalmente descabelado à carta de Trump.

Ao mesmo tempo, Trump disparou de novo a sua metralhadora giratória tarifária contra diversos países desenvolvidos e em desenvolvimento, alguns deles dos BRICS.

Foi perfeita a nota do presidente Lula em resposta a Trump. Chama atenção a diferença de qualidade entre a missiva de Trump e a réplica de Lula. A primeira totalmente aloprada (mais um sintoma da decadência dos EUA); a segunda, firme e bem fundamentada.

Lula acenou com retaliação, dizendo que o Brasil se reserva o direito de responder à luz da Lei brasileira de Reciprocidade Econômica, caso o tarifaço entre mesmo em vigor. Postura altiva do nosso presidente, pois a carta aberta de Trump já ameaçara com aumentos adicionais de tarifas em caso de o Brasil aumentar suas tarifas sobre as exportações dos EUA. E Trump ainda teve o desplante de escrever que, se Lula “eliminar as tarifas e barreiras não-tarifárias”, ele “talvez considere” ajustar a sua carta.

O que dizer de tudo isso? Bem, Trump chegou a falar, em ocasiões anteriores, em tarifas de 100% e até 200% sobre os BRICS por causa da suposta ameaça ao dólar. Progresso, portanto!

Enfim, foram novas grosserias do presidente dos Estados Unidos. Embora ele não tenha mencionado os BRICS na carta a Lula, é razoável admitir que o sucesso da cúpula do Rio tenha contribuído para a explosão de Trump.

Os BRICS e o sistema monetário e financeiro controlado pelo Ocidente
Diferentemente do que disse Trump nos dias recentes, repetindo várias declarações anteriores do mesmo naipe, os BRICS não pretendem atuar deliberadamente para destronar ou enfraquecer e muito menos “destruir o dólar”, mas sim criar alternativas aos sistemas internacionais dominados pelo Ocidente e centrados na moeda dos EUA. “Vamos com calma. Não somos contra o dólar, o dólar é que às vezes é contra nós”, disse o presidente Putin, sem ironia, em resposta a uma pergunta que tive a oportunidade de fazer a ele, em encontro anual do Clube Valdai em novembro do ano passado. Veja, leitor ou leitora, mesmo a Rússia, que está efetivamente em guerra com o Ocidente, adota até agora uma linguagem moderada em relação a propostas de desdolarização.

Mas a verdade é que o sistema monetário e financeiro internacional existente, controlado pelo Ocidente – isto é, o Fundo Monetário Internacional; o Banco Mundial e os bancos regionais de desenvolvimento tradicionais; a centralidade do dólar como moeda internacional; o esquema SWIFT de pagamentos transfronteiriços; as três principais agências de classificação de risco, entre outros elementos – apresenta claramente diversas deficiências graves. É excludente, ineficiente e não atende às necessidades dos países dos BRICS e do resto do Sul Global. Trata-se, no essencial, de um instrumento de poder e coerção para os países do Atlântico Norte e seus aliados em outras partes do mundo. Por isso, precisamos criar mecanismos alternativos e independentes do Ocidente, sem deixar de participar, na medida do possível e conveniente, do sistema atualmente existente.

Acredito que os BRICS, ou uma parte do grupo, continuarão a desenvolver, com paciência e profissionalismo, um novo sistema – não antiocidental, mas pós-Ocidental, para lançar mão de uma expressão utilizada por Zhao Long, um economista chinês, em debate de que participei no Rio de Janeiro na semana passada.

Isso será feito ao longo dos próximos anos quer Trump queira, quer não. E é lamentável que o presidente dos Estados Unidos não saiba controlar minimamente os seus destemperos.

O peso do grupo BRICS
Trump tem motivos para temer os BRICS? Provavelmente sim. Fazem parte do nosso grupo todos os maiores países do Sul Global. Agora somos 10 membros plenos (Brasil, Rússia, Índia, China, África do Sul, Indonésia, Irã, Egito, Etiópia e Emirados Árabes Unidos), além de outros 10 países parceiros. Os BRICS têm enorme peso econômico, demográfico e territorial. Considerando só os membros plenos, os BRICS ou BRICS+ respondem por nada menos que 50% da população do planeta (graças especialmente à Índia e à China), quase 40% do PIB mundial (graças à China principalmente) e 30% do território global (graças sobretudo à Rússia, à China e ao Brasil). Não é à toa que o nosso grupo atrai tanta atenção no mundo inteiro.

(Uma nota de rodapé: a Arábia Saudita foi convidada para ser membro pleno em 2023, mas ainda não respondeu, nem positiva, nem negativamente. A Argentina, convidada na mesma época, recusou. O que mostra, diga-se de passagem, que por motivos políticos nem todos os países do Sul Global estão prontos para aderir aos BRICS.)

