sexta-feira, fevereiro 04, 2022

A energia mais barata do Brasil é a fotovoltaica’, afirma Paulo Maiso




Paulo Maisonnave sempre trabalhou na área de eletricidade. Ele diz que, quando se formou em engenharia elétrica, há pouco mais de 20 anos, não imaginava coisas como carros alimentados por baterias nem geração de energia a partir da captação da luz solar. Agora, o responsável pela área de E-Mobility da Enel X, uma das maiores empresas do setor de eletricidade do mundo, vem atuando fortemente para desenvolver a eletrificação da mobilidade no Brasil. Sem citar números, o executivo diz que os resultados de 2021 foram impressionantes e que acaba de dobrar as metas para 2022. Ele falou sobre outros assuntos, como tecnologia, na última entrevista da série Estadão Mobilidade Insights.

Como foi 2021 para a área de E-Mobility da Enel X?

Foi impressionante. A transição energética e a mobilidade elétrica superaram as expectativas dos mais otimistas em termos de mercado, conhecimento, qualidade, avanço tecnológico, venda de veículos, carregadores e soluções. Esse avanço tem muito a ver com parcerias, como a que a Enel X fez com a rede de estacionamentos Estapar. Esse é um dos braços de um dos maiores grupos de energia do mundo, que é a Enel. Fazemos a ponte entre a oferta da energia necessária para mover a mobilidade elétrica e quem efetivamente fornece as soluções de mobilidade. Eu sempre brinco com os clientes e fornecedores que não sei vender carro nem patinete. Então, dependo de alguém que queira usar a energia elétrica para se movimentar. As montadoras, por exemplo, são grandes parceiras e a gente fica muito feliz por elas estarem olhando para mobilidade elétrica e fazendo essa transição de forma cada vez mais rápida. O Brasil é um grande mercado e as fabricantes vêm oferecendo cada vez mais veículos. Temos parcerias também com seguradoras, locadoras de veículos e concessionárias e importadoras. E também com postos de combustível, que estão passando a oferecer carregadores. É uma área muito integrada. Se você não vender carregador, não vende carro e vice-versa.

Como o sr. vê o futuro de fontes de energia como a fotovoltaica?

Eu trabalhei no setor de geração de energia da Enel e passei por hidrelétricas e termoelétricas. O Brasil tem uma capacidade de produção de dar inveja a muitos países. Acompanhei o nascimento do setor de energia eólica e depois, do de fotovoltaica. A evolução dessas soluções acelerou muito e, juntamente com mobilidade elétrica, evoluiu mais do que poderíamos esperar há alguns anos. Digo com certeza que a fotovoltaica é forma de geração de energia mais barata do Brasil. Se alguém dissesse isso há cinco anos, ninguém acreditaria. O Brasil tem terra e sol abundantes. Isso permite diversificar nossa matriz energética. Hoje, a produção de energia eólica e solar são os grandes xodós e têm grandes oportunidades de crescimento.

Haverá cobrança pela recarga em postos públicos?

A demanda por veículos elétricos ainda é pequena no País. Em 90% dos casos, a recarga é feita na casa ou trabalho do usuário. Então, ainda não há essa necessidade de recarregar o veículo na rua. Também temos a cultura de deixar o carro em garagens. Mesmo quando está fora de casa, é comum o brasileiro parar em estacionamentos. Isso facilita a expansão da oferta de recarga em locais privados. Há projetos pilotos criados para atender demandas institucionais, de marketing e de teste, por grandes montadoras e empresas de energia. A legislação permite a cobrança. Porém, é preciso saber se o consumidor está disposto a pagar. Diferentemente do veículo a combustão, que é reabastecido durante o processo de transporte, o elétrico é recarregado quando está fora de uso. Por exemplo, ao chegar em casa à noite, basta plugar na tomada e ele fica recarregando enquanto você dorme. No shopping, a recarga é feita durante o período usado para compras. Então, o processo de valor agregado é diferente. Algumas empresas começaram a cobrar a recarga, mas é difícil ter retorno financeiro se não houver o entendimento de que o modelo econômico é outro.

Quais são as metas para 2022 e como alcançá-las?

Logo no início do ano dobramos nossas metas. Fizemos parceria com a Zletric, startup da área de recarga. Ela traz muita tecnologia, visão e capacidade sobretudo no mercado 'B2C'. A Enel X é uma das três empresas com melhor estratégia e execução de projetos de mobilidade elétrica do mundo. No Brasil, estamos criando e agregado soluções. A ecovaga (ponto de recarga em estacionamentos) é muito agregadora. Novas empresas, tecnologias e oportunidades estão surgindo. Na Europa, você pega um carro elétrico em Lisboa e vai para a Noruega usando o mesmo app de recarga. É como o celular, que muda automaticamente de operadora. Em 2022, a expectativa é de crescimento da frota de veículos de carga. Nosso maior desafio será oferecer soluções para vans, furgões e caminhões. Grandes empresas estão eletrificando suas frotas. A Enel X tem capacidade para entregar uma solução completa, inteligente, ativa do ponto de vista econômico e de longo prazo. O Brasil sempre surpreende e a perspectiva de crescimento é exponencial. Obviamente, temos uma visão de longo prazo, que aposta na sustentabilidade e no relacionamento com o fornecedor. A Enel X tem geração fotovoltaica, geração distribuída, eficiência energética e otimização. Há novos veículos chegando e até uma empresa (Great Wall Motors) que vai produzir apenas modelos eletrificados. E já começam a aparecer carros um pouco mais baratos. Creio que em dois anos esse mercado vai ser uma loucura.

