quinta-feira, fevereiro 03, 2022

Por que juros continuam a subir e podem atrapalhar planos de reeleição de Bolsonaro




Juros elevados prejudicam investimentos das empresas e criação de empregos, dificultando planos de reeleição do presidente

Por Thais Carrança 

O Brasil voltou a ter taxa básica de juros na casa dos dois dígitos. O Copom (Comitê de Política Monetária) do Banco Central elevou nesta quarta-feira (2/2) a taxa Selic a 10,75% ao ano.

Esta foi a oitava alta seguida — antes da decisão, a taxa estava em 9,25% —, em meio à tentativa do BC de conter a inflação, que acumula avanço de 10,2% até meados de janeiro.

Com a nova alta, os juros no Brasil voltam aos dois dígitos pela primeira vez desde maio de 2017 (quando a Selic estava em 10,25%), num cenário muito distinto do início de 2021, quando a taxa básica chegou a 2%, menor nível da história.

Os juros mais altos tornam mais caro tomar dinheiro emprestado, o que deve botar um freio nos investimentos das empresas, desacelerando a geração de empregos e a atividade econômica como um todo.

A piora da atividade, combinada a uma inflação que não dá sinais de perder força, são uma pedra no sapato para o presidente Jair Bolsonaro (PL), que tenta em outubro a reeleição.

Pesquisa eleitoral Genial/Quaest divulgada em janeiro mostrou que, para 37% dos brasileiros, a economia é o principal problema do país atualmente. Nesse percentual, estão incluídas as preocupações com desemprego, inflação e crescimento econômico.

A angústia com os rumos da atividade econômica supera a preocupação com a saúde e a pandemia, apontada como principal problema por 28% dos brasileiros, mesmo em meio a um início de ano marcado por uma explosão de casos de covid-19 provocados pela variante ômicron do coronavírus.

Em terceiro lugar nas preocupações da população estão as questões sociais, incluindo fome, pobreza, desigualdade e habitação, apontadas como maior problema por 13% dos brasileiros, e também uma consequência direta da situação econômica.

Esse cenário, segundo analistas ouvidos pela BBC News Brasil, tende a fortalecer a oposição, em detrimento da continuidade do atual governo.

E também é desfavorável para as candidaturas de "terceira via" ligadas à direita, que enfrentam dificuldade para se distanciar de suas ligações com o bolsonarismo.

Entenda a recente alta de juros; porque a inflação não cede mesmo com a Selic tão alta; e como tudo isso deve afetar a sua vida e o futuro político do país.

Porque os juros continuam a subir

Luana Miranda, economista da gestora de recursos Gap Asset, explica que o Banco Central já está de olho na inflação de 2023 ao tomar suas decisões nesse início de ano.

"Para 2023, a expectativa para a inflação está um pouco acima da meta, em 3,5%, o que é desconfortável para o BC, pois é um horizonte ainda distante", diz Miranda.

A meta para a inflação em 2023 é de 3,25% e o fato de as expectativas estarem em 3,5% indica que os agentes econômicos não estão confiantes de que o BC será capaz de trazer a inflação de volta à meta até lá.

Isso força a autoridade monetária a ter de continuar mostrando dureza no combate à inflação, numa tentativa de "ancorar" as expectativas do mercado, como se diz no linguajar econômico.

Além disso, os índices de inflação mais recente têm surpreendido ao vir acima do esperado pelos analistas, mesmo depois de o Banco Central ter elevado a Selic em 7,25 pontos percentuais ao longo de 2021, de 2% para 9,25% ao ano, na maior alta feita por um banco central no mundo no ano passado, segundo levantamento do banco alemão Deutsche Bank.

Tabela mostra os bancos centrais que mais subiram juros em 2021, com o Brasil na primeira posição

"Já estamos com uma Selic de dois dígitos, estamos nos aproximando do final do ciclo [de alta dos juros], mas ao mesmo tempo as pressões altistas da inflação de curto prazo continuam", observa a economista da Gap Asset.

Ela destaca, por exemplo, a alta de 0,58% da prévia da inflação de janeiro, medida pelo IPCA-15, que veio bem acima do 0,45% que era esperado pelo mercado.

"Continuamos a ser surpreendidos e, além disso, temos visto bancos centrais ao redor do mundo também surpreendendo com promessas de mais juros [do que era esperado antes]. E isso tem impacto sobre a nossa economia também", afirma.

A alta de juros nas economias maduras, como os Estados Unidos, atrai recursos para esses países, levando à valorização do dólar e outras moedas fortes e à perda de valor do real.

Isso contribui para manter a inflação pressionada, já que parte relevante dos insumos da indústria brasileira é importada. Também favorece as exportações de alimentos, reduzindo a oferta deles no mercado interno, o que pesa sobre os preços.

