domingo, abril 03, 2022

Os aventureiros na eleição de outubro




Na ditadura militar, principalmente depois de 1968, concentrou-se a resistência democrática no campo do jornalismo, das artes, da política e dos sindicatos

Por Marco Antonio Villa (foto)

São Paulo sempre teve um papel preponderante na federação brasileira. Foi onde nasceu o primeiro partido republicano e foram eleitos parlamentares para o Legislativo provincial e nacional. O movimento abolicionista teve na província um papel importante. A ação de Luís Gama foi célebre, assim como a dos caifazes, liderados por Antonio Bento. No processo de consolidação da República, São Paulo apoiou Floriano Peixoto em momentos decisivos da Revolução Federalista e da Revolta da Armada. Posteriormente teve os três primeiros presidentes civis – Prudente de Moraes, Campos Salles e Rodrigues Alves.

No campo das lutas sociais, o estado foi teatro de grandes greves liderados pelos anarquistas, em defesa de direitos trabalhistas, entre as quais as de 1905, 1906, 1917 e 1919. Também foi palco do segundo 5 de julho, o de 1924, quando durante três semanas a capital foi tomada pelos rebeldes tenentistas. O Partido Democrático (1926) foi um defensor do voto secreto, demanda que foi incorporada à plataforma da Aliança Liberal. Em 1930 Getúlio Vargas fez apenas dois comícios, um deles em São Paulo, que foi, até aquele momento, a maior manifestação de massa da história da cidade.

Durante o primeiro governo Vargas (1930-1945), o estado teve diversos representantes nos vários ministérios. No período populista (1945-1964) – especialmente, a capital – a participação popular também esteve presente no movimento sindical nas duas maiores greves do período, em 1953 e 1957. Na ditadura militar, principalmente depois de 1968, concentrou a resistência democrática, tanto no campo do jornalismo, das artes, da política e nos sindicatos. Em 1982, Franco Montoro obteve mais que o dobro de votos do candidato da ditadura e foi eleito governador de São Paulo. Dois anos depois lançou Tancredo Neves à Presidência da República, em meio à campanha das Diretas Já e os grandes comícios de 25 de janeiro e 16 de abril. Teve em Ulysses Guimarães a Presidência do PMDB, da Câmara dos Deputados e da Assembleia Constituinte, simultaneamente. Sem estender mais a análise histórica, o que aconteceu com São Paulo, hoje, tomado politicamente por aventureiros, oportunistas e forasteiros – vide os candidatos à Câmara Federal e ao governo estadual –, sem nenhuma vinculação com o estado?

Revista IstoÉ

Que suicídio seja confundido com eutanásia é sinal dos tempos

 




É evidente que há algo de muito errado no Ocidente, e que o progressismo está matando impunemente. Castra adolescentes, mata fetos, incita à obesidade e agora à morte direta.

Por Bruna Frascolla (foto)

Cá do meu cantinho da internet, digo que estourou dia 18 de março a notícia de que Alain Delon deixaria o mundo por meio de eutanásia. Tudo começou com a seguinte manchete d’O Globo: “Alain Delon pede a filho que providencie sua eutanásia: ‘É o mais lógico e natural’”. Estaria Alain Delon preso a uma cama, com sonda, desejoso de morrer e sem forças para estourar os próprios miolos? Nada disso. Na matéria, lemos que ele passou a usar bengala depois de ter dois derrames, e que, anos atrás, declarou que “envelhecer é uma merda”, porque “você perde o rosto, perde a visão. Você levanta e, caramba, seu tornozelo dói”. Pois muito bem, senhoras e senhores, a própria velhice nos é apresentada como condição miserável a ser sanada com a morte. Matemos os velhinhos, libertemo-los de sua miséria.

No frigir dos ovos, não era eutanásia coisa nenhuma: era suicídio assistido. Como nos informa Luciano Trigo, “Diferentemente da eutanásia, na qual o paciente, geralmente em estado de saúde terminal, tem sua vida abreviada pelos médicos, com autorização da família, no suicídio assistido é o próprio paciente que injeta em si mesmo a droga letal. No caso, pentobarbital sódico, um potente barbitúrico que deprime o sistema nervoso central e provoca a morte em poucos minutos, de maneira indolor”.

Que suicídio seja confundido com eutanásia é sinal dos tempos. E que libertários e liberais achem isso o suprassumo da liberdade individual, é sinal da imbecilização generalizada entre os letrados. No atual estado de coisas, suicídio não é crime. Se uma pessoa tenta se matar e fracassa, não há lei alguma para puni-la. O suicídio é muito mais velho do que o tal pentobarbital sódico; quem quiser posar de letrado, tenha ao menos em mente as mortes de Sócrates, Sêneca, ou, para ficar mais perto no tempo, de Marat. Então deixemos bem clara qual é a liberdade extra que os suíços têm: a de ajudar os outros a se matarem.

Indução ao suicídio é crime

A própria indução ao suicídio é crime no Brasil. Diferentemente dos tempos dos varões de Plutarco, quando a perda da guerra condenava os homens à escravidão e as mulheres ao estupro, o suicídio hoje costuma ser decorrência de doença mental. Jogar lama numa ferida infeccionada é um ato deliberado que agrava uma doença física letal. Do mesmo jeito, incitar ao suicídio é um ato deliberado que agrava uma doença mental letal.

A sociedade já foi mais cuidadosa com isso. Tome-se como exemplo a prática jornalística de não noticiar suicídios: isto decorre da preocupação com o Efeito Werther, isto é, o fato já bem sabido desde o século XIX de que o suicídio é socialmente contagioso. Nesse século foi lançado o best seller juvenil de Goethe Os sofrimentos do jovem Werther, no qual o protagonista se mata. Os fãs do livro passaram a usar as mesmas roupas do jovem e a ter a mesma sina. Era a Wertherfieber, ou a Febre Werther. Mesmo assim, no glorioso século XXI, a Netflix lançou uma série juvenil 13 Reasons Why, romantizando suicídio de uma garota problemática e mostrando direitinho como enfiar a navalha. Resultado: um aumento de suicídios de adolescentes nos Estados Unidos atrelado ao lançamento da série. Não consta que a Netflix tenha sido punida.

