sexta-feira, fevereiro 04, 2022

OMS: pandemia de covid-19 pode estar em fase final na Europa

 




Diretor da OMS, Hans Kluge, vislumbra cenário melhor, mas deixa claro que a pandemia ainda não terminou

Apesar de advertir que o problema ainda não acabou, diretor da entidade acredita que vacinação, menor agressividade da ômicron e fim do inverno podem proporcionar período mais brando no continente desde março de 2020.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) divulgou nesta quinta-feira (03/02) que a Europa pode, em breve, entrar no período mais brando da pandemia de covid-19 desde seu início, em março de 2020.

O diretor regional da entidade para a Europa, Hans Kluge, classificou o período futuro como "um cessar-fogo que poderia nos trazer paz", acrescentando que o atual contexto "abre possibilidade para um longo período de tranquilidade".

Esse contexto se deveria a três fatores: o alto índice de vacinação contra o novo coronavírus e de recuperados de infecções no continente; os efeitos mais amenos da variante ômicron; e o fim do inverno, marcado oficialmente para 20 de março. Em geral, os vírus provocam menos infecções durante os meses de temperatura mais amena.

Segundo Kluge, isso colocaria a Europa em uma posição privilegiada, mesmo se outras variantes do coronavírus surgirem nos próximos meses. Ele acredita que "é possível responder a novas variantes, que inevitavelmente surgirão, sem aplicar as medidas desgastantes que antes eram necessárias".

Necessário seguir atento

O chefe da OMS também classificou o atual período como uma "plausível fase final da pandemia", quase dois anos após seu início. O principal indicador seria o menor número de óbitos relacionados, em comparação a 2020 e 2021.

Ele alertou, no entanto, que as autoridades europeias devem seguir atentas, provendo imunização por meio de doses de reforço e investindo em seus sistemas de saúde. E insistiu que as vacinas devem ser distribuídas não só em todo o continente europeu, mas também no resto do mundo.

Nesse sentido, cientistas têm alertado seguidamente que somente com a maioria da população mundial vacinada será possível prevenir um maior número de casos graves e de mortes devido à doença.

Somente na última semana, foram registrados na Europa 12 milhões de novos casos de coronavírus – a maior taxa desde o começo da pandemia –, lembrou Kluge. Mas argumentou que, apesar do alto índice de contágios, principalmente pela variante ômicron, o número de internações em UTIs  não aumentou significativamente.

'Término do inverno, em fins de março, é um dos motivos apontados pela OMS para melhora da situação da pandemia na Europa'

Países já começam a relaxar medidas

Apesar dos milhões de casos recentemente registrados, o menor índice de hospitalizações de pacientes em estado grave, em comparação a outros períodos, levou alguns países a decidirem pelo relaxamento das medidas restritivas anti-covid.

França, Irlanda e Reino Unido, por exemplo, anunciaram que vão diminuir as restrições mesmo com o aumento de infecções. O caso mais emblemático é o da Dinamarca, cuja a primeira-ministra, Mette Frederiksen, declarou um "'adeus' às restrições e 'olá' à vida que conhecíamos antes do coronavírus".

Desde a terça-feira, o uso de máscaras deixou de ser obrigatório e não é mais preciso apresentar comprovante de vacinação, nem fazer testes. Não há mais limitação de público em grandes eventos. Nos estádios de futebol, todos os assentos podem ser ocupados, e discotecas e bares também voltaram a funcionar.

A Noruega também relaxou algumas medidas, mas manteve o uso obrigatório de máscaras médicas em lugares fechados.

Mas a pandemia ainda não terminou

Ao fim do pronunciamento, Hans Kluge deixou claro que o fato de a Europa estar possivelmente prestes a entrar numa fase mais branda da pandemia não significa que o problema acabou, mas sim que "há uma oportunidade única de controlar as transmissões".

Ele reforçou que um cenário mais otimista só poderá ser confirmado se os países seguirem firmes nas campanhas de vacinação e intensificarem a vigilância para detectar novas variantes. Além disso, segundo o diretor regional da OMS, é preciso as autoridades sanitárias continuarem protegendo grupos de risco e promovendo a responsabilidade social e individual, com políticas de distanciamento e uso de máscaras.

O diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, por outro lado, advertiu que o mundo ainda pode estar longe do fim da pandemia: "Estamos preocupados com essa narrativa de que, devido às vacinas e à ômicron, não é mais necessário tomar medidas preventivas. Isso está longe de ser verdade."

Por fim, a OMS reforçou que mesmo os países que têm alta taxa de vacinação não devem sucumbir à pressão política e se livrar imediatamente de todas as medidas restritivas para contenção do coronavírus.

Deutsche Welle

Acidente no metrô paulista não feriu ninguém, exceto a candidatura de Doria

 



 
Por Luiz Carlos Azedo (foto)

O PSDB anunciou entendimentos com o MDB para formar uma federação que envolveria ainda o Cidadania, na linha de articulação de um bloco político capaz de pôr de pé a chamada terceira via

A estrada que liga São Paulo ao Palácio do Planalto é tortuosa e cheia de obstáculos. Para o governador tucano João Doria, os problemas começaram na Marginal Tietê, onde um acidente supostamente provocado pelo “tatuzão” das obras do metrô abriu uma enorme cratera, ao romper uma galeria de esgoto ao lado do poço de ventilação construído entre as futuras estações de Santa Marina e Freguesia do Ó.

