segunda-feira, abril 04, 2022

Orbán declara sua vitória em eleição nacional na Hungria




Frente única de seis partidos de oposição reconhece derrota. Guerra na Ucrânia virou tema central na reta final da campanha. Analistas apontam que controle da mídia e da economia dificultam mudança de rumo no país.

O primeiro-ministro da Hungria, Viktor Orbán, reivindicou a sua vitória nas eleições parlamentares da Hungria, realizadas neste domingo (03/04). Peter Marki-Zay, líder da frente única de oposição, reconheceu a derrota diante dos resultados preliminares da votação.

Com 75% dos votos apurados, o Fidesz, partido de Orbán, de perfil nacionalista de direita e autoritário, tinha recebido 54,5% dos votos, enquanto a frente única de oposição, Unidos pela Hungria, tinha 34%, segundo o órgão responsável pela organização das eleições. O resultado posiciona Orbán para exercer seu quarto mandato consecutivo como primeiro-ministro.

Em um discurso de dez minutos a seus apoiadores, em Budapeste, antes dos resultados finais, Orbán afirmou que seu partido tinha obtido uma "vitória imensa". "Tivemos uma vitória tão grande que você pode vê-la a partir da Lua, e você certamente pode vê-la a partir de Bruxelas", disse. O primeiro-ministro Húngaro é ferrenho crítico da União Europeia, que com frequência o questiona por retrocessos democráticos e suspeitas de corrupção.

Havia expectativa que a disputa deste domingo seria a mais apertada desde que Orbán assumiu o poder, em 2010, graças a uma coalizão dos seis principais partidos de oposição da Hungria, que puseram de lado suas diferenças ideológicas e formaram uma frente única, liderada pelo conservador Marki-Zay.

No entanto, mesmo em seu distrito de origem, Marki-Zay estava atrás do candidato do Fidesz, Janos Lazar, por mais de 11 pontos, com 74% dos votos apurados – sinal desanimador para o candidato a primeiro-ministro que havia prometido acabar com o que ele chama de corrupção desenfreada no governo e elevar o nível de vida, aumentando as verbas para escolas e hospitais em dificuldade.

Condições da disputa

Partidos da oposição e observadores internacionais apontaram obstáculos estruturais para derrotar Orbán, como o viés pró-governo generalizado na mídia pública, o controle dos veículos de mídia comerciais por aliados do primeiro-ministro e um mapa das zonas eleitorais manipulado a favor da situação.

Edit Zgut, cientista política da Academia Polonesa de Ciências em Varsóvia, afirmou à agência de notícias Associated Press que uma vitória clara de Orbán permitiria que ele aprofundasse a linha autocrática, afastando dissidentes e capturando novas áreas da economia.

'O líder da oposição, Marki-Zay, afirmou que eleição era uma "batalha árdua"

"A Hungria parece ter chegado a um ponto sem retorno", disse ela. "A principal lição é que o campo de jogo está tão inclinado que se tornou quase impossível substituir o Fidesz nas eleições."

A coalizão de oposição defende uma nova cultura política baseada em um governo pluralista e a reparação de alianças com a União Europeia (UE) e países da Otan.

Guerra na campanha

No início da campanha eleitoral, Orbán estava focado em questões sociais e culturais divisivas, mas mudou drasticamente o tom após a invasão russa da Ucrânia e passou a retratar as eleições como uma escolha entre paz e estabilidade ou guerra e caos.

Enquanto a oposição queria que a Hungria apoiasse a vizinha Ucrânia e agisse em sintonia com seus parceiros da UE e da Otan, Orbán, um aliado de longa data do presidente russo Vladimir Putin, insistiu que a Hungria deveria permanecer neutra e manter estreitos laços econômicos com Moscou, inclusive continuando a importar gás e petróleo russos em condições favoráveis.

Em seu último ato de campanha, na sexta-feira, Orbán afirmou que fornecer armas à Ucrânia, algo que a Hungria se recusou a fazer, faria do país um alvo militar, e que sancionar as importações de energia da Rússia prejudicaria a própria economia da Hungria. "Esta não é nossa guerra, temos que ficar de fora dela", disse.

O presidente da Ucrânia, Volodimir Zelenski, no sábado descreveu o líder húngaro como alguém desconectado do resto da Europa – que se uniu para condenar Putin, apoiar as sanções contra a Rússia e enviar ajuda, inclusive armas, à Ucrânia. "Ele é praticamente o único na Europa a apoiar abertamente o senhor Putin", disse Zelenski.

"Batalha árdua"

Depois de votar em sua cidade natal de Hodmezovasarhely, onde é prefeito, Marki-Zay chamou a eleição de domingo de uma "batalha árdua", devido aos recursos econômicos superiores do Fidesz e de sua vantagem na mídia.

"Estamos lutando pela decência, estamos lutando pela independência do Judiciário e pelo Estado de direito na Hungria", disse Marki-Zay. "Queremos mostrar que este modelo que Orbán introduziu aqui na Hungria não é aceitável para nenhum homem decente e honesto."

Marki-Zay escreveu mais tarde em uma rede social para agradecer a todos os húngaros que votaram e aos mais de 20 mil fiscais voluntários que os partidos da oposição destinaram a locais de votação em todo o país. "Expresso minha gratidão aos civis que passaram o dia inteiro verificando a correição da eleição e agora estão começando a contagem", afirmou.

Orbán, um crítico feroz da imigração, dos direitos LGBTQ e dos "burocratas da UE", conquistou a admiração dos nacionalistas de direita em toda a Europa e da América do Norte. Ele submeteu muitas das instituições da Hungria ao seu controle e se apresenta como um defensor da cristandade europeia contra os migrantes muçulmanos, os progressistas e o "lobby LGBTQ".

Junto com a eleição para o Parlamento, um referendo sobre questões LGBTQ foi realizado no domingo. As questões diziam respeito aos programas de educação sexual nas escolas e à disponibilidade de informações para crianças sobre mudança de sexo.

A Organização para Segurança e Cooperação na Europa enviou uma missão de observação completa à Hungria para monitorar a eleição de domingo, a segunda vez que fez isso em um país da União Europeia.