Que dica o sr. daria ao Paulo de 20 anos atrás?

O engraçado é que a engenharia elétrica era um dos cursos mais conservadores. Os professores eram os mais velhos e os livros eram de 1950. No meu primeiro dia como estagiário, a Enel estava fazendo uma conversão de energia digital e eu não entendi nada. Perguntei a um engenheiro mais velho e ele também não sabia nada sobre aquilo. Ali eu aprendi que você vai aprender com o avanço da tecnologia. Então eu diria: 'Abra a mente, porque novas oportunidades surgirão'.

Estadão / Dinheiro Rural

Mães brasileiras denunciam agressões contra crianças em escolas portuguesas: 'Ambiente de terror'




A prática de violência não se restringe às crianças brasileiras, mas é naturalizada pelos pais de alunos portugueses, diz denunciante

Uma bofetada na cara de uma criança brasileira de 7 anos dada por uma auxiliar de uma escola na Área Metropolitana de Lisboa, que levou a sangramento nasal, rompeu o silêncio das mães diante de agressões em escolas portuguesas

Lauro Neto - O sangue no nariz de X. foi limpo rapidamente para "limpar a cena do crime", de acordo com o relato da carioca Maria Venâncio, mãe da vítima, que só soube do sangramento por intermédio de uma outra mãe brasileira, cujo filho presenciou o golpe desferido pela auxiliar. O motivo? A criança só tomou a sopa e não queria comer toda a refeição.

Segundo Maria, X. tem diagnóstico inconclusivo do espectro de autismo, uma das suas maiores dificuldades é a alimentação. O caso foi revelado pela "Coluna de Terça", que acompanhou a mãe até a Escola Básica Manuel Coco, em Odivelas, na Área Metropolitana de Lisboa (AML).

"Ele tem muita seletividade alimentar, o que é uma das características do autismo. A auxiliar tentou forçá-lo a comer, ele não aceitou, começou um desentendimento, meu filho perdeu o controle emocional, chutou a perna dela, e ela revidou com uma bofetada - palavra usada pela coordenadora - no rosto do meu filho. Isso foi na frente de todas as outras crianças", conta Maria.

No entanto, de acordo com ela, a coordenadora da escola omitiu o sangramento ao narrar o episódio e informar que a auxiliar seria transferida no dia seguinte para outra unidade escolar. Maria solicitou que fosse chamada a Escola Segura, uma equipe da Polícia de Segurança Pública (PSP) especializada nesse tipo de ocorrência.

"A escola não me comunicou que meu filho tinha sangrado. Quando o trouxeram, ele estava com rosto completamente limpo e já estava com mais um casaco por cima da roupa. Os policiais deram o caso meio que como encerrado, porque teríamos que ir à esquadra [delegacia]. Quando cheguei em casa, abrimos o casaco e vimos que o moletom dele tinha mancha de sangue na manga", narra.

Maria fotografou a mancha de sangue e enviou a foto por e-mail cobrando explicações da direção da escola e do agrupamento escolar sobre por que haviam escondido dela o sangramento. Como não houve respostas, voltou ao colégio dois dias depois com outra equipe da PSP.

Segundo a carioca, a coordenadora admitiu, em frente aos policiais, que só soube do sangramento no dia seguinte à agressão, pois não estaria na escola na hora do almoço, e outras auxiliares não haviam comunicado o episódio à direção por não verem necessidade.

Maria ressalta a gravidade da agressão pelo fato de seu filho estar abarcado pelo decreto-lei 54/2018, que dispõe sobre a educação inclusiva. A legislação prevê que "o programa educativo individual e o plano de saúde individual são complementares no caso de crianças com necessidades de saúde especiais, devendo ser garantida a necessária coerência, articulação e comunicação entre ambos".

"Para mim, está muito claro um corporativismo das auxiliares. Elas protegeram a colega, porque, no momento em que meu filho recebeu essa pancada e sangrou, a polícia tinha que ser acionada. Ela tinha que ser detida em flagrante por agressão a um menor de idade, abrangido pelas necessidades especiais. Muito pelo contrário, elas limparam a cena do crime e não reportaram à coordenação sobre o sangramento", lamenta.

Escola trata agressão como 'incidente'

Apesar da agressão, X. continua frequentando a escola, com acompanhamento psicológico. A psicóloga explicou a ele, de forma lúdica, que a agressora foi afastada e que ele está supostamente seguro no ambiente escolar. Maria registrou a ocorrência na PSP e acionou advogados para processar a escola.

Em uma nota genérica assinada por "a direção", sem mencionar o episódio de agressão, falando apenas em "incidente" no título, lê-se o seguinte:

"O AE [agrupamento de escolas] Moinho da Arroja desenvolve a sua atividade educativa na procura sucessiva das melhores condições de aprendizagem para a sua comunidade escolar e, com esforço adicional, no estreitar de relações e apelo à participação junto dos seus encarregados de educação", lê-se em um trecho da nota.

Mas a violência infantil não se restringe à Escola Básica Manuel Coco. Após a repercussão do caso, foi criada uma petição on-line, no último fim de semana, "Pelo fim da violência contra crianças nas escolas portuguesas". Até o fechamento desta reportagem, mais de 1.350 pessoas já haviam assinado o documento virtual, dirigido ao ministro da Educação e à Assembleia da República.