Porque a inflação segue alta, mesmo depois de tanto aumento de juros

Mas o leitor deve estar se perguntando: se o BC sobe juros para dificultar a tomada de crédito, desacelerar a atividade econômica e com isso conter a inflação, então por que os preços seguem surpreendendo para cima?

Luana Miranda, da Gap Asset, explica que isso se deve a um conjunto de fatores.

O primeiro deles é que a política monetária leva um certo tempo para ter efeito na economia, cerca de quatro trimestres, segundo estudos do próprio Banco Central.

Assim, como o BC começou a subir os juros em março de 2021, e seguiu elevando as taxas durante os meses seguintes, apenas ao longo de 2022 os efeitos desse aperto monetário deverão passar a ser sentidos de fato na economia.

'Petróleo mais caro empurrou preço dos combustíveis para cima'

Um segundo fator é a alta de preços das commodities, particularmente do petróleo, que tem impacto sobre o preços dos combustíveis no Brasil.

Os preços do petróleo já vinham pressionados desde 2021 por uma combinação de restrição de oferta pela Opep (Organização dos Países Exportadores de Petróleo) e investimentos que deixaram de ser feitos pelas petroleiras em meio à pandemia.

A esse cenário já desfavorável, somou-se em 2022 a crise entre Rússia e Ucrânia, país este que é uma importante rota de transporte de gás natural.

Um terceiro fator é a continuidade da pressão nos preços de bens industriais, diante de problemas nas cadeias produtivas gerados pela pandemia, como a falta de semicondutores que afetou a indústria automotiva do mundo todo.

Isso se soma ao aumento de preços dos serviços, diante da retomada do setor com a reabertura da economia possibilitada pelo avanço da vacinação em todo o mundo.

Por fim, a seca no Sul do Brasil afetou a safra de grãos, o que tende a ter impacto sobre os preços dos alimentos, já que os grãos são usados na produção de óleos e na ração animal.

"São vários choques ainda afetando a economia, num momento em que a política monetária ainda não teve tempo de reduzir a inflação na sua capacidade máxima", conclui Miranda.

Como a alta de juros afeta a vida das pessoas

A Selic mais alta tem impacto direto sobre o dia-a-dia da população, explica a economista.

"Ela vai afetar, por exemplo, o preço de tomar um empréstimo. O crédito do cartão de crédito, do cheque especial, o crédito imobiliário, tudo isso vai ficar mais caro. Isso tende a reduzir o consumo das famílias e os investimentos das empresas."

Por esse motivo, os juros mais altos desaceleram a atividade econômica e, como consequência, a inflação perde força.

"Mas isso tem um custo e pode ter impacto sobre a geração de empregos", acrescenta.

'Juros mais altos desaceleram a atividade econômica e a geração de empregos'

Uma outra preocupação é com o efeito da alta de juros sobre a inadimplência e o endividamento das famílias.

Segundo a CNC (Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo), o endividamento dos brasileiros atingiu em 2021 o maior nível em 11 anos, com uma média de 70,9% de pessoas endividadas.

Ainda assim, a inadimplência teve uma pequena queda no ano passado, em relação à média histórica. Mas, para a analista, esse quadro pode mudar com a alta dos juros.

"A alta dos juros piora as condições de renegociação de dívidas e de novas tomadas de crédito. Quem se endividar agora, vai pagar juros muito maiores do que no ano passado."

"Com um cenário de mercado de trabalho pressionado, salários médios mais baixos e renda das famílias mais comprometida, isso aponta para um endividamento maior, até porque as famílias, ao longo do último período, já devem ter consumido muito de suas poupanças. Com o endividamento subindo, a inadimplência subir é o próximo passo."

E como tudo isso afeta Bolsonaro e o cenário político em geral

Para Luana Miranda, a inflação é a principal "pedra no sapato" de Bolsonaro, o que fica claro pelas últimas medidas anunciadas pelo seu governo, como a PEC (Proposta de Emenda à Constituição) dos Combustíveis, que pretende zerar impostos federais sobre alguns desses insumos, como o diesel. Além de uma possível redução do IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados), atualmente em estudo pela equipe econômica.

"A inflação pesa muito no bolso da população e muito mais no bolso dos mais pobres. Então Bolsonaro está muito mais preocupado com isso do que com o crescimento do PIB", considera.

Rafael Cortez, cientista político da Tendências Consultoria, lembra que, tanto a inflação, como a forte alta dos juros, são sintomas de uma desestabilidade macroeconômica que resulta das escolhas do governo, principalmente com relação às contas públicas.

'Economia em queda e avanço da vulnerabilidade social favorecem a oposição'

"A economia em queda e o avanço da vulnerabilidade social geram incentivos para apostas em candidatos que fazem oposição ao status quo", observa o analista político.