Assim, há uma relativa desinformação acerca de suicídios, movida pela prevenção da Wertherfieber. Dizer que fulano se matou assim-assado em tal lugar desperta ideias suicidas em quem já está predisposto e à procura de um método, e então vai lá e imita. Parece um preço razoável a ser pago, se o conjunto das informações for armazenado e deixado à disposição de quem quiser procurá-las.

Não é o que está acontecendo. A OMS e o Brasil não divulgam dados de suicídio relativos a 2020. O normal é a OMS divulgar os dados do ano anterior – ou seja, já deveria ter saído 2021, mas não saiu nem 2020. Não temos como saber se o vírus matou mais ou menos do que as doenças mentais causadas pela catastrófica política de confinamento.

Então ficamos assim: censuramos as notícias de suicídios comuns para prevenir a Wertherfieber; as autoridades não soltam as estatísticas de suicídio sabe-se lá por quê. E o jornalismo bacana se empenha em jogar confete no suicídio para lá de progressista de Alain Delon. Ensina-se agora que é uma prática razoável, e que a vida na velhice não vale a pena. Faço coro à pergunta de Luciano Trigo: "por que divulgar essa decisão na mídia e nas redes sociais?". Carência de atenção? De todo modo, cabia à mídia não jogar confete.

E não é a primeira vez que ela faz isto. As coisas mudaram nesta pandemia. A carta de suicídio do ator Flávio Migliaccio foi reproduzida pelos veículos com seriedade, não obstante seja um óbvio escrito de deprimido (diz, por exemplo, ter tido “a impressão que foram 85 anos jogados fora… Num país como este”. Você pode não se lembrar do nome, mas com certeza conhece o rosto do ator. Teve uma carreira muito bem-sucedida e enfrentou o confinamento sozinho na velhice, sob o terror do noticiário. É claro que não foram 85 anos jogados fora. Mas vale tudo porque ele falou mal do país, que é entendido por uma certa elite como sinônimo do presidente da vez).

Nova eutanásia

Embora a correção tenha vindo depois, fato é que Alain Delon escolheu a expressão eutanásia. É a mesma malandragem que se faz com a palavra “aborto” em “aborto aos seis meses”. Um típico defensor da descriminalização do aborto defende-a pensando em embriões. Um típico defensor da eutanásia defende-a quando o paciente está tão mal que não consegue pôr termo à própria vida. No caso da menina estuprada grávida de seis meses, a questão levantada inclusive pelos pró-vida era: por que matar o feto, se ele é viável fora do corpo da mãe? Defender “aborto” de feto formado não é defender aborto; é defender infanticídio. Infanticídio é uma prática que encontra muito menos defensores do que aborto (para encontrar defensor de infanticídio, tem que ir a Princeton assistir a aulas de ética. E eu não estou brincando). Do mesmo jeito, defender a “eutanásia” de pessoas que têm saúde suficiente para dar fim à própria vida não é defender eutanásia, é defender o suicídio assistido ou o homicídio de pessoas insatisfeitas com a própria vida. Esta é uma tese muito mais radical do que a da eutanásia.

Na verdade, a “eutanásia” de Alain Delon vem na sequência de mais dois casos dignos de nota. O primeiro deles é o de Nancy/Nathan Verhelst, que solicitou eutanásia ao governo da Bélgica e conseguiu, morrendo aos 44 anos em 2013. Verhelst nasceu mulher entre vários irmãos homens, era destratada em função do seu sexo e tentou resolver seus problemas de autoestima mudando-o. Tomou hormônios, fez cirurgias para cortar os seios e criar um pênis falso. Sentiu-se péssima com o resultado, ficou com o corpo irremediavelmente danificado e pediu eutanásia em função de sua incurável miséria psicológica.

Em 2019, a ativista Noa Pothoven, de apenas 17 anos, conseguiu um substitutivo de eutanásia na Holanda. Ela alegava que, por ter sido sexualmente abusada na infância, também estava numa miséria psicológica incurável. Fez campanha por isso com o apoio da mãe – e ninguém tirou a guarda dessa louca. No fim, a Holanda a deixou morrer por inanição sedada, uma prática considerada diferente de eutanásia por residir mais na inação (deixar de alimentar) do que na ação (dar veneno).

Declínio moral

Assim, aprendemos que é correto matar vítimas de abuso, e é bem capaz de algum DSM do futuro recomendar logo eutanásia para aquelas que se sintam mal com estupro. Quem não for feliz ao corredor da morte será considerado negacionista anticiência, pois mil papers atestarão que até agora a taxa de insatisfação dos eutanasiados é nula.

Vejamos a falta de parâmetros morais em questão. Há vítimas de estupro que se matam; há outras que dão a volta por cima. Por que dizer que uma opção é tão boa quanto outra, em vez de, como sempre, considerar que dar a volta por cima é a meta? No atual estado de coisas, a vítima de estupro que quiser se suicidar é livre para isso. Nós é que não somos livres para ajudá-la a se suicidar, nem para matá-la, nem para incitá-la ao suicídio. Em vez disso, nossa ação está obrigada a se orientar pela volta por cima.

Alain Delon disse que é o racional ter eutanásia aos 86 anos. Se aceitarmos que isso é o racional, então Clint Eastwood estar vivo – e realizando projetos – aos 91 anos é uma irracionalidade. Até quando o mundo pautado pela Ciência vai permitir irracionalidades?

E é uma coisa macabra o fato de a primeira eutanásia dessas ser a de uma destransicionada. Na época não havia um termo para isto; hoje, há no mundo rico um Detrans Awareness Day, ou Dia da Consciência Destransicionada, que alerta para a maneira precipitada como adolescentes com problemas mentais são levados à mudança de sexo. Sobretudo as do sexo feminino.