Deutsche Welle

Hoje (04.04)vacinação contra a Influenza e contra covid-19, na praça Zilda Arns, no Jardins, Aracaju - Sergipe

    




Hoje (04.04)vacinação contra a Influenza e segundo reforço contra covid-19, na praça Zilda Arns, no Jardins ao ar livre, com direito a ser filmado na hora da vacinação e, ainda conceder entrevista para Televisão.

O que fez-me refletir, é como com tanta e necessária  exigência na identificação para que a vacina seja aplicada, como em Jeremoabo mais de 20(vinte)pessoas conseguiram furar fila.
A resposta é simples conivência e omissão.

Sem unidade de ideias, esquerda ganha espaço América Latina - Editorial

 




Num efeito dominó, a esquerda vem ganhando poder na América Latina desde a eleição de Andrés Manuel López Obrador (foto) no México, em 2018. De lá para cá, venceu na Argentina, Bolívia, Peru, Honduras e Chile. O movimento poderá continuar neste ano. No pleito marcado para maio na Colômbia, o favorito é de esquerda. Aqui no Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva lidera as pesquisas. Mas, embora todos estejam no campo identificado como progressista, há diferenças fundamentais entre os representantes dessa esquerda ascendente, como demonstram os casos chileno, peruano e colombiano.

Com 36 anos, o chileno Gabriel Boric encarna a chegada ao poder de uma nova geração. Crítico de ditaduras esquerdistas como Cuba e Venezuela, com um programa recheado de temas caros ao eleitorado jovem (feminismo e meio ambiente), diz estar aberto ao diálogo com um amplo espectro do eleitorado. Parece saber que, para atingir suas metas de elevar o bem-estar e combater a desigualdade, terá de proporcionar um ambiente propício ao crescimento. Em vários sentidos, Boric é prova do poder de renovação da democracia. Ainda é cedo para dizer se terá sucesso. Por enquanto, ele ainda está em lua de mel com o eleitorado.

O caso do peruano Pedro Castillo é oposto. Castillo está num inferno astral. Sua vitória em junho e, principalmente, seu governo são exemplos do nível da enfermidade que aflige a democracia peruana. O país teve cinco presidentes nos últimos cinco anos. Não houve nenhuma reviravolta econômica, revolta armada ou crise de segurança, nada que justificasse o entra e sai.

A crise peruana é política. Castillo, ex-professor rural e sindicalista sem experiência em cargo público, só piorou o que já estava ruim. A pasta das Relações Internacionais teve três ministros. A da Justiça, também. A Economia, dois. Faltando quatro meses para completar um ano no poder, Castillo enfrentou duas moções de vacância (impeachment por incapacidade moral para governar). A última foi na terça-feira passada. Por ora, garantiu sua cadeira. A promessa de campanha “No más pobres en un país rico” se perdeu com ideias tortas e incompetência.

Na Colômbia, Gustavo Petro, ex-guerrilheiro e ex-prefeito de Bogotá, sagrou-se vitorioso nas primárias realizadas no dia 13. Na disputa interna, foi aclamado como candidato da esquerda nas eleições presidenciais daqui a dois meses. Sua coalizão, o Pacto Histórico, apareceu como uma das principais forças do novo Congresso. Embora Petro não possa ser comparado ao caótico Castillo, tampouco representa uma nova esquerda. Critica Nicolás Maduro, mas tem um longo histórico de ligação com o chavismo.

Por aqui, as virtudes e os vícios dos governos de Lula são todos conhecidos. Seus planos para um terceiro mandato seguem sendo mistério. Mesmo favoritos, Petro e Lula ainda não têm vitória garantida. Nem se sabe se, caso vitoriosos, proporcionarão a seus países uma lua de mel ou um inferno astral.

O Globo

A hora da 'trairagem'

 




É bom ficar de olho para ver quem trairá quem até as eleições. Sobretudo o Centrão

Se alguém tem dúvidas do "status quo", da "nova política" instaurado por Jair Bolsonaro & cia, não basta citar a forte influência e corrupção dos pastores evangélicosCredit...Foto: Marcos Correa / Presidência da República

POR GILBERTO MENEZES CÔRTES

Bem ou mal, a representação política no Brasil, desde o Império, passando pela República, pelas interrupções do processo democrático (nos anos 30, com Getúlio Vargas e no regime militar, de 1964 a 1985), até os dias de hoje, sempre refletiu o grau de representatividade democrática da sociedade. Quando o Brasil era uma sociedade rural e escravocrata, no período imperial, só a elite rural participava da vida política, oxigenada pela vinda da Corte Portuguesa ao Brasil, que instalou na capital, Rio de Janeiro, a burocracia do Estado Imperial, parcialmente herdada por D. Pedro I e D. Pedro II. Na República, já com a abolição da Escravidão, a representatividade política continuou concentrada na oligarquia rural, sob a vigência da “república do café com leite”, (o café era representado por São Paulo e o leite por Minas Gerais). Com a mudança da capital para Brasília, e o pequeno interregno até a imposição do golpe militar, que baniu da vida política as representações sociais do centro para a esquerda, a cidade virou refúgio da burocracia que encastelou-se no Planalto Central e mais distante ficou dos anseios da população de um país que se urbanizava.

O processo se acelerou, de forma caótica, quando as geadas de 1975, que destruíram os cafezais de Paraná e São Paulo, não só puseram fim ao regime do colonato, iniciado em meados do século XIX, quando a escravidão já tinha os dias contados pela Lei Aberdeen e os fazendeiros paulistas e paranaenses trouxeram famílias de emigrantes europeus (italianos, espanhóis e alemães, com conhecimentos de tecnologia agrícola e outras habilidades, como marcenaria e metalurgia) para cultivar o café nas ricas terras roxas dos dois estados. Ao contrário da escravidão, na qual os negros não tinham liberdade nem acesso à terra para o cultivo de algo para seu sustento (precariamente mantido pelos senhores de escravos), os emigrantes e suas famílias tiveram acesso ao meio de produção, podendo plantar (e repartir em regime de meia ou terça - 50% ou 33%) com o dono da terra o resultado do cultivo de milho, feijão, mandioca e banana nas “ruas” do café. Esse acesso à terra foi determinante para que as famílias dos agricultores europeus evoluíssem na escala social brasileira, enquanto os afrodescendentes (que vieram ao Brasil cativos e apartados de suas famílias), sem acesso à terra quando foram libertados e sem apoio de políticas educacionais para a promoção social, permaneçam até hoje nos estratos inferiores da escala social brasileira, ao lado de descendentes de índios que perderam seus territórios e identidade e nordestinos sem-terra, ou sem água, quando conseguiram acesso ao chão. A ruptura do regime do colonato mudou radicalmente a face agrícola e a composição da população brasileira, que já nos anos 80 tornou-se predominantemente urbana.