"Não é por acaso que o ex-presidente Lula lidera nos principais cenários eleitorais e à medida em que um cenário econômico mais difícil vai se confirmando, essa preferência por nomes distantes ao governo deve ir se cristalizando. Governos mal avaliados 'premiam' projetos eleitorais de oposição", afirma.

Para Cortez, o cenário também é difícil para as candidaturas de "terceira via".

"As candidaturas de terceira via, em sua maioria - talvez com a exceção do ex-ministro Ciro Gomes - são de direita. Por isso, essas candidaturas, seja de Sergio Moro ou João Doria, têm dificuldade de se distanciar da agenda do governo, pois estiveram ligados em maior ou menor grau a ele. Fazer essa reviravolta não é trivial."

Se a economia dificulta o projeto de reeleição de Bolsonaro e o sucesso de uma terceira via, também deve impor um grande desafio a quem assumir o governo federal em 2023.

"A agenda econômica vai deixar uma herança difícil, seja para um segundo mandato bolsonarista, seja para um novo governo. Temos uma combinação de vulnerabilidade social, política econômica muito instável e um risco fiscal muito grande."

"Ter que controlar a inflação, equilibrar as contas do governo e responder às demandas sociais será uma equação muito difícil de ser fechada", avalia o analista político, sobre os desafios do governo que terá início em 2023. 

BBC Brasil

Política externa brasileira na contramão do mundo




Por Philipp Lichterbeck (foto)

Enquanto Putin ameaça militarmente a Europa e provoca os EUA, Bolsonaro anuncia que vai visitá-lo em Moscou. Essa poderá ser uma catástrofe sem precedentes para a política externa do Brasil, escreve Philipp Lichterbeck*.

Eu me encontro, no momento, na Alemanha. O tema número um em todos os veículos de notícias é a ameaça de as tropas russas invadirem a Ucrânia. A Rússia elevou sua presença militar em Belarus, assim como no Mar Báltico e na fronteira com os países da região.

O presidente russo, Vladimir Putin, criou um nível de ameaça que não se via desde a Guerra Fria. Ainda não está claro o que ele almeja exatamente, mas, na Europa, aumenta o medo de uma guerra. Este não é um cenário abstrato, mas assustadoramente real. No Brasil, onde a distância para esse conflito é muito grande, é difícil imaginar essa situação.

A guerra, de todo modo, é algo bastante abstrato para os brasileiros, o que, claramente tem a ver com o fato de o país quase não ter se envolvido em conflitos com poderes externos, com a exceção da guerra da Tríplice Aliança contra o Paraguai. A única guerra que o país vem travando desde a colonização é a guerra diária contra si próprio, contra sua própria população: os indígenas, negros, pequenos fazendeiros, os pobres nas zonas rurais e os favelados.

Se Putin iniciar uma guerra na Europa, isso afetará o mundo inteiro, e também o Brasil, que já se encontra numa profunda crise econômica, social e moral. Pode-se criticar a Otan por, com frequência, não levar a sério as sensibilidades e preocupações de segurança russas. Mas, está bem claro quem é que representa o perigo atual de uma guerra: Vladimir Putin.

Da mesma forma, ficou claro nos últimos anos que a Rússia tenta manipular eleições no Ocidente, através de campanhas direcionadas de desinformação nas redes sociais e através de sua emissora de propaganda política, a RT, sempre em favor dos partidos e candidatos de direita ou extrema direita.

O objetivo é sempre dividir e enfraquecer o Ocidente, por exemplo, através do Brexit. Na Rússia, figuras de oposição são perseguidas, presas e assassinadas, e as organizações de direitos humanos, banidas. Em 2019, o governo russo esteve por trás do assassinato de um desafeto tchetcheno em Berlim.

"Ele é conservador", elogia Bolsonaro

Apesar de tudo isso, o presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, quer fazer uma visita a Putin ainda em fevereiro. Sua justificativa para fazê-lo, num momento em que Putin ameaçar jogar a Europa e o mundo numa guerra, é bastante primitiva, até para os padrões de Bolsonaro. 

"Ele é conservador, sim. Eu vou estar mês que vem lá, atrás de melhores entendimentos, relações comerciais. O mundo todo é simpático com a gente.” Trata-se da habitual conversa sem conteúdo de Bolsonaro.

É notável, porém, que ninguém no governo brasileiro, nas Forças Armadas, na imprensa ou na economia, tenha se pronunciado de maneira clara contra essa viagem. O chefe de Estado do Brasil, que parece agora ter abandonado por completo a realidade, quer claramente isolar o país da comunidade internacional. É impossível imaginar o estrago em termos de política externa para o Brasil, quando as imagens de Bolsonaro, com sua risada infantil de sempre, ao lado do frio e sorridente estrategista Putin, correrem o mundo.