Outra comparação relevante para os BRICS: quando se consideram os top-10 do mundo em termos de população, PIB (medido por paridade de poder de compra) e território, verifica-se o seguinte. Cinco dos BRICS (Índia, China, Indonésia, Brasil e Rússia) figuram na lista dos 10 maiores países em população. Os mesmos cinco BRICS estão entre os 10 maiores países em termos de tamanho da economia. E quatro deles fazem parte da relação dos 10 maiores em extensão geográfica (dos já mencionados, todos menos a Indonésia).

O Brasil está nessas três listas, ressalte-se, e por isso mesmo intitulei o meu penúltimo livro "O Brasil não cabe no quintal de ninguém". O problema, entretanto, é que muitos brasileiros cabem no quintal de qualquer um, inclusive e destacadamente Jair Bolsonaro, que Trump compreensivelmente tanto defende. Os americanos adoram vassalos. Mas não quero me desviar do assunto e volto aos BRICS.

Não devemos exagerar a importância real dos BRICS enquanto grupo
Cabe reconhecer, entretanto, que percentuais e listas como os acima mencionados podem dar uma ideia exagerada do peso real prático dos BRICS enquanto grupo. Há algumas dificuldades que ainda impedem os BRICS de exercer papel correspondente a seu peso relativo no mundo e isso vem prejudicando, como era de esperar, a presidência brasileira do grupo em 2025. Sem pretender esgotar o assunto e nem mesmo listar todas essas dificuldades, vou falar um pouco de três delas: uma de natureza conjuntural – o risco de encurtamento da presidência brasileira; e outras duas, mais estruturais e interligadas, que devem persistir no que resta de 2025 e nos anos seguintes – os riscos de expansão excessiva dos BRICS e os riscos de paralisia do grupo por causa da nossa arraigada tradição de decidir por consenso.

Risco de encurtamento da presidência brasileira
O governo brasileiro cometeu o erro de marcar a cúpula para o meio do ano, algo muito pouco usual e que arrisca reduzir a presidência brasileira dos BRICS a um semestre apenas. O argumento, muito fraco, é que o Brasil sedia a COP30 em novembro e que o país não teria condições de organizar dois eventos internacionais em datas próximas. Para lá de questionável. O Brasil, sendo como é um dos principais países do mundo, tem sim como fazer isso, se não pensar pequeno. E, depois, convenhamos, a COP30 não deverá alcançar resultados práticos relevantes e será provavelmente apenas mais uma ocasião para discursos e slogans simpáticos. Já os BRICS constituem o grupo de países que melhores condições tem de modificar o quadro internacional.

Esse problema foi mitigado no Rio de Janeiro pelo fato de ficarem previstas na Declaração dos Líderes e em outros documentos, diversas reuniões ministeriais, de bancos centrais, de xerpas e assessores ao longo do segundo semestre. Faltou, porém, até onde pude perceber, um gancho fundamental – marcar uma reunião dos líderes dos BRICS para novembro por ocasião da cúpula do G20 na África do Sul, em Joanesburgo, para a qual convergiriam as negociações que ocorrerão no segundo semestre. E não venham me dizer que isso é impossível. Não é nem difícil. Os líderes do grupo já fizeram diversas reuniões desse tipo, a primeira por iniciativa de Dilma Rousseff em 2011, e várias depois, inclusive no governo Bolsonaro, com comunicado público e tudo. São simples de organizar, e eu sei perfeitamente disso, pois participei desse processo em vários anos. Fazíamos reuniões em salas pequenas, com cerca de 25 a 30 pessoas presentes, os cinco líderes e mais alguns assessores. Hoje, é um pouco mais complicado, pois o número de países membros dobrou. Mas é só reduzir o número de pessoas que cada líder traz consigo, permitindo uma reunião menor e mais íntima, como ocorria antes da expansão do grupo. Ressalte-se que esse encontro dos líderes não é uma segunda cúpula. com toda a parafernália das cúpulas, mas um encontro que, embora mais informal, costuma terminar com um comunicado do qual podem constar assuntos importantes.

Por exemplo, as negociações do Arranjo Contingente de Reservas (ACR), o fundo monetário dos BRICS, foram lançadas, sob liderança do Brasil e da China, e mais do Brasil do que da China, numa reunião desse tipo que ocorreu em 2012, em Los Cabos, à margem da cúpula do G20 no México. E devo dizer, entre parênteses, que essas negociações só foram lançadas naquele momento por causa do empenho da presidente Dilma, que não sossegou enquanto não foram vencidas as resistências da Índia. (Um relato dessa negociação difícil e até tumultuada em Los Cabos pode ser encontrado em O Brasil não cabe no quintal de ninguém, 2ª edição, páginas 256 a 261.)

