segunda-feira, abril 04, 2022

A lição esquecida da Guerra Fria




A condenação da brutalidade da invasão russa da Ucrânia, não dispensa, antes exige uma profunda reflexão para compreender a magnitude do que está em causa, as suas raízes, e sobretudo as suas consequências prováveis.

Por Viriato Soromenho-Marques (foto)

No verão de 2018, a convite da revista Visão História (n.º 47), escrevi um texto que agora retomo, pois ganhou uma trágica e clamorosa atualidade. A tese é simples: o fim pacífico da guerra-fria poderia ser lido de duas maneiras. A primeira, em que Gorbachev e milhões de cidadãos de todo o mundo acreditaram nos anos 80 e 90, como uma rutura epistemológica, capaz de nos libertar das milenares doutrinas bélicas e da secular conceção de soberania estadual absoluta gizada desde a Paz de Vestefália (1648). A segunda, praticada de forma continuada pelas administrações dos EUA, a partir de 1999, como a guerra-fria ter sido vencida pelo Ocidente e a Rússia, como potência derrotada, poder ser ignorada na reconstrução do novo mapa-mundo geopolítico.

A invasão da Ucrânia por Putin, num perigoso gesto que coloca em risco a paz mundial, não resulta de uma divergência, mas sim de uma concordância fundamental entre Putin e o Ocidente. Também ele acha que a tradicional doutrina da soberania nacional/estadual absoluta é a válida. Também ele considera que a Rússia perdeu a guerra-fria, e que é tempo de reverter o curso dessa derrota. A tragédia que nos poderá levar, mais tarde ou mais cedo, a uma hecatombe atómica global resulta, não de uma discordância, mas de uma mortífera concordância entre o Ocidente e a Rússia. Como explico abaixo, esquecemos a lição fundamental da guerra-fria, aquela que nos poderia unir como humanidade, forjando um sistema internacional pacífico, guiado pela luta comum contra a ameaça ontológica da crise global do ambiente e clima. Retomo de seguida, integralmente, esse texto de 2018.

No verão de 1983, uma das canções mais populares nas discotecas alemãs – da autoria de um grupo de rock de Bochum, Geier Sturzflug – intitulava-se “Besuchen Sie Europa, solange es noch steht” (“Visite a Europa enquanto ela ainda está de pé”). A inspiração para o tema havia sido retirada de um folheto de propaganda de uma agência turística norte-americana, e o sucesso popular da banda estava ligado de modo diretamente proporcional à dramática escalada da tensão bélica entre a URSS e os EUA, naquela que ficaria conhecida como a crise dos euromísseis.

No dia 1 de setembro desse ano, um voo civil sul-coreano (KAL007) foi derrubado por um caça Su-15 depois de ter entrado em espaço aéreo soviético, morrendo todos os 269 passageiros. Ainda no dia 26 desse mês ocorreu um gravíssimo incidente: o centro soviético de deteção de eventuais ataques com mísseis balísticos intercontinentais sinalizou, ao longo de 15 minutos, o que aparentava serem 6 ICBM dos EUA lançados, um após outro. Felizmente, o tenente-coronel Stanislav Petrov (1939-2017), que estava no turno de comando, assumiu com uma sensatez heroica que se tratava de um erro do sistema, e não informou a hierarquia.

O governo de Andropov estava na altura convencido da possibilidade de um “primeiro ataque” (first-strike) nuclear da NATO. Não será uma temeridade imaginar que, perante essa informação, e de acordo com o princípio em vigor de que a resposta deveria ser o mais rápida possível (launch-on-warning), talvez um erro informático pudesse ter transformado esse dia no maior holocausto da história humana…

Uma semana antes da nomeação de Mikhail Gorbachev como líder da URSS, em 11 de março de 1985, foi publicado em Lisboa o meu livro Europa: O Risco do Futuro (Publicações Dom Quixote). Essa obra, que seria a única do género publicada no nosso país, continha os resultados de dois anos de intensa e apaixonada pesquisa sobre a complexidade da guerra-fria, as suas doutrinas estratégicas, os seus armamentos, os seus dilemas políticos e militares, as suas perspetivas de evolução futura. O foco principal era a segurança de uma Europa ameaçada pelos planos para uma “guerra nuclear limitada”.

Felizmente que com Gorbachev, a sua tentativa de reforma interna do regime soviético, no plano político-social (glasnost: transparência) e económico (perestroika: reestruturação), foi acompanhada de uma decidida aposta no desarmamento, que encontrou eco positivo nos líderes da NATO, em especial em Reagan e Margaret Thatcher. O resultado menor culminaria, em dezembro de 1991, no desmembramento pacífico da URSS. O essencial, contudo, foi ter-se evitando uma III Guerra Mundial que teria dizimado a humanidade e afetado criticamente o ecossistema planetário.

Para quem mergulhou na compreensão do software, delicado e sofisticado, da tensão bélica que de 1945 a 1990 dividiu o mundo entre duas potências centrais e seus aliados, respetivamente os EUA e a NATO, e a URSS e o Pacto de Varsóvia, causa náusea intelectual assistir à repetida tese de que o Ocidente “ganhou” a guerra-fria. Mais do que um erro analítico, tal afirmação reflete uma profunda ignorância. A questão central na guerra-fria é perceber a sua singularidade em toda a história universal conhecida.

Pela primeira vez, desde os impérios antigos até à II Guerra Mundial, uma oposição entre duas megapotências dominantes não culminou, depois das habituais guerras indiretas e de procuração entre aliados e vassalos (proxy wars), num conflito total. Lembro-me de alguns peritos, que entrevistei na preparação do livro, me terem confessado que só um milagre poderia evitar uma guerra atómica, limitada ou total, mas sempre com dezenas ou centenas de milhões de vítimas. Que razões explicam esse milagre?

Charles De Gaulle tinha razão quando insistia, em 1963, na tese de que tanto para a URSS como para os EUA “o estandarte das ideologias [capitalismo versus comunismo] apenas esconde as ambições”. Isso significava que o comportamento de Washington e Moscovo se pautava pelos interesses de conservação e aumento de poder da razão de Estado, como ficou provado no sinistro Pacto Germano-Soviético de 23 de Agosto de 1939, entre Hitler e Estaline. Dois inimigos ideológicos, partilhando de um conjuntural interesse comum, à custa de terceiros.