Não basta Bolsonaro e seu círculo terem insultado e provocado repetidas vezes os líderes europeus e o governo de Joe Biden. Não basta ele ter estragado a imagem do Brasil ao redor do mundo com suas políticas para a Amazônia, como também foi ridicularizado com sua política para a pandemia. Não basta ele passear com sua entourage pelas ditaduras árabes contando piadas homofóbicas, porque ninguém mais no mundo estava disposto a recebê-lo.

Agora, ele quer dar um golpe mortal na imagem internacional do Brasil, que dez anos atrás ainda era excelente, e fazer com que o país se torne inviável como parceiro confiável. Afinal, depois disso com quem esse governo vai querer conversar, negociar e pedir ajuda em meio a uma crise? Com a Rússia, que, a propósito, ameaça armar a Venezuela e Cuba, o que, por si só, já enterra o argumento de Bolsonaro de que Putin seria conservador.

Jair Bolsonaro e seu círculo, como sempre, vão fingir que não entendem porque todo mundo está tão exaltado. Ele dirige na contramão da diplomacia. O fato de que pretende esnobar toda a Europa Ocidental e os Estados Unidos é uma catástrofe de dimensões sem precedentes para a política externa brasileira.

*Philipp Lichterbeck queria abrir um novo capítulo em sua vida quando se mudou de Berlim para o Rio, em 2012. Desde então, colabora com reportagens sobre o Brasil e demais países da América Latina para jornais da Alemanha,Suíça e Áustria  Ele viaja frequentemente entre Alemanha, Brasil e outros países do continente americano. 

Deutsche Welle

A política mundial caminha no sentido anti-horário; no Brasil, também.




Caso Lula faça seu aggiornamento, a estratégia de seus concorrentes no campo democrático não passará da mera busca de sobrevivência na trincheira parlamentar

Por Luiz Carlos Azedo (foto)

Desde a eleição do presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, a política mundial caminha no sentido anti-horário. As recentes eleições chilenas e, neste fim de semana, os pleitos portugueses mostram isso. A onda eleitoral favorável às forças mais conservadoras e reacionárias, em vários países da Europa e da América Latina, foi contida em razão de fatores que também estão se apresentando nas eleições brasileiras. Primeiro: indiscutivelmente, a pandemia de covid-19 desorganizou a economia e escancarou as desigualdades sociais num quesito básico, o direito à vida. Segundo: o novo choque de petróleo, patrocinado pela Opep, pela Rússia e pela Venezuela, grandes produtores mundiais. Terceiro: a economia do carbono está tornando a vida humana no planeta muito mais difícil e ameaça o futuro da espécie. Quarto: a compreensão no Ocidente de que não existe salvação fora da democracia, por sinal, muito bem lembrada em 27 de janeiro passado, em memória do Holocausto.

É uma corrida contra o tempo, porque o mundo está mudando em razão das novas tecnologias e sua utilização em grande escala, mas essas mudanças estão aprofundando o fosso entre o centro e a periferia do capitalismo e entre ricos e pobres, em todas as sociedades, algumas menos, a maioria mais, o que coloca em risco a própria democracia. O status quo internacional herdado do pós II Guerra Mundial está sendo posto em xeque, como agora, na crise da Ucrânia, que, mais uma vez, confirma a tese de Jürgen Habermas, um filósofo e sociólogo alemão, de descongelamento do pacto de fronteiras tecido na Conferência de Yalta, na Criméia, que na época ainda era território da Rússia. Realizado entre os dias 4 e 11 de fevereiro de 1945, o encontro reuniu o presidente americano Franklin Roosevelt, o premiê britânico Winston Churchill e o líder soviético Joseph Stálin. Desde a queda do Muro de Berlim, velhos conflitos entre nações e povos da Europa estão sendo exumados.

Estamos diante de uma nova “guerra fria”, na qual os Estados Unidos estão abrindo duas frentes de fricção: uma na Ásia, aliado a Taiwan e ao Japão, contra a China; a outra, no Leste Europeu, aliado à Inglaterra e à Ucrânia, contra a Rússia. É nesse cenário que agora se desenvolve a corrida mundial para reinventar o Estado e a disputa pela hegemonia da nova economia mundial, que substituirá o carbono pela energia limpa. Esse é, também, o pano de fundo da disputa política que está em curso no Brasil, em razão das eleições de outubro próximo. A polarização política que estamos observando nas eleições faz parte desse contexto.