A petição solicita ao Ministério da Educação a elaboração de recomendações, normas e punições sumárias aos responsáveis pelas agressões e abusos, com o objetivo de promover uma rápida mudança de cultura em relação à violência contra qualquer criança nas instituições de ensino portuguesas.

"Requerem ainda que a investigação das queixas de violência contra crianças no ambiente escolar seja realizada por comissão externa à escola, que possa atuar de forma imparcial, incluindo representantes dos encarregados de educação e do corpo discente, considerando que é comum que os pais e alunos sejam descredibilizados quando denunciam situações de violência aos coordenadores ou diretores escolares", lê-se em um trecho da petição.

Da palmatória à alimentação forçada até vomitar

A também carioca Gabriela Morena, consultora em políticas públicas, está nesse grupo de mães silenciadas. Em 15 de dezembro, ela enviou uma carta à coordenação de uma escola no Porto onde estudam suas duas filhas, de quatro e sete anos, denunciando inúmeras situações de violência, como o castigo físico da palmatória. Não recebeu qualquer resposta mais de um mês e meio depois.

De acordo com o documento, as crianças relatam que tapas nas mãos seriam "punição" para alunos que se comportam mal nas aulas. "Estes casos têm o agravante de envolver outras crianças no processo de punição, ao solicitar que segurem as mãos dos amigos durante a aplicação do castigo", lê-se em trecho da carta.

Gabriela relata um tipo de violência similar ao que aconteceu com X., que é a alimentação forçada das crianças, provocando o vômito, em algumas ocasiões. Ela prefere preservar o nome da escola para não a expor e com o intuito de tentar resolver a situação de uma forma positiva.

"Nesse caso específico, a minha filha mais nova foi vítima direta. Obrigam a criança a comer mais rapidamente, dando a comida na boca e, por vezes, a criança vomita. É comum entre os menores. E também aconteceu com a minha. São muitas práticas violentas que mantêm as crianças em constante estado de medo e angústia. É aquele terror de antigamente com exposição da criança por mau comportamento", explica Gabriela.

De acordo com ela, a prática de violência não se restringe às crianças brasileiras, mas é naturalizada pelos pais de alunos portugueses. Segundo a consultora em políticas públicas, que trabalha há anos com a educação, a violência é um traço forte na sociedade portuguesa e se dá contra os vulneráveis: crianças, mulheres, minorias, imigrantes.

A professora de balé clássico Camile Salles está acostumada a cobrar disciplina de seus alunos, mas não da forma como é cobrada de seus filhos, de sete e dez anos, na Escola Básica Integrada Dr. Joaquim de Barros, em Paço D’Arcos, a 20 minutos de Lisboa. Mesmo antes da pandemia, ela e um grupo de outros 16 pais e mães de alunos denunciaram o comportamento abusivo por parte de uma professora.

Em uma carta enviada à direção da escola e do Agrupamento Escolar de Paço d’Arcos, eles listam uma série de agressões e violências psicológicas que a professora teria cometido contra as crianças: desde bater no braço com força e empurrar a puxar pela camisa, pela orelha até pelo pescoço.

"O que percebi é que ela agride mais os alunos brasileiros, sistematicamente. E outros dois portugueses: um é um menino negro, filho de uma auxiliar da escola. Ela gritava e humilhava demais esse menino. E outro é filho de uma mãe solo que era bastante agitado. Eles estavam vivendo um ambiente de terror total", conta Camile.

Pais e mães pedem afastamento de professora

A bailarina carioca revela que o período de pandemia foi um momento de alívio para ela e seu filho, pois, durante as aulas virtuais, a professora não podia gritar nem ser agressiva, já que as crianças usavam os computadores em frente aos pais. Camile chegou a participar, junto com outra mãe, de uma reunião com a coordenação e a direção da escola para pedir o afastamento da educadora.

No entanto, segundo ela, outras sete mães que estavam presentes no colégio não foram autorizadas a entrar na reunião, e os diretores teriam minimizado as denúncias, chamado as crianças de mimadas e dito que não se podia acreditar em tudo que elas falavam.

Camile, então, encaminhou uma carta assinada por 11 pais e mães, à Direção-Geral dos Estabelecimentos Escolares (DGestE) e Inspeção-Geral da Educação e Ciência (IGEC), em maio de 2021, mas nunca recebeu respostas.

"Tenho certeza absoluta de que eles têm essa coisa de acobertar. Fizemos uma reunião virtual, e muitas mães reclamaram que seus filhos estavam em pânico. Houve relatos de que a professora pegou uma menina pelo capuz do casaco, quase enforcando, e a levou pelo pescoço até o quadro para escrever. Ela não sabia [resolver a questão] e começou a chorar. [Teve] uma outra menina nova, brasileira, que [ela] puxou a orelha. A mãe transferiu a menina da escola. Eu também queria transferir meu filho, mas ele não quis se afastar dos amigos", detalha.

Camile diz ainda que descobriu outras situações em que a professora, como forma de castigo, colocou uma aluna para assistir à aula sentada no chão, e outras duas, assistindo em pé, além de jogar as provas no chão. Ela conta que chegou a pensar em voltar para o Brasil por conta disso.