Do ponto de vista social, a década compreendida entre o final dos anos 70 e o fim dos anos 80 foi um duro período de tensões. A desorganização na produção de alimentos básicos (a partir do fim do colonato) e a introdução das monoculturas de cana-de-açúcar e laranja onde antes reinava o café no planalto paulista fez a inflação disparar, num período em que o Brasil estava fustigado pela vulnerabilidade cambial para importar petróleo, cujos preços explodiram em 1973, quando o país produzia apenas 15% do petróleo consumido, e dobraram em 1979, após a eclosão da guerra Irã-Iraque. Quem hoje sofre as atribulações da alta de preços das commodities agrícolas, minerais e energéticas provocadas pela invasão da Ucrânia pela Rússia e pelas sanções econômicas e financeiras à Rússia de Vladimir Putin, não imagina o que era aquela época, que culminou com um processo de escalada de juros pelo Federal Reserve dos Estados Unidos, comandado por Paul Volcker, um homem de dois metros de altura, que levou os juros a quase 20% ao ano (o histórico oscilava entre 5% e 6,5%). Todos os países emergentes que tomaram empréstimos externos para reciclar suas economias ao choque do petróleo - entre os quais o Brasil, que quebrou em setembro de 1982, após o México declarar moratória em agosto - entraram em longa crise de liquidez, com graves reflexos econômicos e sociais. O ministro da Economia, Paulo Guedes, que surgiu na cena econômica brasileira no começo dos anos 80, após doutorado na Escola de Chicago, do guru Milton Friedman, podia fazer uma comparação com os atuais dias difíceis para o Brasil e o mundo e reconhecer como, então, era bem mais difícil fazer do que criticar.

Mas Paulo Guedes sequer faz “mea culpa” pelos erros do excesso de liberalismo em 2020. Graças aos técnicos da Embrapa, que desenvolveram sementes de grãos adaptáveis ao cerrado do Centro-Oeste e Oeste da Bahia e Minas Gerais, o país tornou-se, ao lado do café e do açúcar, introduzidos no Brasil-Colônia, o maior exportador agrícola de soja, de carne bovina, de carne de frango (que usam soja e milho na ração, assim como os suínos), de algodão, além de suco de laranja. Pois este Brasil, em setembro de 2020, com os produtores agrícolas, impulsionados pela escalada do dólar, que não foi corretamente administrado pelo governo (Ministério da Economia e Banco Central, dois dos três assentos no Conselho Monetário Nacional), exportando tudo, ficou sem estoque regulador (completa imprevidência) e teve de importar arroz, que subira mais de 70%, leite em pó e soja em grão para fazer óleo de soja, que subira mais de 100%. Guedes também não reconhece a competência da Petrobras em tornar um país de dimensões continentais como o Brasil virtualmente autossuficiente. 

Agora, é mais fácil botar a culpa no Putin. Antes da urgência da guerra, já se fazia necessária a adoção de uma política de amortecimento das altas sazonais do petróleo e do gás no inverno do Hemisfério Norte. Fundos para isto estavam bem à mão para adotar os subsídios: os altos lucros da Petrobras (que produz o barril a menos de US$ 20 no pré-sal e passa a ter um lucro extraordinário quando o petróleo sobe a mais de US$ 100 por barril). Mas estes lucros, em vez de reverterem para a garantia de abastecimento acessível à sociedade - como deveria ser a preocupação primordial da produção agrícola - foi redistribuído, conforme a cartilha liberal, para os acionistas da Petrobras, inclusive a União. Governos devem ser eleitos para arbitrarem conflitos sociais e econômicos em prol da sociedade, a maioria, e não em proveito de uma minoria de investidores, que nem estão no Brasil.

A urgência da eleição

O que mudou não foi a guerra da Rússia na Ucrânia e suas consequências. O que mudou foi o calendário eleitoral. A seis meses do 1º turno da eleição que terá lugar em 2 de outubro, motivo para a revoada geral dos administradores que estavam nos governos (federal, estaduais e municipais) e tinham que se desincompatibilizar para concorrer em outubro, ou políticos que querem trocar de ninho para garantir representatividade na Câmara Federal, Senado ou Assembleias Legislativas, ou simplesmente conseguir o escudo da imunidade parlamentar para não serem alvos de inquéritos e condenações judiciais por improbidade administrativa no exercício de funções. Atrás nas pesquisas eleitorais, o presidente Jair Bolsonaro, que se filiou no começo do ano ao PL do notório Valdemar Costa Neto, que cumpriu vários anos de prisão como condenado no “mensalão”, foi o maior responsável pela revoada, trocando 11 ministros, fora uma penca de altos funcionários na burocracia do governo. Na maior parte dos casos, assumiram os secretários-executivos. O que era ruim, continua pior. Ou, como diria o Barão de Itararé, “De onde não se espera nada, é que não virá nada mesmo”. Mas os candidatos que patinavam nas pesquisas e não ousavam apresentar suas verdadeiras faces, tiveram de se render à hora da verdade. 

Por enquanto, concentrando votos em Lula e Bolsonaro. O ex-juiz da Lava-Jato e ex-ministro da Justiça e Segurança Pública de Jair Bolsonaro, que deixou o cargo atirando em 23 de abril de 2020, após a reunião ministerial, em plena pandemia, quando o presidente só demonstrou preocupação de proteger seu clã e resguardar amigos, com o uso da máquina pública da Polícia Federal e influência nos tribunais de Justiça, foi o 1º a desistir da candidatura. Trocou o Podemos pelo União Brasil, fusão do PSL com o DEM, mas foi enquadrado pela conveniência da costela do DEM de fazer dobradinha com Lula em alguns estados, sobretudo do Nordeste, para apenas pleitear um cargo de deputado federal por São Paulo, onde poderia puxar votos para a legenda.