Ao menos essas moças foram vitimadas na adolescência. Nos Estados Unidos, a peleja é impedir que ideologia de gênero seja ensinada na pré-escola. Faz-se de tudo para tirar os filhos da guarda dos pais e castrá-los quimicamente. Depois os adolescentes se matam, as mortes são atribuídas à transfobia estrutural – mais um motivo para tirá-los de famílias transfóbicas e inculcar ideologia de gênero na sociedade. Dá para crer na boa fé dessa gente? Se os parâmetros éticos fossem os mesmos do século XIX, o reconhecimento do contágio social da disforia de gênero implicaria o silêncio sobre o tema na grande mídia, e esse seria um assunto de psicólogos e médicos.

As demandas medicamentosas da ideologia trans criaram um tremendo incentivo financeiro para as farmacêuticas. Assim, nos EUA os seguros estão sendo obrigados a cobrir mudança de sexo; na Europa e no Brasil, a saúde pública também faz. Pelo andar da carruagem, bem podemos ter o programa Minha Eutanásia, Minha Vida, com veneno público, gratuito, de qualidade, superfaturado. A TV terá uma novela para combater o preconceito contra pessoas que querem fazer eutanásia. Nas histórias infantis, uma Bele Adormecide Não-Binárie prefere não acordar para salvar o planeta, reduzindo a pegada de carbono, em vez de se sujeitar ao machismo estrutural e à cisnormatividade.

Letrados frívolos

É evidente que há algo de muito errado no Ocidente, e que o progressismo está matando impunemente. Castra adolescentes, mata fetos, incita à obesidade e agora à morte direta. Ainda assim, sempre haverá quem ache que é seu papel pensar o mundo apenas com base em premissas abstratas, sem levar em conta os fatos que se estatelam diante dos nossos narizes. Não adianta mostrar nada disso. Se o libertário acha que o suicídio assistido é uma consequência lógica de suas premissas, matizá-las ou mudá-las está fora de questão. O que importa é correr às redes sociais e jogar confete em cima de Alain Delon junto com os lacradores.

Tudo com base em muita ciência, muito progresso. Como se a Wertherfieber não fosse fenômeno conhecido pela ciência há muito. E ai de quem os mandar ter uma pulga atrás da orelha: essa gente passiva acha que toda gente mal-intencionada publica uma carta de más intenções, e quem cata más intenções não-declaradas é conspiracionista.

Gazeta do Povo (PR)

Guerra das Malvinas segue como ferida aberta na Argentina




Conflito de que o Reino Unido saiu vencedor é tema recorrente na cultura e no imaginário coletivo da Argentina, 40 anos depois.

Por Diego Zúñiga

Campo minado é o nome da peça que está sendo apresentada em Buenos Aires e que reúne veteranos argentinos e britânicos que lutaram na Guerra das Malvinas (de 2 de abril de 1982 a 14 de abril de 1982, com vitória do Reino Unido), uma guerra que marcou profundamente a história do país sul-americano, a ponto de ser objeto de estudos acadêmicos, livros, documentários e até mesmo filmes.

Quarenta anos após a tentativa de tomar o controle territorial das ilhas por meio de uma invasão que o tempo mostrou ser improvisada, a Argentina está mais uma vez refletindo sobre o que aconteceu, os erros e a marca indelével de um confronto que durou 10 semanas e deixou 649 militares argentinos mortos.

"A guerra marcou o país porque a causa da recuperação das Ilhas Malvinas, ocupadas pelo Reino Unido desde 1833, é uma causa nacional. É algo que se ensina nas escolas, durante gerações fomos educados com a ideia de recuperar as ilhas", disse à DW o historiador e escritor Federico Lorenz, autor de inúmeros livros sobre o assunto, incluindo Todo lo que necessitas saber sobre Malvinas. "Quando o desembarque aconteceu, os soldados tinham muito apoio popular", explica Lorenz. O problema surgiu após a derrota, quando o país foi repentinamente confrontado com duas realidades devastadoras, acredita o especialista.

"Quando a guerra terminou com a derrota da Argentina, foi tremendamente frustrante porque nos fez perceber que estávamos vivendo sob uma ditadura. E a perda do medo da ditadura de Leopoldo Galtieri devido ao fracasso militar nos levou a denunciar os crimes que haviam sido cometidos desde 1976. Diríamos que foi uma sobreposição de dois choques: a derrota nas ilhas e a dor de ver o país em que estávamos vivendo", diz ele.

Sorte de uns, tragédia de outros

Durante a guerra, o historiador Fernando Soto Roland prestou serviço militar na Marinha. Embora ele não tenha sido enviado ao "teatro de operações", como a zona de combate foi eufemisticamente chamada, ele viu coisas que o surpreendem até hoje. Quarenta anos depois do início do conflito, ele entrou em contato com antigos camaradas com os quais ele agora troca lembranças daqueles anos.

"Eu era apenas um marinheiro e tive muita sorte", diz à DW. "Foram três meses de tremenda ansiedade, três ou quatro vezes nos disseram que íamos para as Malvinas e, por razões que não sei, essa transferência acabou não ocorrendo", explica. "Tive sorte de não me tornar inválido ou ter problemas psiquiátricos, como tantos veteranos", acrescenta. Rindo, ele diz que atualmente é um reservista da Marinha "e eu nem sei como dar um nó de marinheiro". No serviço militar, me ensinaram mal e não aprendi nada lá", observa.

'Ditador Leopoldo Galtieri quis assegurar poder com recuperação das ilhas'

Há outros que tiveram menos sorte. O distúrbio de estresse pós-traumático atingiu duramente muitos combatentes e um número desconhecido, entre 300 e 450 deles, cometeu suicídio após a guerra. Outros enfrentam seus demônios escrevendo ou formando grupos para reivindicar seu papel de combatentes e, em muitos casos, também como vítimas.

Victoria Torres é acadêmica da Universidade de Colônia na Alemanha e escreveu numerosos trabalhos sobre a Guerra das Malvinas, focalizando as contas autobiográficas. Ela mesma diz que está ligada ao conflito pelas lembranças de sua infância, quando viu seus amigos partirem para o sul da Argentina com armas nas mãos.

