sábado, setembro 04, 2021

A podridão que emana do clã Bolsonaro emporcalha o ar de Brasília

 



Afinal, deu para entender por que o presidente Jair Bolsonaro aconselhou os brasileiros a comprarem fuzil ao invés de feijão, e falou que o futuro lhe reserva a prisão, a morte ou a vitória.

Por Ricardo Noblat (esq.)

A vitória nas eleições do ano que vem lhe parece cada vez mais distante. O governo já não governa, desmancha-se. A saúde de Bolsonaro não é boa, mas o risco de que morra é pequeno.

Na verdade, ele borra-se de medo de ser preso ao fim do mandato, ou de assistir, antes, à prisão de um dos seus filhos zero. Jura que os protegerá, abrigando-os no Palácio da Alvorada. Mas e daí?

Até quando poderia se negar a cumprir uma eventual ordem de prisão da Justiça? Melhor seria tirá-los do país às escondidas e despachá-los para um exílio vexaminoso.

Bolsonaro elegeu o Supremo Tribunal Federal para saco de pancadas, mas é no Rio que o perigo está e não no deserto do Planalto Central. Aqui é só um puxadinho do inferno para ele.

Avançam as investigações sobre a roubalheira de dinheiro público que o envolve, aos seus quatro filhos homens e a uma de suas ex-mulheres. O país está atônito com as novas revelações.

“Brasília fede”, estampou a manchete do Correio Braziliense no final dos anos 1970, quando o Lago Paranoá emanava miasmas fétidos que incomodavam os moradores da área nobre da cidade.

Desta vez o que fede é o clã que chegou ao poder há quase 3 anos. Quem se lembra de Eriberto, o motorista que ajudou a derrubar Collor? E de Francenildo, o caseiro que ajudou a derrubar Palocci?

Marcelo Luiz Nogueira dos Santos, que trabalhou por 14 anos para a família Bolsonaro, jogou mais lenha na fogueira em que ardem os Bolsonaros ao contar o que viu ao Metrópoles.

Enquanto foi lotado no gabinete de Flávio Bolsonaro na Assembleia Legislativa do Rio entre 2003 e 2007, alega ter devolvido 80% de tudo o que recebeu no período – 340 mil reais.

Em seguida, primeiro em Resende, no Rio, e nos últimos meses em Brasília, virou uma espécie de babá de Jair Renan, filho de Ana Cristina Siqueira Valle com Bolsonaro.

Segundo ele, Ana Cristina foi quem precedeu Queiroz na tarefa de recolher as rachadinhas não só no gabinete de Flávio, mas também no de Carlos, eleito vereador da Câmara do Rio em 2000.

Somente depois da separação de Jair e Ana Cristina, em 2007, Flávio e Carlos assumiram a responsabilidade pelo recolhimento dos valores dos funcionários de seus gabinetes.

O patrimônio de Ana Cristina, em 2020, era estimado em R$ 5 milhões. Ela não alugou a mansão onde mora, hoje, no Lago Sul, em Brasília, mas a comprou usando testas de ferro.

Ana Cristina joga pesado. Mensagens de celular em posse da CPI da Covid indicam que, a pedido de um lobista, ela acionou o governo para influenciar em nomeações de órgãos públicos.

As mesmas mensagens mostram que Jair Renan, ao invés de trilhar os caminhos ditados pela legislação, recorreu à ajuda de um lobista para abrir em Brasília sua empresa de eventos esportivos.

Quem puxa aos seus não degenera, mas em alguns casos, justamente por puxar, degenera sim. Daí os fétidos miasmas que voltam a emporcalhar o ar sempre tão carregado de Brasília.

Jornal Metrópoles

Grupo bolsonarista alvo do STF tem acesso ao Planalto




Eles saem às ruas desde 2019, primeiro ano do governo de Jair Bolsonaro, para apoiar temas de interesse do presidente e, a exemplo do chefe do Executivo, atacam as instituições. Em uma demonstração de amplo acesso ao Palácio do Planalto, integrantes do Movimento Brasil Verde e Amarelo, um dos grupos que organizam os atos bolsonaristas de 7 de Setembro, já apareceram em vídeos e fotos com ministros e foram chamados pelo titular do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), general Augusto Heleno, de “nosso pessoal”.

Uma ala do movimento está agora sob a mira do Supremo Tribunal Federal (STF) por “incitação à prática de atos violentos e ameaçadores contra a democracia”. O presidente da Associação Brasileira dos Produtores de Soja (Aprosoja), Antônio Galvan, por exemplo, foi alvo de um mandado de busca e apreensão expedido pelo ministro do STF Alexandre de Moraes. Suspeito de financiar atos contra a Corte para o 7 de Setembro, Galvan está proibido de se aproximar da Praça dos Três Poderes.

Não é a primeira vez que Galvan está envolvido em convocações para atos contra o Supremo. Em março, o presidente da Aprosoja apareceu ao lado de Augusto Heleno e do secretário de Assuntos Fundiários do Ministério da Agricultura, Nabhan Garcia, para falar sobre manifestações que aconteceriam no dia 15 de maio. “Eu sugeri ao doutor Galvan que faça um manifesto, coisa escrita, que não mobilize gente, mobilize ideias, para colocar essas ideias para julgamento do nosso pessoal”, disse o general na ocasião. Estou falando em ‘nosso pessoal’ porque eu acho o agronegócio muito importante. Nós sabemos o que seria a manifestação do agronegócio do nível que foi pensado aqui”, justificou Heleno.

