
Niemeyer, o mestre das linhas curvas, faz muita falta
Silvestre Gorgulho
Estou pensando em Oscar Niemeyer, um grande amigo que se foi 10 dias antes de completar 105 anos. Lembro-me bem: era 2 de dezembro, um domingo. Procurei pela manhã o ex-presidente José Sarney em sua casa:
– Presidente, falei hoje com o sobrinho-médico, dr. Paulo Niemeyer, e, infelizmente, está muito próxima a despedida de Oscar Niemeyer. Não passa desta semana.
– Mas o que faremos, Silvestre?
– Presidente, acho que o senhor poderia conversar com a presidente Dilma e convencê-la em se preparar para uma grande homenagem a Niemeyer, numa despedida solene no Palácio do Planalto.
– A ideia é justa e importante. Mas hoje é domingo. Me mantenha informado. Vou falar com ela logo na segunda-feira. Mas de antemão, se houver algum problema em fazer no Palácio, vamos fazer essa grande homenagem no Salão Negro do Congresso Nacional.
LIGA SARNEY – Na terça-feira, dia 4, o presidente Sarney me ligou, para perguntar o estado de saúde de Oscar Niemeyer.
– Falei há pouco com a Vera (mulher do Oscar) e ele está sedado. Estão todos preocupados e de plantão no hospital.
– Olha, já conversei com a presidente Dilma e ela me pediu para mantê-la informada. Acha que todas as homenagens, em Brasília, devem ser mesmo no Palácio do Planalto.
No dia 5, quarta-feira, antes de começar o futebol, a TV Globo solta um Plantão, comunicando o falecimento do arquiteto Oscar Niemeyer.
NOVOS TELEFONEMAS – Imediatamente, liguei para Vera Niemeyer e para o presidente Sarney, que já havia contatado a presidente Dilma e também o vice-governador de Brasília, Tadeu Filippelli.
Dilma Rousseff colocou o avião presidencial à disposição da família Niemeyer. Tadeu Filippelli mobilizou o Corpo de Bombeiros e outras homenagens do GDF e eu fiquei de falar com a família, precisamente com sua esposa Vera e a neta Ana Lúcia Niemeyer.
Levei um susto: – Silvestre, já acertamos que o velório seja no Palácio Capanema, no Rio. Não há condições de levar o corpo do Oscar para Brasília.
Uma rápida negociação, um novo telefonema do presidente José Sarney e da própria presidente Dilma para a Vera e tudo se acertou.
TRAJETO FINAL – Assim, às 10 horas da manhã do dia 6 de dezembro de 2012, o avião presidencial decolou do Rio de Janeiro com o corpo de Oscar Niemeyer e sua família para o aeroporto JK, em Brasília, onde esperava um caminhão do Corpo de Bombeiro para levá-lo ao Palácio do Planalto.
Oscar Niemeyer fez o trajeto que lhe era caro: Eixão, Esplanada dos Ministérios, passando em frente à Catedral, ao Itamaraty, Praça dos Três Poderes.
Há 10 anos, Brasília se tornou literalmente uma nave solta no espaço. Lá se foi seu último cordão umbilical. Oscar Niemeyer, seu principal artista construtor, se juntou aos amigos que, no final da década de 50, comandaram a epopeia da construção da nova capital.
FESTA NO CÉU – Com certeza, no andar de cima, JK, Israel Pinheiro, Lúcio Costa, André Malraux e Le Corbusier fizeram uma festa para recebê-lo.
Athos Bulcão, Alfredo Ceschiatti e Bruno Giorgi também. Tenho certeza que os velhos amigos o receberam com muitas palmas, depois da irreverente saudação de Darcy Ribeiro:
– Oscar, não imaginava que você fosse tão duro na queda!
E lá se vão 10 anos.