O governador de São Paulo, João Dória Jr, do PSDB, repetiu mais de seis décadas depois o blefe de um ex-governador paulista. Jânio Quadros, abrigado por conveniência na UDN, da qual nunca foi soldado, queria mais poder e renunciou à candidatura no começo de 1960. Era apenas uma manobra para se libertar da influência da UDN, inclusive do seu vice, o nobre político mineiro Milton Campos (como o voto para vice era avulso, Jânio, pensando longe, incentivava a dupla Jan-Jan, para estimular votos no vice do marechal Lott, candidato do PTN, João Goulart). Eleito, aproveitou uma ida de Jango à China (num tempo de voos limitados e parco uso do telex) para fabricar uma crise militar renunciando no Dia do Soldado, 25 de agosto, imaginando que teria respaldo das Forças Armadas para ampliar seus poderes perante o Congresso, enquanto Jango, rejeitado pelo estamento militar, estava distante. Deu-se mal porque o presidente do Senado, Auro de Moura Andrade, leu a carta de renúncia (um ato de vontade unilateral) e o cargo ficou vago. Os militares, de fato, se insurgiram contra Jango, defendido pelo cunhado, Leonel Brizola, governador do Rio Grande do Sul, que lançou a “Campanha da Legalidade” e, no impasse, adotou-se o parlamentarismo, com Jango presidente e Tancredo Neves como Primeiro-Ministro. Depois do 3º governo parlamentarista, Jango promoveu o plebiscito e voltou nos braços do povo, para um governo apeado do poder em 31 de março/1º de abril de 1964.

O longo tempo do regime militar criou um vácuo na representação política. A redemocratização e a Constituição de 1988 tentaram refletir um novo Brasil, urbano, com novos atores. Mas a migração forçada e acelerada de agricultores que largaram as enxadas no campo para as grandes cidades, sem que tivessem passado pelos bancos de treinamento das escolas, na falta de uma política nacional de saneamento básico que desse emprego a quem estava mal habilitado como mão-de-obra da construção civil, criou um conflito social dos excluídos que passaram a viver nas periferias das grandes cidades. 

As fileiras do tráfico ganharam soldados inesperados. E dois atores entraram em cena para tirar proveito na mediação de conflitos: de um lado, milícias armadas (na verdade um consórcio de Policiais Militares e civis que nas horas de folga montam “empresas” que dão segurança a pequenos comerciantes que pagam por isso, mas a garantia da lei e da ordem é efetivamente garantida pelos efetivos das PMs ou polícias civis de plantão, ou seja, tudo bancado pelo contribuinte que paga ao Estado e aos intermediários). Os negócios desses escritórios do crime se ampliaram como os tentáculos da máfia, incluem gatos de luz, água e serviços de telecomunicações, além de empreendimentos imobiliários em áreas ocupadas irregularmente (no vácuo da ausência de políticas habitacionais das prefeituras), jogos eletrônicos e influência política nas câmaras municipais e assembleias legislativas. De outro, uma miríade de pastores de denominações evangélicas que passaram a explorar a religiosidade natural de quem vivia no campo. Efetivamente, essas suas correntes se transformaram em grandes “coronéis” dos currais eleitorais urbanos. E tomaram de assalto a Câmara e o Senado no governo Bolsonaro, sempre simpático às causas dos milicianos, que não se cansava de elogiar, ao lado dos torturadores das forças armadas.

Se alguém tem dúvidas do “status quo”, da “nova política” instaurado por Jair Bolsonaro & cia, não basta citar a forte influência e corrupção dos pastores evangélicos das diversas denominações ligadas à Assembleia de Deus, que levaram à demissão do ministro da Educação, o pastor presbiteriano Milton Ribeiro, ou a pressão exercida pelos bispos da Igreja Universal do Reino de Deus, de Edir Macedo, que criou o Republicanos como representação política, aliado na maioria dos casos ao PL, o partido de Bolsonaro, seus filhos, ex-ministros e Valdemar Costa Neto, que tende a formar, até que a eleição mude tudo, a maior bancada da Câmara. O mais novo filiado a PTB, o partido que foi comandado pelo também condenado Roberto Jefferson, Fabrício José Carlos de Queiroz, conseguiu um registro para se candidatar a deputado federal pelo Rio de Janeiro resumiu bem o lema, típico da máfia e das maltas de bandidos. Sub-tenente da Polícia Militar do RJ, da qual foi afastado por denúncias de tortura e se aliar a milicianos, Fabrício Queiroz foi abrigado no gabinete do então deputado federal Jair Bolsonaro (PP-RJ), que o cedeu para atuar no gabinete do filho 01, Flávio Bolsonaro, quando este se elegeu deputado na Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj). Durante o mandato 2015-2018, Queiroz repetiu na Alerj o esquema de “rachadinha” que aprendeu com a ex-mulher de Bolsonaro Ana Cristina Siqueira Valle, quando ambos assessoravam o gabinete do ex-capitão-deputado: pessoas contratadas com as verbas públicas do gabinete, sem obrigação de bater ponto ou prestar serviços efetivos, tinham de devolver a maior parte dos vencimentos. Este esquema foi descoberto na Alerj no tempo em que Flávio Bolsonaro era deputado estadual. Eleito senador em 2028, o filho 01 conseguiu barrar no TJ-RJ e tribunais superiores provas de depósitos (nas contas de Queiroz, sob o argumento de violação de sigilo bancário). 