No livro Poesía Argentina y Malvinas. Una antología, que ela coordena com Enrique Foffani, reúne dezenas de textos relacionados às ilhas, incluindo vários de ex-combatentes. Muitos deles escrevem sobre um assunto que foi tabu durante anos: transtorno de estresse pós-traumático e suicídio. "De 1982 a 2000, o assunto não foi discutido porque os soldados tiveram que assinar um pacto de silêncio para receber a baixa quando retornaram das Malvinas.

E eles foram sobrecarregados com isso, o que teve uma série de efeitos que levaram ao alcoolismo, drogas, violência doméstica e suicídio. É disso que se está falando mais. Mas a literatura também abordou isso, especialmente a poesia. Há poesia sobre o suicídio, e poetas ex-combatentes que escrevem sobre seus camaradas que cometeram suicídio. Contá-lo no papel serve como uma catarse e uma forma de transmitir aos outros o que eles passaram", diz Torres.

No DNA da Argentina

"Desde 1994, a Constituição argentina tem uma cláusula transitória que busca a recuperação pacífica das ilhas", diz Lorenz. "Malvinas é um sentimento, como se diz na Argentina, mas ainda falta ver que políticas são feitas com esse sentimento", acrescenta ele. "A presença das Malvinas é tão forte em nossa memória que leva tempo para pensar sobre como resolver o conflito. Não pensamos muito no que faríamos com as ilhas, estamos muito na lógica de pensar sobre a guerra e não pensar em que tipo de país queremos ser aquele que recupera as Malvinas. Pode ser uma maneira formidável para pensar no que nos une como um país, não apenas a recuperação de um território", diz Lorenz.

Em La guerra menos pensada, Torres − junto com Miguel Dalmaroni − pede a numerosos autores que escrevam sobre as Malvinas. No livro, eles definem a guerra como "uma ferida aberta, um episódio que não se fecha". Um enorme passo no caminho da cura foi dado quando os combatentes começaram a ser reconhecidos. Muitos deles se sentem heróis; outros, vítimas. Alguns reivindicam o que consideram um ato heroico. Mas todos concordam, segundo Torres, que durante muitos anos, no rescaldo imediato da luta, houve uma tentativa de tornar os veteranos invisíveis, algo que o filme Iluminado pelo fogo, de 2005, expõe com força.

"A cultura se encarregou de desarmar os discursos que vinham do governo de fato. Pode-se dizer que desde 1982 não passou um ano sem que se exercitasse a recuperação da memória da guerra. Eu defendo a tese de que Malvinas pertencem ao DNA da Argentina", diz Torres. "É um conflito que, como não está encerrado, continuará a nos acompanhar", acrescenta. "A mera marcha sobre as Malvinas me faz sentir mal. Foi uma guerra de uma ditadura que deveria prolongar-se pelo tempo. A morte de todos aqueles soldados inocentes, despreparados e mal equipados, e também graças a muitos soldados de carreira que deram suas vidas por seu país, nos permitiu recuperar a democracia mais rapidamente".

Deutsche Welle

Um funeral

 




Sem esperança nem revolta, os portugueses preferem a pobreza garantida à prosperidade incerta. 

Por Alberto Gonçalves (foto)

Desde a invasão da Ucrânia que, a julgar por sondagem, a taxa de aprovação do sr. Putin não pára de subir: andava nos 69% em Janeiro, anda nos 83% em Março. E a percentagem de russos que acham que o país está no bom caminho cresceu de 52% para 69% apenas no último mês. Os que acham o inverso são agora 22%, e eram 38% em Fevereiro.

Vista de fora, e consideradas as sanções e o isolamento, a tendência parece absurda. Os russos não sabem que deslizam apressadamente para uma pobreza que, pese os hábitos locais, boa parte das gerações recentes nunca conheceu? Não sabem que a propaganda do Kremlin é falsa por definição e particularmente falsa por vício? Não sabem que, seja qual for o desenlace desta história, e os custos para a Ucrânia e para o mundo em redor, o caminho da Rússia está longe de ser risonho? Uns saberão, outros não querem saber. E o controlo da informação, hoje parcial em última instância, não explica tudo. O que explica? Talvez a falta de tradição democrática, que os predispõe a desprezar os valores “racionais” que o Ocidente consagrou em favor de aconchegos vagos e, em última instância, um bocadinho suicidas. É verdade que mesmo a racionalidade ocidental já conheceu melhores dias. É sobretudo verdade que não serão os portugueses a explicar a atracção dos russos pelo abismo. Quem nos dera perceber a nossa.

Esta semana, afazeres profissionais forçaram-me infelizmente a assistir à tomada de posse do novo governo do dr. Costa. Felizmente, assisti pela televisão, porque não fui convidado (fiquei espantadíssimo, confesso) e porque as recomendações do famoso “distanciamento social” aplicam-se principalmente ao convívio com gente daquela. Isto para dizer que ouvi o discurso do prof. Marcelo, que deambulou uma meia hora pelo leste europeu antes de aterrar por cá, e o discurso do dr. Costa.

No caso do dr. Costa, devidamente autopsiado por Rui Ramos, não se tratou bem de um discurso, mas do típico rol de patranhas. Para enxovalhar os que duvidam do seu domínio da língua, o dr. Costa afiançou que lê muito. Pelo menos, vira muitas páginas, e acaba a enxovalhar os analfabetos que o levam a sério. O dr. Costa virou a “página da austeridade”. O dr. Costa encontra-se a virar a “página da pandemia”. O dr. Costa vai virar a “página da guerra”. Não tarda, chega ao posfácio. Para que o livro faça sentido, vamos a uma página de cada vez.