Não houve feridos, mas as obras foram interrompidas, o esgoto invadiu o túnel do metrô, o equipamento de escavação foi seriamente danificado e a marginal acabou bloqueada, no sentido Ayrton Sena. Segundo o secretário dos Transportes Metropolitanos, Paulo José Galli, a galeria de esgoto que passava 3 metros acima do “tatuzão” se rompeu e a pista desmoronou, por volta das 9h de ontem. O presidente Jair Bolsonaro, que na véspera havia visitado Franco da Rocha, ironizou a situação: “Semana que vem a gente conclui a transposição do São Francisco. Em São Paulo, eu vi a transposição do Tietê”, afirmou à saída do Palácio do Alvorada, ontem.

O acidente é tudo o que Doria não precisava num momento delicado de sua pré-candidatura. O governador tucano está sendo pressionado pelos correligionários a deixar o Palácio Bandeirantes mais cedo e andar pelo país, mas não haveria momento pior do que esse para se desincompatibilizar do cargo.

Nas últimas 24 horas, a variante ômicron registrou 17 mil casos e 209 mortes em São Paulo. Vencer a nova onda, vacinando as crianças paulistas, continua sendo um grande ativo eleitoral para Doria, mas isso ainda está distante.

A nova onda de covid-19 é uma externalidade negativa. O acidente do Metrô, não — esse é um problema de sua administração. Deixar o cargo com as obras interrompidas, em vez de inaugurar duas novas estações do metrô num dos bairros mais icônicos de São Paulo, não rende um bom card de campanha, mas “memes” negativos nas redes sociais.

Como sempre faz, Doria não fugiu do assunto. Em entrevista, anunciou que a empresa responsável pela obra, a Acciona, terá que arcar com os prejuízos e reiniciar os trabalhos de construção das novas estações o mais rápido possível

Federações

Antes que o acidente contaminasse o noticiário político sobre a candidatura de Doria, a cúpula do PSDB criou um fato novo para compensar o desgaste momentâneo da não aprovação do indicativo de federação pela Executiva do Cidadania, na terça-feira. Bruno Araujo, presidente do partido, anunciou entendimentos com o MDB para formar uma federação que envolveria os três legendas, na linha de articulação de um bloco partidário capaz de pôr de pé a chamada terceira via.

Não é uma tarefa fácil, porque o acordo envolveria mais dois pré-candidatos à Presidência, Alessando Vieira (Cidadania) e Simone Tebet (MDB), e administrar um complexo xadrez eleitoral nos estados. O problema da precedência dos governadores que correrão à reeleição e dos senadores que pretendem disputar governos estaduais está instalado em muitos estados, além da delicada engenharia de formação de chapas proporcionais, nas quais os candidatos de ambos os partidos possam ser competitivos.

Nos três partidos, há resistências regionais robustas, que precisariam ser vencidas com muita negociação para evitar rupturas. A ênfase de Doria na articulação de uma grande coalizão política de centro, por meio da formação de federações, é uma resposta também às tentativas de “cristianização” de sua candidatura.

O deputado Aécio Neves (PSDB-MG) não esconde de ninguém o desejo de que Doria desista de concorrer à Presidência. Alega que o pré-candidato tucano não emplacou, devido aos persistentes 2% nas pesquisas de intenção de voto. Líderes tucanos como os senadores Tasso Jereissati (CE) e José Aníbal (SP), apoiam a candidatura de Simone Tebet. Uma ala do MDB deseja embarcar na candidatura do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A formação da federação com o MDB, anunciada por Bruno, por hora, é um bom factoide eleitoral. Se vingar, porém, será uma proeza política.

Congresso

O Congresso retomou os trabalhos, ontem, em solenidade que contou a participação de Bolsonaro e do presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Luiz Fux. Em sua mensagem na reabertura do ano legislativo, o presidente pediu que os parlamentares aprovem a reforma tributária. “Diversos projetos legislativos merecem atenção e análise do Congresso Nacional, neste ano de 2022, para a consecução dos programas e das políticas públicas em curso. Aqui, destacamos o da Portabilidade da Conta de Luz, o do Novo Marco Legal das Garantias e o da Reforma Tributária”, disse.

Presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (PSD-MG) defendeu a ciência e as vacinas e classificou como “um desafio” a defesa da democracia no ano eleitoral de 2022.

Correio Braziliense

Rússia envia 30 mil soldados e armas para a Bielorrússia, diz Otan




É o maior destacamento para a região desde o fim da Guerra Fria

Por Sabine Siebold  

Londres - A Rússia transportou cerca de 30 mil soldados e armas modernas para a Bielorrússia nos últimos dias, o maior destacamento militar de Moscou para o país desde o fim da Guerra Fria, disse o secretário-geral da aliança militar ocidental Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), Jens Stoltenberg, nesta quinta-feira (3).

O deslocamento incluiu forças de operações especiais Speznaz, caças SU-35, mísseis Iskander de dupla capacidade e sistemas de defesa aérea S-400.

"Tudo isso será combinado com o exercício anual das forças nucleares russas", afirmou o secretário. O termo capacidade dupla, que Stoltenberg usou para os mísseis Iskander, é usado para descrever armas destinadas à guerra convencional e nuclear.

Tensões na Europa

O destacamento de tropas adicionais dos Estados Unidos no Leste Europeu está aumentando as tensões na região, disse hoje (3) o Kremlin, depois de Washington ter informado que enviará 3 mil soldados extras para a Polônia e a Romênia.