Mais tarde, nos anos 60, quando a China maoísta considerou a URSS como seu inimigo principal, a proximidade ideológica foi esmagada pela tradicional rivalidade imperial entre a China e a Rússia. Por outras palavras, para percebermos a guerra-fria temos de aceitar a teoria desenvolvida por Carl von Clausewitz no seu clássico e póstumo tratado, Da Guerra (1832), cuja essência pode ser resumida nas seguintes quatro teses principais: a) os sujeitos da guerra moderna são Estados, dotados de interesses potencialmente idênticos, e por isso motivo de contenda; b) a guerra é a continuação da política por outros meios; b) o objetivo da guerra visa a vitória, que se atinge quando se impõe a nossa vontade política ao inimigo; d) a vitória implica, geralmente, a destruição da capacidade militar do inimigo.

O segredo dos mais de 40 anos da guerra-fria reside numa enorme luta, de ideias e de tecnologia bélica, para manter ou invalidar a racionalidade clausewitzeana. Tanto Washington como Moscovo sabiam que com as armas nucleares a realidade da guerra se alterava substancialmente em relação à situação dos campos de batalha napoleónicos, ou das duas guerras mundiais. Com os mísseis balísticos terrestres (ICBM), aéreos (ALBM) ou submarinos (SLBM) um poder de fogo, centenas de vezes superior ao de todas as guerras do passado, podia ser acionado num máximo de 30 minutos! O conceito de frente, de mobilização estratégica, de vitória, no fundo, o léxico da própria racionalidade da guerra estava ameaçado…

A melhor expressão desse estado de coisas foi manifestada pelo secretário da Defesa de J. F. Kennedy, Robert McNamara, na doutrina da Destruição Mútua Assegurada (MAD, em inglês). A paz significaria uma eterna corrida aos armamentos para manter um equilíbrio que impedisse uma guerra total, em que todos sairiam derrotados! Contudo, em 1983, tanto no lado ocidental, com a doutrina Rogers (Air-Land Battle), como no lado soviético, com a doutrina do Grupo Operacional de Manobra, do marechal Ogarkov, estavam gizados planos que poderiam tornar possível a guerra, mesmo nuclear, desde que fosse possível mantê-la dentro de certos limites.

O agora esquecido milagre da guerra-fria, dessa guerra que nunca se travou, não foi nem de natureza ideológica, nem de âmbito tecnológico. Foi uma mudança qualitativa, ética e política, na maneira de pensar a guerra. Com armas nucleares e outras de destruição maciça, a guerra deixa de ser um instrumento, para se transformar no principal inimigo da política. A racionalidade bélica dá lugar, com essa metamorfose, à tese de que a construção da paz, e não a guerra, deve ser o obrigatório instrumento e permanente objetivo de uma nova razão de Estado.

SAPO (PT)

A guerra acabou?

 




Cedo ou tarde, a conta cairá no colo de Putin; quando o conflito terminar, pode ser o fim de seu regime. 

Por Mario Vargas Llosa (foto)

A julgar pelas informações da imprensa, as conversas de paz entre Ucrânia e Rússia tiveram um progresso considerável nos últimos dias. A Rússia informou à Ucrânia que ela pode ser membro da União Europeia, desde que se comprometa a não pertencer à Otan. A Ucrânia afirmou que se submeteria a esta condição desde que três ou quatro países independentes possam lhe assegurar sua proteção frente a interferência russa em seu território. Na verdade, o entusiasmo parece pouco convincente.

Em primeiro lugar, para ser membro da UE, um país deve ser absolutamente livre, algo que não ocorreria com a Ucrânia, já que ela só seria membro da futura UE sempre e quando se visse privada de pertencer à Otan, aliança de defesa do Ocidente. E a Rússia prosseguiria não somente com a guerra, mas também com a intervenção no seio da Ucrânia, “protegendo” as republiquetas que ela mesma criou, para submeter o país a uma espécie de vassalagem sistemática nos anos futuros.

Repressão

Fora da Rússia é possível falar de uma guerra que já causou muitas mortes. Quantas? Não sabemos. Na Rússia não se pode pronunciar a palavra “guerra” e, se um cidadão distraído a pronuncia, vai para a cadeia. Também foi proibido se manifestar contra a guerra. Quem o fez já está atrás das grades.

O que os russos estão fazendo, então, na Ucrânia? Lutam contra os nazistas, segundo Vladimir Putin, e as bombas que os russos lançam contra regiões residenciais, hospitais e escolas são, pelo visto, puramente imaginárias. Mas a realidade é que, passado mais de um mês da invasão, as tropas russas ainda não conseguiram tomar Kiev nem nenhuma cidade importante da Ucrânia, enquanto os russos perdem muitos homens e rumores que permeiam os correspondentes de guerra afirmam que os números oficiais apresentados por Moscou não têm nada a ver com a realidade.

A realidade é que a Rússia, por sua vez, até onde é possível saber, está contratando mercenários chechenos para que apoiem as forças invasoras, que foram detidas pelos soldados ucranianos. Estes, diga-se de passagem, têm a solidariedade de quase todo o mundo.

O único jornal que se opunha à guerra em Moscou teve de deixar de circular pelo número de advertências que recebia das autoridades. Na verdade, as coisas não parecem ter progredido, ainda que o presidente dos EUA tenha tido que engolir as palavras que pronunciou quando disse que “um homem como Putin não pode estar à frente de um governo na Rússia”.

Os EUA se apressaram em negar que pretendam decidir pelo povo russo os ocupantes do Kremlin. Por outra parte, a delegação ucraniana em Istambul advertiu seus membros a se absterem de comer comidas locais, para não correr risco de envenenamento, como o que teria sido submetido Roman Abramovich, um dos milionários russos e amigo ou ex-amigo de Putin.

Tudo parece indicar que a decisão de Putin de invadir a Ucrânia foi precipitada e levou toda a Europa Ocidental a cerrar fileiras, mostrando uma unificação não testemunhada havia muitos anos e fazendo a grande maioria dos países do mundo solidarizar-se com os ucranianos e condenar a ação russa, a qual muitos jornalistas e estadistas veem como uma tentativa de reconstruir o antigo império soviético.

Uma reconstrução que, pelo menos por agora, parece improvável, em razão da alergia ao sistema comunista que revelam os antigos países-satélite, salvo aqueles que têm ditaduras segundo o modelo soviético – Belarus, por exemplo – aos quais a maioria deste bloco ideológico guarda simpatias.