A “página da austeridade”. Face aos membros da UE, o PIB per capita caseiro vem caindo aos trambolhões. Naturalmente, o poder de compra e o consumo acompanham-no e lançam-nos rumo aos braços solidários da Bulgária. O fisco devora o que pode e o que não devia poder. Os aumentos salariais dão vontade de pegar em armas perante o aumento do custo de vida. A vida não alcança o fim do mês e é melancólica no princípio. E o governo tempera o massacre com trafulhices de nomes finos, tipo e-voucher, decerto para efeitos de gozo adicional. Virou-se a “página da austeridade” para se entrar no longo capítulo da miséria.

A “página da pandemia”. Portugal liderou internacionalmente na vacinação e lidera na perpetuação de proibições que negam a eficácia das vacinas. Em determinado momento, batemos o recorde de mortes diárias, que só não foram mais graças à bendita proibição de se adquirir água em take away. À revelia da generalidade do planeta, continuamos a impor o decisivo açaime nas escolas e nos restaurantes (aqui se estivermos de pé, que sentados o bicho não se atreve). À imagem de metade do planeta, estrafegou-se a economia para conter um vírus que não se conteve de fintar as “regras”, suponho que a rir. Vira-se a “página da pandemia” para se consultar o índice da prepotência e da superstição.

A “página da guerra”. A dimensão da intrujice não merece comentários.

Tamanha colecção de mentiras não classifica unicamente o perpetrador, o qual, reconheça-se, possui um desplante raro até para os padrões do PS. As mentiras também definem o público a que são dirigidas. À semelhança dos russos, alguns portugueses acreditam nas mentiras. E alguns não se maçam com elas. No Palácio da Ajuda, o dr. Costa poderia ter anunciado a cura do cancro que o escrutínio seria idêntico: nenhum. O homem diz sempre o que quer na medida em que, não tendo escrúpulos, tem um público que lhe permite todas as humilhações e ainda agradece por cima, através do voto e da reverência. Sem esperança nem revolta, os portugueses preferem a pobreza garantida à prosperidade incerta. E ninguém melhor que o dr. Costa para lhes garantir a pobreza e negar qualquer hipótese de prosperidade.

O “comentariado” perdeu excessivas horas a debater os ministros. Os ministros são insignificâncias ao serviço do dr. Costa e do partido e da distribuição da popular “bazuca”, afinal a solitária motivação do governo. A tomada de posse é uma redundância: aquela gente tomou conta disto há muito. Por isso, dispensavam-se os salamaleques de quarta-feira, a retórica ordinária e uma cerimónia com criaturas pouco dadas à dita. De resto, nas formalidades, na estética, nos risinhos e no negrume, a cerimónia pareceu-se demasiado com um funeral. Não o daquela gente: o do país.

Observador (PT)

Preocupação com o Brasil




A tomografia de nosso país indica a absoluta ausência de governo, sem qualquer planejamento estratégico para resolver seus desafios.

Por Miguel Reale Júnior* (foto)

A vida política brasileira cinge-se hoje à discussão distante da realidade, circunscrita a elucubrações e tratativas acerca de coligações nas eleições presidenciais e seus reflexos na composição de chapas estaduais.

Antecipa-se a eleição com atenção às pesquisas eleitorais, cujos índices são dados como definitivos, quando estes números apenas refletem o recall dos candidatos e podem, quando muito, revelar o grau de rejeição.

Com este panorama reduzido às possibilidades de acordos com vistas à eleição, tem-se a impressão de que o Brasil “vai indo” e seu destino não apresenta perigos, pois tudo é superado pelas artimanhas dos conchavos, pela satisfação das ambições daqueles que se intitulam membros da classe política dirigente, mas cuja bússola é voltada apenas para os seus interesses pessoais.

A tomografia de nosso país indica, contudo, a absoluta ausência de governo, sem qualquer planejamento estratégico a mostrar quais medidas concretas devem ser implementadas para resolver seus diversos desafios.

O País vive farsas promovidas pelo presidente da República e sua turma, a começar pela auto-outorga do mérito indigenista, quando é acusado da prática de crime contra a humanidade em face das populações indígenas durante a pandemia, com denúncia no Tribunal Penal Internacional.

Somos condenados a viver um processo esquizofrênico, com a convivência concomitante de duas realidades conflitantes: o mundo do “faz de conta”, vivenciado pelas lideranças políticas, preocupadas com os conluios e cálculos eleitorais, e principalmente por Bolsonaro, com sua central de fake news, a se fantasiar de super herói em motociatas e passeios de jet-ski.

Só que há um Brasil real, a denunciar a inconsistência desse mundo fantasioso das ambições pessoais. O Brasil composto pelos problemas efetivos: inflação; miséria e fome; desemprego elevado; crescimento pífio do PIB e redução da renda per capita; deterioração de nosso parque industrial e do meio ambiente; crise sanitária; vulnerabilidades em nosso comércio exterior; além da continuidade da corrupção.

Não há governo e também não há a atuação dos organismos de controle, fundamentais no autocrático sistema presidencialista, pois é essencial a atuação fiscalizadora e repressora da Câmara dos Deputados e da Procuradoria-Geral da República. Essas, por interesse político, renunciam à tarefa de processar as condutas ilegais promovidas pelo chefe do Executivo e seus sequazes.

Diante desta ausência de governo e de fiscalização, quem ocupa o espaço de efetivação do Orçamento, espinha dorsal do exercício do poder?

As emendas parlamentares já constituíam moeda de troca em outros governos. Todavia, até tinham valor igual para todos os parlamentares, a destinação era conhecida e sua pertinência, examinada pelo Executivo. 

Na gestão de Arthur Lira criou-se, todavia, o maior instrumento de corrupção, o “orçamentão do Centrão”, por via do qual se institucionalizou a emenda do relator, cujo valor alcançou R$ 21 bilhões em 2021. Por essa emenda, o relator indica diretamente a destinação de verba aos ministérios para aplicação em obra específica em determinado município. Fica-se sem saber, posto que oculta, quem é a figura parlamentar por detrás dessa indicação feita em valores de livre fixação a municípios escolhidos a dedo, conforme a importância do interesse político.