A Rússia acumulou milhares de soldados perto da fronteira com a Ucrânia, exigindo que os EUA e a Otan prometam não permitir a adesão de Kiev ao bloco militar, mas negando qualquer plano de invasão do país vizinho.

A Casa Branca afirmou nesta semana que tropas extras protegeriam o Leste Europeu de possível transbordamento da crise ucraniana.

Reportagem adicional de  Dmitry Antonov

Reuters / Agência Brasil

A fila do confessionário




Lula diz que não é candidato do PT mas de um “movimento”. Adesismo só não é maior que a resistência à conta a pagar

Por Maria Cristina Fernandes (foto)

Foi com ares de Arenão que o União Brasil foi anunciado. Alçaria à condição de maior partido da Câmara pela junção do PSL, legenda que elegeu o capitão, com o DEM, herdeiro do partido de sustentação da ditadura dos generais. Quatro meses depois, a UB, que ainda não foi formalizada, passou de legenda disputada pela terceira via, para agrupamento dos que têm dinheiro e TV mas é incapaz de canalizar um ou outro para a conquista do poder.

Também foi com pompa de partido oficial que o PL de Valdemar Costa Neto filiou o presidente da República. Com os planos de arregimentar os candidatos do bolsonarismo raiz à Câmara, passou a acalentar o sonho de fazer uma bancada robusta o suficiente para suceder ao deputado Arthur Lira (PP-AL) em 2025 - sim, porque não colocavam em dúvida a recondução do presidente da Câmara na próxima legislatura.

A robustez não tem sido capaz de blindar a Pasta mais importante do PL, a Secretaria-Geral de Governo. A ministra Flávia Arruda é responsabilizada por restos a pagar, que o Centrão estima ser de R$ 1 bilhão, das emendas parlamentares de 2021. Por isso, está com a cabeça a prêmio.

E, finalmente, o PP, partido que coroa esta trinca, assumiu, com a Casa Civil, o coração do governo, salvou as emendas de relator da investida do Supremo e da tesoura no Orçamento. Ainda arrancou do ministro da Economia um Auxílio Brasil de R$ 400 e do presidente, um decreto que lhe permite fazer uma rachadinha com Paulo Guedes nas chaves do cofre.

Tudo isso, porém, não tem sido suficiente para o partido de Lira e do ministro Ciro Nogueira assegurar aos seus correligionários que o futuro lhes pertence. Fosse assim o PP não estaria ávido em avançar sobre a sacrossanta vedação, nos 90 dias que antecedem as eleições, ao repasse de recursos para emendas parlamentares.

A brecha que se busca, no relato de consultores do Orçamento, é a de uma súmula do Tribunal Superior Eleitoral que permite o repasse para obras que já tenham tido sua execução iniciada. Coisa que um terreno aplanado, sob um fiscalização displicente, consegue provar.

O partido vê o café esfriar nos bules do poder numa velocidade maior do aquela com a qual tem conseguido auferir os derradeiros benefícios da coabitação. Por isso os correligionários que queiram fechar alianças com o lulismo nos Estados são tolerados - e até estimulados. É com esse jogo duplo que se constroem bancadas parlamentares. Desde que, é óbvio, não apareçam adversários locais eficientes na denúncia do oportunismo.

Com a fila do confessionário aumentando a cada dia, o maior beneficiário da crise da trinca de partidos bolsonaristas é Lula. O PT custa a formar uma federação partidária para reduzir sua dependência do Centrão. O PSB teme ficar a reboque dos petistas no Congresso e nas alianças locais, mas com o irrefreável adesismo do Centrão o ex-presidente reduz o preço que precisa pagar pela federação.

Quem mais trabalha contra a federação entre PT, PSB, PCdoB e o PV são os partidos que não a integram. Suas lideranças argumentam que Lula, se eleito, forma a maioria - até com o PSDB - e elege o presidente da Câmara que quiser.

Mesmo aqueles que não seguirão com o PT no primeiro turno, como PSD, MDB e Republicanos, por problemas regionais, já sinalizam com aliança futura. Já há sinais do Centrão de que haveria disposição para encaminhar reformas, como a administrativa, antes de sua posse.

É de um deles uma história sobre a política como ela é: corria o governo Dilma Rousseff quando um ministro recebeu a visita de três integrantes do DEM. Não queriam acompanhar a então presidente da República na disputa pela reeleição mas tampouco iriam com Aécio Neves, candidato pelo PSDB, a quem negariam o tempo de televisão. Em troca, pediram uma ajuda ao governo para desatar o nó na coligação de alguns Estados e facilitar a reeleição de parlamentares do DEM.

Passada a eleição, Dilma os convidaria para um café, eles pediriam um tempo para conversar, espalhando a “contrariedade da base” até que, por fim, fosse anunciada a adesão ao governo. Levada adiante, a proposta foi arquivada nos autos do impeachment com o voto daqueles parlamentares - “Se fosse Lula, no outro dia ele apareceria pra tomar uísque com a gente e selar o acordo”.

É este o “movimento” a que Lula diz pertencer sua candidatura e não ao PT. Nem mesmo os parlamentares com interlocução no mercado financeiro têm recebido acenos por resistência. O movimento é de capitulação.