Queiroz cumpriu pena, mas não abriu o bico, apesar de lamentar certo abandono do clã Bolsonaro, cujo advogado abrigou Queiroz em sua casa-escritório de advocacia em Atibaia-SP, onde foi encontrado e preso em junho de 2020. Pois Queiroz já criou um lema, típico da máfia, para fustigar o ex-juiz e ex-ministro Sérgio Moro, que pretende esgrimir a bandeira contra a “corrupção”, e a quem espera superar em votos (ainda que em estados diferentes) para a Câmara Federal. Disse que sua disputa contra Moro, símbolo da Lava-Jato “será a luta da lealdade contra a trairagem”. A que ponto chegamos! Mas é bom ficar de olho para ver quem trairá quem até as eleições. Sobretudo o Centrão. Como o escorpião da fábula, sempre trai, pela essência de seu caráter de aderir a quem está no poder ou com perspectiva de, para tirar casquinha da influência.

Jornal do Brasil

A lição de Zelensky




Como é que alguém aparentemente leviano, frívolo e fútil, se assume como o contrário disso, um chefe firme, consistente, que distingue o certo do errado e que tem a coragem para agir em conformidade? 

Por André Abrantes Amaral 

Há dias a CNN Portugal passou um programa sobre o percurso de Volodymyr Zelensky. De comediante, por vezes indecoroso, a presidente da Ucrânia e a um dos líderes mais admirados do mundo livre. O processo de transformação seria equivalente a Herman José ser eleito presidente e tornar-se num líder feroz perante uma invasão espanhola. A pergunta que muitos fazem é como é possível um comediante chegar à chefia de um estado. A pergunta que me tenho colocado é como é que alguém aparentemente leviano, frívolo e fútil, se assume como o contrário disso, um chefe firme, consistente, que distingue o certo do errado e que tem a coragem para agir em conformidade. Mais, que faz o que está certo mesmo que não fosse condenável se não o fizesse. Possivelmente, se tivesse aceite a oferta de fuga norte-americana os russos teriam sido bem sucedidos e Zelensky chefiaria um governo no exílio. Não seria a primeira vez nem será a última.

Zelensky era o tipo de pessoa de quem não se esperava uma atitude como a que tomou. Putin cometeu o mesmo erro ao substimar um homem que devia desprezar por tudo o que ele representava. É que a surpresa não está em Zelensky ter sido actor, mas em ter sido o actor que foi, ter representado os papéis que representou, de quase palhaço, da risota parva e inconsequente. Nada no seu perfil fazia esperar isto.

Mas se olharmos para a história vemos que é o que geralmente sucede. De Winston Churchill dizia-se que lhe faltava discernimento. Stanley Baldwin, no seu tereiro mandato enquanto primeiro-ministro, chegou a comentar que entre as muitas qualidades atribuídas à nascença a Churchill lhe tinham sido negadas o discernimento e a sabedoria, razão pela qual jamais seguiriam o seu conselho (‘Churchill – Walking with Destiny’, Andrew Roberts). O próprio rei Jorge V não via com bons olhos a hipótese de Churchill ser primeiro-ministro. Com um feitio fora do comum, um tanto ou quanto excêntrico e com um comportamento errático Churchill, não parecia ser o mais fiável dos políticos da Grã-Bretanha. Apesar de tudo era conhecido, tinha linhagem (o que ainda era relevante à época em Westminster), ao contrário de Charles de Gaulle. Este vinha de uma família de classe média francesa, católica e com ligações à causa monárquica. Quando de Gaulle leu, a partir de Londres, a declaração radiofónica de 18 de Junho de 1940, foram poucos os que o ouviram; praticamente ninguém o conhecia. De Gaulle era um estranho para os franceses e, durante os primeiros tempos, poucos em França conheciam as suas actividades.

O que Churchill e de Gaulle tinham em comum foi o terem alterado o destino. Com 65 anos o primeiro já não esperava ser chefe de um governo e de Gaulle com 50 sentia que a vida lhe passava ao lado. Tanto um como o outro surgiram quando não aceitaram os factos que tantos consideravam consumados. Na altura foram vilipendiados, de Gaulle foi mesmo considerado um traidor. Na mesma linha Reagan era um actor de segunda que ia hostilizar a URSS e colocar em perigo a vida d emilhões de pessoas; Thatcher, uma mulher, filha de um merceeiro que inicialmente se deixava intimidar pelas figuras de Wilson e Heath e que os seus pares encaravam como uma líder transitória até que alguém mais adequado surgisse. João Paulo II escapava dos trâmites consensuais para um Papa. Lech Walesa, um electricista num estaleiro naval. Hoje são celebrados como heróis porque não aceitaram os factos e ao não aceitá-los mudaram a história.

Como Zelensky ao recusar a boleia dos norte-americanos. Ninguém esperava a resistência ucraniana. Esta surgiu porque os ucranianos lutaram e tiveram alguém a uni-los nessa luta. O que está a suceder na Ucrânia é extraordinário num tempo em que se julgava que os actos heróicos eram assuntos do passado mas, como no Ulysses de Tennyson, o que somos, somos e ainda há quem se disponha a encontrar no sentido último da vida algo mais grandioso que o mero passar do tempo e que é a passagem da memória.

Mas o ponto a salientar é que seria de esperar que uma atitude como a de Zelensky surgisse de outra pessoa mais preparada, mais séria e circunspecta e jamais de um actor como ele. Quando André Malraux perguntou a Charles de Gaulle qual a figura internacional que mais admirava, na qual mais se revia a resposta extraordinária que ouviu foi que o seu único rival era Tintin. Porque tal como de Gaulle, enquanto presidente de uma potência menor, Tintin representava os pequenos que não se deixam enganar pelos grandes. Uma vez mais o exemplo de Zelensky evidencia que as ideias preconcebidas nos enganam, que a salvação raramente vem dos puros, sensatos e sérios, dos aparentemente perfeitos, dos que evitam cometer erros ou dos fisicamente mais fortes, mas sim daqueles de quem menos se espera.

Observador (PT)

O massacre de Bucha, na Ucrânia, e o antídoto contra a guerra de informação.




O valor daqueles que arriscam suas vidas para trazer imagens e relatos independentes de um conflito, mesmo quando o acesso aos locais é garantido por uma das partes interessadas, está aí: eles são o melhor antídoto à guerra de informação. 