Exemplo gritante do domínio da República pelos senhores Lira e Ciro Nogueira se colhe na denúncia do Estado de domingo retrasado sobre o poder do Centrão na destinação das verbas discricionárias do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE). Gere o fundo ex-chefe de gabinete do senador Ciro Nogueira, hoje ministro da Casa Civil. Em absoluta desproporção com a população estudantil, Alagoas, de Arthur Lira, recebeu a maior receita do fundo, com dotação de mais de R$ 60 milhões. O Piauí, do ministro Ciro Nogueira, recebeu R$ 20 milhões, pouco menos que São Paulo, cuja população estudantil é infinitamente maior. Essas dotações aos municípios são intermediadas por pastores, que negociam com prefeitos a transferência direta aos seus municípios. Um escárnio.

Dentre os aspectos do Brasil real está a absoluta vulnerabilidade do País no campo do comércio exterior, objeto de artigo nesta página do embaixador Rubens Barbosa, seguido de exposição na Academia Paulista de Letras. O panorama é assustador, pois nossas exportações centram-se em ferro e em dois produtos agrícolas, soja e milho, com poucos compradores no mercado internacional, dependendo em grande parte da China.

A Academia Paulista de Letras, ao tomar ciência dessa situação, decidiu, como cultora de nossa soberania, fazer uma conclamação alertando para esses perigos que podem levar à bancarrota.

Assim, na ausência de lideranças efetivas, com o País em degenerescência, a Academia pede aos que se preocupam com o futuro do Brasil esforços para promover debate sobre as mudanças necessárias para enfrentar, com pensamento estratégico de médio e longo prazos, as nossas vulnerabilidades.

*Advogado, professor titular sênior da Faculdade de Direito da USP, membro da Academia Paulista de Letras, foi ministro da Justiça

O Estado de São Paulo

Filosofia dos tapas




Minha teoria da conspiração favorita envolvendo esse episódio é que durante meses Putin mandou envenenar a comida da mulher do Will Smith com microdoses de plutônio, causando alopecia. 

Por Alexandre Soares Silva (foto)

Não gosto de me juntar à conversa quando todo mundo está falando de um assunto, porque sou especial demais pra fazer isso. Mas quando o assunto morreu, quando todas as piadas sobre o assunto já foram tentadas e a lembrança delas causa até uma certa repugnância, e alguém tenta timidamente começar um assunto novo, esse é o meu momento favorito: sorrio, limpo a garganta com um pigarro, e volto com gosto ao assunto velho.

Qual época da história da humanidade é mais antiga: a segunda Era de Ouro do Império Sassânida (488 d.C. a 531 d.C.) ou o domingo passado? Às vezes me parece o domingo passado. Volte comigo a essa era lendária em que uma celebridade deu um tapa na cara da outra, dando um fim à era do mendigo sedutor, que por sua vez deu um fim à era da guerra da Ucrânia, que por sua vez deu um fim à era da Covid, que por sua vez deu um fim à era do Dráuzio Varella-que-deu-um-abraço-num-travesti-que-na-verdade-era-um- estuprador-de-crianças. Eis algumas opiniões minhas sobre esse evento tão significativo:

*Quando havia cartolas e um homem era insultado, um movimento preliminar que se podia fazer era dar um tapa na cartola do ofensor. Não existe nenhum filme mudo sem essa cena. Se o ofensor continuasse sem se desculpar, ou se desse um tapa de volta na sua cartola também, você ainda tinha a opção de dar um tapa no charuto dele, ou na piteira, se fosse o caso. Podia também pisar na cartola dele, e depois pegar a cartola dele do chão e dar um soco na cartola, arrancando o fundo; ou arrancar o monóculo dele e esmagar com o calcanhar; ou podia também arrancar a orquídea da lapela dele, e colocar num copo de champanhe na bandeja do garçom que ia passando bem nesse momento.

Enfim, havia muitas opções. E só depois desses gestos preliminares você dava um tapa na cara da pessoa. Agora, sem nenhum adorno na cabeça, você é praticamente obrigado a dar tapas nas caras das pessoas. É uma insanidade um homem sair sem nada na cabeça para atrair primeiro os tapas, como uma espécie de para-raios. Eu estranho quando saio de casa sem levar três ou quatro tapas no percurso.

*Quando havia um conceito estabelecido de honra, os homens sabiam automaticamente como agir quando eram insultados. Mas agora quando alguma coisa acontece ninguém sabe como agir. Quando algo acontece, um homem precisa decidir na hora algumas coisas: a honra da minha mulher foi insultada mesmo? O que é honra, exatamente? O que é a honra para uma mulher? O que é a honra para um homem? Tenho a obrigação de defender a honra da minha mulher? Com o quê, com um xingamento, reclamando muito? Fazendo cara feia? Chamando o gerente? Dando um tapa, uma joelhada? Um tiro? Um golpe de cimitarra? Ou uma sardinha basta? E se, de fato, eu brigar para defender a honra da minha mulher, ela vai ficar feliz? Ou vai ficar gritando “Ai, Alexandre, que baixariaaaa”, enquanto eu rolo no chão com o agressor, metade da minha cueca aparecendo? É muita coisa para decidir em dois ou três segundos. É toda uma filosofia da honra que tem que ser decidida no momento. E se é assim, como culpar um ator por tomar uma decisão filosoficamente absurda?

* Minha teoria da conspiração favorita envolvendo esse episódio é que durante meses Putin mandou envenenar a comida da mulher do Will Smith com microdoses de plutônio, causando alopecia. Em seguida, ele infiltrou um agente russo na equipe de escritores do Chris Rock, e esse agente sugeriu a piada da alopecia, na verdade escrita pelo próprio Putin. Depois Putin, como um enxadrista que já fez a sua jogada, só teve que se reclinar na sua poltrona e esperar pelo tapa inevitável de Will Smith, que acabou desviando a atenção do apaixonado discurso contra a guerra da Ucrânia feito por Amy Schumer (atriz de Viagem das Loucas e voz da Sra. Burns nos Simpsons), que em condições normais certamente teria trazido um fim à invasão e talvez até uma troca de regime na Rússia. Putin é um gênio.