Bolsonaro representa as forças mais conservadoras desse processo, com as quais está se articulando internacionalmente, embora tenha perdido seus principais aliados na cena mundial, com as derrotas de Donald Trump, nos Estados Unidos, e Benjamin Netanyahu, em Israel. No outro lado do campo, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva se esforça para ocupar o espaço das forças de centro, embora sua candidatura seja essencialmente de uma esquerda tradicional. O reposicionamento de Lula não ocorre por acaso. O ex-presidente está conectado a lideranças importantes da Europa e sabe que o desafio de incorporar o Brasil à nova realidade global depende de novos paradigmas e não do velho nacional-desenvolvimentismo. Será capaz de fazer isso?

Desafios ao centro

De certa forma, o destino das forças políticas que buscam a construção de uma terceira via nas eleições presidenciais depende dessa resposta. Caso Lula faça seu aggiornamento, a estratégia de seus concorrentes no campo democrático não passará da mera busca de sobrevivência na trincheira parlamentar. A massa crítica adquirida por sua candidatura nas camadas de mais baixa renda, beneficiadas durante seu governo, sustenta a polarização com o presidente Jair Bolsonaro, cuja posição segura no segundo turno está ameaçada, mas não a ponto de se tornar irreversível. Em razão da força do Estado brasileiro e das corporações e segmentos da sociedade que se identificam com sua narrativa, Bolsonaro ainda garante seu lugar no segundo turno.

Os demais candidatos de oposição enfrentam duas grandes dificuldades: a fragmentação do seu campo de forças, que funciona como um balaio de caranguejos, ou seja, quando um pré-candidato tenta fugir do cesto, o outro o puxa para baixo; e a ausência de uma narrativa eleitoral robusta, que consiga sensibilizar a grande massa do eleitorado refratária à polarização e oferecer propostas exequíveis para a retomada do desenvolvimento.

Teoricamente, Ciro Gomes (PDT), Sergio Moro (Podemos), João Doria (PSDB), André Janones (Avante), Simone Tebet (MDB), Alessandro Vieira (Cidadania), Rodrigo Pacheco (PSD) e Felipe d’Ávila (Novo), protagonistas da fragmentação, podem enfrentar esse problema. Para isso, precisam promover, sinceramente, uma composição dessas forças em bases eleitorais sustentáveis; formular um programa comum, que dê respostas à necessidade de fortalecer a democracia e desenvolver o país de forma sustentável e integrada à economia mundial; e defender o combate efetivo à desigualdade e à exclusão social, com metas claras e exequíveis. Parece fácil, mas não é.

Correio Braziliense

Bolsonaro cometeu crime, diz PF. E daí? Nada!




Por Josias de Souza

A delegada Denisse Dias Rosas Ribeiro encerrou o inquérito sobre o vazamento de dados sigilosos da Polícia Federal. Concluiu que Bolsonaro cometeu crime de violação de sigilo funcional. Segundo ela, o presidente divulgou e deturpou investigação sobre um ataque hacker ao TSE. Fez isso com o objetivo de espalhar falsidades sobre a confiabilidade das urnas eletrônicas. Tudo somado, nada acontecerá com o presidente. Bolsonaro dispõe de um sistema de blindagem que o tornou um personagem invulnerável.

Denisse Ribeiro não promoveu o indiciamento de Bolsonaro, pois o presidente dispõe de prerrogativa de foro. As conclusões da delegada subiram à mesa do ministro Alexandre de Moraes. Relator do caso no Supremo Tribunal Federal, Moraes requisitou a manifestação do procurador-geral da República, Augusto Aras. O doutor dispõe de duas alternativas: pode optar pelo arquivamento do caso ou pela formalização de denúncia contra Bolsonaro perante a Suprema Corte.

Sinalizando o arquivamento, Aras mataria o assunto. Na improvável hipótese de optar pela denúncia, o Supremo teria de pedir autorização aos deputados para processar o presidente. Nesse caso, a encrenca seria transferida para o gabinete de Arthur Lira, o réu que preside a Câmara.

Aliado de Bolsonaro, Lira não teria pressa para ouvir o plenário. A aprovação do pedido de licença para processar o presidente da República requer dois terços dos votos da Câmara. Significa dizer que 342 dos 513 deputados precisariam votar a favor.

Para impedir que essa maioria seja alcançada, bastaria a Bolsonaro seduzir 171 votos. Seus aliados nem precisariam se expor em plenário, pois abstenções e ausências favorecem o acusado.cmpid=copiaecola

Dono de uma base congressual bem remunerada, a chance de Bolsonaro sofrer uma derrota dessa magnitude na Câmara é inexistente. Alvejado por acusações mais cabeludas, Michel Temer enterrou na Câmara, sem Orçamento paralelo e emendas secretas, duas denúncias da Procuradoria.