Por Diogo Schelp (foto)

Dos inúmeros cacoetes, muletas argumentativas ou lugares comuns repetidos por analistas, comentaristas ou correspondentes a respeito do conflito na Ucrânia, o mais irritante sem dúvida é abuso da expressão "guerra de informação". É a palavra mágica usada por alguns desses meus colegas quando não sabem a resposta a uma pergunta (por exemplo, quantos soldados russos ou ucranianos morreram até agora) ou quando querem fingir imparcialidade, dando ares de dúvida às informações endossadas ou divulgadas por um lado ou outro da guerra.

É evidente que existe guerra de informação tanto por parte de Vladimir Putin, da Rússia, quanto de Volodymyr Zelensky, da Ucrânia, e de seus assessores. Mas cabe aos jornalistas e analistas internacionais filtrar esses dados, separar o joio do trigo, conferir o que é possível e divulgar ressalvando as fontes, quando necessário.

Lavar as mãos para o que está sendo informado aos leitores, ouvintes ou espectadores, dizendo simplesmente que há muita "guerra de informação", é o mesmo que abdicar do papel do bom jornalismo e entregar a produção de notícia aos incautos ou palpiteiros das redes sociais.

Guerra de informação existe em todas as guerras. É para isso que existem os correspondentes de guerra, além dos editores e dos comentaristas que absorvem o mundaréu de dados que chegam da zona de conflito para interpretá-los. Eles, nós, existimos para trazer ao público apenas a informação.

O mundo está recebendo em choque as imagens e os relatos de ruas cheias de corpos de pessoas — ucranianos, civis, em sua maioria homens — em Bucha, nos arredores de Kiev. Foram deixados para trás pelas tropas russas em retirada nos últimos dias.

O governo russo nega que seus soldados tenham massacrado civis em Bucha, o que configuraria um crime de guerra. O Kremlin alega que "as fotos e os vídeos publicados pelo regime de Kiev (...) são outra provocação".

Ou seja, seriam imagens fabricadas, parte da tal "guerra de informação".

Não são. Boa parte do conteúdo que está rodando o mundo com os horrores de Bucha e de outras localidades ao redor da capital Kiev foi produzido por jornalistas profissionais de diferentes agências ou órgãos de imprensa.

Esses correspondentes podem ter sido levados por militares ou representantes do governo ucraniano para verem e registrarem as cenas horripilantes, mas isso não significa que os fatos não sejam verdadeiros.

Historicamente, militares toleram a presença de jornalistas em zonas de conflito porque esperam conseguir direcionar o olhar desses profissionais de forma a difundir para o mundo a sua versão para os fatos da guerra. Por exemplo, de que suas tropas estão fortes e vencendo o inimigo.

Da mesma forma, os combatentes tentam limitar a atuação dos jornalistas quando não querem expor suas fraquezas ou quando têm algo ainda pior para esconder (seus próprios crimes de guerra, por exemplo).

O governo ucraniano tentou, de fato, limitar o acesso de jornalistas independentes à linha de frente nesta guerra em diversos momentos. O lado russo, por sua vez, sequer permite que jornalistas internacionais acompanhem suas tropas.

No primeiro caso, ainda que com dificuldades, os jornalistas ao menos conseguem algumas frestas para observar e relatar a realidade do conflito. No segundo caso, nem isso. O que prevalece é simplesmente a versão russa.

Por isso é preciso levar muito a sério as imagens e os relatos dos massacres em Bucha e em outras cidades. Não se trata de guerra de informação. São fatos bem documentados, por profissionais independentes. Não é possível fabricar cenas de massacres como essas de maneira tão perfeita.

Um correspondente de guerra experiente é capaz, por exemplo, de identificar se os corpos carbonizados ou baleados estão ali há poucas horas, quando o local já havia retornado para as mãos das forças ucranianas, ou há alguns dias, quando ainda estava sob o jugo russo. Inúmeras outras evidências podem ser coletadas para indicar o que aconteceu e quem está por trás da matança.

Descrevi em meu livro Correspondente de Guerra (Editora Contexto) — escrito em parceria com o fotógrafo André Liohn, que passou as últimas semanas na Ucrânia cobrindo a guerra e esteve perto de Bucha — diversos episódios em que jornalistas vislumbram a verdade dos fatos em uma zona de conflito mesmo quando tutelados por um grupo combatente, muitas vezes até mesmo chegando a conclusões opostas daquelas pretendidas pelos "anfitriões".

A Guerra do Vietnã (1954-1975) é um dos exemplos mais clássicos. O fato de a maioria dos jornalistas ter tido o acesso ao front possibilitado pela própria estrutura militar americana, que frequentemente procurava direcionar a cobertura, não impediu que os relatos que enviavam aos seus veículos de comunicação fossem muitas vezes desfavoráveis à estratégia de guerra dos Estados Unidos.

O valor daqueles que arriscam suas vidas para trazer imagens e relatos independentes de um conflito, mesmo quando o acesso aos locais é garantido por uma das partes interessadas, está aí: eles são o melhor antídoto à guerra de informação.

Gazeta do Povo (PR)

Diversos cheiros




Por Merval Pereira (foto)

Vamos assistir daqui para frente a uma disputa encarniçada no PSDB e no União Brasil para a indicação de um candidato à presidência da República, o que só facilitará a polarização entre Lula e Bolsonaro. No União Brasil, partido nascido da fusão do PSL com o DEM, o presidente Luciano Bivar, que liderava o PSL quando Bolsonaro foi eleito em 2018, quer repetir a dose com Moro, mas o vice-presidente, ex- prefeito de Salvador ACM Neto, anuncia que vai impugnar sua filiação.

Será uma briga político-jurídica que tomará a energia da campanha presidencial, que é importante para Bivar, e não para ACM Neto e outros candidatos a governos estaduais. O fato é que nenhum partido quer o ex-juiz Sérgio Moro como candidato. Mesmo no Podemos, já estava sendo pressionado para se candidatar a deputado federal. Os políticos, de maneira geral, não gostam do Moro por causa da Operação Lava Jato. Mas gostariam de tê-lo como deputado federal para ser um puxador de votos.