Por outro lado, é difícil que Putin salve sua pele e se mantenha no poder depois do fracasso de sua ofensiva militar contra a Ucrânia. Ele disse que lutaria contra o grupelho de “nazista” que havia usurpado o Estado, e a realidade é que Volodmir Zelenski, que está à frente do governo ucraniano, e a totalidade de seus ministros não parecem representar coisa semelhante, apenas conduzem um povo valente e decidido, que recuperou a liberdade, a lutar por ela e também pela integridade territorial de seu país.

É isso o que desperta a imensa solidariedade com a qual os ucranianos contam e, consequentemente, o desprestígio de Putin e dos que o seguem na Rússia, onde, nas últimas semanas, temos visto – enfim – casos notórios de críticas ao poder, apesar do preço que os dissidentes da política de Putin se atrevem a pagar ser tão elevado que lembre as brutalidades da época de Stalin.

Conspiração

É possível que, depois dessa pancadaria, Putin saia ileso, mas não será assim por muito tempo. Cedo ou tarde, nos engenhos entre os discretos corredores do Kremlin, sua defenestração será conspirada, pois o ocorrido fez a Rússia perder muitos aliados no mundo, países que haviam sido laboriosamente seduzidos e, da noite para o dia, acabam de mostrar solidariedade total com a Ucrânia, que consideram, obviamente, vítima do apetite imperialista de Putin.

Este chegou a falar das capacidades das bombas atômicas e de hidrogênio que possui, mas o alarde que houve a respeito no mundo inteiro foi exagerado. A Rússia não se atreverá a usar seus arsenais atômicos, pois sabe bem que, se o fizer, imediatamente será vítima de uma réplica que poderia asfixiar e destruir esses arsenais, ao mesmo tempo infligindo um sério castigo à maioria de sua população.

Defesa

Essa chantagem, por outra parte, não faz mais que enfraquecer a causa que o povo russo parece defender em relação à invasão à Ucrânia. Ao mesmo tempo, os dissidentes mais notórios – já encarcerados – acabam de receber novas sentenças que, ao menos em teoria, os manteriam na cadeia indefinidamente.

Mas tudo dependerá de Putin seguir no poder ou ser afastado discretamente, ao modo soviético. Tem sido observado, conforme noticia um artigo de Pilar Bonet, no jornal El País, que os assessores de Putin que se atrevem a propor um apaziguamento são defenestrados. Mas isso só faz acumular as responsabilidades que pesam sobre ele depois de levar seu país a lançar uma invasão à Ucrânia que, sob qualquer ângulo, resulta num fiasco para a Rússia.

Isso tem um preço que será inevitavelmente cobrado, mesmo que seja depois. E poderá significar para a Rússia sair de uma vez por todas dessa atmosfera sinistra que, desde a ascensão de Putin, impera no país, que depois de uma caótica liberdade, retornou com Putin ao período soviético, até o maiúsculo equívoco que foi a invasão à Ucrânia.

Solução

Mas daí também poderia vir a solução para a Rússia. Putin cometeu um grave erro, pelo qual seus inimigos o farão pagar cedo ou tarde. Tomara para a Rússia que seja mais cedo que tarde, e o país volte a desfrutar da liberdade (algo caótica) que tinha nos dias de Yeltsin, que, apesar da bebedeira, era um democrata.

Mas foi lamentável que ele tenha escolhido um sucessor como Putin, que, educado pela KGB, agora trata de reconstruir o império soviético. Mas esses delírios de grandeza o fizeram cometer o maior erro de sua vida. Algo por que ele terá de responder ao ver-se afastado do poder que usou tão mal e, depois do erro cometido, pelo qual será castigado, inaugure para a Rússia um período no qual o país recupere a liberdade e seja capaz, por fim, de coexistir com outros países pacificamente, praticando essa democracia pela qual clamam tantos de seus compatriotas. A guerra não acabará tão logo. Mas seu fim pode ser também o fim da Rússia de Vladimir Putin. 

O Estado de São Paulo

Família, religião e nacionalismo em decadência: o Ocidente está cometendo suicídio?




Se Israel tem algo a ensinar, é o fato de que apenas uma identidade nacional clara, em vez de um apelo genérico a ideias como “a humanidade”, é capaz de dar vitalidade a um povo. A dúvida é se Estados Unidos e a Europa estão dispostos a seguir esse caminho. 

Por Gabriel de Arruda Castro

O youtuber e provocador profissional Nick Fuentes, autointitulado conservador, gerou controvérsia nos últimos dias ao celebrar o avanço das tropas russas sobre a Ucrânia. Seria, nas palavras dele, uma derrota do “grande Satanás”: os Estados Unidos. Aqui e acolá, outras vozes da direita parecem fazer coro ao argumento de que a guerra iniciada pela Rússia não é uma ameaça, mas uma esperança. Afinal, Vladimir Putin já deu demonstrações claras de que se opõe à ideologia de gênero, o feminismo e resto do pacote politicamente correto que os Estados Unidos e a Europa Ocidental têm exportado nas últimas décadas. O argumento de Fuentes e seus colegas é o de que o Ocidente, tal qual Roma em seu período de decadência, já não merece ser salvo. Mas existe algo de real nisso? O Ocidente está indo ladeira abaixo ou é apenas uma ilusão?

Cinquenta e oito anos atrás, o escritor James Burnham, figura importante do conservadorismo americano, publicou o livro clássico “O Suicídio do Ocidente”. Na época, o Cristianismo era quase unanimidade na Europa e nos Estados Unidos, o homossexualismo era crime — assim como o aborto. O divórcio amigável, sem necessidade de comprovação de culpa, não existia na maior parte desses países. Ideias como o casamento gay soavam absurdas até para os mais radicais progressistas. Entretanto, Burnham enxergou que a maré estava começando a mudar. Sobretudo nas universidades e em outros círculos intelectualizados.

No livro publicado em 1964, ele observou que o Ocidente estava “se contraindo”, e profetizou: “Se o processo continuar nas próximas décadas mais ou menos como aconteceu nas décadas anteriores, então – esta é uma mera extrapolação matemática – o Ocidente estará acabado; A civilização ocidental, as sociedades e nações ocidentais em qualquer sentido significativo e reconhecível, simplesmente não existirão mais."