Blog do Josias de Souza

Avanço chinês mostra disfunções do Mercosul - Editorial




A função de um bloco não é armar protecionismos indefensáveis

O fato de a China ter ultrapassado o Brasil em suas exportações para a Argentina diz muito sobre o mau estado do Mercosul e sobre a perda de competitividade das indústrias dos dois lados da fronteira - o contrário do que a criação de um bloco comercial na região se propôs. O poder de conquistar mercados do maior exportador do mundo, a China, é gigantesco, mas os desacertos políticos entre as duas maiores economias do bloco, Brasil e Argentina, facilitaram bastante o trabalho dos chineses.

Um dos objetivos de acordos comerciais como o do Mercosul é unir as vantagens comparativas de seus membros, propiciar o pleno usufruto delas, buscar novas complementaridades e oportunidades de especialização regional. Não foi o que aconteceu nos 30 anos de vida do Mercosul.

Em vez de consolidar e expandir vantagens dinâmicas existentes, as duas maiores economias do bloco se empenharam boa parte do tempo em defender suas indústrias e mercados internos, com maior ou menor grau de protecionismo ao longo do tempo. A atitude do Brasil, um dos países mais fechados ao comércio do mundo, foi mais passiva do que a da Argentina, envolta em crises permanentes para as quais busca refúgio em um nacionalismo obsoleto que não poupou os países do bloco.

Com o governo de Néstor Kirchner, primeiro, e Cristina Kirchner, depois, a Casa Rosada tomou todo tipo de medida para impedir o comércio com seu aliado formal do Mercosul, enquanto deixou o flanco aberto a competidores muito mais agressivos, como os chineses. A Argentina passou anos contendo burocraticamente as exportações brasileiras para seu mercado, por meio de licenças prévias de importação e acordos de “restrição voluntária”. Os livros-texto apontam que essas restrições podem provocar desvio de comércio. A China foi seu principal beneficiário.

Em 2009, por exemplo, quando o então presidente Lula começou a retaliar os argentinos com as mesmas medidas protecionistas que tomavam, a Argentina mudou regras de validação de certificados que beneficiavam os brinquedos brasileiros. A China fornecia 79% das importações argentinas desses produtos, mas o governo Kirchner resolveu implicar com seu parceiro comercial, o Brasil, cujas vendas somavam 2,2% das importações. Desde 2005 o Brasil, com as restrições, perde na venda de têxteis enquanto os chineses crescem. A China passou à frente na venda de calçados no fim da década de 2000, eles também sujeitos a licenças prévias. Em 2009, a China recebeu 60% dessas licenças de importação para esse bem, e as empresas brasileiras, 30%.

Que isso tenha sido feito por tanto tempo, por pura decisão unilateral, com o principal parceiro do Mercosul, explica muito sobre por que o bloco mal progrediu após seu forte arranque inicial. O que se viu foi a proteção da baixa produtividade da indústria argentina contra a congênere brasileira, de produtividade um pouco maior, em produtos em que os chineses são melhores que ambos. A falta de visão estratégica, a disparidade de políticas macroeconômicas, as barreiras à livre movimentação de mão de obra e outros objetivos inconclusos do acordo comercial trouxeram perda permanente de mercados para os dois países sem permitir que empresas concorrentes de outros países se instalassem domesticamente para produzir.

A função de um bloco não é armar protecionismos indefensáveis. Em vários setores a China é imbatível. Tarifas existem para equilibrar provisoriamente o jogo em segmentos industriais para os quais há chances de competição a longo prazo - não são todos e é preciso definir quais são estratégicos. Mesmo na indústria automotiva, o coração das trocas bilaterais, a enorme proteção tarifária afastou os chineses sem que tenha havido saltos significativos de tecnologia e competitividade. As exportações de veículos não são o forte do Brasil e da Argentina para fora do bloco.

O resultado é que a China, que ninguém pode controlar, vendeu 21,4% de tudo o que a Argentina importou em 2021, e o Brasil, com o qual a Argentina tem um tratado e é obrigado a negociar, exportou 19,6%. Em 2010, as fatias eram respectivamente de 14,3% e 30%.

Os chineses subiram os degraus de sofisticação tecnológica. Primeiro derrubaram seus competidores nas indústrias tradicionais, como têxteis e calçados, e depois naquelas em que países como Argentina e Brasil poderiam avançar, e não o fizeram. O progresso chinês no Mercosul explica parte da prostração da indústria nas maiores economias da América do Sul.

Valor Econômico

Covid: fim da pandemia? Os países que retiram restrições mesmo com casos ainda altos




Restaurantes na França exigem passaporte de vacina logo na entrada

Depois de semanas com recordes diários de casos e aumento no número de hospitalizações e mortes, alguns países europeus estão flexibilizando regras de combate à pandemia de coronavírus diante de uma aparente tendência de queda no número de infecções.