Note-se que dos 10 membros atuais dos BRICS, quatro países – Egito, Emirados Árabes Unidos, Etiópia e Irã não fazem parte do G20. Mas isso não é problema. Bastaria a África do Sul convidar esses quatro países para vir a Joanesburgo, não para participar da cúpula do G20, mas para se encontrar com os demais líderes dos BRICS – um encontro que pode ser, aliás, mais importantes do que o do G20, agrupamento que está praticamente paralisado pelo agravamento do quadro geopolítico mundial e pela confrontação entre EUA e Europa, de um lado, e China e Rússia, do outro.

Riscos decorrentes da expansão dos BRICS e do modo de decidir do grupo
Não foi anunciado nenhum novo convite para a entrada de novos países, como membros plenos ou como parceiros. Bom ponto! O grupo já ficou grande demais, a expansão por pressão da China foi apressada e mal planejada. Os critérios de escolha dos novos países não foram bem definidos. Faltou, por exemplo, assegurar o compromisso dos novos membros com princípios já consolidados do grupo, o que parece já estar tumultuando as negociações internas dos BRICS.

Hora de sustar qualquer expansão adicional. A razão é que um grupo maior e mais heterogêneo tende a ter dificuldade de tomar decisões práticas, especialmente se entrarem países muito vulneráveis às pressões econômicas e políticas do bloco ocidental.

Tanto mais que os BRICS –ponto fundamental e pouco conhecido – são muito agarrados à tradição de decidir por consenso, entendido rigidamente como unanimidade. Assim, cada país individual tem poder de veto, o que dificulta o avanço em temas controvertidos. Obviamente, quanto maior o grupo, mais difícil fica alcançar consenso. Já era difícil quando tínhamos apenas cinco países. Posso dar o meu testemunho de como sofríamos para alcançar consenso mesmo com só cinco países. Com 10, as dificuldades crescem. Se o número de membros plenos aumentar para 15 ou 20, o grupo corre o risco de se tornar inoperante, uma espécie de talk shop, uma instância para discursos e proclamações, não para decisões de ordem prática.

Quando prevalece a exigência de consenso, repito, cada país membro tem poder de veto, especialmente os maiores, mas também os menores. É uma receita para paralisia. A Índia, por exemplo, se vale desse noddo modo de decidir para bloquear propostas em várias áreas e, particularmente, iniciativas monetárias e financeiras que possam ferir interesses dos Estados Unidos, país com o qual ela deseja manter proximidade como contrapeso à China, sua tradicional adversária. Esse comportamento da Índia já se notava há muito tempo, mas se intensificou no governo Modi e, mais ainda, acredito, com a volta de Trump à presidência e suas repetidas ameaças.

A solução é permitir que certas iniciativas possam ser levadas adiante por um subgrupo dos BRICS, em base voluntária, ficando aberta a porta para aqueles que não desejem participar desde o início. A cúpula do Rio reafirmou essa possibilidade, dando sequência ao que ocorreu na cúpula de Kazan, na Rússia, em outubro de 2024. Agora é colocar em prática.

Apesar das dificuldades, houve progresso considerável no Rio
Não obstante todas essas dificuldades, a presidência brasileira alcançou resultados significativos na área financeira. Explico brevemente alguns deles, sem seguir uma ordem de importância ou prioridade.

Primeiro resultado: a Declaração dos Líderes foi impecável nas orientações que deu às duas principais iniciativas financeiras dos BRICS – o Novo Banco de Desenvolvimento (NBD), mais conhecido como Banco dos BRICS, e o Arranjo Contingente de Reservas (ACR).

O NBD, que eu ajudei a fundar, é de longe a mais importante das duas. Foi criado, recordo, para ser um banco do Sul Global para o Sul Global, servindo como de alternativa ao Banco Mundial e aos bancos regionais de desenvolvimento. Ainda não conseguimos chegar lá. A Declaração dos Líderes frisou corretamente (“we strongly support”) a expansão adicional do número de países membros do NBD, o que é indispensável para que ele seja, de fato, um banco global, como planejávamos desde o início. Depois de 10 anos de existência, o NBD tem apenas 11 países membros. A ex-presidente Dilma, que atualmente preside o banco, está empenhada nessa questão e já teve algum sucesso, trazendo a Argélia, além da Colômbia e do Uzbequistão, novos membros anunciados na cúpula do Rio.