A manifestação mais recente do Movimento Brasil Verde e Amarelo foi justamente em 15 de maio. Em Brasília, produtores rurais defenderam pautas do governo. À época, um dos principais motes da mobilização era “o fim das políticas de lockdown” adotadas para conter a disseminação da covid-19, além do voto impresso e do coro por “um Supremo decente”. Bolsonaro foi à Esplanada receber os manifestantes, acompanhado de ministros.

Para o líder do governo na Câmara, Ricardo Barros (Progressistas-PR), não é o Palácio do Planalto que tem “agitado” a harmonia entre os Poderes, mas, sim, o Judiciário. “Coragem para brigar com o Judiciário poucas pessoas têm. É preciso entender que há um processo intimidatório”, disse ele. “Estou confiante de que haverá uma manifestação muito grande no 7 de setembro, mas pacífica, demonstrando esse apoio ao presidente.”

Os temas defendidos pelo Movimento Brasil Verde e Amarelo mudaram. Em maio de 2019, a principal pauta eram as reformas da Previdência e tributária e o pacote anticorrupção, que não avançou no Congresso. “Reformar para não parar”, dizia o slogan dos atos.

Desde o ano passado, no entanto, o foco do grupo tem sido o apoio a Bolsonaro nos ataques às instituições. Os principais articuladores do movimento, composto por associações de produtores rurais, são a Aprosoja e a Associação Nacional de Defesa dos Agricultores, Pecuaristas e Produtores da Terra (Andaterra). As organizações representam sindicatos de produtores de vários Estados.

No último dia 10, Galvan, da Aprosoja, esteve no gabinete da secretária especial de Articulação Social, Gabriele Olivi, no Planalto. A pasta é vinculada à Secretaria de Governo, comandada pela ministra Flávia Arruda. A agenda oficial informou que a pauta do encontro foi o Movimento Brasil Verde e Amarelo. Galvan estava acompanhado da mulher e de um ex-diretor executivo da Aprosoja.

Diretor jurídico da Andaterra e integrante do Brasil Verde e Amarelo, Jeferson Rocha tem feito postagens de apoio a Galvan nas redes. “Somos todos Galvan”, escreveu ele no dia 23. Cinco dias depois, Rocha fez uma transmissão ao vivo na internet para reclamar da decisão do presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (DEM-MG), que rejeitou o pedido de impeachment do ministro Alexandre de Moraes apresentado por Bolsonaro. “O que nós vamos ver na próxima semana é o protocolo de novos pedidos de impeachment que vão apontar a suspeição e o impedimento de Rodrigo Pacheco”, afirmou Rocha. Antes disso, em 26 de junho, ele gravou e postou um vídeo ao lado do presidente da Caixa, Pedro Guimarães, agradecendo pela abertura de agências.

Divisão

Na direção oposta dessa ala do setor, representantes do agronegócio divulgaram nesta semana um manifesto em defesa do estado democrático de direito. O documento não cita Bolsonaro, mas fala em uma sociedade “permanentemente tensionada em crises intermináveis ou em risco de rupturas institucionais”. O manifesto foi divulgado após a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) recuar e adiar a divulgação de texto em que prega a harmonia entre os Poderes.

Rocha, da Andaterra, criticou o manifesto. “O agro da Avenida Paulista, da Faria Lima e dos oligopólios formados às custas do dinheiro do contribuinte vem se manifestar a favor da democracia, como se nós estivéssemos nos manifestando contra”, afirmou ele em entrevista.

O deputado Sergio Souza (MDB-PR), coordenador da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), disse ao Estadão que a bancada ruralista não participa dos movimentos. “A FPA tem uma pauta específica, que é cuidar dos projetos do Parlamento para garantir segurança jurídica”, afirmou Souza.

Procurado, o Planalto não se manifestou. Em nota, a Aprosoja disse que dará apoio institucional ao ato de 7 de Setembro, “sem aporte financeiro”. Os outros integrantes do Brasil Verde e Amarelo citados não responderam aos contatos da reportagem. 

Estadão / Dinheiro Rural

O novo ‘nós e eles’

 




O PT uniu o ‘nós’, Bolsonaro rachou o ‘eles’: centro, direita, classe média e o capital

Por Eliane Cantanhêde (foto)

Se o PT instalou o “nós contra eles” no País, o governo Jair Bolsonaro conseguiu reunir de novo o “nós” e rachar o “eles”: o empresariado, o setor financeiro, o agronegócio, as PMs, as Forças Armadas, as igrejas, a classe média, o centro e a direita. E assim chegamos ao “nós” do PT contra um “eles” fracionado, difuso, um estouro da boiada.

Um bom exemplo vem de Minas Gerais, Estado politizado e avesso a radicalismos. De um lado, a Federação das Indústrias (Fiemg) fez um manifesto com uma leitura tão enviesada quanto absurda da realidade quanto a de Bolsonaro. De outro, duas centenas de empresários e executivos defendem a real democracia.

No seu “Manifesto pela Liberdade”, que confunde já no título, a Fiemg vê ataques do Supremo aos direitos individuais e à liberdade de expressão, quando a Corte faz o oposto: age para conter blogueiros, parlamentares e alucinados que pregam invadir o Supremo, atacar os ministros, desacreditar as eleições e incendiar o País com revólveres e fuzis. Isso não é “liberdade de expressão”, é crime.