A Sputnik Brasil pediu posicionamentos aos secretários de Estado de Educação, João Costa e Inês Pacheco Ramires Ferreira, e à assessoria do Ministério da Educação, mas nenhum deles respondeu até o fechamento desta reportagem.

Fizemos também questionamentos à Escola Básica Dr. Joaquim de Barros e ao colégio no Porto onde estudam as filhas de Gabriela. No entanto, diretores e coordenadores das escolas e respectivos agrupamentos escolares não responderam.

Jornal do Brasil

Uma democracia de poucos




Por Roberto Brant (foto)

Volto a um tema presente em muitos dos meus artigos, mas cuja discussão é cada vez mais urgente: a qualidade da nossa vida democrática. O Brasil é um enigma difícil de ser decifrado. Temos os recursos e as condições para ser uma das nações mais ricas do mundo.

Temos uma grande agricultura, toda a energia de que precisamos – água em abundância, energia, petróleo e minerais, tudo o que é escasso em quase toda a parte. Mas permanecemos um país pobre que cresce menos que a maioria das nações. Uma das causas só pode ser a impotência do Estado devido à má qualidade da nossa vida democrática.

Nossa população deveria estar sempre indignada e numa busca incessante por algo realmente novo para transformar o país. Mas se as pesquisas de intenção de voto para as próximas eleições estiverem corretas, parece que os brasileiros estão em sua grande maioria dispostos, sem muita reflexão, a voltar ao passado, tal o horror que sentem do presente.

O sentimento dominante tornou-se a procura do mal menor, um dos disfarces preferidos do conformismo e da apatia social.

A impressão é que as novas gerações de brasileiros são gerações sem esperança. É a explicação que me ocorre para a passividade e até para o cinismo político das nossas maiorias eleitorais. Creio que o pensamento dominante está contido numa passagem de Shakespeare: o que ficou irremediável, se tornou indiferente.

Há alguma razão para isso, pois nosso sistema político é um ambiente à parte da vida do país. O debate político não contém praticamente nada de interesse público como políticas de crescimento e de proteção social, por exemplo, tudo que diz respeito à vida das pessoas numa sociedade tão privada de tudo e tão dependente do Estado.

Nada disso separa os partidos que, na verdade, não têm ideologia, nem ideias, nem posições. Seu único propósito é participar dos condomínios do poder e o fazem sem nenhum pudor e com grande competência.

A conclusão é que a classe política na sua maioria, pois há exceções à regra nos dois lados do espectro político, embora bastante minoritárias, apropriou-se do Estado, seus recursos e seus instrumentos, apenas em benefício próprio, passando ao largo do interesse comum.

Em alguma medida isto sempre ocorreu, mas numa escala infinitamente menor. Hoje, a dominação do Estado pela corte política assumiu proporções sem precedentes, mesmo para a história de nossa velha cultura patrimonialista.

Deputados e senadores sempre tiveram um pequeno limite no orçamento para beneficiar as suas bases. Agora, além destes recursos, o Parlamento criou uma rubrica de grande valor para ser distribuída aos parlamentares de forma secreta, como se fossem recursos privados.

A soma das emendas, secretas e públicas, em 2022, está próxima de 40 bilhões de reais, enquanto o total dos investimentos públicos não chega a 45 bilhões. De um lado o país, com seus 200 milhões de habitantes, de outro, nossos 500 parlamentares, em pé de igualdade no orçamento da República. Não é mais uma República.

Como é sabido, o apoio parlamentar ao governo tem como contrapartida a indicação, por deputados e senadores, de nomes para preencher os melhores cargos da administração federal. Por que pessoas eleitas para fazer as leis tem interesse nestas nomeações? É uma pergunta que fica no ar.

Nesta semana, o Ministro da Economia solicitou à Controladoria Geral da União a criação de um sistema que revele os nomes dos “padrinhos” de cada indicação, para conhecimento de todos. A Controladoria não respondeu e as lideranças políticas se indignaram com a ingenuidade ou a falta de tato do Ministro. Quem prefere as sombras para agir, certamente tem motivos muito fortes.

São apenas dois exemplos. Há muitos outros, sempre a demonstrar que a democracia brasileira tem donos e estes donos são poucos. Que a devolução do Estado à população não esteja na pauta de nenhum dos candidatos é um sinal de que muito pouca coisa vai mudar nas eleições de outubro.

Jornal Metrópoles

Centro da Terra está esfriando mais rápido: quais podem ser as consequências?




O interior do planeta Terra tem um núcleo que permaneceu quente por mais de 4,5 bilhões de anos, mas que lenta e inevitavelmente está esfriando.

O núcleo da Terra é chave para a vida. Se um dia ele se apagar, o planeta se converterá numa gigantesca rocha fria e inerte. Agora uma pesquisa recente calculou que esse esfriamento está ocorrendo mais rápido do que se pensava.

Esse esfriamento ocorre em escalas de milhares de milhões de anos, portanto, por mais rápido que ocorra, nenhum de nós estará vivo para ver como seria essa morte fria do planeta.

Os especialistas, no entanto, concordam que investigar esses processos naturais é chave para compreender melhor a evolução da Terra e os fenômenos que afetam a vida no planeta.

Mas em que consiste esse esfriamento e como descobriram que ele está ocorrendo mais rapidamente do que se pensava?

O interior da Terra

O núcleo da Terra fica a quase 3.000 km de profundidade da crosta terrestre, com um raio de 3.500 km. As temperaturas do núcleo podem flutuar entre 4.400° C e 6.000° C, temperaturas simulares às do Sol.