Além disso, a Declaração recomendou, com toda razão, que o NBD realize mais operações com moedas nacionais dos países membros. Também aqui o banco progrediu pouco nos seus 10 primeiros anos e continua predominantemente dolarizado tanto no lado do ativo como do passivo. Dilma Rousseff está trabalhando para elevar para 30% a participação das moedas dos países membros do banco nas suas operações.

Falta, ainda, melhorar a) a transparência e a comunicação do NBD, que é inferior à do Banco Mundial e do FMI; b) preencher posições importantes que estão vagas (por exemplo, a de economista-chefe do banco); e c) garantir que o NBD sempre respeite rigorosamente as suas regras de governança, algo que infelizmente não tem ocorrido. Mais importante ainda: a qualidade e efetividade dos empréstimos do NBD precisam provavelmente melhorar – se bem que não se sabe exatamente como esse aspecto crucial está evoluindo, uma vez que, como mencionei, não há suficiente transparência do banco. O segredo a respeito levanta a suspeita de que nem tudo está indo bem nesse aspecto.

O ACR – cuja negociação foi liderada por minha cadeira no FMI, sob orientação do ministro Guido Mantega – avançou nos seus 10 primeiros anos bem menos do que esperávamos e menos do que o NBD, tendo ficado quase totalmente congelado pelo conservadorismo dos nossos bancos centrais. Ele foi concebido por nós, recorde-se, para servir como alternativa ao FMI, objetivo que ainda está muito distante.

A Declaração dos Líderes dos BRICS acerta em cheio quando frisa a conveniência de desdolarizar um arranjo que é 100% dependente do dólar. Acerta, também, quando pede que os novos membros dos BRICS possam ser incluídos como membros do ACR.

Não me espantaria, entretanto, que os bancos centrais dos cinco países fundadores do ACR (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul), ou alguns deles, estejam fazendo corpo mole com esses dois assuntos. Cabe às autoridades políticas, especialmente às presidências dos países e seus ministérios da finanças, garantir que os objetivos dos líderes do grupo sejam alcançados sem demoras desnecessárias.

Faltou na Declaração dos Líderes, menção a alguns outros pontos indispensáveis para o funcionamento do ACR. Por exemplo, a necessidade de ampliar o valor total do arranjo, que é pequeno demais para permitir que ele funcione como alternativa ao FMI. E a necessidade de desvinculá-lo gradualmente do Fundo, uma vez que apenas 30% do valor da quota de cada país podem ser utilizados sem a existência de um acordo de alta condicionalidade com o FMI. Isso defeats the purpose, obviamente. Para o leitor ou leitora ter uma ideia do ridículo de certos posicionamentos, o Banco Central do Brasi nas negociações que levaram à criação do ACR chegou a defender 100% de vinculação ao FMI, causando espanto geral.

Para permitir que a parcela livre, desvinculada do FMI, possa aumentar gradualmente para além dos 30% atuais, chegando no futuro a 100%, isto é, à desvinculação total, é essencial que se constitua uma Unidade de Monitoramento Macroeconômico, como está previsto no Tratado que constituiu o ACR, assinado em 2014. Mais de 10 anos depois, pouco ou nada foi feito para criar essa unidade.

Os chineses costumam pleitear que ela seja localizada em Xangai, no prédio do NBD. Não é má ideia, uma vez que facilitaria a sinergia entre as duas instituições. Porém, não é a melhor alternativa, pois transformaria Xangai na nova Washington, sede do banco e do fundo monetário dos BRICS.

Uma ideia melhor, do ponto de vista do Brasil e de outros membros dos BRICS, seria sediar a nova unidade dos BRICS no Rio de Janeiro. O prefeito Eduardo Paes manifestou a vontade de acolher um eventual secretariado do grupo. Uma forma de começar seria encontrar um espaço para estabelecer essa nova unidade. (Não precisa ser grande, pois não seria grande o número requerido de economistas e outros funcionários.)

Percebo, leitor ou leitora, que o artigo está ficando longo demais. Fiquei empolgado com o sucesso da presidência brasileira no primeiro semestre de 2025. Apresso-me então a concluir.

Os BRICS não se limitaram a tratar dos mecanismos financeiros já existentes, o NBD e o ACR. Lançaram ou reforçaram diversas iniciativas financeiras novas ou recentes. Não posso deixar de pelo menos mencioná-las. Destaco as seguintes : a) o uso crescente de moedas nacionais em transações entre os países (bypassando o dólar); b) a construção de uma plataforma de pagamentos internacionais alternativa ao Swift (que é a plataforma controlada e manipulada pelo Ocidente); c) a criação de um esquema de garantias multilaterais no âmbito do NBD; d) a criação de uma bolsa de mercadorias alternativa à de Chicago; e e) de mecanismos para melhorar capacidade dos nossos países de oferecer seguros e resseguros. Em todas essas áreas, os EUA e outros países do Ocidente manipulam, distorcem e fazem uso político, no pior sentido da palavra, dos instrumentos existentes. Tudo isso foi explicado, em linhas gerais, na Declaração dos Líderes e em outros documentos da cúpula do Rio.