Reino Unido, França, Holanda, Dinamarca, Espanha, Áustria, Finlândia, Bélgica, Grécia e Suécia estão entre os países que estão flexibilizando regras e buscando um "novo normal" para lidar com a pandemia — com normas que não obriguem as pessoas a viverem isoladas.

Em alguns lugares, como na Holanda, sequer houve uma tendência de queda clara no contágio, mas as autoridades estão sob pressão para reabrir a economia — com muitos setores argumentando que neste momento os problemas gerados por lockdown e restrições são piores do que os criados pelo vírus.

Na terça-feira (1/2), a Organização Mundial da Saúde (OMS) manifestou preocupação com o possível relaxamento de medidas contra o vírus, sem citar países específicos.

"Estamos preocupados que uma narrativa tenha se consolidado em alguns países que, por causa das vacinas e devido à alta transmissibilidade e menor gravidade da ômicron, a prevenção da transmissão não é mais possível e não é mais necessária. Nada poderia estar mais longe da verdade", disse o diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus.

A OMS também alertou que como a variante ômicron é mais infecciosa, contamina mais pessoas - e isso está levando a um aumento no número de mortes. A entidade fez um apelo para os países continuarem realizando testes e sequenciamento do vírus.

Os países têm justificado o relaxamento das medidas alegando que há mais gente vacinada com a terceira dose — que é tida como mais eficaz para combater a variante ômicron. Além disso, muitos países estão adotando "passaportes de vacina" — ou seja, a exigência de comprovantes de vacina para que as pessoas frequentem determinados ambientes.

Boa parte dos países já vacinaram com terceira dose mais de 40% da sua população — chegando a mais de 60% em alguns casos. No Brasil, mais de 20% das pessoas já receberam a terceira dose.

"Estamos um pouco mais confiantes em dizer que podemos relaxar algumas dessas restrições e permitir que as pessoas voltem à vida o mais normal possível", disse o ministro da Saúde da França, Olivier Véran.

Ainda assim, vários países ainda estão no pico de infecções diárias de coronavírus: como França (média de 338 mil novos casos por dia, nos últimos sete dias), Alemanha (153 mil), Holanda (62 mil), Dinamarca (45 mil), Áustria (33 mil) e Bélgica (51 mil). Alguns países já observaram uma queda desde o pico em janeiro, como Itália, Espanha e Reino Unido.

Confira as novas medidas tomadas por alguns países nos últimos dias.

Dinamarca

'Pessoas visitando mercados públicos e lojas não precisam mais usar máscaras na Dinamarca'

Em 18 de dezembro, a Dinamarca havia decretado um lockdown parcial, diante da escalada de casos de ômicron.

Um mês depois, no dia 17 de janeiro, quando a Dinamarca registrou o recorde de casos de coronavírus em um só dia (28.780), as autoridades reabriram cinemas, teatros, museus e outros espaços. Eventos esportivos também foram reabertos ao público, mas ainda com capacidade limitada.

Na segunda-feira (31/1), o governo flexibilizou ainda mais as medidas, declarando que a covid-19 "não deve mais ser considerada como doença socialmente grave" depois desta data.

Agora, máscaras não são mais exigidas em transporte público. Restaurantes podem ficar abertos até a hora que quiserem e não existe mais limite de público para eventos. Passaportes de vacina não estão mais sendo exigidos na maioria dos lugares. Uma das poucas restrições que ainda existe é a de uso de máscaras em lares de idosos.

Na Dinamarca, 85% da população recebeu duas doses da vacina, e 61% receberam a terceira dose de reforço — um dos maiores percentuais do mundo.

Reino Unido

'Uso de máscaras segue sendo obrigatório em alguns lugares, como no transporte público em Londres'

O Reino Unido foi um dos países mais afetados pela variante ômicron. Em poucos dias em dezembro, a média de casos novos de covid-19 saltou da casa de 50 mil por dia para mais de 200 mil. O número de hospitalizações e mortes também subiu, mas em proporção menor.

O governo britânico implementou um "plano B" de combate à ômicron, com a volta de medidas que já haviam sido relaxadas, como o uso obrigatório de máscaras. O Reino Unido intensificou sua campanha para incentivar as pessoas a receberem a terceira dose da vacina e se testarem com frequência. Testes de antígeno são distribuídos gratuitamente para a população.

No Reino Unido, 77% das pessoas receberam duas doses da vacina — e 54% receberam o reforço.

As regras variam no Reino Unido de acordo com a região — mas todas elas têm sido flexibilizadas neste ano. O uso de máscaras ainda é obrigatório no transporte público em alguns lugares (como em Londres e no País de Gales).

O governo está encorajando que todos voltem ao trabalho presencial.

