Publicado em 11 de março de 2026 por Tribuna da Internet

Desgaste de Lula cresce e acende luz amarela no Planalto
Pedro do Coutto
A política costuma reagir rapidamente aos movimentos da opinião pública, e poucas coisas são observadas com tanta atenção em Brasília quanto as pesquisas eleitorais. Levantamento recente do Datafolha, divulgado em reportagem de O Globo, trouxe um dado que acendeu luz amarela no Palácio do Planalto: a aprovação do presidente Lula da Silva registrou queda significativa, enquanto o senador Flávio Bolsonaro avançou nas intenções de voto. A oscilação, embora ainda mantenha Lula em posição competitiva, sugere um cenário mais apertado e volátil para a disputa presidencial de 2026.
Os números indicam mudanças importantes na composição do eleitorado. Lula continua relativamente forte entre os brasileiros de menor renda — especialmente entre aqueles que ganham até dois salários mínimos, segmento que historicamente constitui uma de suas principais bases eleitorais.
“NOVA CLASSE MÉDIA” – Programas sociais e políticas de transferência de renda, como o Bolsa Família, continuam a sustentar parte desse apoio. No entanto, a pesquisa revela que o presidente perdeu terreno entre os eleitores que recebem entre dois e cinco salários mínimos. Essa faixa, que costuma representar a classe trabalhadora urbana e setores da chamada “nova classe média”, pode se tornar decisiva em um eventual segundo turno.
Outro dado relevante está na divisão por gênero. Entre as mulheres, Lula ainda preserva vantagem e mantém índices de aprovação relativamente sólidos. Esse fenômeno não é novo: estudos eleitorais frequentemente apontam que eleitoras tendem a avaliar com maior peso políticas sociais e estabilidade econômica. Já entre os homens, o crescimento de Flávio Bolsonaro foi mais expressivo, reduzindo a diferença e indicando uma possível recomposição do campo conservador. Se essa tendência se consolidar, o equilíbrio eleitoral pode se alterar de forma significativa nos próximos levantamentos.
A renda também continua sendo um divisor claro. Entre os eleitores de renda mais alta, acima de dez salários mínimos, Flávio Bolsonaro aparece com vantagem, embora esse segmento represente parcela relativamente pequena do eleitorado brasileiro. Ainda assim, trata-se de um indicador importante porque revela onde a oposição ao governo encontra maior ressonância. Por outro lado, Lula ainda mantém desempenho competitivo em diversas faixas intermediárias, o que explica por que, na soma geral, segue à frente — ainda que com margem menor do que a observada em pesquisas anteriores.
SINAL DE TENDÊNCIA – No ambiente político, a leitura dominante é que pesquisas como essa funcionam menos como um retrato definitivo e mais como um sinal de tendência. Analistas do Insper e da Fundação Getulio Vargas costumam lembrar que oscilações desse tipo são comuns em ciclos eleitorais longos, especialmente quando ainda faltam muitos meses para o início formal das campanhas. Mesmo assim, partidos e estrategistas observam cada variação com atenção, pois elas indicam quais temas podem mobilizar — ou desgastar — determinados grupos do eleitorado.
Parte do desgaste recente do governo também está ligada ao ambiente de crise política que se formou em torno de investigações e denúncias envolvendo figuras próximas ao poder. O chamado caso do INSS e as investigações relacionadas ao Banco Master ampliaram o clima de tensão em Brasília. Ao mesmo tempo, episódios que envolvem o entorno de autoridades — como contratos milionários ligados ao escritório da esposa do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal — alimentam o debate público sobre transparência e conflitos de interesse. Ainda que muitos desses temas estejam sob investigação e sem conclusões definitivas, o impacto político imediato costuma ser inevitável.
HUMOR DO ELEITORADO – Essas crises se somam a uma característica recorrente da política brasileira: a percepção de que escândalos e disputas institucionais influenciam diretamente o humor do eleitorado. A experiência recente do país mostra que investigações conduzidas por órgãos como a Polícia Federal podem alterar narrativas políticas e redefinir alianças. Em diferentes momentos das últimas décadas — da crise do mensalão às investigações da Lava Jato — episódios dessa natureza contribuíram para reconfigurar o cenário eleitoral.
No caso atual, o impacto eleitoral dependerá muito da evolução dos fatos e da capacidade dos atores políticos de oferecer explicações convincentes à sociedade. O eleitor brasileiro, especialmente depois de anos marcados por sucessivos escândalos, tornou-se mais sensível a temas relacionados à ética pública e ao uso de recursos. Qualquer episódio que pareça reforçar a ideia de privilégio ou de favorecimento institucional tende a gerar desgaste político imediato.
BASE SOCIAL RELEVANTE – Apesar das dificuldades, seria precipitado afirmar que o cenário está definido. Lula ainda conserva uma base social relevante e um capital político acumulado ao longo de décadas de protagonismo na vida pública brasileira. Ao mesmo tempo, o avanço de Flávio Bolsonaro indica que o campo conservador continua mobilizado e busca consolidar uma alternativa competitiva para a próxima disputa presidencial.
O que as pesquisas recentes mostram, em última análise, é que a eleição de 2026 começa a ganhar contornos mais claros — e potencialmente mais disputados. Em um país marcado por profundas divisões políticas e sociais, pequenas mudanças na percepção do eleitorado podem produzir grandes efeitos nas urnas. Para o governo e para a oposição, o desafio agora é compreender esses sinais e responder a eles antes que se transformem em tendências irreversíveis.