Por último, menciono um assunto que também está próximo do meu coração – a reforma do FMI, instituição em que estive por oito anos, como diretor executivo pelo Brasil e outros 10 países. O documento apresentado na cúpula, “BRICS Rio de Janeiro Vision for IMF Quota and Governance Reform”, está excelente. Além de reiterar nossas posições tradicionais em matéria de quotas e votos (que são nos tempos atuais essencialmente inalcançáveis), o documento especifica, o que é mais importante na prática, alguns objetivos mais viáveis porque melhoram o FMI, mas não tocam nas mudanças de governança bloqueados pelos EUA e pela Europa. Por exemplo, a criação de um quinto vice-diretor na Administração do Fundo, alocando essa nova posição para nacionais de países do Sul Global. Outro exemplo: a defesa do aumento dos votos básicos, o que favorece países pequenos, inclusive vários no nosso grupo no FMI, e que dentro de certos limites é perfeitamente possível (isto é, desde que não ameace o poder de voto de pelo menos 15%, que dá aos EUA possiblidade de exercer veto em diversas decisões fundamentais, aquelas que exigem supermaioria de 85%).

E a nova moeda de reserva?
Faltou um ponto central na Declaração dos Líderes: a criação de uma nova moeda de reserva, apoiada pelo presidente Lula. Esse é o passo mais importante, mas enfrenta resistência cerrada da Índia.

Além disso, os nossos banco centrais também atrapalham chegam a ponto de se dar o direito de interferir em questões geopolíticas! O Banco Central do Brasil costuma ser um dos piores. Muito independente (em relação ao governo eleito, mas não ao mercado financeiro), o nosso Banco Central se comporta frequentemente, nas negociações do grupo, como se fosse um país separado – um 11º BRICS. Isso acontecia na minha época e continua acontecendo agora.

Falta, portanto, enquadrar o Banco Central.

Ressalto, para terminar, que foi muito precisa a declaração do presidente Lula a esse respeito. O que ele disse, reparem bem, foi que a nova moeda serviria para transações internacionais.

Diversos economistas russos, chineses e brasileiros, estão trabalhando em alternativas para chegar a uma nova moeda. Eu mesmo desenhei um caminho, que talvez não seja o melhor. Não vou abordá-lo de novo. Queria frisar um ponto apenas: uma nova moeda dos BRICS, ou de um subconjunto de países dos BRICS, não seria uma moeda única, com um banco central comum, como existe na Europa. Nenhum dos economistas que participam dessa discussão tem isso em mente. É por ignorância ou má-fé daqueles que querem obstruir o processo que esse espantalho aparece volta e meia. Uma nova moeda, se vier a ser criada, seria uma moeda digital, paralela, para fins de transações internacionais e detenção de reservas.

Desempenharia todas as funções clássicas de uma moeda – meio de pagamento, unidade de conta e instrumento de reserva – sem entretanto substituir as moedas nacionais dos países participantes e sem criar um banco central comum.

Vamos discutir essas alternativas, sem medo e de modo profissional! O resto do Sul Global espera avanços dos BRICS nessa área crucial. O sistema monetário e financeiro internacional, dominado pelos EUA e seus aliados (ou vassalos), não será reformado de forma fundamental e corre até o risco de entrar em colapso.
Trump pode espernear à vontade e fazer muitos estragos, mas não escapará de apressar, por incompetência e descontrole, o declínio do Império Americano. Como nas tragédias gregas, a tentativa dos protagonistas de fugir a seu destino só faz assegurar a sua realização.

 

***

 

Uma pequena parte deste artigo foi publicada na Folha de S.Paulo.

O autor é economista e escritor. Foi vice-presidente do Novo Banco de Desenvolvimento, estabelecido pelos BRICS em Xangai, de 2015 a 2017, e diretor executivo no FMI pelo Brasil e mais 10 países em Washington, de 2007 a 2015. Publicou pela Editora LeYa Brasil o livro O Brasil não cabe no quintal de ninguém, segunda edição 2021, e pela Editora Contracorrente o livro Estilhaços, em 2024.