Os “movimentistas” são solidários na vitória eleitoral mas não nas contas a pagar. O próprio Lula já lembrou que a proposta de reforma tributária costurada no seu governo teve apoio de todos os governadores, federações patronais e sindicais, lideranças partidárias e, ainda assim, não andou.

Sem aumentar imposto, o pobre só vai entrar no Orçamento, como diz o petista, se houver cortes. A ministra Rosa Weber, derrotada na tentativa de enquadrar as emendas de relator estará na presidência do Supremo e já é lembrada como parte da solução. Mais robusta que os R$ 16,5 bilhões das emendas de relator, porém, é a dotação das renúncias tributárias. No Orçamento de 2022 o valor é de R$ 371 bilhões.

A Federação das Indústrias de São Paulo já começou a montar, com o Tribunal de Contas da União, uma programação de “diálogos fiscais”. A entidade é presidida por Josué Gomes, filho do vice de Lula por oito anos de governo. O volume de recursos em questão, porém, deixa claro que se trata de um movimento defensivo.

A antecipação de posições pressupõe um resultado eleitoral ainda desconhecido. Como joga parado, Lula não erra. Na hora que tiver que repassar todas as bolas que recebe é que será possível saber como todos os “movimentistas” vão integrar o time sem fazer corpo mole.

A aproximação com o PSDB não se limita a uma Carta ao Povo Brasileiro II. Por meio de Geraldo Alckmin, Lula tem buscado aproximação com economistas que participaram da campanha do tucano em 2018 e da formulação do Plano Real, como Persio Arida. É uma maneira de conferir um selo de confiabilidade ao mesmo tempo em que demonstra querer partilhar os desgastes das soluções a serem encontradas.

Em 1994, os economistas do PT garantiram a Lula que o Plano Real daria errado e lhe fizeram acreditar que aqueles mais de 40% nas pesquisas a quatro meses da eleição se manteriam. Lula perdeu no 1º turno. A ver se agora conseguirá escrever novo epílogo para aquela história.

Valor Econômico

Rivais têm dúvidas se Bolsonaro vai concorrer




Adversários de Bolsonaro se perguntam se ele vai tentar a reeleição

Por William Waack (foto)

Jair Bolsonaro é no momento o fator imponderável das próximas eleições. O comportamento de Lula, seu principal adversário, é o que se esperava e previa. Idem para os demais concorrentes, nenhum deles até aqui uma formidável surpresa – mesmo considerando o “efeito Moro”, em parte já dissipado.

O imponderável associado ao presidente tem menos a ver com a possibilidade de uma “ruptura” institucional, como a pantomima ensaiada no último 7 de setembro. E muito mais com seu notório desequilíbrio pessoal, pautado em grande medida pelo medo de ele ou de seus filhos acabarem presos em caso de derrota eleitoral. Temer foi preso quando deixou a Presidência, e Bolsonaro acha que corre o mesmo risco.

Nas condições atuais os profissionais da política admitem que as chances de Bolsonaro se reeleger são remotas. Seus “aliados” do Centrão o apoiam sobretudo como nome para ajudar na formação de bancadas – o principal foco dos caciques dos partidos, convencidos de que não importa o vencedor, o jogo de governabilidade para valer será na Câmara dos Deputados.

Bolsonaro percebe a iminência da derrota e vem daí a possibilidade que alguns de seus adversários, como Ciro Gomes, do PDT, tratam já abertamente como probabilidade: a de que o “mito” não tente a reeleição. A questão seria, então, negociar algum tipo de “proteção” no caso de perda da prerrogativa por função.

Para concorrer a deputado ou senador, eleições que venceria facilmente, Bolsonaro precisa se desincompatibilizar (os prazos são motivo de diferentes interpretações). O problema está aí: saindo do cargo para concorrer a eleições corre o risco de ser preso.

“Aqui não há nada contra ele”, diz veterano integrante do STF. Mas, incentivada ou não por Bolsonaro, chegou a ministros da Corte a demanda por saber qual seria o regime jurídico que permitiria ao presidente, por exemplo, ocupar uma embaixada e permanecer “protegido” podendo disputar eleições.

“Ler” o comportamento de Bolsonaro para tentar antecipar suas decisões tem sido atividade com baixa taxa de sucesso, tal o desequilíbrio com o qual age em questões como a vacinação de crianças, que se empenhou em atrapalhar (difícil de entender até pela “racionalidade cínica” do cálculo político-eleitoreiro). Quem tratou com ele recentemente relata certo desinteresse em participar de grandes articulações eleitorais.

“Nunca exclua aquilo que não se sabe”, diz o mantra da antiga KGB – que foi, antes de mais nada, uma escola de especialistas em informação. O problema, no caso de Bolsonaro, é que talvez nem ele mesmo saiba. 

O Estado de São Paulo

Variante do HIV mais transmissível e agressiva é encontrada na Holanda




Eletromicrografia mostra HIV infectando célula humana; variante VB levou a maior carga viral em pacientes ainda sem tratamento

Por Mariana Alvim, em São Paulo

Uma nova variante do vírus do HIV descrita como "altamente virulenta" foi revelada nesta quinta-feira (3/2) em um artigo na revista científica Science.

Batizada como "variante VB", abreviação em inglês para "variante virulenta do subtipo B", ela demonstrou ser capaz de levar a uma maior carga viral no sangue em comparação com outros tipos do vírus; de ser mais transmissível; e de diminuir mais rapidamente as células de defesa T-CD4 do corpo.