O processo a que ele se referia era a perda da “vontade de sobreviver”. Uma doença intelectual e espiritual, não material, nas palavras de Burnham. “Não pode ser o caso que o Ocidente esteja se contraindo por falta de recursos físicos e poder; essa carência não existiu e nem existe".

A raiz do problema, para Burnham, era o que ele chamava de “liberalismo” — não o liberalismo econômico, mas a ideia de que não há valores objetivos e de que tudo se resume a uma questão de preferências igualmente válidas. Em outras palavras, uma renúncia à ideia da verdade. A “ilusão liberal”, para Burnham, é acreditar natureza humana pode ser modificada, e que a humanidade pode atingir um estado de paz global. Nesse esquema, o Ocidente não possui uma tradição mais especial do que a dos índios Tupinambás.

"Tempos fáceis, homens fracos"

Burnham não foi o primeiro nem o último a escrever sobre o assunto. Sua obra pode ser situada em uma linhagem que inclui 'Deus e o Homem em Yale', de William Buckley (1951), 'O Fechamento da Mente Americana', de Allan Bloom (1987), e 'Por que o Liberalismo Falhou' (2018), de Patrick Deneen.

Antes de todos eles, o suíço Jean-Jacques Rousseau escreveu, ainda em 1750, que o progresso da civilização estava tornando as pessoas materialistas, superficiais e moralmente corrompidas, sem apreço por suas nações e à religião. “Os políticos da Antiguidade falavam permanentemente de moral e virtude; os nossos falam somente de comércio e de dinheiro”, criticou ele, naquele que é conhecido como o Primeiro Discurso.

O argumento de Rousseau não destoa muito do meme que volta e meia ressurge nas redes sociais, e segundo o qual “Tempos difíceis geram homens fortes, homens fortes criam tempos fáceis, tempos fáceis geram homens fracos, homens fracos geram tempos difíceis”. Mesmo antes da Revolução Industrial se concretizar, Rousseau já antecipava que a prosperidade e a evolução das “artes e das ciências” cobrariam um preço. “O gosto pela ostentação raramente coexiste, no espírito de alguém, com um gosto pelo que é honesto. Não: mentes degeneradas por uma hoste de preocupações fúteis não podem jamais geram algo grandioso; e mesmo que elas tivessem a força necessária, lhes faltaria a coragem”, esbravejou.

Em comum, estes autores têm o argumento de que o Ocidente virou as costas para sua tradição e se tornou débil. Se a invasão da Ucrânia tem a ver com essa percepção de fragilidade no campo moral, nunca saberemos ao certo. Mas talvez a imagem do presidente americano Joe Biden, envelhecido e confuso, pode ser vista como um símbolo do próprio estado de ânimo do Ocidente.

Enquanto os vídeos de recrutamento das Forças Armadas de Rússia e China enfatizam a força e a virilidade, os Estados Unidos tomaram o caminho oposto. Uma das campanhas mais recentes, preenchida com animações de desenho animado, mostra uma jovem com voz infantil enquanto ela conta a sua história: criada por um casal lésbico, ela se orgulha de ter participado de protestos a favor da causa LGBT. Em vez de se alistar no exército por lealdade à pátria, ela o fez para provar “força interior”, seja lá o que isso signifique.

Vladimir Putin, um tirano saudosista da União Soviética, explora essa lacuna com demonstrações calculadas de virilidade e um apelo aos valores tradicionais — o que talvez explique a estranha fixação de grupos mais à direita com um ex-espião da KGB, a polícia secreta comunista.

Onde o Ocidente vai bem

Os argumentos mais pessimistas sobre o futuro do Ocidente podem soar exagerados para alguns. E isso faz sentido.

Economicamente, os países ocidentais vivem um período de prosperidade sem paralelos. Os jovens europeus podem até não encontrar o emprego dos sonhos, mas a realidade é que, tanto lá quanto nos Estados Unidos, a escassez é uma lembrança distante: trabalhadores comuns conseguem manter um padrão de vida inimaginável para seus avós e bisavós. Nos Estados Unidos, empresas tem tido dificuldades de preencher vagas de emprego com um salário de US$ 15 por hora (o equivalente a cerca de R$ 23 mil por mês).

Mesmo as pessoas consideradas pobres estão longe da miséria: a maioria tem carros e vive em casas confortáveis. O problema dos sem-teto se deve quase sempre a doenças mentais ou ao vício em drogas. Mas, como regra, quem trabalha consegue se manter com as próprias pernas — e é por isso que imigrantes da África e do Oriente Médio continuam se dirigindo à Europa, mais do que à Índia ou à China, em busca de uma vida mais confortável.

Militarmente, o Ocidente continua soberano. Desde a Segunda Guerra Mundial, o território dos países da OTAN permaneceu praticamente inviolado, com a exceção de ataques terroristas pontuais. Apesar de estar avançando rapidamente nesse quesito, a China não consegue fazer frente ao poderio ocidental.

Culturalmente, o Ocidente também não parece estar indo mal — pelo menos não quando o critério é a influência. Potencializados pela internet, a música e os filmes produzidos nos Estados Unidos e na Europa alcançam os quatro cantos do globo com uma facilidade impressionante. A relevância cultural da China, por exemplo, praticamente se limita às próprias fronteiras.

Dinheiro não é tudo

Se economicamente, militarmente e culturalmente o domínio do Ocidente continua incontestável, como é possível dizer que ele está em decadência? A resposta é que o sucesso econômico, ou mesmo militar e cultural, não explica tudo.

Há bons argumentos em favor da tese de que a decadência do Ocidente é sobretudo moral, e que os outros pilares vão acabar cedendo com o tempo. E é possível olhar para alguns dados objetivos. Se o progresso gera indivíduos egoístas, hedonistas e superficiais, a consequência será a ruína de três elementos essenciais de uma civilização: família, religião, pátria. Em comum, os três carregam a ideia de que existe algo acima do indivíduo e mais importante do que a auto-satisfação.

A confiança no futuro não se calcula por declarações ou em livros de filosofia, mas em elementos mais objetivos: a taxa de natalidade e a disposição em arriscar a própria vida na defesa da nação.

O primeiro pilar, o da família, não parece ir bem: boa parte dos países ocidentais têm taxas natalidades abaixo de 2,1 por mulher, o que significa que a população está diminuindo. Os níveis de divórcio são elevados, e só pararam de crescer porque cada vez mais pessoas nem chegam a se casar.