O núcleo interno é uma esfera sólida, composta majoritariamente de ferro. O núcleo externo é formado por um líquido maleável, composto de ferro e níquel. É no núcleo externo que se forma o campo magnético da Terra, que protege o planeta dos perigosos ventos solares. A colossal quantidade de energia térmica que emana do interior do planeta coloca em marcha fenômenos como as placas tectônicas e a atividade vulcânica.

Além disso, nas fronteiras do núcleo ocorre um processo que foi crucial para o novo estudo: a convecção do manto terrestre, que se refere à transferência de calor do núcleo até o manto.

A fronteira do núcleo

Os cientistas não sabem exatamente quanto tempo levará para a Terra esfriar até o ponto em que os fenômenos naturais que impulsionam o núcleo parem de ocorrer ou que o campo magnético desapareça, por exemplo.

Uma equipe do Instituto Federal Suíço de Tecnologia de Zurique (ETH) e da Carnegie Institution for Science, nos Estados Unidos, acredita que a chave para desvendar esse mistério está nos minerais que transportam calor do núcleo para o manto.

Esta região fronteiriça é constituída principalmente por um mineral chamado bridgmanita, que tem uma estrutura cristalina e só pode existir sob grande pressão, a partir de cerca de 700 km de profundidade.

Não existe tecnologia para escavar e estudar minerais nessa profundidade, então o professor da ETH Motohiko Murakami projetou um experimento para simular essas condições em laboratório.

Pressão e temperatura

Murakami e seus colegas desenvolveram um método para medir a quantidade de calor que a bridgmanita pode conduzir. O que eles fizeram foi fabricar um diamante bridgmanita a partir dos elementos que compõem esse mineral.

Eles então inseriram o cristal em um dispositivo que simula a pressão e a temperatura que prevalecem no interior da Terra. Dentro do dispositivo, eles dispararam pulsos de feixes de laser que irradiaram e aqueceram o mineral, em um processo conhecido como “medição de absorção óptica”.

Dessa forma, eles puderam ver como o mineral reagia em diferentes pressões e temperaturas. “Esse sistema de medição nos permitiu mostrar que a condutividade térmica da bridgmanita é cerca de 1,5 vezes maior do que se supunha anteriormente”, diz Murakami em comunicado.

Segundo o pesquisador, isso indica que o fluxo de calor do núcleo para o manto também é maior do que se pensava anteriormente.

O resultado do experimento sugere que quanto mais rápido o calor é transferido do núcleo para o manto, mais rápido o calor é perdido do núcleo, o que acelera o resfriamento da Terra.

Alem disso, os autores acreditam que esse esfriamento mudaria a composição dos minerais do manto.

Quando a bridgmanita esfria, ela se transforma em outro mineral chamado pós-perovskita.

A pós-perovskita conduz o calor com muito mais eficiência do que a bridgmanita, então, à medida que a bridgmanita no limite do manto se converte em pós-perovskita, a Terra esfria ainda mais rapidamente, dizem os pesquisadores.

Destinados a morrer?

Esse resfriamento mais rápido pode ter várias consequências, observam os autores do estudo. Por um lado, pode fazer com que as placas tectônicas, que são mantidas em movimento pelo fluxo do manto, desacelerem mais rápido do que o esperado.

“Nossos resultados podem nos dar uma nova perspectiva sobre a evolução da dinâmica da Terra”, explica Murakami.

Murakami, no entanto, adverte que, neste momento, eles não podem estimar quanto tempo levará para esse resfriamento interromper a atividade no manto.

Para isso, eles precisam entender melhor a dinâmica do manto e as reações dos elementos que o compõem.

“Este estudo oferece uma nova visão do principal processo geológico que afeta planetas rochosos (como a Terra): a velocidade com que eles esfriam”, disse à BBC News Mundo, serviço em espanhol da BBC, Paul Byrne, professor de Ciências Planetárias e da Terra da Washington University em Saint Louis, Estados Unidos, que não esteve envolvido na pesquisa.

“Marte, Mercúrio e a Lua esfriaram tanto nos últimos 4,5 bilhões de anos que, geologicamente falando, são essencialmente inertes.”

Portanto, diferentemente da Terra, Marte, Mercúrio e a Lua não possuem placas tectônicas, explica o especialista. “É esse o destino que aguarda nosso mundo?” Byrne se pergunta.

BBC Brasil

A OAB e a crise das liberdades democráticas - Editorial




Beto Simonetti deixa uma primeira impressão muito ruim ao defender o sacrifício de garantias democráticas como a liberdade de expressão e endossar o abuso e o arbítrio apenas porque dirigidos àqueles de quem se discorda. Editorial da Gazeta do Povo:

O grupo político de Felipe Santa Cruz continuará dando as cartas na Ordem dos Advogados do Brasil, com a eleição de José Alberto Simonetti para a presidência do Conselho Federal da OAB. A eleição é indireta – votam apenas 81 conselheiros – e Beto Simonetti, como é conhecido, teve o apoio de 26 das 27 seccionais estaduais da entidade. Sai de cena a desavença pessoal entre Santa Cruz – cujo pai desapareceu durante a ditadura militar – e o presidente Jair Bolsonaro, mas algumas posturas políticas bastante deletérias permanecem, a julgar pelas declarações do novo presidente em entrevista à revista Veja.