Empresários e executivos mineiros se descolaram da Fiemg para defender um “grande pacto pelo Brasil” e defender a democracia: “A ruptura pelas armas, pela confrontação física nas ruas, é sinônimo de anarquia, que é antônimo de tudo quanto possa compreender uma caminhada serena, cidadã e construtiva. A democracia não pode ser ameaçada; antes, deve ser fortalecida e aperfeiçoada”.

As duas manifestações ocorrem depois do vexame que a Fiesp impôs a empresários, a banqueiros e à própria Febraban, desistindo de um manifesto pró-paz e democracia para agradar ao rei – o rei da guerra, diga-se. Nesse caso, quem se descolou foram os setores modernos, responsáveis e democráticos do agronegócio. O “PIB nacional” se dividiu entre sabujos e altivos.

Significa que Jair Bolsonaro dividiu a direita nacional, fortalecendo o seu núcleo duro, da direita tosca, belicista, atrasada e antissocial, e empurrando para a luz a direita realmente liberal, que quer desenvolvimento, progresso, educação, inclusão, proteção do meio ambiente e, sobretudo, paz. Paz entre Poderes e entre os entes da Federação. Paz para viver, produzir, empregar.

É urgente que a divisão, entre paz e guerra, fique explícita nos ambientes armados, onde só um lado aparece, como se viu nesta quinta-feira, 2, no Estadão: “Adesão da PM ao bolsonarismo radical cresce nas redes sociais”. Segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, a adesão às teses extremistas cresceu 29% nas PMs. Muito grave, quando Bolsonaro opera para retirar o controle dos governadores sobre as PMs dos Estados.

Com raras e dignas exceções, PMs têm se confundido com o que há de pior no bolsonarismo: desordem, quebra de hierarquia, ameaças de tiros, invasões e ataques a instituições. Não é coisa de polícia e, sim, de bandidos. A maioria silenciosa não pode compactuar com o desvio, o caos. E tem de botar a cara, como os setores do agronegócio, mas sem infringir as regras.

Nas Forças Armadas, quem expôs a divisão foi o próprio Bolsonaro, ao demitir toda a cúpula militar. E, na Polícia Federal, há muita ebulição após o presidente demitir o diretor-geral, ser acusado pelo então ministro Sérgio Moro e alvo do STF por interferência política no órgão. O foco e as operações continuam. Política, política, polícia à parte. Até quando?

A dúvida no ar, incômoda, aflitiva, é o que Bolsonaro pretende ao radicalizar cada vez mais, abandonar de vez o governo e brincar de motos e cavalos na hora do expediente, enquanto surgem notícias desabonadoras sobre o 01, o 02, o 03, a ex e agora até o 04. Usar um lobista da Precisa Medicamentos para criar uma empresa?! Ao radicalizar mais e mais, Bolsonaro racha o País para tentar esconder sua própria realidade.

O Estado de São Paulo

Pele de cordeiro

 




Jair Bolsonaro cultiva viva a perspectiva de ruptura, por mais improvável que seja

Por Dora Kramer

É clássica a cena do bandido que bate a carteira do transeunte e sai gritando “pega ladrão” para tentar enganar a polícia e assumir o lugar da vítima. A imagem é muito usada para ilustrar inversão de valores em discursos políticos e se adéqua perfeitamente ao figurino adotado pelo presidente Jair Bolsonaro e companhia nos preparativos das manifestações do próximo dia 7.

A data pode ou não prenunciar um setembro negro. Vai depender de as multidões — sim, a coisa está sendo preparada para impressionar — incorporarem a troca de papéis mostrando-se convincentes na transmutação de defensores da repressão em vítimas da opressão.

Será bonito de ver. A começar do capitão da banda, será preciso uma dose oceânica de autocontrole geral. Os ativistas de variadas causas, entre caminhoneiros, evangélicos, policiais, militares, ruralistas e motociclistas, terão de evitar dar um pio sequer sobre a deposição de ministros do Supremo Tribunal Federal “na marra”.

Falar em quarteladas e invasões, nem pensar. A palavra “golpe” poderá ser dita, desde que aplicada na contramão, para firmar fileiras contra os que lhes querem tolher a liberdade de se expressar violentamente em prol de um país de administração militar.

Nesse Brasil tido como ideal a imprensa é risonha e franca, o Legislativo aprova impeachments de juízes desafetos, não importuna o governo com CPIs, e o Judiciário faz as vontades do presidente. De acordo com a novilíngua da turma, na independência dessa gente é que germina o autoritarismo, viceja a intolerância.

Ameaças explícitas à possibilidade de não realização de eleições em 2022 devido à rejeição do voto impresso na Câmara ficam de fora do manual. Ora, ora, ninguém quer melar se o resultado for adverso, não é mesmo? Vai se falar no assunto, mas apenas como garantia de maior segurança, jamais para desqualificar o sistema em vigor nem colocar a Justiça Eleitoral sob suspeita a fim de sustentar a escrita da fraude anunciada.

“Batedores da carteira da democracia gritam ‘pega ladrão’ em tardia e inútil troca de papéis”

O guia da ocasião dita que nada há de impróprio ou intimidador na presença de policiais como manifestantes em defesa da democracia que lhes convém. Afinal, estarão à paisana e, se porventura comparecerem armados, estarão no direito de cidadãos autorizados ao porte e de todo modo precavidos para quaisquer eventualidades.