A religião, por sua vez, parece seguir o mesmo caminho da família. Ir à igreja nunca foi tão pouco popular. O problema é maior na Europa, onde países como a República Checa e a França têm quase 50% de ateus e agnósticos. Mas os Estados Unidos seguem o mesmo caminho: em neste ano, um levantamento do Pew Research Center mostrou que o número de pessoas que frequenta a igreja regularmente nunca foi tão baixo.

Por fim, a ideia de sacrifício pela pátria tem se tornado uma relíquia do passado: número de pessoas que morreria pelo país é pequeno. Uma pesquisa global divulgada em 2015 pela Gallup mostrou um padrão claro. O percentual médio mais alto foi o do oriente médio e do norte da África — países majoritariamente muçulmanos. Nessa região, a média foi de 83%. No extremo oposto, a menor percentagem foi a da Europa Ocidental, com 25%. Nos Estados Unidos, o índice é de 44%. Já China,(71%), Índia,(75%) e Quênia (69%) estão acima da média global.

Mesmo economicamente, o Ocidente, se não está empobrecendo, está perdendo importância relativa. Em especial para a China. Apenas duas décadas atrás, os Estados Unidos eram o principal parceiro comercial dos países africanos, e de boa parte dos asiáticos. Hoje, os chineses assumiram essa liderança. Com a parceria comercial com os chineses, também surge um compromisso diplomático. O resultado é um afastamento de países africanos e asiáticos do bloco ocidental.

Progressistas desistiram da ideia do Ocidente por causa da sua herança (escravidão, machismo, racismo). Conservadores parecem titubear porque, hoje, o Ocidente já foi profundamente transformado pelos progressistas — a ponto de uma empresa com público infantil, como a Disney, se orgulhar de incluir conteúdo LGBT para crianças e de uma das “mulheres do ano” ser um homem biológico.

"Nacional-conservadorismo"

Ao mesmo tempo, um movimento — curiosamente, capitaneado por não-americanos, tem propagado a ideia de que a salvação está numa aposta redobrada no tripé tradicional: família , religião e nação. O chamado “nacional-conservadorismo” possui como modelo Israel e a Hungria.

Em comum, esses regimes têm o fato de serem antiliberais — ou seja: de não concordarem com o princípio de que todas as civilizações são igualmente valiosas, e que a moralidade objetiva é uma simples ilusão. Israel, em especial, parece ser um bom exemplo: o país tem uma taxa de natalidade muito superior à dos países europeus, religião continua tendo um papel central na sociedade israelense, e 66% dos cidadãos de Israel afirmam que morreriam pela nação. As taxas de divórcio estão entre as mais baixas do mundo desenvolvido.

Talvez não por acaso, o nome do autor israelense Yoram Hazoni esteja se tornando cada vez mais popular entre os conservadores americanos preocupados com a decadência do Ocidente. Autor de “A Virtude do Nacionalismo” (lançado no Brasil em 2019 pela Vide Editorial), Hazoni afirma que o pluralismo e o multiculturalismo são ilusões: para ele, sem uma identidade nacional clara, famílias fortes e um senso de transcendência, as sociedades humanas perdem a própria razão de existência.

Uma das possíveis explicações para a queda do Império Romano foi o seu sucesso. Não só porque o progresso financeiro levou os tempos fáceis a gerar homens fracos. É que a própria ideia de império parece ser autodestrutiva: ao se expandir, o regime precisou incorporar outros povos e necessariamente se tornar menos romano. Ao se tornar cada vez menos romano, ele também perdeu o único fator que o mantinha unificado. E caiu.

Se Israel tem algo a ensinar, é o fato de que apenas uma identidade nacional clara, em vez de um apelo genérico a ideias como “a humanidade”, é capaz de dar vitalidade a um povo. A dúvida é se Estados Unidos e a Europa estão dispostos a seguir esse caminho. Caso o cenário pessimista se confirme, vai ser possível dizer que James Burnham estava certo: a morte do Ocidente terá sido um suicídio.

Gazeta do Povo (PR)

Alemanha acusa Rússia de crimes de guerra na Ucrânia




Chanceler federal, presidente e chefe da diplomacia alemã condenam rastro morte deixado por tropas russas após retirada de subúrbios de Kiev. Procuradora-geral da Ucrânia diz que 410 cadáveres de civis foram encontrados.

O chanceler federal alemão, Olaf Scholz, afirmou neste domingo (03/04) que militares russos haviam cometido "crimes de guerra" no subúrbio de Bucha, a 37 quilômetros de Kiev, e que a Alemanha e países aliados iriam definir novas sanções contra Moscou nos próximos dias.

"O assassinato de civis é um crime de guerra, e devemos investigar de forma implacável esses crimes cometidos pelas Forças Armadas russas", afirmou Scholz em uma declaração na sede do governo alemão. "Nos próximos dias, iremos decidir com nossos aliados sobre as próximas medidas. O presidente [Vladimir] Putin e seus apoiadores sentirão as consequências."

Scholz afirmou também que a Alemanha "continuará a fornecer armas para a Ucrânia, para que o país possa se defender contra a invasão russa". 

Mais cedo, a ministra alemã do Exterior, Annalena Baerbock, também havia acusado neste domingo a Rússia de crimes de guerra, em reação aos relatos sobre civis assassinados pelas ruas de Bucha após a retirada das tropas russas.

Num tuíte, ela classificou como "insuportáveis" as imagens divulgadas: "A violência desenfreada de Putin extermina famílias inocentes e não conhece limites. Os responsáveis por esses crimes de guerra têm que prestar contas. Vamos acirrar as sanções contra a Rússia e apoiar ainda mais fortemente a Ucrânia na sua defesa", prometeu a chefe de diplomacia alemã.

Em Berlim, o presidente Frank-Walter Steinmeier igualmente declarou que "os crimes de guerra cometidos pela Rússia estão visíveis aos olhos do mundo", completando, segundo a agência de notícias DPA: "As imagens de Bucha me abalam, elas nos abalam profundamente."

No início de março, o Ministério Público da Alemanha havia aberto um inquérito sobre suspeitas de crimes de guerra por militares russos na invasão da Ucrânia. No entanto é a primeira vez que representantes do primeiro escalão político alemão classificam assim as ações do exército invasor.