* Quanto à piada em si: longe de ser uma piada cruel, como falaram, é uma piada gentil que você poderia fazer com a sua mãe em uma festa de família, se a sua mãe tivesse alopecia. “Mamãe vai fazer G.I.Jane, né, mamãe?” “Que é isso?” “Um filme, a senhora viu, lembra aquele filme que a Demi Moore é uma soldada, e ela raspa o cabelo? A senhora vai fazer a continuação, né, mãe?” E ela riria, se não fosse um poço macabro de ressentimento e desequilíbrio.

Revista Crusoé

Os donos do poder




O escândalo do MEC é uma escaramuça pré-eleitoral ou traduz um padrão no trato da coisa pública?

Por Fernando Schüler* (foto)

Muita gente pode achar o caso dos pastores e do Ministério da Educação algo um tanto bizarro e irrelevante. Não é o meu caso. O episódio todo, que levou à saída do ministro Milton Ribeiro, mostra a sobrevivência de velhos males de nosso mundo político. Para começar, a desorganização da política pública. Um órgão que se supunha técnico, como o FNDE, surge como presa fácil ao pequeno grupo de compadrio, com acesso ao poder. Com uma agravante: a mistura da religião com política, algo sem cabimento em um Estado laico. Por último, a lembrança de que nosso velho patrimonialismo continua vivo e forte. Sua melhor definição foi aquela frase do ministro: “A prioridade são os amigos do pastor Gilmar”. É a realização da profecia de Sérgio Buarque: a cordialidade como o doce pecado de nosso mundo público. A vitória do trato pessoal sobre o procedimento técnico, imparcial, regrado, republicano. A polidez que esconde critérios de exclusão, de quem comanda, e não faz muito segredo disso.

O escândalo do MEC é uma escaramuça pré-eleitoral ou traduz um padrão no trato da coisa pública? “Não há novidade nenhuma nisso”, ouvi de um comentarista. “Em Brasília tem pressão de tudo que é lado.” Se o veredicto é esse, segue-se o barco. Meu ponto é dizer que não. Há um problema aí precisamente porque se configura um padrão, feito da captura de nacos de poder, recursos, pequenos e grandes monopólios por parte do estamento público. Ainda esta semana se divulgou o excelente estudo do professor Luciano de Castro e outros pesquisadores sobre nosso Congresso. Os dados são de cair o queixo. Nosso Parlamento custa 0,15% do PIB. É o mais caro do mundo. Cada parlamentar custa 5 milhões de reais por ano. Na Inglaterra, 477 000 reais. Eles fizeram o Bill of Rights, em 1688, e são bem mais ricos do que nós, mas custam dez vezes menos. Vamos lá, só pode haver um problema bastante complicado por aqui.

No mundo dos partidos e das eleições, o padrão se repete. Estudo conduzido pela economista Marina Helena Santos mostrou a situação do Fundão Eleitoral. Candidatos que já eram parlamentares, nas últimas eleições, receberam, na média, 996 000 reais para fazer campanha. Os de fora, 70 000 reais. Os deputados-candidatos já tinham seus 25 assessores, dinheiro para viagens e despesas, e já haviam distribuído coisa de 60 milhões de reais, em emendas individuais, ao longo do mandato. No final, levam catorze vezes mais recursos do que seus competidores de primeira viagem. É o que o cinismo nacional costuma chamar de garantir mais “equidade” na disputa eleitoral.

No campo do Judiciário não é diferente. Nosso sistema de Justiça é o mais caro, proporcionalmente, entre as grandes democracias. Nos custa 1,4% do PIB, contra apenas 0,4% na Alemanha. Colecionamos notícias de vencimentos muito acima do teto do funcionalismo, por parte de nossos magistrados. Mesmo assim, tramita no Congresso, com chances de aprovação, a PEC 63, criando um adicional de 5% a cada cinco anos, nos vencimentos da magistratura. E pasmem: com chance de ser retroativo, extensivo aos aposentados e não sujeito ao teto salarial. Temendo alguma injustiça, o Senador Alessandro Vieira propôs que o benefício seja dado a todo o funcionalismo. Ou seja: além de termos engavetado a reforma administrativa, que iria extinguir as progressões por tempo de serviço, corremos o risco de criar agora uma superprogressão. O mesmo Congresso que descumpre a determinação da Constituição, no Artigo 41, de disciplinar a avaliação de desempenho dos servidores, arrisca criar agora um benefício sem conexão alguma com mérito. Talvez não passe. Mas só o fato de que isso seja seriamente considerado já é um indicativo do peso da cultura estamental, na elite política de Brasília.

Muita gente não vê problema algum nisso tudo. “A democracia custa caro”, escuto em rodas elegantes. Custa caro no Brasil, respondo. Temos a maior carga tributária da América Latina, fora Cuba, e fomos o país que mais expandiu o gasto público, na década que se seguiu à crise de 2008. Em pouco mais de dez anos, fomos de 29,5% para 41% de comprometimento do PIB com despesa pública. Pouco mais de 13% gastamos com funcionalismo. Nosso aparado estatal tem tamanho europeu; nossa miséria, padrão latino-americano. Gastamos o equivalente à Itália e países com welfare state consolidado, como o Canadá e a Alemanha. Em matéria de pobreza, ficamos atrás de países como Peru, Bolívia e Paraguai.

Vai aí o dilema: nosso aparato público é caro, para o contribuinte, e funciona, ele mesmo, como entrave ao crescimento e fator a mais de concentração de renda. Não há como entender isso sem decifrar nosso vezo patrimonialista. O vezo que vem do fundo de nossa formação. Do país que nasce do Estado. Do rei que se apossa da terra e distribui à vassalagem, da república dos coronéis, do Estado Novo organizando o sindicalismo oficial. O vezo que está lá, em cada privilégio, em cada monopólio, em cada priorização dos “de cima”, em cada desoneração fiscal gerada pelo lobby. Signo de um país vulnerável à ação dos grupos organizados, diante de uma sociedade passiva e uma legião de brasileiros dependentes de transferências públicas. País carente de grupos de advocacy para os interesses difusos, a começar pelos direitos do contribuinte, e de uma cultura frágil de direitos individuais.