Parte nobre do roteiro é a afirmação em prol da legalidade. Para efeito de propaganda enganosa fica combinado que aos militantes da causa bolsonarista não interessa nenhum tipo de ruptura, mas… ninguém é de ferro. A palavra de ordem é o respeito à Constituição, mas… tudo tem limite. São palavras ditas e repetidas pelo chefe a quem o futuro se desvenda como morte, prisão ou vitória. Só não põe em cena a derrota, num indicativo de que não vai dar trégua.

E aí mora o xis da questão. A conjunção “mas” introduz frases de significado oposto ao dito na oração anterior, funciona como senha a autorizar de maneira dissimulada a exacerbação. Esta, por mais que o momento seja de gritar “pega ladrão”, abriga sem disfarces a natureza do escorpião.

Daí a razão do estado de alerta permanente — mais que isso, crescente — das autoridades, em cujos radares já entrou a possibilidade de o presidente da República não cumprir decisões judiciais, tachando-as de “ilegais”. Leva-se em conta também a hipótese de Bolsonaro não atender a pedidos de ajuda de governadores para conter possíveis distúrbios no ambiente eleitoral.

Diante disso, estaria criado o desejado (por ele) impasse para o qual, apontam ex-ministros da Defesa, não haveria previsão legal. A solução estaria, segundo recente artigo do ministro Ricardo Lewandowski, na aplicação de preceitos da Constituição contra patrocinadores da quebra da legalidade. Em tese, tudo certo. Na prática, porém, uma situação de excepcionalidade estreita o espaço da tomada de decisões referidas na lei. Em circunstância de insegurança pública, a sociedade pode se tornar mais tolerante a medidas autoritárias.

Jair Bolsonaro cultiva viva a perspectiva de ruptura, por mais improvável que seja. Ele é fruto da desorganização social, do extremismo político e da desarticulação dos partidos. Não tem interesse algum em organizar nem pacificar. Planta nascida do lodo, é no ambiente do pântano que o presidente do Brasil vê suas chances de sobreviver.

Revista Veja

Como líderes evangélicos usam redes para apoiar ato pró-Bolsonaro

 



Pastor Silas Malafaia é um dos principais responsáveis por convocar evangélicos para sete de setembro

Por Vinícius Lemos, em São Paulo

"Dia sete de setembro só devem ficar em casa as pessoas que estão enfermas, que têm comorbidades sérias ou aqueles que querem ser escravizados vivendo sem liberdade", afirma o pastor Samuel Munguba Júnior em um vídeo compartilhado em suas redes sociais no início deste semana.

Ele declara que as pessoas devem ir às ruas na próxima terça-feira (07/09) para lutar a favor do país, da família e dos princípios de Deus. Discursos semelhantes têm sido adotados por outros líderes evangélicos nas redes sociais para convocar os fiéis para a manifestação pró-Bolsonaro.

Um dos principais representantes do segmento é o pastor Silas Malafaia. Em 23 de agosto, ele compartilhou um vídeo no qual líderes evangélicos convocam os fiéis para o ato na Avenida Paulista.

"Eu estou capitaneando, sim. Estou na frente disso, chamando tudo que é líder. E nunca, na história desse país, os evangélicos se mobilizaram para um ato como esse", diz Malafaia à BBC News Brasil. Segundo ele, evangélicos de todo o país estão se organizando para participar de manifestações em suas cidades.

Os evangélicos, que segundo pesquisas recentes compõem cerca de 30% da população brasileira, representam um grupo significativo para Bolsonaro. Uma pesquisa Datafolha de maio deste ano apontou que 24% da população em geral considera o governo ótimo ou bom. Já apenas entre a população evangélica, esse número corresponde a 33%.

Em 2018, a pesquisa Datafolha na véspera do segundo turno projetou que sete em cada 10 eleitores evangélicos votariam em Bolsonaro contra o petista Fernando Haddad.

Em maio deste ano, a pesquisa Datafolha ilustrou um cenário diferente de 2018 entre o bolsonarismo e as igrejas evangélicas. O levantamento mostrou que 35% dos evangélicos escolheriam o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva em um primeiro turno. Já Bolsonaro teria 34% dessa população. Conforme a pesquisa, cada candidato tem 45% das intenções de voto desses religiosos em um eventual segundo turno entre os dois.

"Existe um desembarque das forças em torno do bolsonarismo. Cada vez mais, o Bolsonaro está restrito ao que chamamos de bolsonarismo raiz, grupo do qual os evangélicos fazem parte", aponta Vinícius do Valle, doutor em ciência política pela Universidade de São Paulo (USP).

"Mas os evangélicos representam um grupo muito heterogêneo no Brasil. Nas eleições de 2018, o Bolsonaro conseguiu certa hegemonia entre os evangélicos e manteve isso por muito tempo, mas hoje está em crise. Hoje a gente não vê a quantidade de pastores defendendo o Bolsonaro como antes da pandemia", acrescenta Valle, que há uma década estuda a relação entre política e as igrejas evangélicas.

No meio evangélico, há pastores que se manifestaram contra a presença de fiéis na manifestação de sete de setembro.

"Todo esse movimento tem por finalidade ameaçar as instituições do nosso país. Essas pessoas defendem o fechamento do STF (Supremo Tribunal Federal), essas pessoas defendem o fechamento do Congresso Nacional. Logo, essas pessoas agem contra a democracia, contra o estado democrático de direito", declara o pastor Rodrigo Coelho, do Rio de Janeiro, em um vídeo compartilhado nas redes sociais.
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'Em todo o Brasil vai ter evangélico na rua'

Os líderes religiosos estão organizando, segundo o pastor Malafaia, meios de transporte para os fiéis, bandeira e faixas para participarem de atos em São Paulo, Brasília ou em outras cidades pelo país.