Simonetti, por exemplo, aderiu às narrativas enviesadas sobre a Operação Lava Jato, chegando a dizer que “graças a Deus a Lava Jato foi desmobilizada” e afirmando que ela contribuiu para a quebra de empresas e o consequente aumento do desemprego, culpando o combate à corrupção por algo que foi causado não pela Lava Jato, mas pelo próprio esquema ao qual grandes empreiteiras aderiram para conquistar contratos e ajudar a pilhar empresas estatais. A Lava Jato nada mais fez que colocar às claras a roubalheira e aplicar a lei – que, no caso brasileiro, também responsabiliza as pessoas jurídicas pelos atos de sua cúpula. Pode-se até discutir se as regras implantadas pela Lei Anticorrupção (sancionada, aliás, por Dilma Rousseff) são as mais adequadas ou não, mas é inegável que o erro e a culpa pelas consequências dos crimes descobertos são dos corruptos e dos corruptores, não dos agentes públicos que combatem a ladroagem de colarinho branco. O novo presidente da OAB nacional também foi bastante esquivo ao falar das absurdas decisões do STF que livraram o ex-presidente Lula. “Se o Supremo identificou que ali havia nulidades, acertou se anulou provas inválidas”, disse, ignorando que o STF não “anulou provas”, e sim tirou da cartola uma suspeição sem o menor fundamento jurídico e reverteu todo o seu entendimento anterior sobre a competência para julgar Lula, permitindo que o petista saísse impune.

Talvez mais preocupantes ainda sejam suas declarações em defesa do inquérito das fake news, que está prestes a completar três anos de puro abuso nas mãos do relator Alexandre de Moraes. É verdade que fake news são “repugnantes” e “um câncer da democracia”, mas, ao afirmar que “o Supremo tem obrigação de manter o equilíbrio da democracia e tem como princípio de sua fundação o controle da manutenção do Estado Democrático de Direito”, Simonetti deixa subentendido que tudo isso está sendo cumprido por meio do inquérito das fake news. Ora, no Estado de Direito um mesmo ente não acumula as funções de vítima, investigador e juiz; no Estado de Direito respeita-se o princípio do juiz natural e inquéritos são abertos para apurar fatos concretos, e não agrupamentos genéricos de situações; no Estado de Direito não existe censura contra publicações de imprensa, nem crimes de opinião, nem se viola a imunidade parlamentar. Mas o inquérito das fake news fez tudo isso e mais ainda, ao longo destes três anos. Defendê-lo é defender tudo o que jamais seria aceito em um Estado de Direito.

Como se não bastasse, Simonetti ainda endossou – mesmo que de forma não totalmente explícita, mas nas entrelinhas – a possibilidade de censura do aplicativo Telegram caso ele não se curve às exigências do TSE e suas equivocadas definições de fake news. “Em princípio, falando não só do Telegram ou de qualquer outro aplicativo, deve assumir a culpa quem propaga as fake news”, disse o novo presidente da OAB nacional, borrando completamente as distinções entre as pessoas concretas que espalham mentiras e os meios tecnológicos usados para tal, e deixando a porta aberta para sanções completamente desproporcionais que colocariam o Brasil na companhia de regimes ditatoriais, como já lembramos neste espaço.

A OAB construiu sua história e ganhou o respeito e admiração dos brasileiros graças a décadas de atuação sólida no cenário nacional em defesa não deste ou daquele ator político, mas das liberdades democráticas e da lisura no trato da coisa pública, independentemente do governo de turno. Mas, recentemente, a OAB deixou em segundo plano esta atuação “política” no melhor sentido da palavra para se dedicar à política mais rasteira, a das picuinhas, queimando a credibilidade conquistada com o suor de tantos grandes juristas. O novo presidente do Conselho Federal deixa uma primeira impressão muito ruim ao defender o sacrifício de garantias democráticas como a liberdade de expressão e endossar o abuso e o arbítrio apenas porque dirigidos àqueles de quem se discorda. No momento pelo qual passa o país, é urgente que uma entidade com força moral assuma o protagonismo e seja defensora firme das liberdades democráticas para todos os brasileiros, sem exceção. A OAB pode assumir esse papel, mas para isso precisará recuperar aquele espírito que a animou em momentos-chave da história nacional.

Gazeta do Povo (PR)

Judiciário rechaça ameaça às eleições - Editorial

 



Perante as ameaças de Bolsonaro contra as eleições, os presidentes do STF (esq.) e do TSE (dir.) reafirmaram a disposição de defender a Constituição e o regime democrático

Ano eleitoral é sempre diferente, tendo características próprias. No entanto, 2022 não é apenas peculiar. É de fato um ano único. É a primeira vez, desde a redemocratização do País, que o ano eleitoral já começa sob o signo da ameaça e da contestação às eleições. O ineditismo da situação atual ficou especialmente visível na abertura do Ano Judiciário de 2022. Nas respectivas cerimônias do dia 1.º de fevereiro, o presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Luiz Fux, e o presidente do Tribunal

Superior Eleitoral (TSE), ministro Luís Roberto Barroso, reafirmaram a disposição de defender, sem concessões, a Constituição e o Estado Democrático de Direito.

O presidente do STF começou seu pronunciamento dizendo estar “imbuído de profundo senso de cautela”. A atitude é sintomática dos tempos atuais. O ano de 2022 exige estar em alerta. Não é medo, tampouco pessimismo: é apenas a reação natural – e responsável – perante as ameaças contra o sistema eleitoral proferidas pelo presidente Jair Bolsonaro e seus camisas pardas. Há sérios motivos para que, neste ano, sociedade e Judiciário estejam em alerta.