Tiros na cabeça e mãos atadas

À medida que as forças militares ucranianas retomam áreas em torno de Kiev até então ocupadas por tropas russas, cenas chocantes vão se revelando. Neste domingo, a procuradora-geral da Ucrânia, Iryna Venediktova, afirmou que 410 cadáveres de civis haviam sido encontrados na região de Kiev em locais que estavam sob domínio de forças russas, alguns alvejados na cabeça e com as mãos atadas.

Em Bucha, situado 37 quilômetros a sudoeste da capital, numerosos cadáveres de civis e de soldados russos ladeavam as ruas. Jornalistas da agência de notícias francesa AFP contaram pelo menos 20 corpos em apenas uma rua.

"Todos esses foram fuzilados", comentou o prefeito Anatoly Fedoruk, acrescentando que 300 residentes foram mortos neste um mês de ocupação russa, estando pelo menos 280 enterrados em valas comuns em diferentes pontos da cidade.

Repórteres da Reuters viram mãos e pés de vítimas despontando de uma vala ainda aberta no terreno de uma igreja. Seus colegas da Associated Press (AP) também registraram vítimas civis ao longo de uma estrada e no quintal de uma casa.

"Eles estavam simplesmente caminhando, e aí atiraram neles, sem razão", comentou um residente de Bucha, acusando as tropas russas em retirada dos homicídios indiscriminados.

"Esses filhos da mãe!", exclamou à agência Reuters Vasily, de 66 anos, chorando de cólera, enquanto contemplava mais de uma dezena de cadáveres na estrada onde fica sua casa. "Desculpem. O tanque de guerra estava disparando. Cachorros!"

Ministro ucraniano pede missão do TPI

Diante do acúmulo de indícios do que classificou como "massacre" de civis, o ministro ucraniano do Exterior, Dmytro Kuleba, apelou pelo endurecimento das sanções contra Moscou. No Twitter, declarou que os homicídios seriam "deliberados", com os russos visando "eliminar tantos ucranianos quanto possam".

Kuleba apelou ao Tribunal Penal Internacional (TPI), sediado em Haia, e a outras organizações internacionais, para que enviem missões a Bucha e demais localidades do norte, com o fim de recolher possíveis provas de crimes de guerra.

O chefe de diplomacia ucraniana instou, ainda, o Ocidente a impor embargos ao petróleo, gás e carvão russos e a fechar todos os portos às embarcações do país, além de desconectar todos os bancos russos do sistema internacional de pagamentos Swift.

As imagens de Bucha se propagaram rapidamente pelas redes sociais, desencadeando indignação internacional. A secretária de Estado britânica para Relações Exteriores, Liz Truss, declarou-se horrorizada com as atrocidades e reforçou o apelo ao TPI para que investigue potenciais crimes de guerra na Ucrânia. Moscou nega estar alvejando civis e rechaça toda alegação de crimes de guerra.

'Comboio humanitário levou artigos de primeira necessidade à até então sitiaca Bucha'

Armadilhas explosivas em cidades liberadas

Autoridades ucranianas informaram neste sábado que o exército nacional já teria liberado mais de 30 cidades e lugarejos em torno de Kiev, tendo assumido ter completo controle sobre a região, pela primeira vez nas mais de cinco semanas desde que o presidente russo Vladimir Putin ordenou a invasão.

A vice-ministra da Defesa Ganna Maliar anunciou no Facebook: "Irpin, Bucha, Gostomel e toda a região de Kiev foram liberadas do invasor." Entretanto as localidades mencionadas se encontram devastadas ou seriamente danificadas pelos combates.

Numa mensagem de vídeo, o presidente da Ucrânia, Volodimir Zelenski, alertou: "Eles estão minando todo esse território. As casas estão minadas, os equipamentos, até mesmo os cadáveres das vítimas." Segundo o mandatário, a intenção seria deixar para trás uma situação "catastrófica".

O serviço de emergência do país afirma ter encontrado mais de 1.500 explosivos em apenas um dia, durante buscas na localidade de Dmytrivka, a oeste de Kiev.

Kremlin: retirada seria "gesto de boa vontade"

À medida que se retiram de algumas áreas no norte, nas quais sofreram baixas pesadas, as tropas de Putin aparentemente se concentram no leste e sul da Ucrânia, onde já ocupam amplos territórios.

"A Rússia está priorizando uma tática diferente: recuar para o leste e sul", avaliou nas redes sociais o consultor presidencial Mykhaylo Podolyak, completando: "Sem armamento pesado, não vamos conseguir expulsá-los."

Por sua vez, a Rússia tentou vender a retirada da área de Kiev como um gesto seu de boa vontade no sentido de negociações de paz. Ambos os lados descreveram como "difíceis" as mais recentes conferências, no fim de março, na cidade turca de Istambul e por vídeo. O porta-voz do Kremlin Dmitry Peskov comentou que "o importante é as conversações continuarem, em Istambul ou em outro lugar".

Uma nova rodada não foi anunciada, porém o negociador ucraniano David Arakhamia afirmou neste sábado que já se teria feito progresso suficiente para permitir um diálogo direto entre os presidentes Zelenski e Putin. O Kremlin não se pronunciou sobre essa possibilidade.

Deutsche Welle

A Ucrânia pode ganhar a guerra? Dez perguntas sobre o conflito




A Rússia continua a enfrentar forte resistência da Ucrânia, mais de um mês depois do início da invasão ao país.

As forças ucranianas começaram tentativas de retomar algumas áreas da Rússia, que anunciou nesta semana que reduziria as operações em torno de Kiev e da cidade de Chernihiv, ao norte.

No sábado (2/4), a ministra interina de Defesa da Ucrânia, Hanna Malyar, disse que “toda a região de Kiev foi libertada dos invasores”.

Enquanto isso, quatro milhões de pessoas fugiram da Ucrânia e acredita-se que um quarto da população do país esteja desalojada.

A seguir, duas repórteres da BBC em campo respondem a perguntas enviadas pelos leitores:

– Orla Guerin, que está em Kiev, capital da Ucrânia;

– E Jenny Hill, que está na capital russa, Moscou.

À luz dos recentes contra-ataques feitos pela Ucrânia, e assumindo que as negociações diplomáticas entre a Ucrânia e a Rússia fracassem, é possível que a Ucrânia seja capaz de “ganhar” esta guerra militarmente? (pergunta de Harry Tinsley)

Orla Guerin – Em termos militares, até agora a Ucrânia até que está se virando bem. Ucrânia.