E-mail: paulonbjr@hotmail.com
Canal YouTube: youtube.nogueirabatista.com.br
Portal: www.nogueirabatista.com.br

mprensa internacional repercute tarifaço de Trump contra o Brasil Por JB INTERNACIONAL

 

Por JB INTERNACIONAL
redacao@jb.com.br

Publicado em 10/07/2025 às 13:27

Alterado em 10/07/2025 às 13:29

                                     Sede do 'The New York Times' Foto: Haxor Joe


Por Paula Laboissière – Jornais de todo o mundo repercutiram a imposição de tarifa de 50% anunciada pelo presidente norte-americano, Donald Trump, a todos os produtos brasileiros exportados para os Estados Unidos.

Em carta postada nas redes sociais e direcionada ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, Trump diz que as tarifas passam a valer em 1º de agosto.

No documento, Trump justifica a medida citando o ex-presidente Jair Bolsonaro, que é réu no Supremo Tribunal Federal (STF) por tentativa de golpe de Estado. O mandatário norte-americano destacou ainda ordens emitidas pela Corte contra apoiadores de Bolsonaro que mantêm residência nos Estados Unidos.

Em resposta, Lula afirmou que o tarifaço será respondido com a Lei de Reciprocidade Econômica. Também via redes sociais, o presidente defendeu a soberania brasileira e disse que é falsa a alegação de Trump de que a taxação seria aplicada em razão de déficit na balança comercial com o Brasil.

"Neste sentido, qualquer medida de elevação de tarifas de forma unilateral será respondida à luz da Lei brasileira de reciprocidade econômica. A soberania, o respeito e a defesa intransigente dos interesses do povo brasileiro são os valores que orientam a nossa relação com o mundo", afirmou Lula.

Veja a repercussão do caso nos principais jornais internacionais:

The New York Times

O jornal norte-americano The New York Times citou uma "guerra comercial repentina" entre os Estados Unidos e o Brasil e destacou o que Trump chama de "caça às bruxas" contra Bolsonaro.

O veículo também repercutiu a reação de Lula à carta, dizendo que o Brasil responderá ao tarifaço com a Lei de Reciprocidade Econômica.

The Washington Post

O jornal norte-americano The Washington Post avaliou que o anúncio do tarifaço contra o Brasil marca uma "forte escalada" na disputa diplomática entre os dois países em relação ao julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro.  

O periódico também destacou que o governo brasileiro prometeu "retaliação".

The Guardian

O jornal britânico destacou que as últimas ameaças do presidente norte-americano aumentam receios de que "a estratégia comercial errática" de Trump possa agravar a inflação nos Estados Unidos.

Clarín

O argentino Clarín citou um "aumento drástico" de tarifas, por parte de Trump, sobre produtos brasileiros e o consequente agravamento do conflito entre os dois países.

O veículo destacou o "aumento das tensões" em razão do apoio da Casa Branca ao ex-presidente Jair Bolsonaro.

Deutsche Welle

O periódico alemão Deutsche Welle destacou a imposição do tarifaço de Trump em apoio a Bolsonaro e também a resposta de Lula ao anúncio, citando que o brasileiro classificou como "falsa" a alegação de que a taxação de 50% seria em razão de déficit comercial dos Estados Unidos com o Brasil.

Le Monde

O diário francês Le Monde avaliou que Donald Trump "usa tarifas" para apoiar o ex-presidente Jair Bolsonaro.

O periódico citou que o mandatário norte-americano acusou Lula de conduzir uma "caça às bruxas" contra seu antecessor, atualmente em julgamento por tentativa de golpe de Estado.

El país

Para o espanhol El País, o presidente dos Estados Unidos ultrapassou limites em suas ameaças comerciais, citando a taxação de mais oito países no intuito de pressioná-los a negociar antes do prazo de 1º de agosto. (com Agência Brasil)

O Brasil não é quintal dos Estados Unidos

 

Por JORNAL DO BRASIL
redacao@jb.com.br

Publicado em 10/07/2025 às 17:37

Alterado em 10/07/2025 às 17:49


O jornal “O Estado de S. Paulo”, que nos últimos anos era mais simpático, ideologicamente, ao ex-presidente Jair Bolsonaro que ao presidente Lula, publicou nesta quinta (10) candente editorial no qual acusa a chantagem do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de ameaçar impor tarifaço de 50% sobre os produtos brasileiros exportados aos EUA a partir de 1º de agosto, em razão dos processos movidos pelo Supremo Tribunal Federal (STF) contra o ex-presidente Jair Bolsonaro, de “coisa de mafiosos”.

A posição do tradicional e conservador jornal paulista, de fazer clara escolha pelo Brasil, delimita o terreno sobre a medida extemporânea e agressiva do governo Trump. Não há como ficar indiferente diante da afronta à soberania do Brasil e os interesses maiores das empresas e trabalhadores brasileiros.