"Isso vai ser em todo o Brasil. Em todo o Brasil vai ter evangélico na rua. Não é só em São Paulo e no Rio de Janeiro. Vai ter caravana de tudo quanto é jeito no Brasil", afirma Malafaia.

'Pastor convocou fiéis para participar de ato e disse que só deveria ficar em casa quem tem algum problema de saúde ou aqueles que querem ser escravizados'

"Aqui no Rio de Janeiro, estamos colocando um trio elétrico gigante. Mas isso não tem nome de igreja, porque igreja é acima disso. Nós, cidadãos, é que somos evangélicos, então não vai ter nome de igreja nenhuma", completa o pastor.

Malafaia argumenta que a convocação dos fiéis para os atos é fundamental porque, segundo ele, atualmente a liberdade de expressão está em jogo no país.

"Estamos vendo o STF rasgar a Constituição, uma das coisas mais vergonhosas, e com a conivência da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil), da ABI (Associação Brasileira de Imprensa) e de grande parte da mídia", declara.

O "ataque à Constituição Federal" ao qual Malafaia e outros líderes evangélicos utilizam como argumento para a convocação aos atos é referente a decisões recentes do STF, que incomodaram Bolsonaro e seus aliados.

Entre essas decisões estão medidas como uma determinação do ministro do STF Alexandre Moraes, no início de agosto, para incluir o presidente Jair Bolsonaro entre os investigados no inquérito sobre divulgação de informações falsas.

Outro ponto criticado por religiosos bolsonaristas são as investigações da Polícia Federal sobre ataques de "milícias digitais". Segundo as apurações, são atos feitos para desestabilizar instituições como o STF e atentar contra a democracia. Em meados de agosto, o ex-deputado Roberto Jefferson foi preso após as investigações apontarem que ele é parte do núcleo político desse grupo.

Apesar de muitos pastores não citarem o presidente nas convocações dos fiéis nas redes sociais para os atos, o discurso desses líderes religiosos é totalmente alinhado ao de Bolsonaro. Outra pauta que eles defendem, a favor do presidente, é o voto impresso, derrotado na Câmara dos Deputados.

"Claro que sabemos que também é (ato) de apoio ao presidente. É evidente", afirma Malafaia.

'Presidente Jair Bolsonaro tem os evangélicos entre os seus principais apoiadores'

"A igreja não apoia ninguém. Nós, evangélicos, apoiamos. Nós, evangélicos, não vamos participar de ato de partido político. Mas (ato) de apoio ao presidente, vamos participar. Não tenha dúvida nenhuma", acrescenta o pastor.

Malafaia destaca que uma das maiores movimentações entre evangélicos em sete de setembro deve ocorrer em Manaus (AM). O pastor afirma que os evangélicos da região esperam que 500 mil pessoas saiam às ruas da capital amazonense na manifestação pró-Bolsonaro.

O pastor Renê Terra Nova, de Manaus, também tem feito diversas publicações em suas redes sociais para convocar os fiéis para o ato na terça-feira.

Terra Nova afirma que está apoiando o Brasil, mas diz que no atual contexto isso significa que precisa estar ao lado de Bolsonaro.

"No atual cenário, o governo Bolsonaro está lutando pelo país, e esse é o sonho de qualquer cidadão sério. O Governo Bolsonaro está com nosso apoio, mas não estamos indo às ruas por causa de uma pessoa, mas por causa da plataforma que defendemos - Deus, Pátria e Família, e a nossa liberdade", diz Terra Nova à BBC News Brasil.

Para convencer os fiéis, o discurso dos líderes costuma ser extremo, como o de Munguba Júnior que afirma que aqueles que não participarem do ato querem ser escravizados.

"Quando falo sobre uma possível escravidão, estamos defendendo a liberdade do povo. Vamos fazer oração no local (do ato) pedindo para que Deus nos livre do comunismo. Se o comunismo for implantado, seguramente a liberdade vai embora", diz Munguba à BBC News Brasil.

A "ameaça comunista", segundo o pastor, se tornará real se um partido de esquerda como o PT for eleito para governar o país. Esse argumento é utilizado por religiosos bolsonaristas para reforçar a ideia de que a participação nos atos é uma espécie de "luta do bem contra o mal".

Munguba, que é de Fortaleza (CE), afirma que o vídeo que publicou para convocar para os atos vale para todo o país, pois argumenta que sua igreja, Seven Church, é acompanhada por fiéis de diferentes regiões do Brasil.

'Somos cristãos, mas não defendemos o que essas pessoas defendem'

As convocações de Malafaia e seus aliados incomodaram pastores que compõem o Movimento Resistência Reformada, um grupo de lideranças evangélicas que se opõe às medidas de Bolsonaro.

"Somos cristãos, mas não defendemos o que essas pessoas defendem, por isso nos posicionamos. Não queremos, de forma alguma, que o Brasil se torne uma teocracia, que é o que essas lideranças almejam. Isso tudo é lamentável", declara o pastor Rodrigo Coelho, líder do Resistência Reformada.