Os cálculos são de que ele teria, por baixo, mais de 1 milhão de votos, e ajudaria a aumentar a bancada, a arrecadação do fundo partidário e do fundo eleitoral. Se não tiver nenhum partido para dizer que é pré-candidato à presidência, não aparecerá nas pesquisas eleitorais, pois mesmo que os institutos de pesquisa coloquem Moro e Eduardo Leite entre os candidatáveis, os que são contra entrarão com ação no Supremo Tribunal Federal (STF).

Bastaria à ala do DEM que não quer Moro no palanque eleitoral, para não melindrar Lula, que tivesse força interna para não dar a legenda a ele. Mas o candidato a governador na Bahia pelo União Brasil, ACM Neto, quis antecipar a disputa com o presidente do partido, Luciano Bivar, que apoia Moro. Se deixassem Moro livre para fazer pré-campanha presidencial, ele poderia crescer nas pesquisas, e o DEM poderia perder o controle da convenção.

Moro e Eduardo Leite, o ex-governador do Rio Grande do Sul que quer tomar o lugar de João Doria como candidato à presidência, são personagens em busca de uma afirmação nos respectivos partidos. Moro está em situação pior, num partido que está dividido. Eduardo Leite tem o apoio importante da maioria da ala histórica do PSDB, e o partido já se convenceu de que Doria não tem muito futuro. Vão abandoná-lo e daqui a um, dois meses, vai ter dificuldades para prosseguir na campanha presidencial.

O presidente do partido, Bruno Araújo, que estava constrangidíssimo na coletiva em que Doria desistiu de desistir, já disse que a carta em que reafirmou a sua candidatura não tem mais peso do que os fatos que estão acontecendo. E também avalizou o périplo que Leite pretende fazer pelo país, garantindo até mesmo o financiamento dessas viagens. O ex-governador Eduardo Leite vai viajar em “missão partidária”, para incentivar os jovens a se registrarem como eleitores, mas na verdade estará fazendo uma viagem de candidato a presidente da República.

Doria só não podia ficar no governo, porque desmontava todo o esquema partidário que já estava formado em torno do vice Rodrigo Garcia, com acordos já fechados com deputados e prefeitos. Garcia certamente se afastará de Doria, que vai ficar completamente isolado. Leite, que provavelmente será o candidato oficial do PSDB em poucos meses, também já entra muito queimado diante da opinião pública.

Ele, que tem o trunfo de ser o representante da “nova política”, está metido em artimanhas nos bastidores para desfazer a vitória de Doria nas prévias. Só participará das pesquisas quando for indicado oficialmente candidato, e é provável que não tenha tempo de se firmar como o representante da terceira via, ou centro democrático.

Os partidos políticos não têm unidade para encontrar uma chapa comum. No União Brasil, a parte do DEM quer aderir a Lula, principalmente os candidatos a  governador. No PSDB, tem muita gente que quer aderir a Bolsonaro, cujo eleitorado tradicionalmente tucano no sudeste e centro-oeste foi cooptado por ele na eleição de 2018. Basta ver que Bolsonaro está tecnicamente empatado com Lula em São Paulo, que sempre foi o bastião do PSDB. A recuperação de Bolsonaro nas pesquisas eleitorais é outro fato relevante. O fato de os partidos do Centrão terem sido os que mais cresceram na janela partidária mostra que os políticos estão sentindo um cheirinho de vitória no ar, embora o vento continue soprando para Lula. Ao contrário do Centro Democrático, que sente cheiro de queimado.

O Globo

Democracias precisam se unir contra ameaças

 




Por Dorrit Harazim

O cofre da humanidade existe há quase 15 anos. Construído pelo governo da Noruega em 2008 como banco global de sementes (foto), ele porta o nome oficial de Svalbard Global Seed Vault. Foi idealizado para sobreviver a todo tipo de apocalipse — climático, sanitário, nuclear —, por isso está prudentemente fincado 130 metros acima do nível do mar, na encosta de uma montanha do arquipélago norueguês de Svalbard, no meio do Oceano Ártico. Trata-se do lugar mais extremo, remoto e inóspito do Hemisfério Norte. Seus 2.700 residentes fixos e quase 300 ursos-polares às soltas encaram a cada ano dois meses e meio de escuridão ininterrupta (chamada Noite Polar), seguida de cinco meses de sol escancarado 24 horas ao dia. Coisa para vikings de raiz.

Segundo o jornalista Bruno Garattoni, um dos poucos brasileiros que se enfiaram naquelas paragens, é preciso atravessar um túnel de 120 metros escavado na montanha congelada e passar por cinco portas à prova de explosões para acessar o cofre/bunker. Ali estão as famosas 880 mil sementes de 5.403 espécies vegetais colhidas nos quatro cantos do planeta — entre elas, nosso arroz, feijão e milho enviados pela Embrapa. Trancado o ano todo — exceto para dias de inspeção ou recepção de material novo —, esse banco da vida não deve ser dilapidado antes da hora fatal. Até hoje, ocorreu uma única retirada, em 2015, quando a Síria devastada pela guerra sacou sementes de algumas espécies do Oriente Médio.

Diante da alarmante decadência política no Brasil — galopante, reles e destrutiva —, cabe perguntar que tipo de sementes da democracia temos em estoque para uso emergencial. Segundo a historiadora e jornalista americana Anne Applebaum, Prêmio Pulitzer e autora de “O crepúsculo da democracia: como o autoritarismo seduz e as amizades são desfeitas em nome da política” (Record, 2021), “não existe um arco da História”. “Nada é inevitável em se tratando de democracia ou ditadura”, escreve ela. “O que acontece amanhã depende do que todos nós fazemos hoje.” Applebaum observa que uma ordem mundial liberal nada tem de natural, uma vez que leis de nada servem sem alguém para fazê-las cumprir. A menos que democracias se defendam juntas, as forças da autocracia haverão de destruí-las.

A edição mais recente da revista The Atlantic traz o ensaio “Os bad guys estão ganhando”, em que ela avisa que as revoluções democráticas são contagiosas também às avessas: quando derrotadas num país, torna-se mais fácil impedir que brotem noutro. Cinco são os autocratas que lhe servem de fio condutor — o venezuelano Nicolás Maduro, o presidente da Bielorrúsia, Alexander Lukashenko, o russo Vladimir Putin, o chinês Xi Jinping e o turco Recep Erdogan. Para quem lê o texto a partir de um “Brasil acima de tudo. Deus acima de todos”, salta aos olhos que falta alguém entre os retratados por Applebaum. Ou não. Ela pode ter considerado Jair Bolsonaro medíocre e delirante em demasia para incluí-lo entre os bad guys de alguma envergadura.