Os autores da pesquisa, liderada por uma equipe da Universidade Oxford (Inglaterra), estimam que a variante surgiu na Holanda entre o final dos anos 1980 e a década de 1990, se espalhou nos anos 2000 e passou a perder força a partir de 2010. Mas esta é a primeira vez que a variante é descrita e mapeada em indivíduos — a infecção pela VB foi confirmada em 109 pessoas analisadas no estudo, a grande maioria na Holanda (os pesquisadores detectaram também um caso na Suíça e outro na Bélgica).

Um dos autores, o pesquisador Chris Wymant, explicou por e-mail à BBC News Brasil que os resultados não devem preocupar a população, porque a resposta ideal a essa e outras variantes do HIV já existe: testes e tratamento.

Aliás, está aí uma boa notícia do estudo. Em comparação com outros tipos de HIV, a variante VB mostrou ser mais virulenta, transmissível e agressiva em pessoas que ainda não tinham passado por tratamento. No entanto, depois do tratamento, pessoas com a variante VB passaram a apresentar recuperação de células CD4 e indicadores de mortalidade semelhantes aos daquelas com outros tipos de HIV.

"A descoberta dessa variante reforça a importância de orientações que já existem: que os indivíduos com risco de contrair o HIV tenham acesso a testes regulares, permitindo o diagnóstico precoce, seguido de tratamento imediato", escreveu Wymant, pesquisador sênior da Universidade de Oxford e especialista na evolução dos vírus.

O HIV é o vírus que causa a Síndrome da Imunodeficiência Adquirida (Aids). A Unaids (Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/Aids) estima que 37,7 milhões de pessoas viviam com HIV no mundo em 2020, ano em que ocorreram 1,5 milhão de novas infecções. Naquele ano, estima-se que 680 mil pessoas morreram por problemas de saúde relacionados à Aids (contra 1,9 milhão em 2004 e 1,3 milhão em 2010).

Em 2020, 73% das pessoas com HIV tinham acesso a tratamento, hoje feito à base de medicamentos — muitas vezes apenas uma pílula tomada diariamente — e considerado muito eficaz.

Carga viral de 3 a 5 vezes maior

'Encontrar uma nova variante é normal, mas encontrar uma nova variante com propriedades incomuns não é. Especialmente uma com maior virulência', diz o pesquisador Chris Wymant

O HIV tem alguns subtipos, fortemente relacionados à localidade. Por exemplo, na África, os subtipos mais comuns são A, C e D; na Europa, o subtipo B. Segundo um estudo publicado no ano passado, no Brasil, o subtipo B também é o mais frequente.

Wymant explica que, dentro dos subtipos, há a ramificação em variantes.

"Encontrar uma nova variante é normal, mas encontrar uma nova variante com propriedades incomuns não é. Especialmente uma com maior virulência", diz o pesquisador.

"O pior cenário seria a emergência de uma variante que combina alta virulência, alta transmissibilidade e resistência ao tratamento. A variante que descobrimos tem apenas as duas primeiras dessas características."

No momento do diagnóstico, antes do tratamento, pessoas com a variante VB apresentaram uma carga viral 3,5 a 5,5 vezes maior do que aquelas com outros tipos de HIV; a taxa de declínio das células CD4 foi duas vezes mais veloz, colocando-as sob risco de desenvolver a Aids muito mais rápido.

Os pesquisadores dizem que, possivelmente, a variante foi resultado de mutações que aconteceram ao longo do tempo e só foi revelada agora por alguns motivos — como o fato de o sequenciamento genético de amostras de pessoas com HIV ser relativamente recente.

A investigação sobre a variante começou porque cientistas envolvidos no projeto BEEHIVE detectaram 17 indivíduos com uma carga viral atipicamente alta. O BEEHIVE foi criado em 2014 com o objetivo de monitorar a influência da genética nas infecções pelo HIV, e faz isso acompanhando a saúde de pacientes em países da Europa e em Uganda. Conforme os pesquisadores foram analisando geneticamente as amostras destes e mais pacientes, detectaram uma nova variante.

"Consideramos que o vírus (na forma da variante VB) emergiu apesar de um forte programa de tratamento na Holanda, e não por causa dele. O outro lado da moeda é que o excelente monitoramento na Holanda tornou mais provável a detecção de uma variante como essa", aponta Wymant. 

BBC Brasil

Risco de guerra Rússia e Ucrânia

 




Por que a Rússia ameaça a Ucrânia?

Por Ney Lopes* (foto)

Explica-se pelo desejo de evitar que a Ucrânia faça parte da OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte), a aliança militar ocidental, o que dificilmente será atendido, mesmo colocando em risco a segurança europeia.

Esse é o “nó górdio” da crise. A Ucrânia aderindo à OTAN garantiria proteção, em caso de ser atacada.

O princípio dessa organização é que um ataque a um dos seus membros é um ataque a todos.

Putin discorda, por entender que significaria presença militar na sua fronteira.

Além disso, o regime soviético não deixa de sonhar com a recuperação do controle político das ex repúblicas, em particular da Ucrânia.

Embora o atual contexto geopolítico seja diferente, os soviéticos mencionam o precedente da “crise dos mísseis”, de 1962, quando ocorreu incidente diplomático entre Estados Unidos e União Soviética, por causa da instalação de mísseis russos em Cuba.

O evento foi considerado o momento mais tenso da Guerra Fria. O mundo esteve à beira de sucumbir numa guerra nuclear.