O ministro Luiz Fux assegurou que, em 2022, a pauta de julgamentos da Corte “continuará dedicada às agendas da estabilidade democrática e da preservação das instituições políticas do País”. Além de ser o primeiro tema mencionado entre os numerosíssimos assuntos que estão no Supremo, chama a atenção que, depois de três décadas da Constituição, seja necessário falar, como prioridade nacional, em “estabilidade democrática” e em “preservação das instituições políticas”. Há sintoma mais evidente de que os tempos atuais são realmente muito esquisitos?

O País deveria estar construindo soluções para melhorar as condições de vida e para avançar no desenvolvimento social e econômico da população. Mas não. Com seus ataques e ameaças às instituições, o bolsonarismo traz à tona a mais cabal agenda do retrocesso. Em pleno 2022, o STF é instado a cuidar da “estabilidade democrática”.

O retrocesso bolsonarista atinge também outras áreas. Não basta ao Supremo recordar os princípios básicos do Estado Democrático de Direito, que são evidentes e deveriam ser rigorosamente inegociáveis. A atual linha de batalha é ainda mais recuada. Em seu discurso, o ministro Luiz Fux defendeu o uso das “bússolas da razão e da ciência”. Eis o resultado da degradação intelectual e cívica provocada pelo bolsonarismo. Agora, o STF tem de homenagear e fazer valer os princípios da epistemologia e da lógica, uma vez que Jair Bolsonaro e seus seguidores cultivam a ignorância e praticam o negacionismo na vida pública.

Por sua vez, na cerimônia de abertura do Ano Judiciário no TSE, o ministro Luís Roberto Barroso defendeu a democracia, o sistema eletrônico de votação e o jornalismo. “No mundo da pós-verdade, dos fatos alternativos, nunca foi tão importante o trabalho da imprensa”, disse.

Ao mencionar as várias tentativas de desqualificar o processo eleitoral brasileiro, o presidente do TSE lembrou a absurda situação ocorrida no ano passado, quando o próprio presidente Bolsonaro divulgou em suas redes sociais informações sigilosas de uma investigação. Segundo Luís Roberto Barroso, eram “dados que auxiliam milícias digitais e hackers de todo o mundo que queiram invadir nossos equipamentos”.

A conclusão faz-se óbvia. O ano de 2022 exige alerta máximo. O atual inquilino do Palácio do Planalto não apenas deu repetidos sinais de desapreço pela democracia e pela lei, como já afirmou que, dependendo do resultado das eleições de outubro, poderá não aceitá-lo, tal como fez Donald Trump nos Estados Unidos. A ameaça de Jair Bolsonaro foi suficientemente clara.

Hoje, a rigor, não existe conflito entre Poderes, como se o STF também estivesse provocando tensões ou atritos. O que se tem é Jair Bolsonaro na Presidência da República, atuando como sempre atuou, desde os tempos de mau militar. É a recalcitrância nesse histórico, tão pouco exemplar, que suscita cuidado e vigilância, como bem entendeu o Judiciário. Felizmente.

O Estado de São Paulo

Vão chamar o Meirelles novamente?




Bem-sucedido, ex-presidente do Banco Central sempre foi subestimado

Por Cristiano Romero* (foto)

Quando o jornalista Chico Mendez criou o bordão “Chama o Meirelles”, o maior achado de marketing político da eleição presidencial de 2018, o ex-presidente do Banco Central (BC) e ex-ministro da Fazenda já havia sido “chamado” pelo menos três vezes por governantes para socorrê-los. Goiano de Luziânia, cidade a menos de 50 Km de Brasília, engenheiro formado pela Poli, a prestigiosa Escola Politécnica da USP, Henrique Meirelles é, ao mesmo tempo, o homem público mais subestimado da história do país e um dos mais bem-sucedidos.

Em novembro de 2002, quando ainda beliscava o braço para ter certeza de que vencera mesmo a eleição para Presidente depois de chegar em segundo lugar nos três pleitos anteriores, Luiz Inácio Lula da Silva foi logo pressionado pelo coordenador do programa de governo de sua campanha e futuro ministro da Fazenda, Antonio Palocci, a iniciar as consultas para a escolha do presidente do Banco Central.

Como se sabe, durante a campanha, Lula fez acenos ao mercado, na tentativa de acalmar investidores quanto a seu governo.

Uma mistificação persiste em relação àquela eleição - a de que Lula, com a “Carta aos Brasileiros”, divulgada em junho de 2002, teria apaziguado os ânimos dos agentes econômicos, apavorados pelo receituário anacrônico defendido por petistas desde a fundação do partido, em 1980.

A carta não fez cócegas na convicção dos participantes do mercado. Mas não era para fazer mesmo porque os destinatários não eram eles, mas, sim, os correligionários do candidato do PT.

Fundador e líder da legenda desde sempre, Lula sabia que, se há algo que militantes de partidos e eleitores não toleram, inclusive aqui no Brasil, onde se afirma que o sistema político é caótico, é estelionato eleitoral. Na carta, o petista avisou ao seu pessoal algo como “treino é treino, jogo é jogo”, frase cunhada por Waldir Pereira, o Didi, um dos maiores craques da história do futebol.