'Pastor Rodrigo Coelho divulgou vídeo para pedir que fiéis não participem de atos pró-Bolsonaro'

Quando notaram o crescente apelo de líderes como Malafaia para que os fiéis participassem das manifestações, os membros do movimento, cerca de 100 líderes religiosos no Brasil e alguns do exterior, publicaram um vídeo contrário a isso.

"Você, nesse lugar, é tão somente massa de manobra, tão somente uma pessoa sendo manipulada (por pastores bolsonaristas) para que essas pessoas possam permanecer no poder e permanecer com os seus privilégios. Não se permita isso. Não se permita ser cooptado por essa gente", diz Coelho, em trecho de vídeo compartilhado por ele nas redes sociais.

O pastor argumenta que o principal objetivo do movimento é defender os direitos humanos e se posicionar contra os "desmandos do Bolsonaro" e de seus aliados.

"O movimento nasce no contexto do governo Bolsonaro, mas vai além dele, porque a gente crê que o governo Bolsonaro vai passar. Decidimos nos posicionar (contra o ato de sete de setembro) porque é um absurdo o que acontece no Brasil, sobretudo o apoio de parte da igreja evangélica", declara Coelho.

"O Silas já apoiou toda a classe política, de direita ou esquerda, e me parece fazer qualquer coisa para estar no poder e ter privilégios de quem transita no Palácio (do Planalto). Mas na verdade, a gente entende que lugar de profeta é fora do Palácio, denunciando quem faz coisa errada", completa.

Os vídeos de religiosos convocando para os atos alcançaram mais de um milhão de visualizações nas diferentes redes sociais. Coelho não tem dados exatos sobre o alcance do vídeo feito por ele contra os chamados para esses atos, mas admite que a visualização foi muito menor.

"A gente faz isso de forma orgânica, enquanto esse pessoal (como Malafaia) patrocina os posts. Esse pessoal está desesperado porque o governo, a cada dia mais, enfrenta momentos ruins", declara.

"Porém, estamos satisfeitos em saber que chegamos em vários lugares com o nosso vídeo. Várias pessoas do Brasil têm entrado em contato para manifestar apoio. Isso prova que nas igrejas evangélicas há pessoas que não estão alinhadas a essas lideranças religiosas e a esse governo", completa o pastor.

Evangélicos e Bolsonaro

O racha entre evangélicos sobre o apoio a Bolsonaro não abala aqueles que têm convocado os atos a favor do presidente.

'Pesquisas apontam queda no apoio de evangélicos a Bolsonaro'

Pastores ligados ao presidente afirmam que o apoio ao governo segue em alta entre esses religiosos. Malafaia diz, apenas com base em experiência própria, que cerca de 80% dos evangélicos apoiam Bolsonaro.

"Conheço o mundo evangélico. Isso é uma piada (as pesquisas que indicam queda no apoio ao presidente entre os evangélicos). Tenho acompanhado o Bolsonaro em vários lugares. No mínimo, uns 50% das pessoas que estão em aeroportos e nos lugares em que o presidente está são evangélicos", declara Malafaia.

Especialistas ressaltam que a retórica de Bolsonaro de ser perseguido injustamente enquanto tenta combater um mal maior, que seria a esquerda ou uma "constante ameaça comunista", vai no sentido do que as igrejas evangélicas pregam entre os fiéis da luta do bem contra o mal.

No atual cenário, segundo o cientista político Vinícius do Valle, o presidente tenta resgatar o discurso de que se trata do bem contra o mal no Brasil para tentar reunir o maior número de apoiadores. "Ele diz que os bolsonaristas podem salvar o presidente do mal se forem contra o STF", diz o especialista.

"Os evangélicos surgem como uma das poucas forças que permanecem fiéis ao presidente, como os militares e muitos ruralistas, ainda que de forma reduzida atualmente", acrescenta Valle.

O especialista ressalta que as inúmeras convocações de líderes religiosos não significam a garantia de presença massiva dos evangélicos nos atos de sete de setembro.

"Os evangélicos não seguem à risca os posicionamentos dos pastores. Além disso, dentro da própria igreja há diferentes lideranças, que nem sempre seguem o mesmo posicionamento. O pastor que fala diretamente com o público nem sempre tem o mesmo discurso do pastor que é presidente da igreja", afirma Valle.

Além disso, fatores como a alta do desemprego, a crise econômica e o aumento dos preços de itens básicos têm feito, conforme os especialistas, com que muitos evangélicos abandonem o bolsonarismo.

O cientista Felipe Nunes, da Quaest, empresa de inteligência de dados, afirma que o eleitor brasileiro é mais pragmático do que ideológico. "O brasileiro avalia o seu bem-estar. No atual momento, com a qualidade de vida caindo, com o aumento da inflação, falta de crescimento econômico e a percepção de que as coisas não vão melhorar, isso tudo recai sobre a imagem do presidente", diz à BBC News Brasil.

Em razão disso, segundo ele, uma parcela dos mais pobres entre os evangélicos começou a se afastar do presidente. "Um resultado econômico ruim leva os evangélicos mais pobres a sofrer na carne com tudo o que está acontecendo e colocam na conta do presidente", explica Nunes.

BBC Brasil

Tucano: Amab defende juíza que condenou advogadas por ação em nome de falecida

Tucano: Amab defende juíza que condenou advogadas por ação em nome de falecida
Foto: Museu do Cumbe

A Associação dos Magistrados da Bahia (Amab) declarou apoio à juíza Sirlei Caroline Alves Santos, substituta na comarca de Tucano, na região sisaleira do estado, após insatisfação de duas advogadas por conta de uma decisão judicial. Segundo a Amab, as advogadas ingressaram com uma ação em nome de uma idosa que havia falecido mais de um ano antes da demanda. A juíza condenou as duas advogadas por litigância de má-fé.