A reação norte-americana foi terminante.

O então presidente dos Estados Unidos, John Kennedy, considerou que se tratava de ameaça direta à soberania americana e não aceitaria armas na sua fronteira.

Ao aproximar-se uma frota naval soviética de navios dos Estados Unidos, que faziam o bloqueio à ilha, o primeiro ministro Nikita Khrushchev se dispôs a retirar os mísseis de Cuba, em troca da promessa de Kennedy de que os Estados Unidos não invadiriam a ilha.

O governo estadunidense se comprometeu ainda a retirar mísseis, que havia instalado na Turquia, fronteira com a URSS.

Por trás dos argumentos de segurança das fronteiras, percebe-se que o verdadeiro objetivo de Putin é reconstituir o esplendor soviético, que deixou de existir em 25 de dezembro de 1991, quando Mikhail Gorbachev, o líder da então União Soviética, renunciou ao cargo de primeiro ministro.

No mesmo dia, as bandeiras vermelhas das repúblicas soviéticas, com os símbolos do martelo e da foice, foram arriadas do Kremlin e substituídas pela bandeira russa.

Em seguida, o Soviete Supremo dissolveu formalmente a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS). Acabava o império gigantesco, que governara mais de uma dezena de Estados aliados, por 70 anos.

Após assumir o supremo comando do país, Putin deixou claro o seu propósito de estimular guerras, mostrar que não existem fronteiras para suas ações de espionagem, consolidando-se como uma espécie de czar moderno, com controle completo sobre o destino dos russos.

No caso da Ucrânia, Putin tem especial interesse.

Esse país tornou-se independente em 1917, sendo uma das repúblicas fundadoras da URSS, em 1922 A Ucrânia foi a nação mais poderosa da Europa, nos séculos X e XI.

Hoje, após sete anos de instabilidade, desde a derrubada do presidente eleito em 2014, a economia está em frangalhos e a pobreza aumentou 60%.

Os trabalhadores atravessam dificuldades pelas medidas de austeridade impostas pelo FMI, cujos empréstimos mantém o atual regime de pé.

A maior preocupação de Washington, OTAN, Reino Unido e União Europeia é a possibilidade de Moscou desestabilizar a Europa, abalando o equilíbrio do poder continental a favor do Kremlin.

Na hipótese de Putin invadir a Ucrânia e o Ocidente reagir com sanções, o governo russo poderá responder com o fechamento de todos os gasodutos que levam o gás soviético ao Ocidente, que equivale a cerca de um terço do gás consumido na Europa.

A Alemanha é o país mais vulnerável, que importa diariamente cerca de 230 milhões de metros cúbicos.

Outras regiões afetadas seriam Eslováquia, Áustria e partes da Itália.

Em represália, a Rússia poderá ser excluída do sistema de pagamentos internacional (SWIFT) e o congelamento de contas bancárias de seus oligarcas notórios.

Em 2000, quando chegou ao poder, Vladimir Putin manifestou o desejo da Rússia integrar a NATO e também a União Europeia para o país “não ficar isolado na Europa”.

Ambos os pedidos foram recusados.

Diante do impasse, talvez a alternativa mais sensata para a preservação da paz, seria a Ucrânia permanecer um país neutro, como a Finlândia, a Áustria e a Suécia.

As evidencias mostram, que a essa altura, não adiantará para nenhum dos lados em confronto “brincar com fogo”, ou “pagar para ver”.

*Ney Lopes – jornalista, advogado, ex-deputado federal; ex-presidente do Parlamento Latino-Americano e da Comissão de Constituição e Justiça; procurador federal 

Diário do Poder

Bolívar Lamounier examina 200 anos de política brasileira




Sem uma nova Constituição e uma reforma política de gente grande, acho que não temos futuro. Com o “trânsito em julgado”, então, a corrupção terá um brilhante futuro. 

Bolívar Lamounier (foto), em entrevista a Luciano Trigo

No livro “Da Independência a Lula e Bolsonaro – Dois séculos política brasileira”, o cientista político Bolívar Lamounier investiga episódios da nossa História política para tentar explicar de que forma as instituições democrático-representativas foram construídas e implantadas em nosso país – e como isso afetou a qualidade da nossa democracia. Do reexame da conjuntura do Império e do início do período republicano aos governos de Lula e Bolsonaro, o autor examina a evolução do Congresso, dos partidos políticos e das práticas eleitorais e faz uma revisão crítica da historiografia brasileira. Nesta entrevista, Bolívar fala sobre o seu livro e comenta o cenário político atual.

- O nosso passado colonial e imperial explica de alguma maneira a dificuldade para a consolidação de uma democracia plena e madura no Brasil? Se não é o nosso passado, qual é a causa dos percalços da nossa democracia?

BOLÍVAR LAMOUNIER: Esse é o mistério que tentei desvendar em meu livro “Da Independência a Lula e Bolsonaro”. Apesar da colonização portuguesa, da monocultura e da escravidão, fatores universalmente invocados, com razão, argumentei que não começamos mal. Ao contrário do que geralmente se afirma, a Constituição de 1824 fazia todo sentido como arcabouço para a transição de uma tirania absolutista ao Estado Constitucional.