Não se pode misturar questões políticas, manipuladas junto à administração Trump e congressistas republicanos pela família Bolsonaro, à frente o deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP), que se licenciou para agir contra o Brasil nos subterrâneos do governo Trump, com os legítimos interesses comerciais brasileiros.

A verdade é que a família Bolsonaro, que sempre se diz "patriota", cruzou a linha que demarca os interesses brasileiros e colocou as ambições pessoais do ex-presidente, que liderou uma cruzada contra o Estado Democrático de Direito, acima de qualquer noção de decência e de defesa dos interesses nacionais.

A ação equivocada merece o repúdio geral. Não é admissível sequestrar a economia brasileira, fechando 50% das portas do mercado americano com tarifas leoninas – as maiores impostas pela administração Trump – para exigir a anulação das condenações já sacramentadas pela Justiça Eleitoral contra o ex-presidente e, muito menos, a interrupção, "IMEDIATAMENTE", dos processos contra Bolsonaro e os 33 golpistas no STF.

Trump imagina repetir a grotesca política do “porrete grande” aplicada pelo presidente Theodore Roosevelt no final do século 19. O presidente norte-americano está passando por cima das determinações da Organização das Nações Unidas e de seu órgão de discussão das questões comerciais, a Organização Mundial de Comércio (OMC), e quer afrontar a soberania nacional. Alto lá.

É preciso gritar bem alto: O Brasil não é quintal dos Estados Unidos.

Tarifaço pode tirar EUA do mapa de venda do Brasi

 Segundo analistas, seria um efeito colateral à elevação da tarifa de 10% para 50% a produtos brasileiros

Por ECONOMIA JB com Agência Estado
redacao@jb.com.br

Publicado em 11/07/2025 às 08:18

Alterado em 11/07/2025 às 08:18


ntre os setores mais prejudicados por uma tarifa desta magnitude estão o siderúrgico e a indústria de aviação – a Embraer e seus fornecedores, na opinião de professor da FGV Foto: divulgação


Por Aline Bronzati - Do alívio à perplexidade, a tarifa dos Estados Unidos contra o Brasil subiu do piso (10%) para o teto (50%), numa medida que, se não for revertida, ameaça riscar a maior economia do mundo do mapa de muitos exportadores. Os efeitos da taxação pesam nos ativos financeiros. As taxas de juros futuros e do câmbio subiram ontem e devem seguir nessa toada na sessão desta quinta-feira. A moeda à vista avançou 1,04% ontem, a R$ 5,5024, sendo o maior valor de fechamento desde 25 de junho (R$ 5,5551) e ultrapassando os R$ 5,50 pela primeira vez desde a mesma data. A ação também agrava a situação de processos de fusões e aquisições (M&A, na sigla em inglês) entre empresas brasileiras e americanas, que já vinham titubeando.

Menos mal que, mesmo sendo o segundo maior destino dos embarques brasileiros, os Estados Unidos não têm peso suficiente para levar sozinho a economia brasileira à recessão, de modo que o impacto no Produto Interno Bruto (PIB), ainda que não desprezível, deve passar longe de ser uma tragédia. Nas contas do Goldman Sachs, se forem “duradouras e sem grandes retaliações”, as novas tarifas de Trump podem ter impacto negativo de 0,3 a 0,4 ponto porcentual no PIB brasileiro. O cenário-base do banco americano já contempla efeito de 0,1 ponto porcentual.

É a vantagem de ter, nesses momentos, uma economia fechada. Mas o plano de empresas brasileiras de comprarem ou se fundirem com concorrentes americanas para tentar crescer nos Estados Unidos, e fugir das tarifas de Donald Trump. O ambiente de crescente incerteza tem feito as próprias companhias americanas postergarem negociações de fusão e aquisição e já há relatos de operações de brasileiras que foram paralisadas nos últimos dias.

Depois de ameaças, o presidente dos EUA, Donald Trump, anunciou uma tarifa de 50% a produtos brasileiros, a partir de 1º de agosto, muito acima dos 10% anunciados meses antes. No primeiro anúncio do tarifaço, em 2 de abril, o sentimento entre exportadores brasileiros era de “dos males, o menor”. Havia até mesmo uma leitura de que o Brasil poderia tirar vantagem por ter ficado com a menor tarifa.

Muito além
Só que o cenário mudou radicalmente no dia seguinte, com Trump comunicando que o Brasil vai pagar a maior alíquota, o que impõe ao Brasil o desafio de buscar novos clientes quando o resto do mundo também procura destinos alternativos aos Estados Unidos. A imprevisibilidade já é a principal marca da política comercial americana, mas ainda assim o anúncio não deixou de surpreender, já que as apostas eram, em geral, de que Trump não elevaria a taxa de entrada dos produtos brasileiros para mais de 20%.