 

Conforme informa a Amab, a ação foi apresentada em dezembro de 2019, a partir de uma procuração assinada em junho de 2018. O processo versava sobre descontos indevidos no benefício de uma senhora. No entanto, em abril de 2020, o banco informou que a pessoa já era falecida, informação confirmada pelo juízo ao ter acesso à certidão de óbito, de setembro de 2018.

 

Em nota apresentada pela OAB local, as advogadas alegam que não sabiam do falecimento da cliente, o que justificaria a propositura das ações, o que não se mostra razoável, considerando a data da procuração, do óbito e do ingresso em juízo das ações. A juíza, ao considerar que as advogadas dolosamente ingressaram com ação após o falecimento da autora, tentando induzir o juízo em erro, determinou multa por litigância de má-fé de 10% do valor da causa, além de honorários fixados de 20%. Também determinou que a Ordem dos Advogados do Brasil - Seção Bahia (OAB-BA) fosse oficiada para apurar os crimes praticados.

Para a Amab, a situação se agrava com a “posição corporativista da OAB/Serrinha, através do seu representante, ao desconsiderar a ilegalidade e a gravidade dos fatos, principalmente diante de situações similares ocorrentes em outros juízos”. “Cabe reafirmar que prerrogativas não estão acima da lei, muito menos quando as ações trazem indícios de cometimento de crimes, que exigem apuração, qualquer que sejam seus autores”, diz a Amab em nota.

A entidade afirma que é estranho a tentativa de suspeição da magistrada para continuar a atuar nas demandas sob patrocínio das advogadas, “em claro artifício para afastar uma juíza operante e responsável do julgamento de feitos, a partir do momento em que suas decisões não agradarem a qualquer das partes ou seus advogados, numa clara atitude de intimidação e tolhimento à sua independência funcional”. Por fim, a Amab salienta que outras ações movidas pelas advogadas foram acatadas pela juíza, “o que revela a imparcialidade, a tecnicidade da magistrada e o compromisso com o jurisdicionado, ao contrário do quanto informado na nota”.

Bahia Notícias

OAB questiona TJ-BA qual sistema substituirá LifeSize em audiências virtuais

OAB questiona TJ-BA qual sistema substituirá LifeSize em audiências virtuais
Foto: Cláudia Cardozo / Bahia Notícias

A seccional baiana da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB-BA) questionou o Tribunal de Justiça da Bahia (TJ-BA) qual ferramenta substituirá o LifeSize, utilizado pelos advogados e magistrados para realização de audiências virtuais durante a pandemia. A OAB tomou conhecimento do término de utilização gratuita da plataforma que agora exige que os advogados paguem para utilizar o sistema. 


Para Fabrício Castro, é importante que o TJ-BA mantenha o uso de uma plataforma gratuita e de fácil acesso aos advogados e aos cidadãos para a realização de  audiências, sessões de julgamento, atendimentos de magistrados e balcão virtual. A ferramenta LifeSize foi adotada pelo TJ no início da pandemia, e até então, não havia informações sobre o tempo de uso gratuito do sistema. 

Bahia Notícias

Alessandro Vieira apresenta requerimento para convocar ex-mulher de Bolsonaro à CPI


Alessandro Vieira apresenta requerimento para convocar ex-mulher de Bolsonaro à CPI
Foto: Reprodução/Redes Sociais

O Senador Alessandro Vieira (Cidadania-SE) apresentou, nesta sexta-feira (3), requerimento de convocação  à CPI da Covid para que Ana Cristina Siqueira Valle, ex-mulher do presidente Jair Bolsonaro, para esclarecer sobre a relação com lobista Marconny Faria, conforme destaca publicação do site Congresso em Foco.  O senador considera existir diálogos que apontam para a atuação de Ana Cristina na intermediação de interesses de lobistas diante de autoridades públicas.

 

Para Vieira,  mensagens eletrônicas extraídas de um celular, em posse da Comissão, indicam que ela, entrou em contato com o Palácio do Planalto, a pedido de Marconny Faria, para exercer influência no processo de escolha do Defensor Público-Geral da União junto ao então ex-ministro da Secretária Geral da Presidência e atual ministro do Tribunal de Contas da União (TCU), Jorge Carvalho.

 

Marconny Faria atuou como lobista de uma das principais investigadas da CPI da Covid, a empresa Precisa Medicamentos, envolvida na negociação de compra da vacina Covaxin. As mensagens tiveram origem em material sigiloso enviado pelo Ministério Público Federal no Pará, parte de investigação sobre desvios de recursos públicos em órgão ligado à pasta da Saúde.

Bahia Notícias

EUA mostram que é fácil invadir um país, mas é dificílimo sair se for derrotado

Publicado em 4 de setembro de 2021 por Tribuna da Internet

EUA vão retirar as tropas do Afeganistão até 11 de setembro

O menino e o soldado aspiram uma paz que ainda é impossível

Dorrit Harazim
O Globo

O poder do terrorismo reside em fazer crer que é capaz de tudo, até do inimaginável. Não tem pátria nem precisa de conquistas territoriais para ser vitorioso. O ato terrorista é, simultaneamente, um meio e um fim em si, a exceção e o exemplo, a propaganda e o produto.