É importante frisar que, na primeira metade do século 19, a democracia representativa engatinhava por todo parte, os Estados Unidos sendo uma exceção, mas a escravidão estava lá, tão ou mais cruel que aqui. A República foi um golpe militar, talvez inevitável, mas o pior foi ter desembocado em regimes de partido único em todos os Estados, um modelo imposto por Campos Salles, exceção feita ao Rio Grande do Sul, onde “gaviões” e “maragatos” se digladiavam.

Penso que esse ciclo aparentemente infindável de crises e retrocessos remonta à Revolução de 30 e à autotransformação de Getúlio Vargas de “Dr.Jekyll” em “Mr.Hyde”. Sua impensada guinada ditatorial, que só não foi mais longe porque tivemos que entrar na guerra ao lado dos Estados Unidos, deixou plantada a semente do antigetulismo e do antijanguismo, que levou ao militarismo e por aí afora.

E tivemos o imenso azar de Lula, um populista apoiado num aglomerado disforme de esquerdistas e estudantes, chegar ao poder justo quando Fernando Henrique havia arrumado o país para a retomada do desenvolvimento. Agora, sinceramente, estou pessimista: Lula por mais 8 anos prenuncia um retrocesso de várias décadas.

- Durante bastante tempo a disputa eleitoral no Brasil ficou marcada pela polaridade PT x PSDB. Hoje os dois partidos parecem cada vez mais próximos na oposição a Bolsonaro, Alckmin pode ser vice na chapa de Lula, e o próprio Fernando Henrique dá sinais de preferir Lula a Bolsonaro. Isso dá razão a quem enxergava no binômio PT-PSDB uma ilustração da “estratégia das tesouras” de Lenin?

BOLÍVAR: É mais um exemplo de nossa tragédia partidária. O populismo – há quem diga o “carisma” – de Lula permitiu ao PT, partido ambíguo em relação à democracia, se fazer passar por “centro”, até porque as principais lideranças da luta contra o regime militar desapareceram no curto período. E o PSDB se formou sem refletir direito sobre o significado de “socialdemocracia”.

Como é que um país que mal consegue equilibrar suas contas vai reduzir desigualdades mediante “entitlements”, atribuição indefinida de direitos a diferentes categorias? Foi uma forma meio envergonhada de conservar a personalidade passada de esquerdistas e cristãos-democratas, quando o que se impunha era um liberalismo sério, realista, que pusesse fim ao patrimonialismo e à superinflação que vinha desde 1961.

A aliança PT-PSDB é o melhor exemplo do que tenho afirmado: ter esse sistema partidário e não ter nenhum, dá na mesma. É tudo uma grande ameba, uma fraude à vontade do eleitor.

- Uma seção inteira do seu livro, aliás, é dedicada à Reforma Política. Poderia resumir quais devem ser as diretrizes dessa reforma, em relação ao sistema eleitoral, aos partidos políticos e a eventuais mudanças no Congresso?

BOLÍVAR: Fiz o possível para condensar minha ideia de reforma no capítulo 8 de “Da Independência a Lula e Bolsonaro. Defendo: 1) Um regime parlamentarista, sem as tergiversações “semipresidencialistas” dos adeptos do regime francês; 2) Um sistema eleitoral “misto”, designação imprópria do sistema alemão, mas com cuidado, porque sua complexidade pode dar margem a casuísmos sem fim; 3) Uma estrutura partidária séria – no momento, temos uma comédia, com 24 partidos – e grupos corporativistas fazendo-se passar por tal – na Câmara Baixa; 4) redução do número de deputados federais para cerca de 420, como propôs em 1986 a Comissão Afonso Arinos, e do número de Senadores para 54 – dois por Estado: Roraima com três senadores só pode ser anedota, não é?

- De que forma o crescimento das redes sociais e da internet tem afetado a política e a democracia no Brasil? O poder de censura das chamadas Big Techs é preocupante? Quais são os riscos que esse fenômeno traz, e como superá-los?

BOLÍVAR: Quem imaginava que a comunicação instantânea realizaria o velho sonho rousseauniano e anarquista de uma vontade do povo unificada e fraterna, enganou-se redondamente. O que estamos vendo é uma proliferação infindável de espirra-canivetes. E a presença cada vez maior das Big Techs só vai piorar isso, claro.

- Vivemos cada vez mais, uma época de “ódio do bem”. Não lembro, por exemplo, de ver na época de FHC amigos deixarem de se falar, ou parentes romperem relações por causa de política. Hoje há uma permanente demonização do outro, e parece que metade dos brasileiros odeia a outra metade. Como você analisa isso?

BOLÍVAR: É o resultado inevitável da dissolução da política, dos partidos e das elites no sentido sério desta segunda palavra), e também da estagflação – porque sem desmantelar o patrimonialismo e o corporativismo é óbvio que não teremos crescimento) – e da ignorância, no duplo sentido de estupidez e falta de escolaridade. E por aí afora. Sobriedade, respeito e outras qualidades necessárias em uma sociedade moderna foram “desconstruídas” – não é assim que se diz? – em proveito da boçalidade generalizada.

- Você enxerga a possibilidade de uma terceira via vencer a eleição deste ano? Por quê?

BOLÍVAR: Ainda não joguei a toalha, mas acho difícil. Sérgio Moro parece que não vai decolar. Dória será vítima de suas qualidades: está fazendo um grande governo em São Paulo, por isso não tem tempo para percorrer o país, o que, eleitoralmente, é o que devia estar fazendo, como Lula e Bolsonaro fazem. Antigamente havia uma legislação sobre o calendário eleitoral, lembra-se? Parece que não há mais.