“É um grande aumento, porque a tarifa efetiva sobre o Brasil agora é de cerca de 8%. Então, aumentar de 8% para 50% parece assustador, enorme”, avaliou a economista-chefe de mercados emergentes da gestora VanEck, Natalia Gurushina, baseada em Nova York, em entrevista ao Broadcast.

Para o consultor Welber Barral, a tarifa de 50% deixa o Brasil praticamente de fora do mercado americano, já que os consumidores dificilmente aceitarão o repasse da elevação tarifária, exceção a produtos específicos e insubstituíveis. “Não tem como transferir isso para o preço, né? Então, a maioria [dos setores] vai ter um impacto grande na exportação”, comentou Barral.

O economista e professor dos MBAs da Fundação Getulio Vargas, diz que a tarifa de 50% a produtos brasileiros anunciada pelos Estados Unidos carece de fundamento econômico e terá um impacto significativo sobre empresas exportadoras. “É uma medida que não tem fundamento econômico e, pela própria forma como foi veiculada, é um exercício de geopolítica imperial. Cita questões políticas, diz que o Supremo Tribunal Federal censura empresas, o que absolutamente não é verdade”, diz.

Segundo ele, entre os setores mais prejudicados por uma tarifa desta magnitude estão o siderúrgico e a indústria de aviação – a Embraer e seus fornecedores. “Os empresários do setor do aço não vão dormir esta noite. É um produto que já vinha perdendo competitividade”, acrescenta. O agronegócio também deve ser prejudicado pela tarifa de 50%, especialmente a venda de café e carnes.

Para o presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), José Augusto de Castro, a taxação de Trump inviabiliza o comércio de manufaturas com os Estados Unidos. As empresas, numa primeira reação à medida, devem suspender vendas aos Estados Unidos, até que se tenha uma definição sobre as tarifas. Conforme Castro, agora é a hora da diplomacia entrar em campo na tentativa de reversão.

Ramos, do Goldman Sachs, diz que a retaliação geraria um impacto negativo maior na atividade brasileira e na inflação, mas esse movimento ainda não está claro. “A inclinação política pode ser para fazê-lo, mas antecipamos que os exportadores locais instarão o governo a desescalar”, diz.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou há pouco que “qualquer medida de elevação de tarifas de forma unilateral será respondida à luz da Lei brasileira de Reciprocidade Econômica”.

Motivação política
A motivação política da taxação de Trump aos produtos brasileiros também repercutiu nos EUA, da política à economia. O CEO da consultoria Eurasia, Ian Bremmer, afirmou que os americanos estão interferindo na política interna do Brasil com a justificativa de que a alíquota responde aos ataques ao ex-presidente Jair Bolsonaro.

Na carta direcionada ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), o republicano afirmou que a taxação é uma resposta ao tratamento dado pelo País ao ex-presidente Jair Bolsonaro e a decisões do Supremo Tribunal Federal (STF) contra empresas americanas de tecnologia. “Seria intolerável para os líderes políticos americanos (republicanos e democratas) se outro país tentasse isso nos Estados Unidos”, avaliou Bremmer, em seu perfil no ‘X’.

Já Paul Krugman, economista norte-americano, vencedor do Nobel de Economia de 2008, disse que a nova tacada de Trump é motivo para o impeachment do atual chefe da Casa Branca. “Se ainda tivéssemos uma democracia que funcionasse, essa jogada contra o Brasil seria, por si só, motivo para impeachment”, diz Krugman, em postagem, nesta quarta-feira. A medida é “tanto maligna quanto megalomaníaca” e não deve ser ignorada, conclui.

Reação no mercado
As empresas exportadoras devem novamente sofrer na sessão desta quinta-feira em reação ao anúncio de aumento de tarifas. Na véspera, Embraer, WEG, os frigoríficos e as petroleiras já experimentaram recuo no mercado acionário doméstico. Outras companhias, que têm os EUA como destino de seus produtos, também devem apresentar um desempenho ruim no pregão, como a Azzas e a Alpargatas, cuja expectativa é de queda de 7% e 4%, respectivamente, em seus resultados, de acordo com o Citi.

O alívio para o Ibovespa, principal índice da B3, pode vir das mineradoras nesta sessão, apesar do tarifaço imposto ao Brasil. Os papéis de Vale, Bradespar e CSN Mineração podem ter um dia positivo considerando a alta expressiva do minério de ferro no mercado futuro de Dalian, na China. A commodity subiu mais de 3% e fechou negociada em cerca de US$ 106. (Com Eduardo Laguna, Altamiro Silva Júnior e Gustavo Nicoletta, Ana Paula Machado e Silvana Rocha)


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