França

'França foi palco de protestos contra passaporte de vacinas, como neste realizado no dia 29 de janeiro'

Fevereiro será o mês da reabertura da França, de acordo com novas regras que entrarão em vigor ao longo do mês. Quase todas as atividades voltarão ao normal. A partir de quarta-feira (2/2), estádios podem operar com capacidade máxima novamente

No entanto, a maioria das atividades exigirá apresentação de comprovante de vacina. O uso de máscaras em lugares fechados também é obrigatório. O governo abandonou a recomendação de que as pessoas trabalhem de casa. As casas noturnas reabrirão na metade do mês.

Segundo as autoridades, o próximo passo para dar fim às restrições contra a pandemia seria abandonar o passaporte de covid, mas ainda não há previsão para que isso aconteça.

Na França, 76% das pessoas receberam as duas doses da vacina — e 47% receberam o reforço.

Holanda

'Bares, restaurantes, teatros e museus ficaram fechados durante a última onda de covid na Holanda'

A Holanda foi um dos países que impôs algumas das maiores restrições durante o surto de ômicron em dezembro. Bares, restaurantes e museus foram fechados.

Os casos diários de covid ainda estão aumentando na Holanda, mas o governo do primeiro-ministro Mark Rutte está sendo pressionado por diversos setores econômicos para permitir uma reabertura.

Trabalhadores e empresários do setor de bares e restaurantes se revoltaram com o fato de que apenas algumas atividades — como academias de ginástica, lojas, salões de beleza e trabalhadores do sexo — tinham recebido em janeiro permissão para voltarem a operar. Alguns museus e teatros chegaram a funcionar como salões de beleza por um dia, como forma de protesto contra o governo.

A reabertura será gradual. Casas noturnas permanecerão fechadas e eventos esportivos e culturais só poderão ser realizados com capacidade limitada, de até 1.250 pessoas.

Cerca de 90% dos holandeses foram vacinados — e 48% receberam a terceira dose.

Espanha

Desde 29 de janeiro, a Espanha voltou a permitir que as pessoas frequentem bares e restaurantes sem restrições. Nem mesmo a comprovação de vacinação é mais necessária.

As pessoas podem voltar a se encontrar livremente — sem a restrição de até dez pessoas em ambientes fechados.

A estratégia é parte do esforço do governo de Pedro Sánchez para começar a tratar a covid-19 como uma gripe e não como uma epidemia, como tem sido até agora.

A ideia é deixar de tratar a covid como uma crise e adotar um modelo de "controle", como o que acontece com outras doenças, como sarampo.

A Espanha tem um dos maiores índices de vacinados da Europa — 82% das pessoas receberam duas doses, e 46%, a terceira.

Áustria

A partir de sábado (5/2), lojas e restaurantes poderão voltar a funcionar até meia-noite na Áustria.

O país havia adotado uma quarentena para pessoas não-vacinadas. Agora o lockdown foi encerrado para todos — vacinados ou não.

Mas a Áustria se tornou o único país europeu a obrigar todos seus cidadãos a se vacinarem. A obrigação vai entrar em vigor na quinta-feira (3/2) e expirará em janeiro de 2024, podendo ser encerrada antes, se a pandemia permitir. As autoridades só começarão a verificar o estado de vacinação das pessoas a partir de meados de março.

Aqueles que se recusarem a tomar vacina contra covid enfrentarão multas que variam de 600 a 3.600 euros (R$ 3,5 mil a R$ 21 mil). Algumas pessoas podem obter isenção da obrigação, entre elas mulheres grávidas.

Cerca de 72% dos austríacos são totalmente vacinados — 48% com a dose de reforço.

Outros países

A Finlândia disse que seu sistema de saúde ainda está sob pressão, com grande número de hospitalizações, mas que houve uma queda nos casos mais graves. Por isso, o país está aumentando o horário permitido para abertura de restaurantes. Bares ainda precisam fechar até 18h.

A Grécia voltou a permitir que restaurantes e bares tenham música, também com horários mais flexíveis. O uso de máscaras segue sendo obrigatório em supermercados e transporte público, e eventos esportivos seguirão limite de capacidade de público.

Medidas semelhantes foram adotadas pela Bélgica, onde 89% das pessoas receberam duas doses da vacina e mais de 65% receberam a terceira.

A Suécia relaxou algumas medidas, reduzindo de sete para cinco dias o isolamento necessário para quem vive com alguém que testou positivo para covid. O país vem enfrentando escassez de trabalhadores essenciais, como policiais e funcionários do setor de saúde.

Na Alemanha, onde o número de casos segue em alta, empresários têm pedido que o governo estabeleça uma data para pôr fim a algumas restrições. O próprio ministro das Finanças, Christian Lindner, disse que é necessário abrir um diálogo para reabertura da economia.

Pressões semelhantes acontecem na Suíça, onde um estudo indica que 40% das empresas do país estão sofrendo com falta de funcionários devido à covid.

BBC Brasil

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