- Há um desequilíbrio na relação entre os Poderes no Brasil hoje?

BOLÍVAR: Para o mau enredo que o Brasil vivencia hoje, de uma forma ou de outra, temos o pior elenco de nossa história, nos três Poderes. Sem uma nova Constituição e uma reforma política de gente grande, acho que não temos futuro. Com o “trânsito em julgado”, então, a corrupção terá um brilhante futuro...

- Voltando ao seu livro, de que forma a nossa historiografia foi contaminada (e comprometida) pelas premissas do marxismo?

BOLÍVAR: A primeira grande influência foi o que tenho denominado “protofascismo”, o pensamento autoritário que se formou na crítica à Constituição de 1891. Tratei de exemplificá-lo na figura de Oliveira Vianna, no capítulo 8 de meu livro “Tribunos, profetas e sacerdotes”. Nas primeiras décadas do século, o marxismo era irrelevante no Brasil. Quando surge, é logo dominado pela figura de Luís Carlos Prestes, cuja formação intelectual era rasa. Então, a rigor, o marxismo de grande vulto é só depois da Segunda Guerra, trafegando sobre o “sucesso” da União Soviética e o importante papel que ela teve na vitória sobre a Alemanha.

Por isso, no Brasil, o marxismo intelectualizado surge já acoplado e, por vezes, indistinguível do nacional-desenvolvimentismo, pela mística da industrialização etc. Observe-se que, nessa época, a ciência social não-marxista ou antimarxista era muito fraca tanto na Europa, sobretudo na França, como nos Estados Unidos. Eis porque, no Brasil, mesmo tendo poucos intelectuais de grande influência, o marxismo alastrou-se facilmente pelas universidades.

- Qual é sua crítica, por exemplo, à análise do patrimonialismo e do “estamento burocrático” feita por Raymundo Faoro, sobretudo em “Os donos do poder”?

BOLÍVAR: Mestre Raymundo Faoro teve um importante papel na desmistificação da tese, típica de Oliveira Vianna, de um país ganglionar, assentado quase exclusivamente sobre a família patriarcal. Mas passou para o outro extremo. Imaginou uma máquina de Estado consubstanciada no patronato político – expressão concreta de nossa patrimonialismo – transplantada de galho de Portugal para cá e dominando completamente a Colônia. Ele transformou o patrimonialismo em uma “enteléquia”, quero dizer, uma substância que sobrevive imutável através dos séculos. Tese insustentável.

O patrimonialismo originário, provindo de um país de escassa população, Portugal, tinha expressão localizada – no Nordeste, principalmente. Cresceu e foi sendo revificado à medida que os diferentes ciclos econômicos fracassavam. Com o colapso do açúcar, a oligarquia nordestina largou grande parte de seus engenhos – superados de longe pelos holandeses que, expulsos, foram para a América Central – e açambarcaram posições no Estado.

O mesmo se deu, em muito menor escala, no ciclo da mineração. Mas deu-se escancaradamente com o colapso do café em São Paulo. O Convênio de Taubaté (1906) foi uma clara expressão política do que venho de afirmar: a aristocracia cafeeira desistia de sua inviável autonomia em troca da proteção do Estado. O próprio getulismo seguiu essa lógica: o ditador agraciou amigos próximos com empreendimentos privilegiados.

- Qual seria, então, a sua explicação para a persistência do patrimonialismo na sociedade brasileira – patrimonialismo que em governos recentes chegou próximo da perfeição?

BOLÍVAR: A lógica exposta na resposta anterior prosseguiu e se revigorou, mesmo nos governos militares. Os momentos sucessórios do regime militar permitem viabilizar tal continuidade. O esboço de liberalismo iniciado no governo Castelo Branco, com Otávio Gouveia de Bulhões e Roberto Campos, foi liquidado pelo general Costa e Silva, que se impôs como candidato à sucessão. Morto Costa e Silva, a cúpula militar dá um golpe dentro do golpe, impedindo a posse do vice legitimamente eleito, o deputado mineiro Pedro Aleixo, e entronizando Garrastazú Médici no lugar dele. O general Geisel, além de estatizante, levou o endividamento externo às raias do delírio – origem da chamada “década perdida”.

- Qual dos chamados “pais fundadores” (Sérgio Buarque, Caio Prado Jr e Gilberto Freyre) da moderna historiografia brasileira é hoje mais relevante para explicar o Brasil? Por quê?

BOLÍVAR: Eu tenderia a dizer Caio Prado, mas a obra dele é muito desigual, além do que, naturalmente, ele não se propôs pensar a democracia. Sérgio Buarque – refiro-me a “Raízes do Brasil” – foi brilhante, mas excessivamente amarrado a um culturalismo weberiano não muito bem digerido, que não o deixou se livrar da antiga tese dos “grilhões do passado”.

No que me diz respeito, quem mais me ensinou foi Victor Nunes Leal, autor de “Coronelismo, enxada e voto”. É um livro que todo mundo leu ao contrário, como uma lamúria ligada ao latifúndio, quando ele quis dizer exatamente o contrário: que, apesar do latifúndio, o Brasil estava evoluindo no sentido de uma democracia representativa razoável. Isso em 1948.

Mas, depois, infelizmente, veio a guerra-fria, a contraposição getulismo x lacerdismo, os delírios reformistas de Jango etc, e fomos para o brejo.

Gazeta do Povo (PR)

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