O país surpreendeu o presidente Putin e o mundo ao montar uma resistência habilidosa e obstinada contra um exército maior e mais bem equipado. Da mesma forma, as forças russas surpreenderam o mundo por serem desorganizadas e ineptas.

Vimos um exemplo do sucesso da Ucrânia em combate em uma linha de frente perto de Kiev na semana passada. As forças ucranianas nos disseram que os russos tentaram invadir quatro vezes no mês passado, e todas as vezes foram impedidos. A evidência estava lá na forma de cerca de meia dúzia de tanques e veículos blindados russos queimados.

A invasão russa está agora em sua sexta semana e fracassou nas principais frentes — os russos não conseguiram entrar em Kiev, derrubar o governo ou tomar qualquer grande cidade — exceto Kherson — no sul. A Rússia destruiu mais do que capturou. Um retorno baixo para uma invasão cara.

Dito isto, é muito cedo para prever o desfecho por aqui.

Podemos estar no início de uma longa guerra. A Rússia diz que se concentrará agora na região de Donbas, no leste da Ucrânia. Pode ter pouca escolha, tendo fracassado em obter ganhos em outros lugares. Mas, no futuro, pode retomar a tentativa de capturar mais território em outros lugares.

O destino de Putin provavelmente está ligado ao sucesso ou fracasso da invasão. Ele pode continuar a enviar tropas, blindados e armas pesadas no longo prazo.

O fato da Rússia estar recrutando no Oriente Médio mostra falta de confiança na qualidade de suas próprias forças? (pergunta de David Carter)

Jenny Hill – O Kremlin nunca admitiria isso, mas há evidências de que pelo menos algumas das tropas russas são inexperientes e despreparadas para a missão. Recentemente, o Ministério da Defesa foi forçado a admitir que — ao contrário das alegações de Putin — recrutas foram enviados para lutar na Ucrânia.

Moscou afirma ter 16 mil “voluntários” do Oriente Médio, muitos dos quais lutaram contra o Estado Islâmico na última década, prontos para se juntar às tropas russas. Eles podem ter mais experiência do que alguns de seus colegas russos. E alguns especialistas dizem que provavelmente seriam mais habilidosos no tipo de combate urbano necessário para tomar cidades e vilas.

Alguns argumentam também que seriam menos relutantes em atacar ou matar civis ucranianos (muitos russos têm laços estreitos com a Ucrânia e consideram as pessoas de lá como “irmãos”), e que a reputação de brutalidade deles pode ter um efeito psicológico sobre as tropas ucranianas.

O Kremlin supostamente sabe de tudo isso, e é por isso que estava tão interessado em divulgar seu acesso aos combatentes do Oriente Médio — embora ainda não tenha confirmado oficialmente que realmente vai enviá-los.

Até que ponto as munições não detonadas continuarão sendo um problema para a Ucrânia após a guerra? Existe a possibilidade de que grandes áreas sejam consideradas inacessíveis como resultado? (pergunta de Robbie)

Orla Guerin – Infelizmente, sim, como tantas vezes acontece em conflitos, o risco para a vida humana permanecerá por muito tempo depois que a guerra acabar.

O perigo vem não apenas de munições não detonadas, mas também de minas terrestres. Elas podem matar nos próximos anos, a menos ou até que as organizações de remoção de minas possam limpar as áreas da linha de frente. Eu vi essas organizações trabalhando depois de outras guerras. Seu trabalho é meticuloso e demorado.

Antes do início da invasão, já havia uma guerra no leste do país entre separatistas apoiados pela Rússia e o governo da Ucrânia. Começou em 2014 e vem se arrastando desde então.

Enquanto cobríamos a linha de frente do conflito no final de janeiro e fevereiro, tivemos que contornar cuidadosamente muitos campos minados. Naquela época, a neve estava derretendo, transformando o solo em lama. Nestas condições, as minas podem facilmente mudar sua localização original (que pode ter sido marcada em mapas ou cercada).

Atualmente, na cidade de Irpin, ao norte de Kiev, o exército ucraniano diz que há um alto risco de morte por causa das minas nas ruas.

Está ficando mais ou menos provável que o povo na Rússia derrube Putin ou haja uma agitação civil maior, quanto mais tempo durar o conflito? (pergunta de Damien Fieldhouse, Somerset)

Jenny Hill – Menos provável.

O Kremlin é duro com aqueles que se opõem à guerra, e muitos russos que pensam assim fugiram. Os protestos de rua, que eram quase diários, diminuíram.

As pesquisas de opinião do estado devem ser vistas com algum ceticismo, mas mostram consistentemente o apoio da maioria (cada vez maior) a Putin e à sua “operação militar especial”.

Dado que a maioria dos meios de comunicação russos independentes foram bloqueados ou forçados a fechar, há poucas alternativas à mídia estatal, que se apega à narrativa do Kremlin. A mesma diz que as tropas russas só entraram na Ucrânia para defender a população de língua russa de ataques e do “genocídio” perpetrados por nacionalistas ucranianos e neonazistas.

Se você só assiste à TV estatal, pode muito bem concluir que esta é de fato uma operação honrosa e necessária para salvar os falantes de russo e a própria Rússia de uma Ucrânia agressiva que, com a ajuda dos Estados Unidos, está desenvolvendo armas biológicas e está desesperada para colocar suas mãos em armas nucleares.

As sanções estão começando a ter um efeito perceptível com o aumento dos preços, mas o Kremlin enquadra isso como outro exemplo de agressão do Ocidente. Nesta fase, é difícil ver qualquer insatisfação pública evoluindo para uma revolução.

Orla Guerin – O maior custo é o humano e está aumentando a cada dia. O número verificado de mortos civis, segundo as Nações Unidas, é de cerca de 1,2 mil pessoas, mas o número real será muito maior. Acrescente a isso o fato de que 4 milhões de ucranianos tiveram que fugir e se tornar refugiados em outros países.

Há também uma vasta destruição física, em cidades e vilas em todo o país. Nenhum lugar sofreu mais do que Mariupol, no sul, onde passamos 10 dias na contagem regressiva para a invasão.

Naquela época, era uma cidade portuária movimentada, com cafés badalados, restaurantes cheios e famílias passeando pelos parques. Imagens de satélite de Mariupol agora mostram sobretudo uma terra arrasada, com 90% dos edifícios residenciais danificados ou destruídos.

Sabe-se que cerca de 5 mil pessoas foram mortas apenas nesta cidade, de acordo com autoridades ucranianas. Elas dizem que o número real de mortos pode ser o dobro disso.

O presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, prometeu restaurar “todas as casas, todas as ruas e todas as cidades”. Ele diz que a Rússia terá que “aprender a palavra ‘reparações'” e pagar o custo total.

A Ucrânia certamente vai querer que as reparações sejam uma parte fundamental de qualquer acordo feito para acabar com a guerra. Se a Rússia vai pagar — e quanto vai pagar — vai depender de quem tiver em vantagem quando o acordo for feito. Teoricamente, os ativos russos no exterior, congelados pelos países do G7, poderiam ser usados ​​para ajudar a pagar a conta.

Se houver um acordo de paz, como a Ucrânia/Rússia lidaria com a Crimeia, as regiões tomadas pela Rússia em Donbas no mês passado e as áreas que foram controladas por rebeldes apoiados pela Rússia nos últimos anos? (pergunta de Ryan McGauley)

Jenny Hill – Sabemos que Putin quer que o mundo reconheça a Crimeia, que a Rússia anexou em 2014, como russa. Durante as negociações no início desta semana, a parte ucraniana sugeriu que o status da Crimeia fosse negociado ao longo de 15 anos como parte de um acordo de paz geral, embora seja difícil ver Putin concordar com isso.

Ele também quer que a comunidade internacional reconheça (como ele fez) as autoproclamadas repúblicas populares de Donetsk e Luhansk como independentes (embora isso signifique basicamente “controladas pela Rússia”).

Dado que o plano atual do Kremlin é intensificar seus esforços no leste da Ucrânia para “libertar” toda a região de Donbas, podemos supor que Putin pretende tentar tomar — e manter — a região.

Vimos os militares ucranianos serem muito eficazes em certas áreas. O que impede os militares de destruir a artilharia russa que está bombardeando suas cidades? (pergunta de Paul Ackrill)

Orla Guerin – Especialistas militares independentes apontam para um possível fator. Eles dizem que a Rússia está disparando artilharia de veículos com esteiras, que podem mudar rapidamente de local depois de disparar. Isso os torna mais difíceis de atingir.

As forças ucranianas nos disseram que também estão restringidas por causa da presença de civis em áreas construídas de onde a Rússia está atirando. Eles não querem arriscar matar seu próprio povo enquanto atacam a artilharia russa. Este tem sido um problema em cidades como Bucha, nos arredores de Kiev, onde alguns civis permaneceram apesar da presença das forças russas.

Ao redor de Kiev, as forças ucranianas conseguiram repelir os russos, limitando o escopo para o uso de artilharia. Como o centro da cidade está fora de alcance, os homens de Putin não conseguiram bombardear Kiev como fizeram em Mariupol, e recorreram a ataques aéreos.

No entanto, as defesas aéreas ucranianas têm funcionado bem. Várias vezes aqui em Kiev ouvimos um estrondo quando um míssil russo é derrubado — às vezes, com vítimas no solo.

Em geral, a Ucrânia tem pedido mais e melhores sistemas de defesa aérea para ajudar a conter a ameaça russa. E a demanda constante aqui é para que a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) imponha uma zona de exclusão aérea. Encontramos civis fugindo do bombardeio de Irpin que imploraram para a Otan “fechar os céus”. No entanto, poucos aqui acreditam que há alguma chance disso acontecer, por causa do medo ocidental de se envolver em uma guerra mais ampla.

Putin impôs enormes restrições à imprensa na Rússia, mas existe a possibilidade de que as notícias reportadas pela Ucrânia — por exemplo, o número de mortes de soldados e civis — não sejam totalmente precisas? (pergunta de Sarah, Oxford)

Orla Guerin – Ambos os lados estão travando uma guerra de informação, além da guerra nos campos de batalha.

Em qualquer conflito, as informações de qualquer uma das partes em guerra — sobre mortes de civis, território capturado ou soldados inimigos mortos — devem ser vistas com cautela.

Isso é especialmente verdade agora em relação à Rússia — que está tentando garantir que seu povo receba apenas a versão dos eventos do Kremlin. Ainda se recusa a admitir que invadiu a Ucrânia e se refere apenas à sua “operação militar especial”.

Priorizamos reportagens em primeira mão, e é por isso que a BBC tem equipes em tantas partes da Ucrânia — coletando depoimentos das pessoas em campo, incluindo civis, equipes médicas, autoridades locais e militares ucranianos.

A Ucrânia está reconhecendo que sofreu perdas, e equipes da BBC em diferentes cidades puderam reportar os funerais de soldados ucranianos mortos em batalha. Ainda não podemos saber se a extensão total das perdas está sendo divulgada.

Existem russos antiguerra? Eles estão seguros? (pergunta de Roanna, Brighton)

Jenny Hill — Sim, existem, mas é difícil avaliar o quão difundida esta dissidência realmente é.

Se manifestar contra a guerra — ou até mesmo dizer a verdade sobre o que Putin continua a insistir ser apenas uma “operação militar especial” — pode resultar em uma condenação criminal e possivelmente em uma pena de prisão.

Foi reportado que mais de 15 mil pessoas foram detidas por participarem de protestos de rua quase diários durante as primeiras três semanas da invasão.

A maioria dos jornalistas independentes e muitos russos que se opõem à invasão fugiram do país para lugares como Turquia, Armênia e Geórgia. O Kremlin os chama de traidores, e alguns daqueles que ficaram se tornaram alvo de abusos ou ataques.

Estamos vendo o ponto de vista dos soldados ucranianos da linha de frente, mas é possível obter a perspectiva do lado russo? Vocês estão impedidos pelos russos de informar e falar com as tropas russas em solo ucraniano? (pergunta de Robert, Bishop’s Stortford)

Jenny Hill -Não posso responder pelos meus colegas atualmente na Ucrânia, mas o Kremlin controla rigidamente o fluxo de informações que volta à Rússia.

O Ministério da Defesa divulga atualizações frequentes que enfatizam consistentemente o sucesso da “operação militar especial”. Soldados russos estão proibidos de usar smartphones, e Moscou tornou crime publicar informações que desacreditem os militares russos ou divulgar o que o Kremlin consideraria notícias falsas a respeito.

Existe uma organização independente que visa ajudar as famílias dos militares a obter informações sobre eles. No entanto, nos disseram recentemente que estão sob considerável pressão das autoridades para interromper suas atividades.

BBC Brasil / Daynews

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