Como o propósito de um atentado não é derrotar o inimigo, e sim humilhá-lo, desnorteá-lo, suas vítimas ideais são civis anônimos explosíveis a granel. O único imperativo, senão o mais relevante, é que a carnificina seja extremada.

A FORÇA DOS SUICIDAS – Bastaram dois terroristas suicidas envoltos em explosivos para que o grupo Estado Islâmico-K (EI-K) transformasse um dos acessos ao aeroporto de Cabul em matadouro — pelo menos 170 civis afegãos em fuga e 13 fuzileiros navais dos EUA viraram carne humana.

De nada adiantou o trabalho de inteligência que alertara sobre a iminência de uma ação desse tipo. Em meio à massa humana de desesperados, nem a maior potência militar foi capaz de impedir indivíduos radicalizados de querer matar e morrer. Essa é a força do terror.

A menos de 60 quilômetros dali jazia, abandonada e desossada, a outrora poderosa base aérea de Bagram. Epicentro do poderio dos EUA e da Otan no Afeganistão, uma base de 20 quilômetros quadrados de área chegou a abrigar cem mil soldados, estacionamento para cem caças-bombardeiros e uma avenida principal chamada Disney Drive.

NA CALADA DA NOITE – A base de Bagram foi abandonada na calada da noite de 6 de julho, de soslaio e sem aviso prévio ao país ocupado, deixando para trás uma parafernália de 3,5 milhões de itens, além de blindados e munição. Cumpriu-se ali o que parecia ser o capítulo mais controverso da retirada americana de solo afegão. Na verdade, foi o mais fácil.

Como se viu, mesmo uma decisão acertada — encerrar mais esta guerra perdida em terra estrangeira — precisa de liderança eficaz, planejamento intrincado, execução azeitada. Ainda que Joe Biden fosse o comandante em chefe certo para a empreitada, o que decididamente não é, a retirada sempre seria inglória, suja e feia. Sempre são.

 Como as Forças Armadas dos EUA nunca aprenderam a lidar com massas assimétricas em país ocupado, e no Afeganistão voltaram a acreditar na excepcionalidade de seu poderio militar, o caos se avolumou.

SEM AÇÃO EFETIVA – Tem mais. O Conselho de Segurança Nacional (NSC), cuja função é definir e decidir os rumos da política externa americana, tornou-se um verdadeiro dinossauro, “um corpo enorme e pouco cérebro”, escreveu Fareed Zakaria no New York Times.

“Preparativos e memorandos passaram a substituir ação efetiva”, aponta o analista. Nada menos que 36 reuniões realizadas desde abril se dedicaram a uma saída viável do Afeganistão, ocupando horas e mais horas de funcionários graduados. Nada andou.

O NSC, quando recriado por Henry Kissinger nos anos 1970, tinha 50 membros. Foi se agigantando até chegar aos 350 atuais. Para tempos de decisões prementes capazes de mudar a História, não é bom.

CHANCE PERDIDA – Pode-se afirmar com alguma segurança que os EUA perderam uma chance para sair do Afeganistão uma década atrás, em maio de 2011, quando conseguiram localizar e matar Osama bin Laden em seu esconderijo no Paquistão. Idealizador dos ataques terroristas do 11 de Setembro e líder máximo da organização Al-Qaeda abrigada no Afeganistão, Bin Laden era a face da “guerra ao terror” decretada por George W. Bush.

Seu assassinato pelo Comando de Operações Especiais foi festejado a largos pulmões na Casa Branca de Barack Obama, que poderia ter dado a missão original como cumprida e iniciado as tratativas para uma sempre difícil retirada. Não foi sua opção. Joe Biden, à época vice-presidente e parceiro diário nas decisões de Obama, achava que o comando militar embrulhava o chefe. Tinha razão.

Passaram dez anos desde aquela janela em 2011, e chegou a vez de Joe Biden ficar face a face com suas decisões. A tragédia está longe de ter fim. “Turboparalisia”, termo cunhado pelo ensaísta Michael Lind para marcar certo tipo de erupção na geopolítica, volta a adquirir atualidade. Designa uma combinação de ações vigorosas, dramáticas, com ausência de caminho claro.

ESFORÇO INÚTIL – “É como se as rodas das nações-Estados e do mundo estivessem girando furiosamente, com todos os motores ligados, mas sem nenhum efeito”, explica o autor.

A partir desta terça-feira , fatídico dia 31, inicia-se uma nova etapa no castigado Afeganistão. Falta apenas saber a faceta do inevitável conflito. Talvez ele assuma o formato de guerra civil entre o Talibã e jihadistas do EI-K por controle territorial. Ou do Talibã contra bolsões de afegãos que conheceram 20 anos de emancipação pessoal. Futuras incursões militares dos EUA para tentar erradicar novas cepas da Al-Qaeda também não devem ser excluídas.

Por ora, prevalecem o horror, a tragédia e os mercadores da morte. Erik Prince, sinistro fundador da empresa de segurança Blackwater, que não perde uma guerra e foi responsável por uma das maiores chacinas de civis iraquianos — a sangue-frio e a serviço dos EUA —, está a postos. Ofereceu lugar em voos fretados partindo do aeroporto de Cabul a quem pudesse pagar US$ 6.500 (R$ 34 mil), mais um extra para quem precisasse ser resgatado de casa. Toda guerra tem seus Eriks Princes. A seu modo são, também, terroristas. Matam nossa humanidade.

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