“Quando você senta na cadeira de Presidente da República, não pode mais ser principista [fortemente ou radicalmente ligado a princípios]”, disse Lula certa vez, quando foi questionado se ainda era um político de esquerda. Ele também teve consciência que a sua liderança nas pesquisas de intenção foi responsável por massiva fuga de capitais do país, fato que provocou a maior desvalorização do real frente ao dólar da história da moeda brasileira até então e, consequentemente, a aceleração da inflação e o agravamento da situação fiscal.

Na época, o ex-governador do Distrito Federal Cristovam Buarque recomendou a Lula que mantivesse Pedro Malan na Fazenda e Armínio Fraga no BC por cem dias. E prenunciou que, na economia, PT e PSDB não diferiam muito, ao contrário dos temas sociais. O que Cristovam, esquerdista moderado desde sempre, não revelou a ninguém é que, se tivessem permanecido, os dois, principalmente Armínio, uma vez que Malan acionara Lula na Justiça por difamação, ficariam além dos cem dias.

A razão para a presunção era uma só: o futuro ministro da Educação conhecia bem o pragmatismo de Lula. Zé Dirceu, porém, coordenador da campanha petista e número 2 na hierarquia do primeiro mandato do petista em Brasília, vetou peremptoriamente essa possibilidade.

Já convertido, principalmente por Arminio Fraga, ao arcabouço econômico que vigia no país desde meados de 1999, o trotskista Palocci tinha pressa porque a economia continuava derretendo feito congelador durante blecaute no verão carioca.

Consultou economistas como Pedro Bodin e José Júlio Senna para assumir o comando do BC. Bodin disse “não” e Senna, um dos economistas mais competentes, educados e elegantes do país, diante da hesitação do petista em lhe enviar passagens de ida e volta do Rio para Brasília para uma conversa séria, achou melhor não levar a prosa adiante.

E, aí, chamaram o Meirelles. Tratava-se da crônica do fracasso anunciado. O convidado reunia as “piores” condições para comandar o BC num governo petista. Era filiado ao PSDB (elegeu-se naquele pleito deputado federal), o arquirrival do PT desde a eleição de 1994 e “banqueiro”. Pior: de um banco americano (o BankBoston, do qual Meirelles foi o presidente internacional). Eram muitos desaforos reunidos numa pessoa só.

O partido que barrou Arminio aceitou um tucano. A verdade, dura, é que os petistas, com exceção do agora não principista Lula, infernizaram a vida de Henrique Meirelles durante os oito anos, um recorde, em que permaneceu no cargo. Mais do que isso: o ex-tucano foi o presidente do BC de maior sucesso da história do país.

João Doria não precisou chamar Meirelles porque ele não tinha propriamente um incêndio para apagar. Mas, ao convidá-lo, deu a seu secretariado um peso de ministério. Porque, com Meirelles, tudo dá certo. No gráfico, uma das provas disso.

*Cristiano Romero é diretor-adjunto de redação 

Valor Econômico

Estados Unidos testam cães robôs para ajudar a monitorar fronteiras

 



Cão robô durante testes do Departamento de Segurança Interna dos Estados Unidos

Produto desenvolvido pela Ghost Robotics foi colocado à prova na divisa entre EUA e México.

O Departamento de Segurança Interna dos Estados Unidos revelou na última terça-feira (1º) detalhes sobre um teste de cães robôs para o patrulhamento fronteiras do país com o México.

As máquinas estão sendo avaliadas em funções focadas em vigilância. O Departamento não deu nenhuma previsão para a implementação dos robôs, mas disse que os testes até aqui foram "bem sucedidos" e que o trabalho com eles vai continuar.

O produto, desenvolvido pela Ghost Robotics, é equipado com diversas câmeras e sensores capazes de transmitir vídeo e outros dados em tempo real para operadores humanos. Ele também tem um modo autônomo capaz de seguir instruções via GPS.

O Departamento destacou a possibilidade de personalizar o equipamento com câmeras de visão noturna e zoom ou sensores químicos, biológicos e nucleares.

'Cão robô pode ser personalizado com diferentes câmeras e sensores'

"A fronteira sul pode ser um lugar inóspito para o homem e para animais, e é exatamente por isso que uma máquina pode se sobressair lá", disse a gerente do programa de Ciência e Tecnologia do Departamento de Segurança Interna dos EUA, Brenda Long.

O robô pesa 45 kg e é capaz de "atravessar todos os tipos de terreno natural, incluindo areia, rochas e colinas, bem como ambientes construídos pelo homem, como escadas", segundo Gavin Kenneally, diretor de produtos da Ghost Robotics.

Outras iniciativas similares esbarraram em obstáculos como a autonomia dos robôs – o órgão americano disse que coletou dados sobre a bateria do produto e disse que está trabalhando com a fabricante para aprimorá-la, mas não revelou os resultados.

A Ghost Robotics é a mesma empresa que desenvolveu um cão robô armado com rifle para fins militares.

Nas imagens mostradas pelo órgão americano, as máquinas testadas para o patrulhamento não têm armas.

Uma concorrente da Ghost, a Boston Dynamics, é contra o uso de armas pelos robôs.

Nos termos de condição de venda de seus produtos, a empresa diz que eles "não podem ser usados ​​para ferir ou intimidar pessoas ou animais, ou ser usados ​​como uma arma ou configurados para segure uma arma".

G1

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