Por essas e outras que volto à leitura da obra-prima de Raymundo Faoro, Os Donos do Poder. Ela já tem mais de seis décadas, mas prossegue atual. Nos mostra como a oposição fundamental de nosso mundo político não se dá entre quem produz, no mercado, seja grande ou pequeno empreendedor, trabalhador com carteira ou entregador de aplicativo, nas ruas de São Paulo. A clivagem essencial é entre o mundo que gira em torno da captura do Estado e o restante da sociedade, que paga a conta. O contribuinte, o cidadão destituído de lobby, o usuário dos serviços públicos, o tomador de risco, na economia real.

É sobre isso o debate que vamos travar nas eleições deste ano. Haverá muita bobagem, como sempre, mas a questão central continua a mesma: se desejamos um país moderno e de mercado, com um Estado enxuto e feito de direitos iguais, ou se vamos seguir com nossos pastores-lobistas, e parlamentares recebendo 528 vezes a renda média de um trabalhador. Se o desejo for de mudança, será preciso enfrentar a “social enormity”, na expressão dura de Faoro, que herdamos da tradição. A deformação segundo a qual “instituições anacrônicas frustram o florescimento do mundo virgem”. Vai aí meu toque de otimismo. A tradição nos puxa pelo pé, mas não nos amarra. A democracia nos dá, a cada momento, uma nova chance. Nos assopra ao ouvido a ideia por vezes incômoda de que somos o resultado de nossas próprias escolhas.

*Fernando Schüler é cientista político e professor do Insper

Revista Veja

Bolsonaro em estado bruto - Editorial




Com ameaças às eleições, insinuações antidemocráticas e declarações indecorosas, Bolsonaro espera eletrizar sua base de reacionários e distrair o eleitorado dos problemas

No dia 31 de março, Jair Bolsonaro fez um discurso eleitoral que reflete, com clareza meridiana, a natureza do bolsonarismo. O presidente não prestou contas do que fez até aqui no governo, tampouco propôs alguma coisa para o futuro do País. Não fez nada do que, em tese, um pretendente à reeleição deveria fazer para conquistar o voto do eleitor. O discurso, repleto de grosserias, foi dedicado a fustigar as instituições e a proferir ameaças. “Calma é o cacete”, disse.

Nada disso – tom, conteúdo ou ausência de proposta – é acidental. O bolsonarismo precisa que a campanha eleitoral não discuta os problemas reais do governo e do País. A corrupção no Ministério da Educação, as relações promíscuas com o Centrão, o completo fracasso da agenda de Paulo Guedes, as omissões e confusões no enfrentamento da pandemia, as falcatruas no Ministério da Saúde, o desemprego, a inflação, o baixo crescimento econômico e a volta da fome: todos os temas que afetam a vida da população, bem como as suspeitas de rachadinha e de tráfico de influência envolvendo a família Bolsonaro, são um enorme problema para a reeleição de Jair Bolsonaro. 

Mas como fazer para que nada disso, em um total desvirtuamento do que deve ser o debate público num regime democrático, seja discutido na campanha eleitoral? O bolsonarismo tem a fórmula – incivilizada, hostil aos princípios constitucionais e extremamente onerosa para o País. Infelizmente, a julgar pelas pesquisas de intenção de voto, essa fórmula está funcionando para eletrizar sua aguerrida base reacionária, exatamente como aconteceu nas eleições de 2018. A diferença, para pior, é que, naquela época, Bolsonaro era apenas um obscuro deputado do baixo clero, dependente das redes sociais para ganhar atenção, e hoje é presidente da República, condição que dá muito mais visibilidade às suas injúrias.

Em vez de explicar os incontornáveis problemas do Ministério da Educação, Bolsonaro prefere gritar: “Bota a tua toga e fica aí sem encher o saco dos outros!”, em referência malcriada a ministros do Supremo. Trata-se de grave falta de compostura e decoro. A rigor, enquadra-se numa das hipóteses da Lei do Impeachment, que inclui, entre os crimes de responsabilidade, “proceder de modo incompatível com a dignidade, a honra e o decoro do cargo”. Mas Bolsonaro sabe que ficará impune, e aproveita a grosseria para atiçar apoiadores, gerar tensão com outros Poderes e desviar a atenção do que realmente interessa numa eleição.

É de fato constrangedor, mas o bolsonarismo não tem nenhum escrúpulo em inventar e reinventar as mesmas polêmicas. Na quinta-feira, Bolsonaro falou de todas elas: elogiou a ditadura militar, ameaçou as eleições de outubro, prometeu armar a população, deturpou o sentido de decisões judiciais, fantasiou ataques à liberdade de expressão e ainda aplaudiu o deputado desordeiro que, para fugir da Justiça, preferiu desonrar o Congresso.

Assim Jair Bolsonaro vem, há décadas, construindo sua trajetória política. Não conhece limites morais e éticos, esmerando-se sempre em se superar em truculência e desfaçatez – sobretudo quando se encontra em dificuldades políticas. Diante do acúmulo de evidências de corrupção e malfeitos em seu governo, Bolsonaro vale-se de ameaças e insinuações antidemocráticas. Não por acaso, voltou a colocar em dúvida o sistema de votação, com o intuito óbvio de criar um clima de apreensão no País e fazer os brasileiros esquecerem como a vida piorou.

A estratégia é muito mais grave do que mero desvio de atenção da população. Há um ataque real às instituições e às liberdades quando um presidente da República insinua que não reconhecerá o resultado das eleições caso seja derrotado. Sem nenhuma transigência ou tolerância com essas ameaças – que merecem rigorosa responsabilização –, é preciso lembrar o óbvio: há democracia no País, haverá eleições em outubro e o resultado será respeitado. O resto é burburinho de quem nada tem a oferecer ao Brasil além do caos.

O Estado de São Paulo

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