Ficamos então nós, sozinhos, presididos por um capitão incendiário que jura botar a cara no fogo por um ministro defenestrado quatro dias depois. Na verdade, o único exercício diário do personagem tem sido botar o Brasil no fogo da incivilidade educacional, cultural, ambiental e institucional. Cabe registrar a expressão certeira cunhada nesta semana pela ministra do Supremo Tribunal Federal, Cármen Lúcia, referindo-se à incessante destruição do país por dentro: “cupinização institucional”.

Faltando 180 dias até o esperado 2 de outubro do primeiro turno eleitoral, e 240 dias para a posse do presidente e dos governadores eleitos, é hora de juntar o maior número de sementes democráticas e protegê-las da avalanche de pragas. Antes que se multipliquem ainda mais nos três Poderes. Melhor nem listar aqui uma sinistra plêiade de egressos do atual governo, com folha corrida capaz de assombrar qualquer cidadão normal. Se eleito(a)s, farão do Congresso Nacional um pântano ainda mais amoral que a legislatura atual.

Daí a utilidade de evocar a iniciativa dos noruegueses. Enquanto a Terra for o único lar que temos, e o céu nos servir de generoso teto, vale colher e armazenar o que queremos preservar. Antes que essas sementes sadias se tornem espécies em extinção.

O Globo

Empresas ocidentais na Rússia: colaboradoras de guerra?




Protesto em Berna contra invasão russa da Ucrânia: boicotes a firmas contumazes estão a caminho

Por Miodrag Soric*

Organização alemã pede ajuda para firmas em apuros na Rússia. Porém a única alternativa a sair já do país é seguir sendo cúmplice do massacre na Ucrânia. E do sonho de Putin de uma nova URSS.

Fora da Rússia. Numerosas empresas ocidentais já abandonaram o mercado russo em decorrência da guerra de agressão do presidente Vladimir Putin contra a Ucrânia. Investimentos bilionários, acumulados ao longo de mais de 30 anos, se desfizeram no ar no prazo de poucas semanas. Agora, a Comissão da Economia Alemã para o Leste (OA) pede assistência financeira para as firmas afetadas.

Se for o caso, as ajudas só devem ser concedidas às corporações que deixarem o mercado russo de forma rápida e completa. Não pode haver apoio estatal para companhias como Ritter Sport, Metro, Globus, Bayer, Henkel ou Knauf, que seguem fazendo dinheiro na Rússia.

Ao pagar impostos a Moscou, elas financiam os assassinatos desumanos na Ucrânia, tornam-se colaboradoras da guerra – do mesmo modo que as francesas Leroy Merlin, Total ou Auchan. Todas elas se aferram ao Kremlin, com frequência apelando para argumentos deslavados – como sua suposta responsabilidade para com os empregados russos – e se eximem de qualquer corresponsabilidade no derramamento de sangue.

Pergunta: elas se referem aos funcionários que, pelo menos em grande parte, elegeram o regime Putin? Ou àqueles cidadãos que apoiam a "operação militar especial" do chefe do Kremlin no país vizinho? Propaganda estatal não serve de desculpa para tudo, pois uma boa parte da população de fato está mesmo do lado de seu líder.

Humanidade e respeito à vida não são grátis

Empresários que sigam operando na Rússia se deparam com um dilema: continuar lucrando e assim garantir o futuro econômico de sua organização, ou aceitar os prejuízos e pôr em perigo postos de trabalho?

Contudo quem olha nos olhos das mães agonizantes de Mariupol, ou as centenas de milhares de crianças desesperadas em fuga, sabe imediatamente o que deve fazer. A pressão econômica sobre Moscou não é um ato arbitrário: ela tem como finalidade parar com o assassinato na Ucrânia. Valores como humanidade ou respeito à vida não se preservam de graça.

As companhias ocidentais que optem por permanecer na Rússia têm também uma responsabilidade perante seus quadros na Alemanha e na União Europeia. Pois quem é que gosta de trabalhar para alguém que faz negócios com criminosos de guerra?

Por isso, mais cedo ou mais tarde, todas as companhias ocidentais terão que sair do país agressor. Os clamores no Ocidente para que elas sejam boicotadas ainda não começaram, mas há muito os preparativos estão em andamento.

Além disso, com suas "ações reativas", o aparato estatal moscovita cuida para que as firmas ocidentais no país não tenham futuro: os lucros empresariais não podem mais ser transferidos em divisas vivas. E quem precisa de papel sem valor com "rublo" escrito em cima?

Aprender com os erros históricos alheios

No fim das contas, está também óbvio que com, digamos, um cessar-fogo, a conjuntura só tende a piorar. Para sobreviver, Putin terá que retornar à economia planejada, ao controle total da vida política, econômica e cultural.

Como nos tempos da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), terão preferência as empresas nativas. A Rússia, que vive da exportação de matérias-primas, se transformará no posto de gasolina barata da China. Pequim vai explorar o império de Putin sem pena, num processo que pode durar décadas.

Nesse ínterim, não há praticamente nenhuma esperança de que os russos se livrem desse sistema. Quem acredita nisso é ingênuo, nunca viveu na Rússia. Como na época soviética, a maior parte da população vai se recolher à vida privada ou emigrar. Enquanto cada família tiver a sua casa de campo, a tradicional datcha, entre Kaliningrado e Vladvostok ninguém morre de fome.

O sonho de Putin de um retorno da União Soviética talvez seja realidade por alguns anos. Mas empresas ocidentais não podem contribuir para ele. Antes, deveriam aprender com os erros históricos alheios: até 1938, a IBM ou a Ford ainda faziam negócios com a ditadura nazista da Alemanha. Depois tiveram que suar muito para se explicar.

*Miodrag Soric é jornalista da DW. 

Deutsche Welle

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